Acordei mais cedo do que de costume, com medo de me atrasar para a apresentação de um trabalho, e consegui chegar meia hora antes na Universidade. De lá só saí brevemente para almoçar e para jantar ali por perto, e só fui voltar para casa mais de 12 horas depois...
Essas três linhas podem resumir meu dia fora das loucuras corriqueiras da Universidade - e a totalidade do assunto que quero abordar hoje - momentos de rotina, de trânsito, de estar "só de passagem" pelas tão conhecidas e exploradas paisagens entre uma atividade e outra...
...curiosamente, foram os momentos mais belos do meu dia.
Talvez fosse o sono pesado ainda nos meus olhos, ou estranho frio matinal que lentamente se esvanecia - mas quando olhei para o lago, havia uma neblina tão densa sobre ele que parecia estar em chamas. Era como se, cansado de apenas refletir as nuvens do céu, o lago tivesse decidido fazer suas próprias nuvens para enfeitar e recobrir seu azul, com aquela intensidade e furor de quem pega um brinquedo novo...
Chegando no prédio do Direito, o próprio ar parecia carregado de resquícios de nuvens-de-lago: o ar, frio e fresco, emprestava uma clareza quase difusa aos jardins, aumentado pelo silêncio que reinava no prédio ainda vazio... Havia algo de onírico naquela cena, seja pelo primeiro colorido do sol que se levantava, seja pelo fato de meus próprios olhos ainda relutarem em sair do campo dos sonhos...
O prédio, até então estranhamente quieto, foi lentamente enchendo-se de sons e cores dos alunos e professores que começavam a chegar, copinhos de café, bocejos e casacos coloridos, e o tempo, que vagava com a mesma lentidão das nuvens em terra, voltou a seu tempo normal - de aulas, conversas e seminários, do sol forte que dissipa o frio e as pretensões do lago de brincar de céu.
Quando peguei o carro para almoçar, passei novamente bem perto do lago - mas agora, com o impiedoso sol brasiliense a pino, não havia como se esconder por trás de subterfúgios o fato de ser apenas um lago -isto é, se "apenas" for uma palavra adequada para me colocar em um novo momento de torpor contemplativo - ou talvez me tirar do torpor da rotina para me fazer sentir incrivelmente viva - com sua "lagosidade pura".
A água era de um azul profundo, de fazer inveja ao céu clarinho, compensando a falta de um sol concentrado com milhares de reflexos dourados que oscilavam com as ondas. Novamente, os segundos em que passei na orla do lago estenderam-se por um tempo indeterminado - garanto que foram poucos os segundos, pelo fato de não ter espatifado meu carro em algum poste qualquer do caminho - me colocando assombrada feito criança diante de um mundo que esconde tantas coisas incríveis em alguns segundos de caminho.
Até aqui, nota-se um padrão claro: Luisa fica meio boba quando vê coisas bonitas - talvez principalmente quando esteja sofrendo de falta de sono crônica. Mas não foi o Lago Paranoá minha única vítima de contemplação (e, vá lá, piração) do dia de hoje.
Afinal, para uma estudante do período noturno, há sempre a vivência da universidade à luz do luar...
E que luar lindo era esse hoje!
Confesso que foi uma beleza meio alarmante - a lua que eu vira há pouco como um fiozinho no céu estava tão cheia, e no meio de minhas correrias vi um calendário celeste que ria de meu despreparo, fazendo o tempo voar na medida em que a lua cresce e decresce, escondida de meus olhos cansados e ocupados...
E é com essa lua cheia, que me pegou e surpresa, que me despeço agora - com sono nos olhos, mas a alma embalada pelas mil pequenas belezas que tanto me assombram.
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