Passei um tempo sem escrever - fora os momentos atarefados das matérias (sim, agora são mais!), tive um pequeno incidente de decapitação do cabo da bateria e... Bem, basta dizer que fiquei alguns dias sem acesso ao meu computador (justamente o que tinha as fotos da Bélgica, que eu ainda preciso postar).
Muita coisa aconteceu nesse meio tempo, e vou tentar ir escrevendo aos poucos, à medida em que a minha carga de leitura permitir, mas uma coisa eu preciso compartilhar aqui:
É PRIMAVERA!
Com fantásticos 8 graus hoje, e um fim de semana ensolarado maravilhoso, a cidade, de pouquinho em pouquinho, se transforma. O céu é pálido, mas é definitivmente azul, e o sol, que andava tão estrangeiro, começa a tomar vergonha na cara e até esquentar um pouquinho. A grama parece um pouquinho mais verde, respirando aliviada com a ausência de neve, e finalmente, no meio da paisagem verde e cinza, nesse fim de semana eu vi flores! Pequenas flores amarelas, ainda tímidas, desabrochando ao pé de algumas árvores. Flores de grama, mesmo - mas o começo de uma promessa de cores. Já sinto cheiro de terra quando ando pelo campo entre o meu prédio e a Universidade, e fui pega completamente de surpresa, no metrô, quando ele surgiu na superfície entre uma ilha e outra (para os desavisados, Estocolmo é um arquipélago), e o mar tinha passado de cinza chumbo para um azul chocante, de fazer inveja no céu.
Eu estava me recuperando de uma gripe, ainda com o nariz todo entupido, indo no supermercado porque estavam faltando algumas coisas básicas, mas não conseguia parar de sorrir. É primavera!
Mesmo que eu apreciasse a estética melancólica do inverno, confesso que me sinto infinitamente feliz com as pequenas coisas de primavera - as horas a mais de sol, o verde ficando mais forte, poder abrir a janela de casa sem congelar... Hoje, no caminho para a aula, decidi ir a pé e acabei tirando o casaco no meio do caminho: lá fui eu, só de camiseta, andando pelos bosques ainda esqueléticos para o canto meio isolado onde fica minha aula de direitos da criança e adolescente.
Eu não tinha percebido antes, mas como eu sentia a falta do ar fresco nos meus braços, no meu pescoço, de ter o meu corpo um pouco mais exposto... Agora eu entendo porque essas pessoas suecas doidas já estão tirando a roupa quando a temperatura passa dos 10 graus. Não estavam nem 7 e eu já estava só de camiseta!
Só percebo o quanto preciso escrever sobre tantas coisas aqui ainda quando vou falar do que me é familiar e me lembro que não expliquei nada: a Universidade, a biblioteca municipal, o metrô e os meus cantinhos preferidos da cidade. Tudo a seu tempo, cada vez menos com voz de turista, cada vez mais com perspectiva de residente.
Mas sempre, sempre com olhos estrangeiros.
Talvez até em Brasília esses olhos estrangeiros não me abandonam - uma mania peculiar de olhar para os arredores todos os dias como se fosse a primeira vez, estranhando a beleza e os contornos peculiares de cada lugar, pensando sobre cada estação de metrô, cada pessoa que senta ao meu lado no ônibus, cada etnografia de supermercado... Sinceramente espero que nunca me acostume verdadeiramente com lugar nenhum.
Mas isso já passa um pouquinho de minha pretendida observação. Talvez seja o efeito da primavera. Por aqui, as pessoas atribuem muita coisa ao efeito das estações - e olha, elas não estão erradas.
Para começo de conversa, essa instabilidade no tempo faz todo mundo (inclusive eu!) a ficar meio doente. Não, o problema não era o frio de antes, mas dá uma esquentadinha e lá vai... Mas é a influência psicológica que as estações exercem que é de especial interesse aqui. Meus amigos suecos falam de um país quase bipolar, de melancólicos introspectivos no inverno que se transfiguram em esportistas bronzeados e animados. E que isso se torna praticamente uma pressão social, ao ponto dos suicídios geralmente acontecerem na primavera - sim, na primavera, e não no inverno. Afinal, estar triste e deprimida no inverno é o que é de se esperar, e ainda fica aquela expectativa de algo externo qeu vai salvar - "quando chegar a primavera, as coisas melhoram..." Só que às vezes não melhora, porque o problema não estava exatamente nas estações... E é aí que a coisa complica.
De qualquer forma, apesar de me descobrir sazonal aqui, na hora de escrever decidi que a melhor estratégia é abrir mão da linearidade. Se fosse escrever das viagens "grandes" em ordem, acabo perdendo muitos momentos e postagens menores que vão me ocorrendo no dia a dia, que podem ser mais interessantes do que intervalos de semanas, como foi esse...
Assim sendo - estou de volta!