segunda-feira, 14 de abril de 2014

Objetivo: conquistar a Europa (e mais dois continentes a sua escolha)


Poderia ser um objetivo de War, mas vai ser a minha vida pelos próximos meses.

Depois de mais de um mês trancada no meu quarto para dar conta do excesso de matérias que eu estava fazendo em pouco tempo, vem o momento da recompensa: ao invés de terminar meu semestre no começo de junho, já estou livre na metade de abril!

Me explico: no sistema sueco, você precisa fazer 30 créditos por semestre, no mínimo. Geralmente você faz uma matéria de cada vez, que dura menos, mas exige um esforço bem maior em casa. Assim sendo, pode-se escolher fazer um curso grande de 30 crédito, ou dois de 15, ou três de 10, e por aí vai, sendo que cada um começa em um momento diferente.

O que eu fiz?

Bem, comecei com um curso de 15 créditos que ia do final de janeiro até o final de março, e depois fiz dois cursos de 10 créditos, que duraram um mês, começando em março e terminando, bem... Na semana passada.

Vocês podem imaginar a loucura que foi o meu mês de março, certo?

Estudei muito, aprendi horrores, consumi quantidades indizíveis de cafeína e gastei os meus olhos ao ponto da exaustão tentando dar conta das leituras extensivas, mas eu consegui: escrevi mais ou menos 40 páginas, ao todo, entre trabalhos, artigos finais e provas de se resolver em casa. Sim, eu sobrevivi - e agora é hora de aproveitar para conhecer esse mundo diferente que existe fora do meu quarto e da Universidade.

Primeiro, vou explorar um pouco mais 'localmente' e visitar o sul da Suécia: Malmö, a terceira maior cidade da Suécia, e Lund, uma cidade universitária ali perto. Depois disso, um final de semana em Copenhague, para completar o último país nórdico que falta para eu conhecer.

Depois de dez dias entre essas três cidades, volto só para lavar as roupas e já saio de novo, dessa vez um pouquinho mais para longe: Croácia, Áustria e Hungria. Aproveitando para rever uma amiga muito querida que não encontro há anos, vai ser minha primeira incursão para essa parte da Europa (fora a Áustria, minha velha conhecida).

Depois disso, terei, novamente, só poucos dias para descansar antes de ir para a Alemanha - mas dessa vez vai ser uma viagem para compromissos de família. Mas, quando eu voltar, vem uma das partes mais legais da minha estadia aqui: vou voltar para mostrar Estocolmo para a Oma!

Minha avó volta comigo da Alemanha, e, além de explorarmos a cidade, também devemos dar um pulinho em Riga, capital da Letônia, que fica aqui pertinho.

Depois que me despedir da Oma, meus planos já não estão tão claros por algumas semanas. O final de maio provavelmente fica para outros cantos da Suécia, ou talvez Portugal para visitar amigos intercambistas...  Em Junho chega meu amigo, notório explorador de países obscuros, e não me surpreenderia se eu fosse parar na Islândia ou talvez algum país que eu mal lembre o nome.

Na metade de Junho me despeço de Estocolmo, mas para finalmente conhecer Berlim e Praga, e em Julho tenho mais umas duas semanas ainda a planejar ( Itália, Sul da Alemanha...?), até que minha família vem me encontrar aqui para passear pela França antes de voltar para casa.

Ufa. Sim, é muita viagem, muitos países, mas, como me disseram os meus pais - o pecado seria eu estar aqui, com tudo ao alcance das mãos, e passar meus dias no meu quarto, no facebook, ou jogando videogame.

Eu posso sentir que vou ter muita coisa para contar, muitas viagens para relatar (e eu estou já com duas viagens de atraso! Céus!), mas vamos ver quando vou ter o tempo para parar e escrever. É claro que, sem as aulas, fica tudo mais fácil (vide o aumento do número de postagens desde que as aulas acabaram!), mas dessa vez, são as próprias viagens em profusão que vão me ocupar.

Mas para além das paisagens novas, lugares diferentes, línguas, moedas e todas as coisas forasteiras que eu vou encontrar, a maior estranheza está virada para o lado de dentro:

em alguns desses momentos, eu vou viajar sozinha.

Eu nunca viajei sozinha - sempre estive com família, amigas e amigos ou, no mínimo, colegas para passear junto. Nunca fui para um lugar diferente assim, só com um guia de viagem na mão, sem ninguém para discutir itinerários ou conversar sobre as curiosidades do local. Meu diário de viagem vai ser meu único companheiro agora no sul da Suécia.

