sábado, 18 de junho de 2011

Quem são estas vadias?

- SUA VADIAAAAAA!!!

O grito vem acompanhado de uma buzina. Estou vestindo calça jeans e uma camiseta larga, mas tudo o que meu gentil interlocutor deve ter visto através do vidro do carro é minha trança longa e meus olhos assustados. Mulher.

De tantas delicadezas que a infinita criatividade humana nos disponibiliza para utilizar em momentos de descontrole, “vadia” é uma das mais intrigantes. Para começar, está no imenso rol de palavras que possui um significado completamente diferente quando é usado no feminino ou no masculino – assim como governante e governanta, homem público e mulher pública, homem da vida e mulher da vida, pistoleiro e pistoleira... E por aí vai.

Vadio é aquele que, pelo dicionário, não tem residência ou ocupação certa, aquele que é ocioso – e, segundo nossa bela lei brasileira, é uma contravenção penal, para a qual aplica-se pena de 15 a 30 dias de reclusão. A lei não é muito aplicada – mas ela ainda não caiu no total desuso.

A razão de ser da punição deriva da ethos do trabalho e da utilidade social do mesmo – é vadio aquele que não trabalha mesmo tendo condições de fazê-lo, ou seja, que não cumpre o papel social que a ele é atribuído.

Foto tirada na Marcha das Vadias de Recife
Já o termo “vadia” – como quase todos os termos pejorativos usados para descrever mulheres – refere-se ao comportamento sexual da mulher, que expressa de sua sexualidade de forma diversa daquela aceita socialmente – seja a prostituição, seja ter mais de um parceiro sexual por vez, ou até assumir um comportamento dito “ousado” e “provocativo”. Não constam, nos textos legais, referências à palavra vadia, mas ela está muito viva nas regras sociais com efeito de acusação e de sentença: Sua vadia!

E aí está a ligação entre o vadio e a vadia – ambos são desviantes das expectativas sociais a eles tradicionalmente atribuídas – mas enquanto vadio é o homem que não é um provedor, vadia é a mulher que não está no espaço privado, cuidando de afazeres domésticos e da educação da prole, e que não expressa sua sexualidade apenas dentro do casamento.

Em última análise, a julgar pelos olhares e comentários raivosos recebidos por tantas mulheres nas mais diversas situações, todas nós somos essas vadias...


Somos vadias, como no exemplo que começou esse texto, quando precisamos nos locomover, seja a pé, de bicicleta, de carro ou usando o transporte público, e nossa mera presença torna-se um inconveniente para os demais ( porque quando um homem comete um erro, está destraído; já a mulher, é por ser mulher) 


Somos vadias quando desbravamos o espaço público, estudando e trabalhando, e somos julgadas não por nossa competência no trabalho, mas sim pela nossa aparência física e forma de vestir


Somos vadias quando somos culpadas pelos crimes pelas quais somos vítimas - "foi estuprada porque estava vestida assim, porque estava andando por onde não devia, porque ela estava pedindo..."


Somos vadias quando não adotamos um comportamento submisso diante das coisas que nos acontecem, seja respondendo a quem nos assedia na rua, seja argumentando com firmeza, sou apenas suavemente apontando as contradições dos discursos que se voltam contra nós...


Somos vadias, enfim, pelo simples fato de sermos mulheres e nos comportarmos como protagonistas de nossos corpos, nossas vidas e nossas histórias, sem conformar-se com um modelo arcaico e sem sentido do que deve ser e fazer uma mulher...


Daqui a pouco começa a marcha das vadias de Brasília - e adivinhem onde estarei?
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terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma pequena viagem

Acordei mais cedo do que de costume, com medo de me atrasar para a apresentação de um trabalho, e consegui chegar meia hora antes na Universidade. De lá só saí brevemente para almoçar e para jantar ali por perto, e só fui voltar para casa mais de 12 horas depois...

Essas três linhas podem resumir meu dia fora das loucuras corriqueiras da Universidade - e a totalidade do assunto que quero abordar hoje - momentos de rotina, de trânsito, de estar "só de passagem" pelas tão conhecidas e exploradas paisagens entre uma atividade e outra...

