quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Kiruna, parte 4 - a aurora boreal

Sim, é isso aí mesmo
Eu demorei tanto para escrever essa postagem. Já fui e voltei de uma viagem, mas nem assim para conseguir escrever... Afinal, como você consegue descrever a aurora boreal?

Entenda, embora a foto seja muito bonita, e as palavras possam ser tão reais que até evoquem sensações quase físicas a quem lê, simplesmente não tem como descrever adequadamente todo o jogo sensorial, emocional e até espiritual (para quem pensa que tem alma) do que foi essa experiência.

Mas vou tentar começar.

Tínhamos acabado de chegar do passeio dos huskies, cansados, felizes e com um pouco de frio. Apesar de não ter tido a aurora até aquele momento, eu iria embora feliz - só os primeiros dias já foram experiências interessantíssimas para a vida toda.

Mas mal tínhamos chegado e tirado as muitas camadas de roupa que nos envolvia, quando começamos a ouvir gritos: conforme o combinado pelo acampamento, quem visse as luzes gritava NORTHERN LIGHTS para que todos os outros pudessem sair pra ver.

Na verdade, não precisavam ter falado -  ao longo das cerca de duas horas que ficamos lá fora, gritar exclamações de surpresa e amazement não era incomum, como quem aplaude e grita para um espetáculo fantástico. Só que gritávamos para o céu...


No começo, era uma coloração estranha entre as nuvens, como se alguém tivesse mexido com as cores do céu em algum editor de imagens, como algum efeito estranho de instagram de algum/a adolescente que gosta demais de filtros. Mas logo, uma linha tênue, quase como que um arco íris verde atravessou o céu, e as cores começavam.

O céu estava vivo, e dançava.

As luzes apareciam, ficavam mais brilhantes, variavam suavemente de posição e se acalmavam, até que ouvíssemos o próximo grito de surpresa e, do outro lado do horizonte, uma nova pincelada verde forte, que às vezes se mexia na frente dos nossos olhos, transformando a paisagem do céu, com sua solene e lenta rotação das estrelas, em uma transformação veloz e solene.

Eu me sentia como se o mundo pudesse acabar a qualquer instante, como se o céu estivesse sendo cortado por ecos de outra dimensão, e que a qualquer momento um anjo ia descer dali e dizer que era o dia do Juízo. Era como se outra dimensão invadisse a eternidade das estrelas, e o mero choque temporal pudesse destruir o tecido do nosso universo. Como uma humana formiguinha (que, ainda por cima adora ficção científica e literatura fantástica), com aquelas cores no céu parecia que qualquer coisa era possível.

A formiguinha nerd na frente do céu infinito
Mas não era só para os olhos que a aurora estava lá - a Lapônia, querendo ou não, ataca os seus sentidos por todos os lados.

Aquela foi a noite mais fria até agora, beirando os menos 30 graus, e por mais que eu quisesse deitar e ficar olhando para o céu até minhas pupilas congelarem, a dor no corpo causada pelo frio não deixava. Entre uma foto e outra, fazíamos polichinelos, corríamos olhando para cima ou inventávamos qualquer exercício bobo para manter nosso corpo quente, para enganar o frio que nos apertava com força. Depois de um tempo, mesmo depois de tudo ter anestesiado já, começa a arder e formigar de novo - e, acredite, entrar em algum lugar quente quase que piora a situação.

Depois que mal aguentava mais, eu e o Victor visitávamos a antesala da sauna, que tinha uma lareira, para conseguir ficar mais tempo vendo as luzes sem virar picolé.

O frio intenso, as luzes no céu, e aquele silêncio quase solene da neve cortado apenas pelos gritos de surpresas de quem via, "meu Deus, o céu está vivo!" 


Minhas palavras chegam ao limite nessas horas - o frio, a dor, o silêncio, a brancura da noite estrelada e uma bailarina lenta em cima do céu, deixando as pegadas de suas sapatilhas em verde...

Não, acho que não consigo mais. As metáforas soam estranhas, forçadas; as analogias não parecem nada com o que foi...

O que sei dizer é que, depois que voltei para o chalé, precisei ficar quase abraçada no aquecedor para, lentamente, fazer meu corpo voltar à sua temperatura normal.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Kiruna, parte 3: Huskies, snowmobiles e um hotel de gelo


O nosso último dia em Kiruna foi, de longe, o mais cheio - de passeios, de experiências, de tudo. Do começo até o final, acho que não paramos um minuto, e quando achava que já tinha tido o clímax e nada do que seguisse pudesse ser tão incrível, lá vinha a próxima coisa interessante para provar que eu estava errada...