Parece uma coisa meio nova e amedrontadora, mas se eu pensar bem, eu já explorei muito de Estocolmo sozinha, e gostei muito de descobrir cada canto da cidade, me perder e vagar sem rumo, ouvindo música ou parando para escutar os sons de cada lugar. Já li muito sozinha no metrô, enquanto ia de um lugar para o outro, e as fotos e pequenos vídeos eram o único substituto de realmente ter uma pessoa lá para comentar. Um substituto pobre, é claro, mas pelo menos é alguma coisa.

Queridas pessoas que lêem o blog, então, vocês serão todas minhas companheiras de viagem.

Próxima parada: Malmö. Até logo!

sábado, 12 de abril de 2014

A segunda saudade (de Kiruna a Estocolmo)


Kiruna, Fevereiro de 2014 



Sim, eu me diverti horrores - como deve ter ficado muito claro nesses posts da viagem - mas parece que não consigo fechar um ciclo sem falar da saudade.

Da primeira vez, era aquela saudade doída, chorosa da falta que tudo faz, mas agora é uma saudade diferente.

Sim, ainda é ausência, ainda é ar onde deveria, por todas as razões do coração, haver uma pessoa para abraçar.

Mas ah, é um saudade boa...

Tive 16 horas em um trem, de volta, para refletir sobre a viagem - e escrever boa parte dos relatos que eu coloquei nos últimos posts. Tempo para me sentir um pouco sozinha e acuada, em um trem cheio de pessoas suecas falando sueco, sem nem uma palavra familiar para me fazer companhia. Só as minhas próprias palavras passando para o papel, só os meus próprios pensamentos ecoando, e a tensão dos laços que me unem a pessoas tão longe, retesados no silêncio, se fazendo sentir.

Mas enquanto estava na Lapônia, eles estavam todos comigo.

Sim, eu via alguma coisa bonita, e pensava em como minha mãe ia admirar aquela beleza. Via uma coisa engraçada, e quase virava para o lado para comentar com o meu irmão. Com a enorme familiaridade vem aquele quase senso interno dos comportamentos esperados, de como eles reagiriam, das interjeições que iriam fazer...

E uma certeza, para esse norte frio e fantástico: eu vou voltar. Nem que seja para testar a reação deles e ver se minhas previsões estavam certas - cada foto que eu registro é para as pessoas amadas que eu deixei, quase uma promessa de "um dia você vai vir aqui também!"

E o engraçado é que é uma saudade tão poderosa quanto o outro tipo, tão forte que você sente as pessoas lá ao seu lado - mas por momento algum isso me deixou triste ou melancólica. Pelo contrário, era nos momentos em que eu mais estava maravilhada ou me divertindo horrores que vinha o pensamento, aquele paradoxo de ausência-presença que fazia com que gente tão longe estivesse perto, justamente nas horas em que fica mais evidente que as pessoas que estão mais perto do meu coração estão longe.

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Estocolmo, Abril de 2014


A saudade que me aperta agora, já de volta em Estocolmo e com dias de solidão autoimposta para escrever trabalhos, já é um pouquinho diferente.

Olho para as fotos penduradas nas paredes do meu quarto, e as imagens das pessoas queridas não são só figuras no papel, mas são momentos que eu vivi de uma forma ou outra, é uma viagem com a família, é um abraço de amigos, é um beijo de namorado... São pedaços de mim que eu represento em imagem, para me lembrar que, mesmo que fisicamente, eu não estou sozinha.

Mas ah, quem disse que isso faz a saudade toda ir embora?

Enquanto estou distraída com os estudos, até que vai - mesmo que eu estivesse em casa, com a família toda em volta, eles só veriam uma sombra quimicamente dependente de cafeína rondando a cozinha de vez em quando, enterrada em livros e escrevendo freneticamente no computador. Mas no momento que eu fecho o livro e o quarto está vazio, ou quando estou cansada demais para continuar, mas não tem alguém para conversar... Ah, é difícil. Quanto mais tempo passo em casa, mais quieta ela fica, e só as vozes pelo skype me aliviam desse silêncio devorador de almas que é a solidão. Não consigo nem imaginar como era para as pessoas nos tempos de antigamente, quando as cartas demoravam meses para chegar. Porque mesmo com todas as facilidades da vida digital, ainda não encontraram uma forma de traduzir o toque, de traduzir o cheiro e o conforto a presença física das pessoas amadas. Palavras no facebook não conseguem substituir a familiaridade da rotina conjunta; a convivência diária não cabe na janela do skype. As roupas de verão, que ainda não foram usadas e lavadas aqui, ainda tem o cheiro de casa, e eu sou pega de surpresa quando vou ajeitar as coisas no armário, uma coisa tão imediata e forte que meus olhos marejam antes de eu conseguir pensar. Quando não posso sair muito porque preciso estudar, meu quarto se torna o universo inteiro, e eu vejo o que é estar só.



