quinta-feira, 3 de abril de 2014

Spring fever!

Um dia depois que comecei a cantar a primavera, caiu uma nevasca, só pra me contradizer.

Janela da minha sala de aula no final de março: NEVE! 


Fiquei com dó das florzinhas enterradas pela neve, e por alguns dias só nevou e nevou, e quando todo mundo já ia pensando que os Starks estavam certos a qualquer momento e o Inverno estava, sim, chegando de volta, (isso foi uma piadinha de Game of Thrones, para os desavisados), vem um dia lindo e derrete a neve toda.

Podem nevar nas flores, mas não podem parar a primavera!

Até os óculos escuros eu pude tirar da mala! 


Desde então não nevou mais - só choveu um pouquinho de gelo agora no começo de abril - mas o tempo está definitivamente virando.

Posso ver isso na janela, com os corvos pegando galhos para fazer ninhos e brotinhos minúsculos despontando na ponta dos galhos nus da árvore na frente da minha casa. Posso ver pela grama, brotando com mais força e cobrindo algumas partes do meu caminho até a Universidade de florezinhas coloridas. Posso ver, enfim, pela beleza indescritível das cerejeiras nos jardins reais - Kungsträdgården. Mas, mesmo que passasse o dia inteiro com as janelas fechadas, sem olhar para o lado e sem ver uma única árvore, eu veria a primavera no lugar mais inusitado: nas pessoas suecas.

As cerejeiras estão começando a florir, e acho que vou ter que dedicar uma postagem inteira à lindeza que é o jardim real com seus corredores de cerejeiras... 

Quando chego na Universidade, seis graus lá fora e sol, eles já estão saindo de suas conchas de casacos e caras amarradas para sentar na grama, nos bancos e - meu Deus! - até conversar e sorrir na rua. É como se a humanidade deles tivesse hibernado, e seus sentimentos de afeição pela vida e pelas outras pessoas acordassem com os primeiros raios de sol, depois de um longo inverno de introversão e uma atitude quase robótica em relação à vida. Será que eles vão chegar no patamar de "simpáticos" até o verão? Veremos, veremos...

(e longe de mim dizer que os suecos são mal educados - uma análise de generalidades sobre os estocolmenses fica pra outro texto - mas, embora eles, em geral, educados e atenciosos nos serviços, mas não tente tocar nem falar com nenhum sueco fora de um contexto formal. Eles ficam incomodados)

Com os meus meses na Suécia, confesso que entendo agora esse curioso fenômeno das pessoas tirando a roupa ao menor sinal de um raio de sol. Sete graus lá fora, caminhando de casa para a aula, e eu não resisti à tentação de sentir um pouquinho do sol nos braços, do vento no corpo, de finalmente me livrar dessa prisão corporal de casacos e mais casacos...

O frio é relativo ao desespero por vitamina D

Quando o sol está batendo, até mesmo o vento frio não consegue afastar essa sensação de vitalidade que permeia o corpo, essa sensação de nova vida que parece que está só nas estações, mas acaba contagiando os seres humanos...

E aí, em rompantes de um filosofar sazonal, eu vejo os pontinhos coloridos na grama, os brotinhos nos galhos secos e as cerejeiras no jardim, e meus olhos se enchem de água.

A primavera enche a cidade dura de concreto de coisas tão frágeis que um pisão já amassa - essas flores cheias de frio, que teimam em brotar mesmo com o tempo inconstante. De uma em uma, pequenas, singelas, mas com uma força coletiva capaz de alterar o mundo a sua volta de uma forma! É um crescimento lento, mas ele está lá: a cada dia os brotos mais fortes, maiores, a cada dia as flores mais vistosas, brigando com a neve pela paisagem, resistindo ao vento e ao frio com pétalas finas, mas sabendo que já não é mais tempo de inverno. Agora o tempo é de tudo o que é jovem e brota da terra, de tudo o que é novo e cresce por cima das folhas secas, de tudo o que é colorido não por vaidade, mas por necessidade de cor na paisagem cinzenta.


É o momento de celebrar essa força diferente, essa força que não vem de ferro e fogo e de agressividade, mas de uma delicadeza que, por mais que seja frágil, é avassaladora quando vem. Quem, nesse mundo, pode entender por que chamar alguém de "florzinha" significa dizer que essa pessoa é fraca, quando uma florzinha espera enterrada no chão o inverno todo só por alguns dias de cor?  Longe de mim querer promover uma flor a símbolo de virilidade, justamente porque nenhum símbolo viril resiste ao tempo e às flores. Foi esse, no final das contas, meu aprendizado de ir visitar Waterloo (onde Napoleão perdeu a guerra) quando fui para a Bélgica. (mais uma postagem que eu estou devendo). Napoleão quis conquistar o mundo, milhares de pessoas e animais derramaram seus sangues em campos de batalha, mas os velhos canhões viram ferrugem, e todo o sangue da carnificina vira alimento da terra para, na próxima primavera, fazer crescer as flores. Os canhões que amassam flores não resistem à próxima estação, mas em sua coletividade cíclica, as flores são eternas. Talvez, enquanto não tivermos sucesso na macabra obstinação em destruir todas as condições de reprodução da natureza, as flores sempre acabem vencendo o canhão.





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