De manhã fizemos um passeio para conhecer o Ice Hotel, mas não era só o destino que era peculiar: fomos para lá de Snowmobile, uma espécie de jet ski feito para a neve, o que em si já foi uma aventura. 

Luisa em pose de pin-up no Snowmobile: vulgar sem ser sexy. 

Sábado foi um dia cheio! Às 9:30 saiu o nosso primeiro tour, de snowmobile, para o hotel de gelo. Fomos em um grupo grande - mais de 40 pessoas! - mas isso só se sentiu na hora de colocar as roupas de inverno para sair. 

Sim, parecia a linha de partida de Mario Kart 

Macacão, meias, botas, balaclava, cachecol extra, luvas, capacete, óculos... 

Depois de colocar toda a indumentária, além de ter qualquer senso substituído pela única possibilidade de não congelar e morrer em alta velocidade na neve, me fez parecer um robocop friorento: 

Robocop gay, a julgar pelo cachecol embaixo, mas enfim... 
Os snowmobiles são como jets kis da neve, com trenós na frente, e é o meio de trnasporte ideal para esses meses congelados. É um pouco como dirigir uma moto, com suas inclinações todas... Deus, que medinho, como eu ia devagar! O bom mesmo era ficar sentada atrás, onde era mais estável e eu podia olhar para a paisagem linda.

Pra que correr se você pode aproveitar uma paisagem assim? 

Eu e o Lucas fomos até "demovidos" para o fim da linha de snowmobiles por nossa lerdeza. Mas vimos paisagens lindas na ida e, apesar da roupa toda, meu rosto e nariz congelavam. O negócio é que meus óculos embaçavam se eu colocasse o cachecol sobre o nariz. Sorte, né? Mas o frio era até suportável enquanto cruzávamos lagos congelados e florestas... 



Chegando no ice hotel (e olha que, quando fomos para a Lapônia, nem esperávamos isso como a principal atração), que coisa mais fantástica! 

Só essas construções de gelo já são impressionantes - mas esperem só para ver como é por dentro! 
O hotel é construído do zero todo ano, em outubro, para fechar e derreter inteiro em abril - é o típico exemplo do quanto a beleza é efêmera. 

E como... Todo ano é feito um concurso para artistas que queiram decorar os quartos, os locais de convivência e até a igreja (essa porta preta na foto acima). E a cada ano é uma coisa completamente diferente, feita por algum autor ou autora diferente, renascendo novo e diferente para se desfazer logo depois... Só esse fato já é incrível em si. 


A capela (consagrada pela igreja da Suécia) é feita por uma combinação de neve e gelo feita para o sol poder brilhar azul pelas paredes, como se fosse um mosaico...


Ela era toda esculpida com formas triangulares por dentro, e lá eram feitos muitos casamentos - na sua maioria, de suecos, mesmo - e até mesmo alguns batizados - de pessoas da região, principalmente. Mas veja bem, se precisassem acender alguma vela para a ocasião, só poderia ser por um curtíssimo período de tempo para não derreter ou sujar permanentemente o teto da igreja.



Em uma Europa cheia de igrejas que emanam seu sentido do sagrado através dos séculos que aguentaram, o que pensar de uma igreja que não dura mais do que uma estação? Ela é quase uma rosa de Adônis perto das catedrais que despontam no horizonte mesmo em Estocolmo - mas uma construção toda de neve desse jeito é arrepiante de se imaginar, mais ainda de entrar... Na Suécia extremamente agnóstica, é até engraçado pensar nos significados depositados nesse gelo. São casamentos, batizados, rituais da vida que talvez já tenham perdido o significado... Sou eu sozinha, então, que carrego comigo a ideia do sagrado para repousar nesses cantos tão remotos? 





Depois da igreja, entramos no hotel em si, e cada a recepção e os corredores já eram cheios de artes e desenhos. O artista que fez a recepção desse ano é um brasileiro - o mesmo que fez o logo da copa, pelo que falaram - com direito até a hashtag em português... 

