Kiruna, Fevereiro de 2014
Sim, eu me diverti horrores - como deve ter ficado muito claro nesses posts da viagem - mas parece que não consigo fechar um ciclo sem falar da saudade.
Da primeira vez, era aquela saudade doída, chorosa da falta que tudo faz, mas agora é uma saudade diferente.
Sim, ainda é ausência, ainda é ar onde deveria, por todas as razões do coração, haver uma pessoa para abraçar.
Mas ah, é um saudade boa...
Tive 16 horas em um trem, de volta, para refletir sobre a viagem - e escrever boa parte dos relatos que eu coloquei nos últimos posts. Tempo para me sentir um pouco sozinha e acuada, em um trem cheio de pessoas suecas falando sueco, sem nem uma palavra familiar para me fazer companhia. Só as minhas próprias palavras passando para o papel, só os meus próprios pensamentos ecoando, e a tensão dos laços que me unem a pessoas tão longe, retesados no silêncio, se fazendo sentir.
Mas enquanto estava na Lapônia, eles estavam todos comigo.
Sim, eu via alguma coisa bonita, e pensava em como minha mãe ia admirar aquela beleza. Via uma coisa engraçada, e quase virava para o lado para comentar com o meu irmão. Com a enorme familiaridade vem aquele quase senso interno dos comportamentos esperados, de como eles reagiriam, das interjeições que iriam fazer...
E uma certeza, para esse norte frio e fantástico: eu vou voltar. Nem que seja para testar a reação deles e ver se minhas previsões estavam certas - cada foto que eu registro é para as pessoas amadas que eu deixei, quase uma promessa de "um dia você vai vir aqui também!"
E o engraçado é que é uma saudade tão poderosa quanto o outro tipo, tão forte que você sente as pessoas lá ao seu lado - mas por momento algum isso me deixou triste ou melancólica. Pelo contrário, era nos momentos em que eu mais estava maravilhada ou me divertindo horrores que vinha o pensamento, aquele paradoxo de ausência-presença que fazia com que gente tão longe estivesse perto, justamente nas horas em que fica mais evidente que as pessoas que estão mais perto do meu coração estão longe.
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Estocolmo, Abril de 2014
A saudade que me aperta agora, já de volta em Estocolmo e com dias de solidão autoimposta para escrever trabalhos, já é um pouquinho diferente.
Olho para as fotos penduradas nas paredes do meu quarto, e as imagens das pessoas queridas não são só figuras no papel, mas são momentos que eu vivi de uma forma ou outra, é uma viagem com a família, é um abraço de amigos, é um beijo de namorado... São pedaços de mim que eu represento em imagem, para me lembrar que, mesmo que fisicamente, eu não estou sozinha.
Mas ah, quem disse que isso faz a saudade toda ir embora?
Enquanto estou distraída com os estudos, até que vai - mesmo que eu estivesse em casa, com a família toda em volta, eles só veriam uma sombra quimicamente dependente de cafeína rondando a cozinha de vez em quando, enterrada em livros e escrevendo freneticamente no computador. Mas no momento que eu fecho o livro e o quarto está vazio, ou quando estou cansada demais para continuar, mas não tem alguém para conversar... Ah, é difícil. Quanto mais tempo passo em casa, mais quieta ela fica, e só as vozes pelo skype me aliviam desse silêncio devorador de almas que é a solidão. Não consigo nem imaginar como era para as pessoas nos tempos de antigamente, quando as cartas demoravam meses para chegar. Porque mesmo com todas as facilidades da vida digital, ainda não encontraram uma forma de traduzir o toque, de traduzir o cheiro e o conforto a presença física das pessoas amadas. Palavras no facebook não conseguem substituir a familiaridade da rotina conjunta; a convivência diária não cabe na janela do skype. As roupas de verão, que ainda não foram usadas e lavadas aqui, ainda tem o cheiro de casa, e eu sou pega de surpresa quando vou ajeitar as coisas no armário, uma coisa tão imediata e forte que meus olhos marejam antes de eu conseguir pensar. Quando não posso sair muito porque preciso estudar, meu quarto se torna o universo inteiro, e eu vejo o que é estar só.
Mas quando finalmente cumpro as obrigações, tudo o que quero é sair para a cidade e me cercar de gente, de sons, de cheiros e lugares, de estar no meio de gente e não estar só... Mas ainda estou solitária. Quando passeio sozinha nessa cidade que cada vez eu gosto mais, sempre fica aquela sensação de querer partilhar tudo aquilo que está acontecendo. Queria que minha família visse como eu já consigo pedir comida em sueco, ou que meu namorado andasse de mãos dadas comigo pelas ruas. Queria dividir cada barzinho legal que eu encontro, cada vista pitoresca, cada observação curiosa sobre os suecos...
Mas com ou sem companhia, a cidade é linda. Um quebra-cabeça de épocas e estilos arquitetônicos, com prédios de diferentes cores competindo pela atenção do olhar, com aquele trânsito que não pareceria nunca ser de uma capital - andar no meio da rua não é tão incomum assim -, mas uma população tão diversa que você não tem dúvida de que aqui não é o interior. Por trás da imagem estereotipada das pessoas loiras e altas, também falam sueco as gerações de imigrantes de todos os cantos do mundo, quebrando o monocromatismo da paisagem. Não existe nada estranho o suficiente que não possa ser usado nas ruas de Estocolmo - os suecos almofadinhas, impecáveis em seus penteados perfeitamente arrumados e casacos de inverno elegantes precisam dividir o espaço com gente que prefere adotar uma moda hipster dos anos 50, e punks com moicanos desafiadores de gravidade, e esportistas com suas roupas coladíssimas de inverno para fazer jogging, e isso somado a uma massa que não liga tanto assim pra estar elegante porque tem mais com o que se preocupar... E aí que se vislumbra um pouco da beleza da impessoalidade sueca: ninguém quer saber o que você quer dizer com as suas roupas. Contanto que você não fale nem toque nos suecos, tudo vai ficar bem. Mas isso é assunto para uma outra postagem...
O fato é que é fácil se apaixonar por Estocolmo. Toda vez que você pensa que está cansando da cidade, a linha de prédios se abre para mostrar que o que parecia metrópolezinha europeia pretensiosa na verdade era só mais uma ilha do arquipélago, e lá está o mar e as gaivotas e as pontes, enchendo tudo de uma beleza de derreter até a alma mais rancorosa com a cidade. Principalmente se o sol resolve dar as caras. Não raro no metrô, entre uma estação e outra, um vislumbre da paisagem me surpreendeu com as cores vivas que o sol projeta toda vez que aparece, deixando tudo mais real, menos nebuloso.
E foi andando assim, semi-perdida na orla do mar, que tive uma epifania: eu vou sentir saudades daqui. Não só da cidade que me fascina e que ainda quero explorar mais, mas com a Universidade, com a forma de vida tão diferente, com as pessoas ótimas que conheci aqui, com os cantinhos de calor humano no meio de uma cidade tão fria.
Minha volta para o Brasil será muito, mas muito comemorada - mas agora sei que nunca mais vou saber como é pertencer a um lugar só. Mesmo com a saudade me ardendo forte todos os dias, a cidade fica cada vez mais minha, e eu mais dela, e o por do sol de Brasília vai precisar abrir um espacinho no meu coração para acomodar as cerejeiras, as ilhas e o mar azul...
A partir de agora, sou e serei só saudade.


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