quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Uma quantidade de desilusão

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Edvard Munch -  ninguém melhor para ilustrar
a angústia de precisões difusas...
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(...)
Álvaro de Campos - Fernando Pessoa. 

Hoje acordei ao som de uma furadeira e com sangue nos olhos. Uma revolta que me chega em ondas, difusa, lenta, imensa, mas inexorável, uma massa disforme de mil pequenas coisinhas sem importância que se juntam para uma catástrofe interior, que só se expressa naqueles dias claros e bonitos, parecendo ao olhar de um observador algo sem sentido nenhum, quando é, em verdade " Esta velha angústia que trago há séculos em mim..." 

Se seguisse a poesia, transbordaria a vasilha em lágrimas -  mas elas são fluidas e redentoras, anunciadoras de uma profunda paz que virá quando sair a angústia. Não. Desta vez, há só a revolta profunda de um animal enjaulado nos confins da própria mente, de uma alma essencialmente livre que sabe que nunca encontrará expressão fora deste quarto; e que mesmo na tão limitada forma das palavras e da interação humana, ainda é mais presa e acorrentada por questões simplesmente estúpidas... 

Sem mais rodeios, sinto-me revoltada porque tudo o que eu quiser expressar será visto, ouvido e relacionado ao corpo de uma menina - ou, pior ainda, ao corpo de uma mulher.

Nasci e cresci gostando do meu corpo - das sensações riquíssimas das experiências sensoriais, de poder expressar fisicamente o que sinto e penso, do simples estar e existir nesse mundo, do repouso do sono que me presenteia com sonhos... 

Mas uma das descobertas mais dolorosas que fiz em minha vida é que o formato do meu corpo, a configuração da minha voz e a interpretação de meus gestos vêm carregados de uma carga semântica pesada e opressora, que rouba de minha mente e a expressão de minha individualidade qualquer relevância para marcar justamente aquilo que deveria ser um detalhe...

Em uma sociedade de papéis sociais que se subvertem e ressignificam através de muito sofrimento daquelas que viveram e vivem essa vontade de ser sujeito, chego à beira da loucura ao saber que a minha individualidade, as minhas ideias, a minha mente, o meu ser - tudo isso pode ser sumariamente desconsiderado e mitigado em um segundo. 

O pior de tudo é que isso é feito inclusive por aquelas e aqueles que eram vistos como companheiros, confidentes e aliados na garantia de que todos os seres humanos sejam, justamente, vistos como tal. 

Sim, porque se reservasse uma revolta tão grande para cada vez que minha subjetividade é ferida por um idiota (ou uma idiota) que me objetifica, não poderia viver nesse mundo. Talvez a raiva seja mesclada com uma profunda decepção.

Hoje é daqueles dias que acordo querendo reagir, colocar o dedo na cara de quem for e gritar até não ter mais garganta, ou silenciosamente retirar a dignidade de cada um até que fiquem vulneráveis e objetificados, até que sintam, por um segundo, o peso do julgamento que recai sobre a cabeça de quem ousa desviar dos padrões da normalidade e quer ser também uma pessoa - mas sei que isso é ridículo.

No final das contas, não consigo sentir raiva das pessoas - porque isso significaria odiar a humanidade por inteiro, e meu egoísmo que é amar e ter carinho por cada uma delas me impede sequer de querer machucar alguém. 

Seria fácil também culpar um grande Sistema sem rosto, mas sei que se há um sistema, dele sou agente e vítima, assim como cada rosto que me é familiar e querido também está lá, seja indo com a corrente, seja lutando mentalmente contra uma coisa abstrata, quando por vezes, na concretude da experiência, giram as engrenagens de esmagar almas...

No final das contas, a raiva se explode sozinha, seja em lágrimas ou em linhas confusas escritas -como agora - mas volto para o meu mundo de sonhos com cada vez mais certeza de que o que mais há de errado é a possibilidade de percepção de injustiças tão aviltantes por seres tão frágeis que só podem seguir o caminho das engrenagens ou em seus dentes padecerem - inclusive pelas mãos de quem se propunha a um enfrentamento conjunto. 

Então só sei terminar isso que comecei agora com minha parte favorita do livro do desassossego, com uma pétala de rosa seca marcando a página:

A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.
Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.
Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.
Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.  