#instalapônia #tinhaqueserbrasileiro #macacãohorrível #luvasruinsprahashtag #chapéudofinn 
Mas antes de entrar nos quartos, ainda tinha uma atração a mais: o ICE BAR! 



Para variar, estava tocando pink floyd quando eu decidi filmar. Para além de todas as esculturas e colunas e estruturas de gelo, tenho certeza que a coisa mais incrível que vocês vão ver nesse vídeo é como o meu cabelo consegue desafiar a gravidade, a moral, os bons costumes e até o decoro diplomático com esse formato bizarro. 

Nope, chapéu não é só para o frio nas orelhas. 
Depois disso, fomos visitar os quartos (e sem invadir a privacidade de ninguém, por favor...). É que, até as 18h, o hotel funciona como uma espécie de museu, e só depois os hóspedes podem fechar cortinas - veja bem, nada de portas. É que, como a estrutura é de gelo e neve, ela se acomoda ao longo do inverno, e se mesmo colunas que eram originalmente retas começam a torcer com o peso da neve, imagine só o que aconteceria com uma porta?! 

Sim, elas eram retas no começo da estação. Foram feitas para ficarem assim, claro, mas ainda sim, imagina só! 

Os hóspedes comem e vão ao banheiro em um prédio "quente" que fica logo ao lado, e também tem um alojamento diponível se não aguentarem o frio. Afinal, por mais que falem de como os iglus esquentam, basta lembrar que qualquer temperatura acima de zero graus faz o hotel inteiro derreter...


Enquanto haviam vários quartos "standard" quase iguais, alguns dos quartos eram assinados por artistas. Todo ano há um concurso para fazer cada um desses quartos, e os temas iam desde "antes do big bang", que é a foto acima, até Narciso, beijando seu próprio reflexo...

(preciso dizer que ficou meio que preso na hora de tirar a boca?) 
...ou o metrô de londres...

A cama ficava dentro do trem. Ge-ni-al. 
...ou uma paisagem de cidade...


...até coisas como ursos fazendo poledance.

Ser sexy na Lapônia é uma coisa muito difícil. 
Só sei que, de tantas fotos que foram tiradas, por mais que seja incrível olhar para tudo agora, posso dizer com segurança que não passa nem metade do que era a sensação de estar lá.


Se eu pudesse, passaria horas olhando para cada detalhe, cada reflexo de luz no gelo, cada curva da neve, cada detalhe bonito dos quartos, fruto de tantas horas de trabalho que, só do meu olhar e tocar, já anunciava que tinha pouco tempo de permanência naquela forma...


Pensar que aquele hotel todo é só água, e para a água ia voltar no verão, com uma forma tão trabalhada, mas só emprestada da natureza enquanto a temperatura permite... 


Para além do frio, alguém iria sinceramente querer dormir nesse hotel ao invés de ficar olhando para toda a estranheza do próprio quarto? 

Eu pulando com o unicórnio vai ser a última foto do ice hotel, eu juro! 

A volta de snowmobile foi mais pela emoção do que pela vista - fomos rápido, e nevava muito, a ponto de mal conseguirmos ver o que acontecia à nossa frente. Nada de outra margem do lago, ou mesmo a pessoa à nossa frente... Só o silêncio rasgado pelo motor do snowmobile. Eu juro que comecei a ouvir coisas nesse barulho. Um triângulo, às vezes até uma música inteira... Mas era mesmo um barulho ensurdecedor.

Depois do passeio, um kebab de carne de rena. Omnomnom, sério, delicioso. 
E uma cidra para acompanhar. Tem coisa mais sueca do que isso?

Descansar algumas horas, até dormir um pouco (dessa vez, ouvindo música catalã), e se preparar para a próxima experiência:

andar de trenó! Com huskies! Omg! 

Lá foi o mesmo procedimento de colocar roupa mais quente, mas dessa vez um pouco menor: só um chapéu peludo, sem balaclava. Foram os quatro no trenó, comigo na frente, e os cães latiam e uivavam, pulando, ansiosos. Um "yipp, yipp" e eles estavam correndo, um passeio mais lento, mas mesmo assim emocionante. E quieto. Podíamos ver e ouvir a floresta, podíamos ser parte daquilo ao invés de só cortar a paisagem fazendo barulho. É quase mágico andar assim, só ouvindo o estalo do trenó, os passos leves dos huskies e os sons da floresta congelada... 

