terça-feira, 15 de novembro de 2011

Vída de Sísifo

No inferno da mitologia grega, os piores castigos eram reservados a quem superava os Deuses. Não eram as pessoas mais perversas, as mais sanguinolentas ou as que tinham causado mais sofrimento humano. Os piores crimes - e, por isso, dignos dos castigos mais cruéis e criativos - eram aqueles contra a ordem instituída pelos Deuses, contra sua supremacia, contra seu orgulho, contra seus desígnios. 

Sísifo, ao que parece, tinha um lugar especial no coração do panteão grego por sua extrema rebeldia - conseguiu enganar a morte nada menos do que três vezes, (os deuses precisaram esperar que ele morresse de velhice), chegando até a prender Tânatos, a Morte, impedindo que as pessoas morressem por vários anos...

Seu castigo é proverbial de tão cruel: foi condenado a empurrar uma enorme pedra montanha acima e, quando estivesse quase conseguindo, uma força irresistível empurrava a pedra para baixo novamente. Não deram a ele a missão de carregar uma pedra que ele não consegue levar, ou de falhar logo no começo - não. O requinte de crueldade está em sua possibilidade de vislumbrar o outro lado da montanha, de estar quase lá, quase lá - e só então ver o trabalho de tantas horas rolar para o chão - provavelmente em cima do coitado.

"Trabalho de Sísifo", então, é expressão usada para tarefas invariavelmente infrutíferas, no qual há um esforço enorme para nada. 

Aqui parece que temos o desfecho de nossa pequena história: Sísifo era um sujeito astucioso, inteligente, e sua insistência em desafiá-los foi tão grande que recebeu um castigo eterno dos mais ardilosamente cruéis: condenado a um esforço sem medidas de uma tarefa dificíllima, mas sem a satisfação de vê-la completa, mesmo tendo quase conseguido.

Que empurre a primeira pedra quem nunca se sentiu sisifando...

Através dos anos e dos oceanos, línguas e mitologias, algumas curiosas coisas se repetem - o desafio ao status quo, para qual a resposta é a condenação a uma tarefa longa, árdua e que, no final das contas, não consegue chegar a seu destino e terá que ser repetida de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo... 

E Sísifo está vivo em cada uma e cada um que procura agir nesse mundo para bater de frente com estruturas profundas e arraigadas na sociedade.


©2008-2011 ~dwsel
Tentar mudar a forma como as relações de gênero se desenvolvem na sociedade é uma dessas "sisifadas". Tantas argumentações, textos, vídeos, livros, conversas francas e explicações das coisas mais aparentemente óbvias, para vermos nossa própria família, nossos próprios amigos e amigas, com um comentário, um ato de ignorância ou uma omissão, empurrar a pedra para baixo, geralmente me atropelando no caminho.

Depois de levar uma (pedra) na cara, o mais óbvio seria largar aquele maravilhoso pedregulho e fazer alguma coisa - mas depois de desafiar os deuses, de ter um mínimo vislumbre de outro caminho possível, como é possível virar as costas? 

E a dura fase que segue é a de levantar-se de novo, chacoalhar a poeira e seguir em frente, carregando pedra. 

Carregando sonhos, carregando ideais, carregando mudanças radicais ou um coração aberto demais para esse mundo - vejo Sísifo em todos os rostos de olhos brilhantes, ora de esperança, ora de lágrimas.

Rolando suas pedras, em solidão ou em grupo, caindo e levantando, nesse mundo-montanha que gosta de nos fazer sentir formiguinhas pequenas e inúteis diante de forças que não controlamos...

Há dias em que penso que é isso mesmo - melhor mesmo é o refúgio dos sonhos, da ficção, do escapismo, e carregar pedra pelo impulso egoísta de não ser aquela que fica na base da montanha sem fazer nada...

Mas há aqueles dias, também, em que vejo um mundo de pés e pedras, que de tantas idas e quedas há de fazer a própria montanha ruir...
Low Vapors, por ~dwsel. 
©2011 ~dwsel

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