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Fundo do Baú (2) Dos sentimentos de ontem e hoje

Trilha sonora sugerida:



Eis que fiquei um tempão sem escrever - com muita vontade, muitos planos, e talvez até vida demais para conseguir sentar, escrever e terminar alguma coisa. Mas preciso parar. Começar a escrever com mais constância, principalmente agora que passei por tantas tempestades (estaria passando, ainda?) 

O fato é que com tudo isso uma daquelas temáticas espinhosas e profundamente pessoais - ou, talvez para nosso medo, terrivelmente gerais - afloram: os bons e velhos sentimentos.

Emocionar-se, sentir - aquela entidade tão delicada suspensa entre nossas funções mentais "frias" e impulsos biológicos, entre o corpo e o espírito, entre a consciência e os terrores de nossos pesadelos...

Com os meus sentimentos, me relaciono e forma estranha, como todo ser humano condicionado pela convivência em sociedade. É conveniente que se sinta as coisas corretas nos momentos corretos - mas sempre sem excessos. Sentimento pasteurizado, domável, e, de preferência, que não atrapalhe a funcionalidade. Socialmente, precisaríamos apenas sentir uma alegria elétrica - diante do entreternimento relacionado ao consumo -  contraposta apenas por um choque ou horror solene - diante das desgraças nossas de cada dia, devidamente distanciadas por trás de uma tela de televisão.

Para além disso, que mais podemos sentir (e demonstrar!) sem recair na inconveniência social?

Sei que hoje tenho uma resposta completamente diferente da de outrora. Choro bastante, caio em todos os abismos emocionais existentes e imaginados, me deixo ficar triste sem razão... Mas percebo que estou cada vez mais resistente às coisas que acontecem em minha vida. Ironicamente, acabam sendo justamente os sentimentos extremos e os momentos de "falta de funcionalidade" que me mantém uma pessoa equilibrada, que se move com as marés ao invés de quebrar e afundar...

Talvez seja por isso que é tão interessante olhar para trás e ver tudo o que já pensei e senti - justamente sobre sentimentos.

O quanto disso será que ainda resta em mim?

Essa é de novembro de 2008, quando estava prestes a me mudar para Brasília:

"Não é todo o sentimento do mundo"


Existem pessoas que choram em despedidas, que sorriem e abraçam todos o tempo todo, que sabem ser simpáticas e sociáveis, que gritam de susto, alegria ou surpresa, que pulam e dançam,mostram pena e compaixão, cobrem de elogios e sabem dizer exatamente o que estão sentindo para o mundo inteiro...


Mas existem também, neste vasto mundo, alguns que não se comovem com nada, dão de ombros diantes da solidão e das despedidas, mal sorriem sem um tiquinho de amargura e se mantém desconfiados de todos que se aproximam um pouco mais. São pessoas que vêem até as situações mais cruéis ou com potencial para magoar com um olhar clínico e tem como esporte falar para si mesmo as verdades mais inconvenientes, e talvez até deixá-las escapar para os outros. São pessoas sem grandes manifestações de alegria ou até mesmo de tristeza, de raiva contida, assim como gestos e a expressão de quase toda a emoção... São pessoas frias.
Me encaixo na segunda categoria.


Já fui chamada, direta ou indiretamente, de uma pessoa fria (criatura perversa que brinca com as emoções de pessoas só porque acha interessante entra na categoria de direto ou indireto?) E não é com autopiedade que digo isso: é quase com um certo orgulho estóico. Diante do que é negativo, a duras penas, consego me controlar relativamente bem: Domino a técnica de não chorar depois de terminar um relacionamento de mais de um ano, a incrível habilidade de sorrir diante das grandes decepções, maquiar uma quase-depressão por "é só cansaço, vou dormir mais cedo" e uma autocrítica dura que não permite que coisinhas bobas como emoções interfiram no relacionamento com os outros.


Quando confrontada com grandes sentimentos positivos, porém, o velho mecanismo também funciona: ser elogiada, quando acontece, provoca uma reação desconfiada e quase hostil, e o fantasma do risco de começar a ser sentimental também me faz calar alguns verdadeiros e bem-merecidos elogios que poderia fazer a pessoas que admiro. Talvez ser extremamente dura comigo mesmo me faça, inconscientemente, ser dura e crítica com o resto do mundo também - Mas não se preocupe, resto do mundo, não hei de submetê-lo à mesma ditadura a qual me submeto.