...curiosamente, foram os momentos mais belos do meu dia.

Talvez fosse o sono pesado ainda nos meus olhos, ou estranho frio matinal que lentamente se esvanecia - mas quando olhei para o lago, havia uma neblina tão densa sobre ele que parecia estar em chamas. Era como se, cansado de apenas refletir as nuvens do céu, o lago tivesse decidido fazer suas próprias nuvens para enfeitar e recobrir seu azul, com aquela intensidade e furor de quem pega um brinquedo novo...

Chegando no prédio do Direito, o próprio ar parecia carregado de resquícios de nuvens-de-lago: o ar, frio e fresco, emprestava uma clareza quase difusa aos jardins, aumentado pelo silêncio que reinava no prédio ainda vazio... Havia algo de onírico naquela cena, seja pelo primeiro colorido do sol que se levantava, seja pelo fato de meus próprios olhos ainda relutarem em sair do campo dos sonhos...

O prédio, até então estranhamente quieto, foi lentamente enchendo-se de sons e cores dos alunos e professores que começavam a chegar, copinhos de café, bocejos e casacos coloridos, e o tempo, que vagava com a mesma lentidão das nuvens em terra, voltou a seu tempo normal - de aulas, conversas e seminários, do sol forte que dissipa o frio e as pretensões do lago de brincar de céu.

Quando peguei o carro para almoçar, passei novamente bem perto do lago - mas agora, com o impiedoso sol brasiliense a pino, não havia como se esconder por trás de subterfúgios o fato de ser apenas um lago -isto é, se "apenas" for uma palavra adequada para me colocar em um novo momento de torpor contemplativo - ou talvez me tirar do torpor da rotina para me fazer sentir incrivelmente viva - com sua "lagosidade pura".

A água era de um azul profundo, de fazer inveja ao céu clarinho, compensando a falta de um sol concentrado com milhares de reflexos dourados que oscilavam com as ondas. Novamente, os segundos em que passei na orla do lago estenderam-se por um tempo indeterminado - garanto que foram poucos os segundos, pelo fato de não ter espatifado meu carro em algum poste qualquer do caminho - me colocando assombrada feito criança diante de um mundo que esconde tantas coisas incríveis em alguns segundos de caminho.

Até aqui, nota-se um padrão claro: Luisa fica meio boba quando vê coisas bonitas - talvez principalmente quando esteja sofrendo de falta de sono crônica.  Mas não foi o Lago Paranoá minha única vítima de contemplação (e, vá lá, piração) do dia de hoje.

Afinal, para uma estudante do período noturno, há sempre a vivência da universidade à luz do luar...

E que luar lindo era esse hoje!

Confesso que foi uma beleza meio alarmante - a lua que eu vira há pouco como um fiozinho no céu estava tão cheia, e no meio de minhas correrias vi um calendário celeste que ria de meu despreparo, fazendo o tempo voar na medida em que a lua cresce e decresce, escondida de meus olhos cansados e ocupados...

E é com essa lua cheia, que me pegou e surpresa, que me despeço agora - com sono nos olhos, mas a alma embalada pelas mil pequenas belezas que tanto me assombram.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Gênero e Direito - como (não) lidamos com o assunto

Esse texto já foi postado no blog do PET-Direito da UnB, mas  coloco aqui tanto como "arquivo pessoal" quanto pra atestar que não, eu não morri, e continuo escrevendo... 