Detalhes para os olhos creepies brilhando no escuro atrás... 
Foi mais difícil tirar foto dessa parte da viagem, embora a paisagem estivesse infinitamente bonita. Além de já ser noite, e ficar mais difícil fazer tudo com o flash, segurar no trenó era meio que prioridade sobre as fotos... Mas as fotos conseguem capturar muito pouco do foi - afinal, uma boa parte da experiência se prende muito aos outros sentidos. Em um momento, na volta, a lanterna do condutor ficou sem bateria e nós andamos um trecho no escuro... Acho que foi a melhor parte do passeio. sem nenhuma luz artificial, só as estrelas fracamente refletindo na neve e aquele silêncio que ficava ainda maior sem os estímulos visuais para se distraírem... As árvores eram sombras enormes em um mundo já sombrio, e parecia que estávamos longe de tudo que nos cerca e define tão facilmente, longe da luz elétrica, das cidades, das ruas ou do calor... 


E depois ainda chegamos em uma cabana, onde comemos pão e sopa de cogumelos, esquentados em uma fogueira.

Não sem antes fazer carinho nos cães que tinham nos levado, é claro. Eu achei que iriam ser bem treinados para cumprir sua tarefa, mas sérios e até agressivos... Mas eram uns fofos. Se derretiam com carinhos, cheiravam, pulavam e até ganhei uma lambida no nariz quando desavisada. TÃO FOFOS!  


O engraçado é que, com o domínio dos comandos verbais que os cachorros tinham, poderíamos dizer facilmente que eles sabem mais sueco do que eu. 

Os cães eram bastante bem treinados e tratados, sem chicotes ou xingamentos. Recebiam seus nomes de acordo com a posição que ocupam no trenó - alguns com nome de doce (honey, cherry, mint), de personagens de filmes ( como Gimli ou Sauron, hihi). Essa raça foi criada para estar em constante movimento, e ficam na neve sem problema, graças ao seu metabolismo de taxas altíssimas. Na verdade, quando passa de -40, eles só param os tours por causa dos turistas, já que os cachorros ficam até melhor nas temperaturas hiper baixas, porque esfriam seu corpo um pouquinho mais rápido, deixando-os mais confortáveis. Enquanto eles corriam, pareciam silenciosos e contentes, mas era só parar que começavam a chorar, cavar no chão e ficar impacientes. Nessa estação, ganhavam muita comida (em sua maior parte, carne congelada), mas no verão são alimentados bem menos, para que não morram por sobrecarga no fígado em mais ou menos dois anos. 

São tantos detalhes sobre esses cachorros peculiares que daria para ficar um tempão falando - como são diferentes, mas iguais, aos bichinhos que temos em casa. Afinal, quando estávamos na van voltando para o acampamento, Snow, um dos cachorros mais velhos, simplesmente entrou no porta malas e quis dar um passeio conosco. Depois de anos de puxar trenós, eles viram bichinhos de estimação. (eu já disse milhares de vezes o quanto eles são fofos, certo?) 

Depois de voltarmos para casa, e dar aquela olhadinha no termômetro chegando cada vez mais perto de 30...


...já estávamos conformados que tudo o que veríamos no céu tão perto do ártico eram estrelas. Elas estavam lindas no passeio de trenó, aliás - mas nada de colorido no céu. 

Mas com uma postagem grande assim - e com o tanto mais de fotos que ainda precisaria colocar - achei melhor separar em outra postagem a aurora boreal.

Basta dizer que, logo que voltamos para o hotel e estávamos começando a tirar as roupas e preparar as coisas para ir embora no dia seguinte, ouvimos os outros hóspedes gritando "THE LIGHTS!" 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Kiruna, parte 2: pular no lago congelado, correr descalça na neve.

Sim, eu fiz os dois logo no primeiro dia em Camp Alta.

Nos dois primeiros dias que ficamos lá - o final da tarde de quinta e o dia todo de sexta - não saímos do acampamento. Os dois passeios que iríamos fazer, por uma confusão na reserva, acabaram ficando para o mesmo dia, e o sábado vai ter, portanto, uma postagem separada para não cansar os olhos (sem falar na parte de colocar as fotos, que é sempre um pouco complicadinha).



Pois bem, Camp Alta. Ao invés de tendas congeladas que se imagina quando se fala em um acampamento na Lapônia, ficamos em um chalé quentinho com dois beliches e uma cozinha simpática.