Me torno assim uma pedra, um ser blindado para o bem e para o mal, refletido nos olhos frios que parecem estar olhando para dentro ao invés de para fora...


Mas eis um segredo, que muitos ignoram: Não sou fria por não ter sentimentos. Sou fria justamente por sentir de mais.


Parece contraditório, não é? A questão é que sentir e mostrar sentimentos é uma coisa muito diferente...


Começando o mais próximo possível de uma análise histórica, sendo que minha história não excede nem mesmo duas décadas de existência, é que se percebe a natureza da minha frieza. Eis que houve um dia uma menininha exuberante e extremamente afetiva, que tecia comentários sobre tudo e todos e não tinha tanto medo de falar com adultos... Mas ela tinha uma falha fatal e imperdoável: era sensível.


Na infância, fora os barulhos altos, boladas e briguinhas que a faziam chorar, tinha um ambiente em que podia afundar-se nos livros e viver no mundo da fantasia, voltando à realidade ocasionalmente para um jogo ou outro...


Mas quando a adolescência e suas melancolias chegaram, as coisas começaram a mudar. Começou a acordar dos sonhos de infância e entrar no mundo de dissimulação, manipulação e hierarquia social que já se delineava desde o maternal, mas só definia seus contornos mais finos agora.


Foi então que ocorreu a segunda "falha trágica" da história: ao invés de se posicionar seguramente atrás de um grupinho, onde os sentimentos expostos e compartilhados seriam parte de um pequeno tesouro comunal que somente se dissolveria junto com as amizades e relativamente protegidos, ela escolheu ( ou foi empurrada para, a depender da interpretação) um caminho alternativo, de mais livros e menos pessoas


E com isso, inevitavelmente, vieram os ataques.


De olhares de desdém até difamação, se todos os sentimentos estivessem assim explícitos, metade do tempo se passaria em uma depressão patética - aliás, em alguns momentos, não esteve muito longe disso.


Mostrar as emoções significaria não só conceder vitória a quem queria atormentar, mas também abrir minha vulnerabilidade para o mundo inteiro, e até mesmo suscitar pena.


E pena é a última coisa que eu quero que sintam de mim. Podem chamar de orgulho, arrogância ou até mesmo de vaidade, mas assim como eu só sinto pena de meus piores inimigos, não desejo que sintam pena de mim de forma alguma.


Então, depois de chorar no começo, se deprimir um pouco, fui progressivamente endurecendo. Cada decepção com supostas amizades reforçava isso, ao ponto em que estar me sentindo perfeitamente bem sozinha se torna a regra, e não a exceção. Pessoas com as quais eu possa me identificar são vistas com olhos críticos e desconfiados - mesmo que sob um aparente sorriso, a mente aprendeu a trabalhar da forma mais calculista possível.


Mas por que fazer isso? Por que não só esconder, mas suprimir os sentimentos, forçar uma mentalidade quase de máquina até mesmo em relacionamentos afetivos? É por orgulho? Por defesa?


É simplesmente pelo excesso de sensibilidade.


Não mostrar sentimentos não significa que eles não existem - eles existem, e em tamanha força que só com uma rígida disciplina pode-se mantê-los em ordem. Chorar apenas à noite, quando todos estão dormindo, descarregar tudo em música, poesia, escapar por algumas horas no mundo da ficção...
Porque as pessoas não merecem ouvir tudo o que sinto: é tedioso até para mim, seria para elas também, não?


Para algumas pessoas, não é.


(Ainda) não sou hermeticamente fechada, e de vez em nunca, algumas pouquíssimas e seletas pessoas vêem o que de fato está acontecendo - alguns porque enxergam o que há por trás de todo o sarcasmo, outros porque me conhecem melhor do que eu poderia sonhar em me conhecer - e, o mais incrível de tudo, não saem correndo diante de alguém que se revela ser tão temperamental.


Meus sentimentos não são o meu "tesouro" que eu só deixo alguns poucos verem - é na verdade a poeira embaixo do tapete da qual algumas visitas tomam conhecimento sem, porém, me criticar por isso - e assim caminha a humanidade.


Minha definição de ser fria não é a de não ter sentimentos - é simplesmente escondê-los a sete chaves e só realmente compartilhá-los com quem vale a pena.