"Não se nasce mulher: torna-se” – Simone de Beauvoir
Silêncio na sala de aula. Uma turma do primeiro semestre de Direito trabalhava a noção de paradigmas através de debates de frases potencialmente polêmicas, mas aquelas poucas palavras escritas no quadro pareceram suscitar mais confusão do que posicionamentos antagônicos. Depois de alguma contextualização, perceberam todos que os argumentos vão à guerra por uma questão de gênero – a vida e o papel social de uma mulher são ditados por configurações biológicas, naturais, ou trata-se de uma construção social, obra humana passível de ser transformada?
Ok, isso é tecnicamente
uma valquíria, divindade da mitologia
viking,  mas dá pra pegar a ideia, né?
Como uma das integrantes do PET responsável pela aula em questão, sabia que não era hora de minha guerreira viking feminista interior sacar seu machado retórico e sair cortando cabeças e outros órgãos vitais – metaforicamente, por favor – mas sim de observar e no máximo mediar um embate entre as diferentes concepções que os alunos trouxessem. Esperava que, junto a posicionamentos embasados na autonomia e autodeterminação, viessem concepções essencialistas, naturalizadoras de desigualdades por considerações biológicas ou até mesmo religiosas para identificar alguma “essência feminina” que justificasse as desigualdades de tratamento que encontramos.
Para meu grande espanto, não foi o que aconteceu.
Mesmo que estivéssemos em um debate entre pessoas não especializadas em estudos de gênero ou biologia, seria de se esperar que, como em todos os outros argumentos considerados válidos dentro de uma universidade, houvesse alguma fundamentação dos argumentos usados, contra ou a favor. Não precisa ser um marco teórico estabelecido e reconhecido, mas sim uma mínima justificativa para um posicionamento! Entre a míríade de argumentos, vindos de várias fontes, mais ou menos explícitas, havia alguns, não menos fervorosos, cuja fundamentação pairava no éter:
Em minha concepção, “Essa frase é falsa porque homem é homem e mulher é mulher” não é justificativa o suficiente.
Quando ouvi este, bem, este dito argumento, precisei perguntar o que, exatamente, constituía um homem ou uma mulher. São os órgãos sexuais? É o formato do corpo? É um comportamento que é próprio, natural? Em algum momento os corroboradores dessa visão simplesmente recusavam-se a responder, não queriam falar “disso”, mas essa recusa não alterava o furor de sua defesa. Os fundamentos, então, ficam confortavelmente no limbo das verdades absolutas e irrefutáveis que sussurram os dogmas sociais não questionados. É uma recusa a confrontar, com os dedos gelados do discurso de pretensão racional (talvez até científica!), as cantigas de ninar que ouviam desde crianças (homem é homem, mulher é mulher, homem é homem, mulher é mulher…)
Não somos preparadas para falar de gênero. Ponto. Nem na família, nem Ensino Médio – o que naturalmente reflete na mentalidade de alguns e algumas ao chegarem na Universidade. Lidamos com os papéis sociais atribuídos a homens e mulheres e com questões relativas à sexualidade, sim – mas através da reprodução impensada de padrões que se auto-alimentam e geram uma dita verdade tautológica, inquestionável, mas cujos fundamentos e as bases simplesmente não conseguem chegar ao plano da reflexão, do pensamento consciente que não se resume à razão. Poderia continuar por horas sobre como fica impossível trabalhar o reconhecimento através da sensibilidade quando a alteridade fica negada por noções que não encontram justificativa alguma a não ser o “é desse jeito mesmo”, mas a recusa ao tratamento racional da questão, requisito para cientificidade nas concepções mais conservadoras de Universidade e de conhecimento, é extremamente alarmante.
É particularmente grave que uma discussão tão importante a respeito do mundo social que cercam as mulheres e os homens seja ignorada – que o digam as tantas mulheres que sofrem de violência em suas próprias casas, amordaçadas pelo peso de uma estrutura social que, mesmo em seus âmbitos de produção de conhecimento, por vezes não consegue abordar com seriedade as questões de gênero.
Cinco ou seis anos depois, estarão nossas calouras e calouros entrando na vida profissional, deixando de lado as lentes da Universidade para sentir na pele (ou, minimamente, nos autos) os conflitos que afligem a humanidade, entre elas, eventualmente, envolvendo essas questões tão delicadas. Enquanto muitas e muitos estarão, por sua própria vontade e esforço, preparados para navegar águas tão turbulentas, como reagirão aquelas e aqueles que terão apenas o referencial do que o curso de Direito lhes ofereceu a respeito de gênero?
Encontramo-nos em um momento privilegiado para este tipo de reflexão, com a reforma de nosso Projeto Político Pedagógico acontecendo – e, para além da necessidade de complementar a formação do jurista em outras áreas para lidar com a questão de gênero, precisamos nos perguntar o quanto o próprio Direito pode contribuir com este debate – e o quanto deixamos de explorar seu potencial reflexivo e emancipatório ao ignorá-lo.