Estrelando: meu pé com meias vermelhas. 

A parte de "acampamento" se aplicava mais ao serviço: nada de room service, comida pronta ou mesmo serviço de limpeza: desde fazer a comida até limpar o apartamento todo antes e depois, tudo éramos nós. Até a roupa de cama nós tínhamos que trazer, levando a situações divertidas como o Abominável Monstro do Edredom: 

Encontre a Luisa na foto. 


Assim, era um chalé bem aquecido e confortável, bem na beira do lago - mas mal dava para notar, já que só víamos uma imensidão de neve. Além dos chalés e do lago, dois quartos de fogueira, e a grande atração da primeira noite: a sauna.

No verão, ela flutua no lago, e no inverno, mal se nota - é só uma casa mais afastada. Demora 1h 30 para aquecer, e chega a 90°C para contrastar com o frio lá fora...

Depois de arrumarmos as nossas coisas, para não ficarmos só dentro de casa no jantar, fomos ver as fogueiras... E logo surgiu a ideia da sauna. No nosso 'tour' pelo acampamento, ouvimos que as pessoas suecas (e alemãs) vão peladas para a sauna (mista, obviamente), mas valia de qualquer jeito. Mas o mais divertido era o alçapão no chão da sauna, que dava direto para o lago gelado. Mas é claro que eu queria ver como era.  Como eu esqueci meu biquíni no Brasil, fui de calcinha colorida e um top, mesmo... E, no final, a sauna era tão quente que não só entramos no lago, mas também saímos correndo na nevel, descalços, para esfriar o corpo da sauna quentíssima.

Essa é a porta da sauna, e a neve na qual a gente saía correndo quando ficava quente demais. Não, não vou mostrar a foto do povo só de roupa de baixo correndo na neve. 

Maravilhosa a sensação de poder ir sem casaco para a neve, daquele frio que faz a gente se sentir vivo. Enquanto isso, com a gente estavam 3 chineses e um alemão. Duas chinesas estavam só de toalha, e o alemão queria estar sem sua toalha, e o chinês, só de roupa de baixo, tinha uma esposa que estava do lado de fora, só em função dele (questões de gênero nuncadormem). Mas o interessante é que nesse mundo de calor e umidade, tudo é possível - mexer assim com a temperatura do corpo nos faz sentir tão incrivelmente vivos! 

De repente, nosso corpo sozinho aguenta a neve, aguenta o lago gelado, aguenta tudo - embora o efeito logo passe e nos deixe tremendo e colocando mais água para evaporar nas pedras da sauna... 

Mas logo vem o desafio de sair - me secar com a toalha, botar as roupas de volta e enfrentar bravamente o frio até a casa, dessa vez sem as temperaturas altas do corpo para me ajudar. 

Vista do lago. Que lago? Esse aí, embaixo de 1 metro de gelo...



Na sexta, sem programação, foi o dia de nos divertirmos feito crianças na neve. 


Não há varinha mais mágica do que uma de gelo. Sério.

Que tal um belo piquenique no jardim?

Luisa, nos últimos segundos antes de cair espetacularmente no monte de neve à sua frente. 
Não preciso nem mencionar que essa neve toda nas calças jeans, que não são impermeáveis, viram água gelada em contato com o calor do corpo, certo? 

Também entramos em um iglu que alguns hóspedes europeus habilidosos construíram, e era um negócio super interessante... 

Algo como a suíte presidencial do acampamento, só que ao contrário. 


Confesso que não era lá a coisa mais quente do mundo, mas hey, era bem mais agradável a temperatura lá dentro do que fora...

Eu até construí um boneco de neve! Tudo bem que não ficou aquelas coisas (já que a minha habilidade de fazer bonecos de neve nunca tinha sido testada até agora), mas estava lá, pareendo mesmo um boneco, com bracinhos de galho e tudo! 

Behold the masterpiece! 

