quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A menina sem voz

Quando ficou mulher, perdeu a voz. Tal como a sereia, foi tirada sua possibilidade de expressão em troca de pernas "de gente grande", os gritos e cantigas de criança pelo silêncio - ora, pernas devem ser vistas, não?

Perdeu a voz e ninguém percebeu. Talvez nem mesmo ela mesma - em seu mundo sub-aquático de sereia só podia falar com bonecas - porque falar na mesa é para gente grande, e gritar na rua é coisa de moleque. De seu mundo de ser menina, pisou na terra para ser olhos grandes e um sorriso sempre no rosto, e assim era bela, e assim era querida.

Quer dizer, até que tentou falar.

Fora da difusa água de infância, tinham tirado sua canção - do que era uma nota clara só sobrou um eco arranhado, rouco baixinho em um mundo de gente que grita. Se tentava falar, era feia. O desconforto de um mundo que dizem "não é seu", os gritos que abafam tão fácil aquela voz rouca, e mais ainda, o espanto - a negação estética daquela voz rouca em um corpo que deveria ser bonito.

Edvard Munch - Melancholy
Vivia então de canções de sussurros, na calada da noite, cantando para a lua.   E seus versos eram os mais belos que ninguém queria ouvir; e suas palavras inventavam e destruíam mundos inteiros em sua força. 

Sussurros que formavam um enorme grito com tantos sussurros que não havia como ignorar, maior que uma estética de ver e ser vista, de mundos ignorados, de ideias perdidas...

Mas, se quiser, você pode fingir que não ouve.