Mas quando finalmente cumpro as obrigações, tudo o que quero é sair para a cidade e me cercar de gente, de sons, de cheiros e lugares, de estar no meio de gente e não estar só... Mas ainda estou solitária. Quando passeio sozinha nessa cidade que cada vez eu gosto mais, sempre fica aquela sensação de querer partilhar tudo aquilo que está acontecendo. Queria que minha família visse como eu já consigo pedir comida em sueco, ou que meu namorado andasse de mãos dadas comigo pelas ruas. Queria dividir cada barzinho legal que eu encontro, cada vista pitoresca, cada observação curiosa sobre os suecos...

Mas com ou sem companhia, a cidade é linda. Um quebra-cabeça de épocas e estilos arquitetônicos, com prédios de diferentes cores competindo pela atenção do olhar, com aquele trânsito que não pareceria nunca ser de uma capital - andar no meio da rua não é tão incomum assim -, mas uma população tão diversa que você não tem dúvida de que aqui não é o interior. Por trás da imagem estereotipada das pessoas loiras e altas, também falam sueco as gerações de imigrantes de todos os cantos do mundo, quebrando o monocromatismo da paisagem. Não existe nada estranho o suficiente que não possa ser usado nas ruas de Estocolmo - os suecos almofadinhas, impecáveis em seus penteados perfeitamente arrumados e casacos de inverno elegantes precisam dividir o espaço com gente que prefere adotar uma moda hipster dos anos 50, e punks com moicanos desafiadores de gravidade, e esportistas com suas roupas coladíssimas de inverno para fazer jogging, e isso somado a uma massa que não liga tanto assim pra estar elegante porque tem mais com o que se preocupar... E aí que se vislumbra um pouco da beleza da impessoalidade sueca: ninguém quer saber o que você quer dizer com as suas roupas. Contanto que você não fale nem toque nos suecos, tudo vai ficar bem. Mas isso é assunto para uma outra postagem...

O fato é que é fácil se apaixonar por Estocolmo. Toda vez que você pensa que está cansando da cidade, a linha de prédios se abre para mostrar que o que parecia metrópolezinha europeia pretensiosa na verdade era só mais uma ilha do arquipélago, e lá está o mar e as gaivotas e as pontes, enchendo tudo de uma beleza de derreter até a alma mais rancorosa com a cidade. Principalmente se o sol resolve dar as caras. Não raro no metrô, entre uma estação e outra, um vislumbre da paisagem me surpreendeu com as cores vivas que o sol projeta toda vez que aparece, deixando tudo mais real, menos nebuloso.

E foi andando assim, semi-perdida na orla do mar, que tive uma epifania: eu vou sentir saudades daqui. Não só da cidade que me fascina e que ainda quero explorar mais, mas com a Universidade, com a forma de vida tão diferente, com as pessoas ótimas que conheci aqui, com os cantinhos de calor humano no meio de uma cidade tão fria.

Minha volta para o Brasil será muito, mas muito comemorada - mas agora sei que nunca mais vou saber como é pertencer a um lugar só. Mesmo com a saudade me ardendo forte todos os dias, a cidade fica cada vez mais minha, e eu mais dela, e o por do sol de Brasília vai precisar abrir um espacinho no meu coração para acomodar as cerejeiras, as ilhas e o mar azul...

A partir de agora, sou e serei só saudade.






quinta-feira, 3 de abril de 2014

Spring fever!

Um dia depois que comecei a cantar a primavera, caiu uma nevasca, só pra me contradizer.

Janela da minha sala de aula no final de março: NEVE! 


Fiquei com dó das florzinhas enterradas pela neve, e por alguns dias só nevou e nevou, e quando todo mundo já ia pensando que os Starks estavam certos a qualquer momento e o Inverno estava, sim, chegando de volta, (isso foi uma piadinha de Game of Thrones, para os desavisados), vem um dia lindo e derrete a neve toda.

Podem nevar nas flores, mas não podem parar a primavera!

Até os óculos escuros eu pude tirar da mala! 


Desde então não nevou mais - só choveu um pouquinho de gelo agora no começo de abril - mas o tempo está definitivamente virando.