Tiramos a noite para beber vinho, comer pipoca, pizza e falar sobre as vicissitudes da vida. Muita nostalgia com música brasileira, muitos risos com a tentativa de traduzir as letras dos funks, e toda a delícia de mostrar para alguém o que é essa loucura diversa da música brasileira. Maravilha. Antes de comer (e ainda na esperança de ver a aurora boreal), eu e o Lucas fomos caminhar sobre o lago congelado enquanto os outros estavam tentando fazer cross country skiing. E nós dois atravessamos o lago de cabo a rabo, sentindo todo aquele medo primal das coisas que surgem no escuro na floresta que cercava as margens. O silêncio era tota e cada pequeno som nos fazia querer correr, mas ainda sim era tudo bonito - in a kind of a creepy way. Um silêncio que ameaça apagar você, esse pontinho indistinto na imensidão de árvores e neve. Difícil se sentir importante quando você é um pacotinho de calor indefeso no meio do ciclo extremo das estações. Na neve que abafa tudo e come até o som desajeitado dos seus passos.

Minha cara de "atravessei um lago gelado, agora bora pra casa que minha cara está tão congelada que eu nem consigo sorrir!" 
E as estrelas... Olhar as estrelas, coisa boba, quase me deu vontade de chorar. Que estrelas estranhas são essas no céu, sem meu cruzeiro do sul, sem as 3 marias... Céu limpo e o frio, tantas estrelas, mas não era o meu céu. Por que isso me afetou agora? O que há no céu, que isso me move? Talvez o fato de não ser o céu que minhas pessoas queridas olham. São sempre as pessoas que voltam à minha mente... E talvez também de lembrar do Sítio, desse meu lugar de ver estrelas...

Nossa, estar longe e sozinha é difícil. Eu me divirto muito, sim, mas está lá sempre a falta que faz, a separação doendo, sem um familiar ou pessoa mais próxima para aplacar minha saudade - para falar o que eu sinto, para encostar no ombro... Sinto isso mais ainda agora, sozinha em um trem, só ouvindo uma língua que eu não entendo. 

Foi muito bom estar com os meninos, ter um tempo para conversar, ter alguém com quem dividir as coisas todas que estavam acontecendo... Agora sozinha no trem, por contraste, isso me parece ainda mais precioso. 


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Kiruna, parte 1 - uma cidade perdida na neve


Frozen? Isso, bem isso. 


Precisei de quase uma semana para começar a escrever sobre Kiruna depois que eu voltei, e as razões para isso são tantas.

Primeiro, cheguei logo no dia de uma apresentação de trabalho, e como meu objetivo principal aqui é estudar, minha prioridade é acompanhar as leituras da matéria.

Segundo que há muita coisa ainda por processar - para poder contar de um lugar, acho que eu realmente preciso ter voltado completamente. Sacudir o gelo e a neve que enchiam os meus olhos, deixar esquentar por dentro tudo o que o frio tinha roubado e, principalmente, lidar com o estranhíssimo sentimento de voltar para Estocolmo e dizer ufa, estou em casa. Isso em si já dá uma daquelas postagens até sentimentais - mas ela virá só depois. Por agora, com as memórias mais sedimentadas e um fim de semana chuvoso começando, sento para escrever sobre Kiruna.

A ideia da viagem em si foi bastante inusitada - mal tínhamos chegado aqui quando o Lucas (amigo que ficou em Estocolmo no último semestre) nos chamou para formarmos um grupo para alugar um lugar para quatro pessoas em um camping. Sim, um camping. Na Lapônia. -30 graus. Aurora boreal. Renas. Trenós de huskies...

Enfim, Lapônia. 


Claro que, a essa altura, a ideia de acampar no gelo pareça realmente bizarra. Basta dizer que o camping é, em verdade, uma série de chalés muito bem aquecidos (mais quentes do que o meu quarto em Estocolmo nesse momento) , mas só o impacto de dizer "vou para um camping na Lapônia" já valeu...

Dançando no ritmo dos preços mais baratos possíveis, fomos de avião na quinta-feira para voltar, de domingo para segunda, de trem. A maior parte do relato de viagem, escrito no caderno, foi feita, aliás, nas 16 horas que demorou para cruzar o país de trem e voltar para Estocolmo.

Vou cruzar a Suécia de trem - sair de Kiruna, o município mais ao norte da Suécia e um dos mais boreais do mundo, até Estocolmo, meu lar por esse tempo, e bastante ao sul. De -28°C até os +3°C que fez com que a neve derretesse lá em casa. Serão 16 horas de viagem, mais algum bom tempinho de espera, e não há lugar melhor para começar a fazer meu primeiro relato de viagem desses 6 meses de Europa... 

