Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
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| Edvard Munch - ninguém melhor para ilustrar a angústia de precisões difusas... |
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(...)
Álvaro de Campos - Fernando Pessoa.
Hoje acordei ao som de uma furadeira e com sangue nos olhos. Uma revolta que me chega em ondas, difusa, lenta, imensa, mas inexorável, uma massa disforme de mil pequenas coisinhas sem importância que se juntam para uma catástrofe interior, que só se expressa naqueles dias claros e bonitos, parecendo ao olhar de um observador algo sem sentido nenhum, quando é, em verdade " Esta velha angústia que trago há séculos em mim..."
Se seguisse a poesia, transbordaria a vasilha em lágrimas - mas elas são fluidas e redentoras, anunciadoras de uma profunda paz que virá quando sair a angústia. Não. Desta vez, há só a revolta profunda de um animal enjaulado nos confins da própria mente, de uma alma essencialmente livre que sabe que nunca encontrará expressão fora deste quarto; e que mesmo na tão limitada forma das palavras e da interação humana, ainda é mais presa e acorrentada por questões simplesmente estúpidas...
Sem mais rodeios, sinto-me revoltada porque tudo o que eu quiser expressar será visto, ouvido e relacionado ao corpo de uma menina - ou, pior ainda, ao corpo de uma mulher.
Nasci e cresci gostando do meu corpo - das sensações riquíssimas das experiências sensoriais, de poder expressar fisicamente o que sinto e penso, do simples estar e existir nesse mundo, do repouso do sono que me presenteia com sonhos...
Mas uma das descobertas mais dolorosas que fiz em minha vida é que o formato do meu corpo, a configuração da minha voz e a interpretação de meus gestos vêm carregados de uma carga semântica pesada e opressora, que rouba de minha mente e a expressão de minha individualidade qualquer relevância para marcar justamente aquilo que deveria ser um detalhe...
Em uma sociedade de papéis sociais que se subvertem e ressignificam através de muito sofrimento daquelas que viveram e vivem essa vontade de ser sujeito, chego à beira da loucura ao saber que a minha individualidade, as minhas ideias, a minha mente, o meu ser - tudo isso pode ser sumariamente desconsiderado e mitigado em um segundo.
O pior de tudo é que isso é feito inclusive por aquelas e aqueles que eram vistos como companheiros, confidentes e aliados na garantia de que todos os seres humanos sejam, justamente, vistos como tal.
Sim, porque se reservasse uma revolta tão grande para cada vez que minha subjetividade é ferida por um idiota (ou uma idiota) que me objetifica, não poderia viver nesse mundo. Talvez a raiva seja mesclada com uma profunda decepção.
Hoje é daqueles dias que acordo querendo reagir, colocar o dedo na cara de quem for e gritar até não ter mais garganta, ou silenciosamente retirar a dignidade de cada um até que fiquem vulneráveis e objetificados, até que sintam, por um segundo, o peso do julgamento que recai sobre a cabeça de quem ousa desviar dos padrões da normalidade e quer ser também uma pessoa - mas sei que isso é ridículo.
No final das contas, não consigo sentir raiva das pessoas - porque isso significaria odiar a humanidade por inteiro, e meu egoísmo que é amar e ter carinho por cada uma delas me impede sequer de querer machucar alguém.

Seria fácil também culpar um grande Sistema sem rosto, mas sei que se há um sistema, dele sou agente e vítima, assim como cada rosto que me é familiar e querido também está lá, seja indo com a corrente, seja lutando mentalmente contra uma coisa abstrata, quando por vezes, na concretude da experiência, giram as engrenagens de esmagar almas...
No final das contas, a raiva se explode sozinha, seja em lágrimas ou em linhas confusas escritas -como agora - mas volto para o meu mundo de sonhos com cada vez mais certeza de que o que mais há de errado é a possibilidade de percepção de injustiças tão aviltantes por seres tão frágeis que só podem seguir o caminho das engrenagens ou em seus dentes padecerem - inclusive pelas mãos de quem se propunha a um enfrentamento conjunto.
Então só sei terminar isso que comecei agora com minha parte favorita do livro do desassossego, com uma pétala de rosa seca marcando a página:
A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.
Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.
Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.
Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.

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