Posso ver isso na janela, com os corvos pegando galhos para fazer ninhos e brotinhos minúsculos despontando na ponta dos galhos nus da árvore na frente da minha casa. Posso ver pela grama, brotando com mais força e cobrindo algumas partes do meu caminho até a Universidade de florezinhas coloridas. Posso ver, enfim, pela beleza indescritível das cerejeiras nos jardins reais - Kungsträdgården. Mas, mesmo que passasse o dia inteiro com as janelas fechadas, sem olhar para o lado e sem ver uma única árvore, eu veria a primavera no lugar mais inusitado: nas pessoas suecas.

As cerejeiras estão começando a florir, e acho que vou ter que dedicar uma postagem inteira à lindeza que é o jardim real com seus corredores de cerejeiras... 

Quando chego na Universidade, seis graus lá fora e sol, eles já estão saindo de suas conchas de casacos e caras amarradas para sentar na grama, nos bancos e - meu Deus! - até conversar e sorrir na rua. É como se a humanidade deles tivesse hibernado, e seus sentimentos de afeição pela vida e pelas outras pessoas acordassem com os primeiros raios de sol, depois de um longo inverno de introversão e uma atitude quase robótica em relação à vida. Será que eles vão chegar no patamar de "simpáticos" até o verão? Veremos, veremos...

(e longe de mim dizer que os suecos são mal educados - uma análise de generalidades sobre os estocolmenses fica pra outro texto - mas, embora eles, em geral, educados e atenciosos nos serviços, mas não tente tocar nem falar com nenhum sueco fora de um contexto formal. Eles ficam incomodados)

Com os meus meses na Suécia, confesso que entendo agora esse curioso fenômeno das pessoas tirando a roupa ao menor sinal de um raio de sol. Sete graus lá fora, caminhando de casa para a aula, e eu não resisti à tentação de sentir um pouquinho do sol nos braços, do vento no corpo, de finalmente me livrar dessa prisão corporal de casacos e mais casacos...

O frio é relativo ao desespero por vitamina D

Quando o sol está batendo, até mesmo o vento frio não consegue afastar essa sensação de vitalidade que permeia o corpo, essa sensação de nova vida que parece que está só nas estações, mas acaba contagiando os seres humanos...

E aí, em rompantes de um filosofar sazonal, eu vejo os pontinhos coloridos na grama, os brotinhos nos galhos secos e as cerejeiras no jardim, e meus olhos se enchem de água.

A primavera enche a cidade dura de concreto de coisas tão frágeis que um pisão já amassa - essas flores cheias de frio, que teimam em brotar mesmo com o tempo inconstante. De uma em uma, pequenas, singelas, mas com uma força coletiva capaz de alterar o mundo a sua volta de uma forma! É um crescimento lento, mas ele está lá: a cada dia os brotos mais fortes, maiores, a cada dia as flores mais vistosas, brigando com a neve pela paisagem, resistindo ao vento e ao frio com pétalas finas, mas sabendo que já não é mais tempo de inverno. Agora o tempo é de tudo o que é jovem e brota da terra, de tudo o que é novo e cresce por cima das folhas secas, de tudo o que é colorido não por vaidade, mas por necessidade de cor na paisagem cinzenta.


É o momento de celebrar essa força diferente, essa força que não vem de ferro e fogo e de agressividade, mas de uma delicadeza que, por mais que seja frágil, é avassaladora quando vem. Quem, nesse mundo, pode entender por que chamar alguém de "florzinha" significa dizer que essa pessoa é fraca, quando uma florzinha espera enterrada no chão o inverno todo só por alguns dias de cor?  Longe de mim querer promover uma flor a símbolo de virilidade, justamente porque nenhum símbolo viril resiste ao tempo e às flores. Foi esse, no final das contas, meu aprendizado de ir visitar Waterloo (onde Napoleão perdeu a guerra) quando fui para a Bélgica. (mais uma postagem que eu estou devendo). Napoleão quis conquistar o mundo, milhares de pessoas e animais derramaram seus sangues em campos de batalha, mas os velhos canhões viram ferrugem, e todo o sangue da carnificina vira alimento da terra para, na próxima primavera, fazer crescer as flores. Os canhões que amassam flores não resistem à próxima estação, mas em sua coletividade cíclica, as flores são eternas. Talvez, enquanto não tivermos sucesso na macabra obstinação em destruir todas as condições de reprodução da natureza, as flores sempre acabem vencendo o canhão.