Primeira, e muito impactante. Assim como ir para Ushuaia em março de 2012 me impressionou muito, ir ao extremo Norte também me deixa suas marcas... Ainda mais agora no inverno. 

Eu já estava me sentindo no frio nos -6°C de casa, então foi com grande cautela que eu levei minhas roupas mais quentes para Kiruna, levando até mesmo dois casacos pesados ao invés de um só. O vôo em si foi tranquilo, depois da aventura que foi chegar no aeroporto usando apenas o transporte público regular, mas já descemos da aeronave direito para o ar livre, e o choque foi imediato.



Sim. Neve na pista na aterrizagem, tanto que não dá nem para ver o asfalto preto embaixo. Neve que fazia os nossos passos afundarem na hora de pisar no chão, e isso mesmo no aeroporto! Parece que a neve é tão persistente por lá (outubro a abril, ao que parece) que não faz sentido nenhum tirar neve da maior parte dos lugares - é um segundo chão, e é preciso simplesmente conviver com isso. 

Para além do corpo muito coberto, o rosto queimava e gelava ao ponto de anestesiar em poucos segundos. Eram 2 horas da tarde e o sol já estava perto de se por, mas ainda iluminava a neve de uma forma que emprestava um brilho quase confortável à branquidão imensa. Mas esse sol - não se enganem - não esquentava nada. É luz para os olhos, mas não para a pele. Você só sente mesmo a diferença que o sol faz quando ele se vai e faz frio.


Chegamos em Kiruna com um ônibus, e esperamos no centro da cidade, comprando nossa comida para o acampamento. Enquanto esperava na estação, coletei alguns dados curioso:

1. Aqui fica a maior mina de ferro do mundo, razão pela qual a cidade existe (afinal, peloamordedeus, por que alguém iria querer viver nesse frio?)

2. Além do turismo ártico e da mineração, Kiruna é o local onde a Suécia faz toda sua pesquisa especial. Yay, cidade de astronautas!

3. Por causa da mineração, todo o centro da cidade vai ser movido para outro lugar. Isso mesmo, uma cidade inteira mudando de lugar. Não que seja lá um negócio muito grande, mas para toda a propaganda de que essa mina é uma mina "verde", os impactos são grandes.



4. Eles tem pouco sol agora mas, de dezembro a janeiro, não há sol nenhum. Isso se compensa no verão, quando há um mês com sol direto, mas ouch! Um mês sem sol?

5. É um dos maiores municípios da Suécia, e onde fica a montanha mais alta do país.

6. Os Sámi, povo indígena do Norte, ainda tem 4 povoados que se dedicam, principalmente, à criação de renas.

7. Aqui a neve chega a outro nível. 



Não estamos falando de algo que muda a paisagem, mas de um elemento deformador e formador de tudo o que se pode ver e fazer. Qualquer superfície, por mais despretensiosa que seja, se cobre de alguns dedos de altura de neve, e tudo, tudo congela ou regela. O pobre corpo humano trabalha muito para se segurar, produzir o calor que sai pela respiração, pelo vão do casaco, pelas mãos. Queimauras de frio, pele seca deixada pelo congelamento de toda a água que tinha...

E neve de outubro a abril.

As árvores não se cobrem de neve só... Elas SÃO neve, inteiramente cobertas ou congeladas, curvadas pelo peso, milhares de braços brancos retorcido. Até o verde dos pinheiros fica cinzento. A paisagem, além de monocromática, engana o chão. Daqui do trem eu vejo algumas copas de árvores - e um ou outro galho de plantas totalmente soterradas. 

Lagos viram estradas, com mais de 1 m de gelo, só uns tocos congelados de cais lembram que há água ali dentro... 

A paisagem é monótona, mas imensamente complexa em sua unicidade. A neve curva e dobra os pinheiros mais orgulhosos, e me faz perguntar se algumas das árvores conseguem se recuperar no verão ou ficam sempre curvadas e mirradas desse jeito. As árvores nã oconíferas, entõa, são de dar pena. Parecem curvadas de derrota, de orgulho ferido por  uma força inexorável, prostradas no chão. São essas as florestas do desconhecido, do medo infantil, das sombras longas e das árvores ameaçadoras. A ameaça do eterno inverno das mitologias faz muito mais sentido agora. São frios os dedos da morte. É estéril e uniformizante e onipresente a neve, descolorindo e matando e gelando tudo. Mas nossa, ainda é lindo.