Nas eternas expectativas de ter tempo para escrever das outras viagens (que tanto, tanto me impressionaram e renderam páginas e mais páginas manuscritas), fico nesse vácuo do blog, hesitando em escrever coisas pequenas. Mas não significa que eu não esteja escrevendo. Não significa que eu não precise escrever. Então eu volto.
Em 2013, decidi ter duas agendas: uma para escrever em caneta vermelha de compromissos, riscar furiosamente o que eu já fiz e anotar coisas de vida e de ocupação, tenho também uma outra agenda para escrever com mais calma o que penso. O que me fez pensar naquele dia, uma música, um acontecimento, uma raiva, um continho...
E em janeiro, só choveu.
Não é a primeira vez que eu fico em Brasília em janeiro, mas é a primeira em que convivo tão cotidianamente com as chuvas. O céu em tons de cinza que vão do mais pálido, quase branco até um azul e violeta furioso de tempestades; a penumbra no meio do dia, e a noite que chega mais cedo, e o sono letárgico que cai sobre a paisagem sem conseguir ser ignorado pelas pessoas que tentam fingir que a vida segue normal... Ah, sim, nós nos sentimos miseráveis com a chuva. Mas, pensando bem, talvez até mesmo um tipo quase gostoso de mal-estar...
Aqui vai a sucessão dos dias:
2
Heidegger gostava de música? Isso é importante.
Freud tinha resistência, e eu assustei, quis negar e fugir. Darwin, eu entendo. Nabokov tinha a literatura - mesmo quem não toca, poderia gostar. Mesmo gente surda sente ritmo, vibra, ai Beethoven - mas ouvir, saber e não gostar, e resistir? Não.
Deus, por favor, tire os meus olhos mas não me tire a música, as vozes e toques que sõa minha vida. E se for para cair demente, que caia o lado lógico e espacial, mas me deixe arte e beleza e ser desinibida... Ler o Oliver Sacks dessa vez [estava relendo as Alucinações Musicais] me cobriu de medo pela fragilidade...
5
Queria ser a profeta da Deusa que, de todos os seus milagres, tem como maior o Existir. E em seu altar sacrificaria as potencialidades maravilhosas da mente, do corpo, da alma, para me quedar, sem nada fazer, em um templo de não ser ninguém e nada ter feito ou a fazer. Em saudação a Dionísio, só vinho - e o tempo de minha vida a ser sem fazer nada no estupor de existir...
10
Escrever me distrai da angústia e do medo, porque justamente ao escrever "angústia" e "medo" que elas saem de monstros abissais do meu pensamento para meras palavras no papel, de meu vórtice interno para linhas, de algo simples e riscável. Mas há dias que eu queria que minha mão fosse mais rápida do que a luz, que eu pudesse esvaziar a minha mente em mil linhas tortuosas de tudo o que me angustia e ser vazia, e ser = mas não. Só uma linha de cada vez, só projeto eterno do interminável e possível, e só a morte para me colocar em frente ao Absoluto. Quero e não quero dormir porque o amanhã não me traz paz - mas o sono traz o esquecimento. Quero e não quero companhia porque a solidão só traz a mim mesma como ingrata interlocutora, e ainda desejo meus amigos e seus afagos de olhos - quero ser amada, mas não sei nem se sou algo de bom para se amar.
11
Pirenópolis chuvosa tem cheiro de calma e conciliação.
12
Heidegger na rede e o Rio das Almas.
Por que esse rio é o Rio das Almas? No meio da chuva ele é turvo e volúvel, saltando raivoso sobre as pedras de seu leito. O nome o dá ares solentes, sombrios - é o Estige brasileiro, testemunho de juramentos em tempos coloniais? É o cenário de mortes e afogamentos ou chacinas, com os brancos de espuma levando as almas dos que já ficaram? O rio das almas, ele mesmo, é só água que corre - mas no encontro com a minha mente se faz da água sinistra ou sublime história, e as almas correm no rio como corre minha alma aflita...
13
Claro que fui fazer o trabalho de existencialismo. Não há outro jeito, eu precisava da angústia para escrever, da madrugada, do silêncio e de uma folguinha na casa para poder escrever. Mesmo assim, dormi 4 horinhas.
15
Chuva cheia de desejo que deixa a madrugada cheia de volúpia. Fui tocar meu desejo pela madrugada.
Chuvas de janeiro não são só por fora. A água que cai por dias, sem grandes tempestades, mas com o paradoxo de um mundo tão cinzento, mas tão cheio de vida. Morte no céu, renascimento na terra. Num verde quase furioso brotando sangue de lama, a natureza suavemente mostra que não existe para nossa conveniência.
As chuvas de janeiro nos encolhem nas casas e carros, tentando alguma proteção não do terrível, mas do fino e do inexorável. Tentamos, mas não conseguimos. Por que em algum momento precisamos nos submeter à umidade que entra até os ossos, através de capas e guarda-chuvas, para entrar nos olhos e cabeça, para pinicar nossos sentidos e nos fazer pequenas e miseráveis.
E mesmo dentro das casas, a chuva entra na mente. O barulho, as janelas embaçadas, o mundo que para sua atividade para pensar. Contemplativo até demais para manter a produtividade das máquinas, que leva a um tempo mais lento, de crescimento e espera, de dançar na chuva e deixar crescer a alma...
17
Quando criança ela tinha um elefante azul. Era pequeno e de cor bem berrante, que sempre tentava se esconder desajeitadamente quando a mãe chegava. Mas, por mais ridículo que fosse o esconderijo, a mãe não via. Assim ela brincava em seus dias e nunca estava sozinha: divertia-se com seu elefante azul. Quando ela cresceu, ficou grande demais para ver seu elefante azul, que agora, muito sabido, se traía agora só em espasmos do seu esconder-se da dona: vivia por dentro, movendo se através dela em movimentos proibidos. Às vezes queria sair furiosamente e a menina se transbordava em angústia. às vezes queria se sentir confortável e causava uma enorme vontade de tudo o que é escondido. Desejo era seu nome, e quando as outras pessoas não conseguiam mais ignorar o elefante na sala, ele, enfim, estava livre: desejo avassalador que podia pisotear em todo o resto. Que não me venham os falocêntricos achar que isso só acontece com quem tem tromba - porque dentro dela, na calada da noite, às vezes parece que há uma manada inteira.
19
Os dias de ressaca tem sua poética não-contada. A preguiça de acordar, o languor que a segue. AS lembranças boas ou mortificantes das pequenas dores que o ontem fez. A cabeça enebulada, as conversas embaraçosas, o dia tirado para ser consequência - para viver gostosamente os frutos de ontem.
26
I'm singing in the rain
Just singing in the rain
What a glorious feeling
I'm happy again
I'm laughing at the clouds
So dark up above
The sun's in my heart
And I'm ready for love
Let the stormy clouds chase
Everyone from the place
Come on with the rain,
I've a smile in my face
I walk down the lane
With a happy refrain
Just singin' singin' in the rain
Dancing in the rain, I'm happy again
Just singin' and dancin' in the rain.



