sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A safadeza (não) oculta de um discurso homofóbico

Eis que, em uma aula, uma das questões a serem trabalhadas era um debate ( de argumentação, a princípio, jurídica!) a respeito da adoção de crianças por casais homoafetivos.

Quando chegamos naquele assunto espinhoso, tive até algumas surpresas positivas - discussões acaloradas, sim, mas com argumentos interessantes e razoáveis - mas acho que existe alguma lei divina que proíbe que haja alguma discussão que envolva gênero de qualquer forma sem que apareça alguma pérola fantástica...

Eis que um sujeito pede a palavra. Começa armando-se do máximo de argumentos de autoridade o possível: tem psicólogos na família, estuda isso, então ele sabe cientificamente do que está falando. Brandindo uma Ciência (com "c" maiúsculo e efeitos especiais de brilho divino atrás) como seu grande escudo argumentativo, teoricamente fundado em supostas práticas da psicologia (que, como todas as pessoas sabem, é uma ciência unívoca, sem nenhuma dissidência teórica ou apropriação para essa ou aquela finalidade política), começa a desfiar suas teses.

Essa era a minha cara.
Enquanto isso, eu tentava ficar quieta, só anotando.

Começou com o básico de "a criança precisa de uma referência masculina e feminina para um desenvolvimento mental saudável" ( os dois conceitos obviamente muito bem definidos, que se aplicam necessariamente a pessoas que tem os aparelhos genitais correspondentes)  -  comecei a escrever, com grandes pontos de interrogação, sobre "argumentos cientificistas".

Depois, mais um clichê: "isso é anti-natural! Eles não se reproduzem assim!" E puxando uma ética Kantiana muito mal utilizada, argumentou que era impossível universalizar a homossexualidade - acabaria com a espécie humana! - e, por isso, seria eticamente incorreto. ( e a lei tem que proibi-los de adotar crianças porque...?)

E ia anotando, anotando, cada vez com a caneta mais forte e a letra aumentando...

Até que veio a pérola-mor: as causas da homossexualidade.

Segundo o douto indivíduo, elas eram três. A primeira, era genética. A segunda (e daí sua justificativa para a proibição da adoção) era a criação. Já a terceira... em suas palavras "é safadeza, mesmo."

Safadeza como causa da homossexualidade.


...



Não, eu não estou brincando.

Em uma sala de aula, em um curso de Direito de uma Universidade pública, no glorioso ano de 2011, precisei ouvir isso.

Obviamente, a turma não deixou barato.

Se as risadas profusas que seguiram a tão preciosa afirmação, uma estudante fez questão de esclarecer se era exatamente aquilo o que ele queria dizer. Para o riso geral, era sim: "tem gente que é homossexual por safadeza, mesmo."

Depois deste momento em que a aula se transfigurou em uma peça de teatro do absurdo, não havia nem mais como continuar, e, até pela hora avançada, as pessoas já se dispersaram e saíram da sala. A aula acabou, mas minha perplexidade continuava:

Safadeza?

Mil cenários passaram pela minha mente, um mais absurdo do que o outro. 
"Nossa, hoje me sinto safada, vou mudar minha orientação sexual e me agarrar com minhas amigas...?"
"Oba, vou me submeter a discriminação e violência dentro da família, igreja e da sociedade em geral, porque estou me sentindo tão safada hoje..." 

Mas havia uma situação mais curiosa ainda: se a safadeza é causa de homossexualidade, aí sim que a humanidade estaria à beira de sua extinção, se dependêssemos totalmente da reprodução natural. Oras, se toda vez que um casal heterossexual for fazer safadezas com funções reprodutivas, vão virar homossexuais? É o fim do sexo heterossexual, baby. E tudo por causa da safadeza! 

Ok, preciso confessar: o melhor resultado desta cena curiosa foi eu ter uma piada interna enorme com vários de meus amigos e amigas...

Mas, mesmo assim, há um aspecto sério e perturbador nisso.

Basta lembrar que, até 1993, a homossexualidade constava na lista de doenças mentais da Organização Mundial de Saúde; que até hoje há clínicas de "tratamento" para a homossexualidade em que homens e mulheres são submetidos a tratamentos degradantes para "corrigir" este "desvio"; que comunidades religiosas condenam a homossexualidade como se fosse uma escolha, ou vista como  ter demônios no corpo

E, o pior de tudo - saber que, se essa mesma assertiva tivesse sido feita há alguns - poucos - anos atrás, muita gente acharia uma hipótese interessante e viável em uma discussão acadêmica.

Por trás dos risos diante de argumentos que historicamente se transformaram em ridículos, há o amargo gosto de saber o quão nova - e também o quão frágil - são esses desenvolvimentos em matéria de reconhecimento de seres humanos, como, er... seres humanos.  Essa percepção de que explicações reducionistas e preconceituosas não são aceitáveis - muito menos sob o manto de uma ciência inquestionável - tem uma data e tem um espaço, infelizmente ainda reduzidos.



Diante do abismo do absurdo é que percebemos como ainda temos muito o que lutar...

