- SUA VADIAAAAAA!!!
O grito vem acompanhado de uma buzina. Estou vestindo calça jeans e uma camiseta larga, mas tudo o que meu gentil interlocutor deve ter visto através do vidro do carro é minha trança longa e meus olhos assustados. Mulher.
De tantas delicadezas que a infinita criatividade humana nos disponibiliza para utilizar em momentos de descontrole, “vadia” é uma das mais intrigantes. Para começar, está no imenso rol de palavras que possui um significado completamente diferente quando é usado no feminino ou no masculino – assim como governante e governanta, homem público e mulher pública, homem da vida e mulher da vida, pistoleiro e pistoleira... E por aí vai.
Vadio é aquele que, pelo dicionário, não tem residência ou ocupação certa, aquele que é ocioso – e, segundo nossa bela lei brasileira, é uma contravenção penal, para a qual aplica-se pena de 15 a 30 dias de reclusão. A lei não é muito aplicada – mas ela ainda não caiu no total desuso.
A razão de ser da punição deriva da ethos do trabalho e da utilidade social do mesmo – é vadio aquele que não trabalha mesmo tendo condições de fazê-lo, ou seja, que não cumpre o papel social que a ele é atribuído.
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| Foto tirada na Marcha das Vadias de Recife |
Já o termo “vadia” – como quase todos os termos pejorativos usados para descrever mulheres – refere-se ao comportamento sexual da mulher, que expressa de sua sexualidade de forma diversa daquela aceita socialmente – seja a prostituição, seja ter mais de um parceiro sexual por vez, ou até assumir um comportamento dito “ousado” e “provocativo”. Não constam, nos textos legais, referências à palavra vadia, mas ela está muito viva nas regras sociais com efeito de acusação e de sentença: Sua vadia!
E aí está a ligação entre o vadio e a vadia – ambos são desviantes das expectativas sociais a eles tradicionalmente atribuídas – mas enquanto vadio é o homem que não é um provedor, vadia é a mulher que não está no espaço privado, cuidando de afazeres domésticos e da educação da prole, e que não expressa sua sexualidade apenas dentro do casamento.
Em última análise, a julgar pelos olhares e comentários raivosos recebidos por tantas mulheres nas mais diversas situações, todas nós somos essas vadias...
Somos vadias, como no exemplo que começou esse texto, quando precisamos nos locomover, seja a pé, de bicicleta, de carro ou usando o transporte público, e nossa mera presença torna-se um inconveniente para os demais ( porque quando um homem comete um erro, está destraído; já a mulher, é por ser mulher)
Somos vadias quando desbravamos o espaço público, estudando e trabalhando, e somos julgadas não por nossa competência no trabalho, mas sim pela nossa aparência física e forma de vestir

Somos vadias quando somos culpadas pelos crimes pelas quais somos vítimas - "foi estuprada porque estava vestida assim, porque estava andando por onde não devia, porque ela estava pedindo..."
Somos vadias quando não adotamos um comportamento submisso diante das coisas que nos acontecem, seja respondendo a quem nos assedia na rua, seja argumentando com firmeza, sou apenas suavemente apontando as contradições dos discursos que se voltam contra nós...
Somos vadias, enfim, pelo simples fato de sermos mulheres e nos comportarmos como protagonistas de nossos corpos, nossas vidas e nossas histórias, sem conformar-se com um modelo arcaico e sem sentido do que deve ser e fazer uma mulher...
Daqui a pouco começa a marcha das vadias de Brasília - e adivinhem onde estarei?
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