PS: Sobre o mérito da adoção por casais homossexuais - e as preocupações com a criação das crianças - deixo falar a pessoa que é mais autorizada a falar do assunto: um filho de duas mães.



4 comentários:

  1. Ótimo, Luisa. =) Pena que ainda temos que ouvir coisas assim de estudantes de Direito, pessoas que vão pensar o mundo e as relações humanas.

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  2. Ótimo, Luisa. Pena que a Universidade Brasileira ainda não se rendeu à única forma ética e correta de pensamento possível.

    Ainda bem que o diferente (no caso, quem não pensa da forma certa de como se deve ser pensado) é ridicularizado. Ainda bem que PJ é um bom espaço para dismistificações da ilusão cotidiana e para a construção da verdade universal, ou melhor, única (já que, ao utilizar universal posso estar usando Kant de forma errada).

    Mas enfim, o ponto mais sensível do texto é a seguinte frase: "Em uma sala de aula, em um curso de Direito de uma Universidade pública, no glorioso ano de 2011, precisei ouvir isso."

    Quer dizer que se fosse em uma roça, numa plantação de batatas, num outro ano menos glorioso qualquer, a frase seria aceitável?

    Quem diz, onde diz, e, principalmente, pra quem diz altera o valor do que foi dito?

    O aluno a adentrar num curso de Direito em uma universidade pública tem que ter um perfil determinado? Ele TEM que ser "homo-friendly", esquerdista (resisti à tentação de usar esquerdopata ou esquerdofrênico... oh wait!) e emancipador?

    Ele tem que enfrentar questões de conteúdo em uma disciplina metodológica? Ou melhor ainda, ele tem que enfrentar SÓ questões de conteúdo em uma disciplina pretensamente metodológica? (Oh fuck, acabo de ler a ementa de PJ no matriculaweb e advinhe só: ela É uma disciplina de conteúdo. Conclusão, um curso de Direito como o da UnB, que se propõe a formar "pesquisadores", não dedica um único crédito, unzinho que seja, à metodologia científica. Que diabos de "pesquisa jurídica" é essa que não tem método? Vai "na doida" mesmo?)

    No final das contas, você não precisa ouvir nada disso, Luisa, você sabe disso (você tem seus espaços entre iguais). Mas o rapaz é obrigado a ouvir o que você tem a dizer, sendo avaliado pela reprodução disso.

    Deve ser emancipador utilizar-se da "máquina opressora" para reproduzir o conteúdo certo...

    PS: Como experiências pessoais têm a capacidade de diminuir nossa tolerância a certos tipos de discursos não é? Os discursos mais apaixonados devem ter sido feitos por sujeitos bastante traumatizados (trauma aqui como "quebra", sem valor positivo ou negativo).

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  3. Bem, eis que a esquerdofrênica responde: (uhul, minha primeira minipolêmica aqui #mamilos!)

    Parece que há um problema sério de comunicação - talvez por quem não está acostumado com o contexto de PJ.

    Durante a aula, levantamos várias questões, e apenas mediamos enquanto o pessoal argumentava para o lado que quisessem - e a nós cabia anotar, resumidamente, quais os argumentos usados, e eventualmente comentar um ou outro ponto.

    No próprio ponto da adoção por casais homoafetivos, foram levantadas várias questões - outras pessoas levantaram tantas outras questões, contra e a favor, passando por assuntos como a discriminação (tanto dos pais quanto das crianças), sobre o nível de aceitabilidade da sociedade - questões fáticas e jurídicas.

    O problema - que foi o que eu quis apontar nesse post - é justamente o conteúdo de uma declaração proferida no contexto atual, e em uma Universidade. Não falo da busca de uma Verdade - o próprio sentido do exercício era mostrar que todas as questões são passíveis de argumentação - mas que tipo de argumentação é usada?

    A pronunciação infeliz ( que só foi alvo de comentários quanto ao uso de Kant) já foi, sim, uma coisa aceita como normal - esse é meio que o ponto do que eu escrevi. Tipo, é um negócio bizarro e engraçado aqui, mas há anos poderia muito bem passar como o posicionamento mais razoável - porque, até aquelas pessoas que defendiam o mesmo posicionamento dele acharam aquelas premissas bizarras.

    Além do mais, o blog é um local de reflexão sobre o que aconteceu. Na sala de aula, silêncio respeitoso à sua fala, sem rir (por vezes foi difícil), tentando ordenar as falas depois dele (também difícil). Ele não teve que escutar nenhum "doutrinamento" sobre isso - no máximo, questionamentos sobre o uso do imperativo categórico, e o questionametno dos colegas, aos quais todos os que se manifestaram eram igualmente sujeitos.

    Mas isso me impede de poder escrever e refletir isso no meu blog, como pessoa? Me impede de recorrer a um humor quando me vejo diante de uma coisa absurda?

    Acredito que não.

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  4. Não tocou sa questões principais do comentário, mas deixa pra lá né? Nunca foi uma crítica pessoal nem contra sua postura em sala de aula.

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