terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Kiruna, parte 3: Huskies, snowmobiles e um hotel de gelo


O nosso último dia em Kiruna foi, de longe, o mais cheio - de passeios, de experiências, de tudo. Do começo até o final, acho que não paramos um minuto, e quando achava que já tinha tido o clímax e nada do que seguisse pudesse ser tão incrível, lá vinha a próxima coisa interessante para provar que eu estava errada...

De manhã fizemos um passeio para conhecer o Ice Hotel, mas não era só o destino que era peculiar: fomos para lá de Snowmobile, uma espécie de jet ski feito para a neve, o que em si já foi uma aventura. 

Luisa em pose de pin-up no Snowmobile: vulgar sem ser sexy. 

Sábado foi um dia cheio! Às 9:30 saiu o nosso primeiro tour, de snowmobile, para o hotel de gelo. Fomos em um grupo grande - mais de 40 pessoas! - mas isso só se sentiu na hora de colocar as roupas de inverno para sair. 

Sim, parecia a linha de partida de Mario Kart 

Macacão, meias, botas, balaclava, cachecol extra, luvas, capacete, óculos... 

Depois de colocar toda a indumentária, além de ter qualquer senso substituído pela única possibilidade de não congelar e morrer em alta velocidade na neve, me fez parecer um robocop friorento: 

Robocop gay, a julgar pelo cachecol embaixo, mas enfim... 
Os snowmobiles são como jets kis da neve, com trenós na frente, e é o meio de trnasporte ideal para esses meses congelados. É um pouco como dirigir uma moto, com suas inclinações todas... Deus, que medinho, como eu ia devagar! O bom mesmo era ficar sentada atrás, onde era mais estável e eu podia olhar para a paisagem linda.

Pra que correr se você pode aproveitar uma paisagem assim? 

Eu e o Lucas fomos até "demovidos" para o fim da linha de snowmobiles por nossa lerdeza. Mas vimos paisagens lindas na ida e, apesar da roupa toda, meu rosto e nariz congelavam. O negócio é que meus óculos embaçavam se eu colocasse o cachecol sobre o nariz. Sorte, né? Mas o frio era até suportável enquanto cruzávamos lagos congelados e florestas... 



Chegando no ice hotel (e olha que, quando fomos para a Lapônia, nem esperávamos isso como a principal atração), que coisa mais fantástica! 

Só essas construções de gelo já são impressionantes - mas esperem só para ver como é por dentro! 
O hotel é construído do zero todo ano, em outubro, para fechar e derreter inteiro em abril - é o típico exemplo do quanto a beleza é efêmera. 

E como... Todo ano é feito um concurso para artistas que queiram decorar os quartos, os locais de convivência e até a igreja (essa porta preta na foto acima). E a cada ano é uma coisa completamente diferente, feita por algum autor ou autora diferente, renascendo novo e diferente para se desfazer logo depois... Só esse fato já é incrível em si. 


A capela (consagrada pela igreja da Suécia) é feita por uma combinação de neve e gelo feita para o sol poder brilhar azul pelas paredes, como se fosse um mosaico...


Ela era toda esculpida com formas triangulares por dentro, e lá eram feitos muitos casamentos - na sua maioria, de suecos, mesmo - e até mesmo alguns batizados - de pessoas da região, principalmente. Mas veja bem, se precisassem acender alguma vela para a ocasião, só poderia ser por um curtíssimo período de tempo para não derreter ou sujar permanentemente o teto da igreja.



Em uma Europa cheia de igrejas que emanam seu sentido do sagrado através dos séculos que aguentaram, o que pensar de uma igreja que não dura mais do que uma estação? Ela é quase uma rosa de Adônis perto das catedrais que despontam no horizonte mesmo em Estocolmo - mas uma construção toda de neve desse jeito é arrepiante de se imaginar, mais ainda de entrar... Na Suécia extremamente agnóstica, é até engraçado pensar nos significados depositados nesse gelo. São casamentos, batizados, rituais da vida que talvez já tenham perdido o significado... Sou eu sozinha, então, que carrego comigo a ideia do sagrado para repousar nesses cantos tão remotos? 





Depois da igreja, entramos no hotel em si, e cada a recepção e os corredores já eram cheios de artes e desenhos. O artista que fez a recepção desse ano é um brasileiro - o mesmo que fez o logo da copa, pelo que falaram - com direito até a hashtag em português... 

#instalapônia #tinhaqueserbrasileiro #macacãohorrível #luvasruinsprahashtag #chapéudofinn 
Mas antes de entrar nos quartos, ainda tinha uma atração a mais: o ICE BAR! 



Para variar, estava tocando pink floyd quando eu decidi filmar. Para além de todas as esculturas e colunas e estruturas de gelo, tenho certeza que a coisa mais incrível que vocês vão ver nesse vídeo é como o meu cabelo consegue desafiar a gravidade, a moral, os bons costumes e até o decoro diplomático com esse formato bizarro. 

Nope, chapéu não é só para o frio nas orelhas. 
Depois disso, fomos visitar os quartos (e sem invadir a privacidade de ninguém, por favor...). É que, até as 18h, o hotel funciona como uma espécie de museu, e só depois os hóspedes podem fechar cortinas - veja bem, nada de portas. É que, como a estrutura é de gelo e neve, ela se acomoda ao longo do inverno, e se mesmo colunas que eram originalmente retas começam a torcer com o peso da neve, imagine só o que aconteceria com uma porta?! 

Sim, elas eram retas no começo da estação. Foram feitas para ficarem assim, claro, mas ainda sim, imagina só! 

Os hóspedes comem e vão ao banheiro em um prédio "quente" que fica logo ao lado, e também tem um alojamento diponível se não aguentarem o frio. Afinal, por mais que falem de como os iglus esquentam, basta lembrar que qualquer temperatura acima de zero graus faz o hotel inteiro derreter...


Enquanto haviam vários quartos "standard" quase iguais, alguns dos quartos eram assinados por artistas. Todo ano há um concurso para fazer cada um desses quartos, e os temas iam desde "antes do big bang", que é a foto acima, até Narciso, beijando seu próprio reflexo...

(preciso dizer que ficou meio que preso na hora de tirar a boca?) 
...ou o metrô de londres...

A cama ficava dentro do trem. Ge-ni-al. 
...ou uma paisagem de cidade...


...até coisas como ursos fazendo poledance.

Ser sexy na Lapônia é uma coisa muito difícil. 
Só sei que, de tantas fotos que foram tiradas, por mais que seja incrível olhar para tudo agora, posso dizer com segurança que não passa nem metade do que era a sensação de estar lá.


Se eu pudesse, passaria horas olhando para cada detalhe, cada reflexo de luz no gelo, cada curva da neve, cada detalhe bonito dos quartos, fruto de tantas horas de trabalho que, só do meu olhar e tocar, já anunciava que tinha pouco tempo de permanência naquela forma...


Pensar que aquele hotel todo é só água, e para a água ia voltar no verão, com uma forma tão trabalhada, mas só emprestada da natureza enquanto a temperatura permite... 


Para além do frio, alguém iria sinceramente querer dormir nesse hotel ao invés de ficar olhando para toda a estranheza do próprio quarto? 

Eu pulando com o unicórnio vai ser a última foto do ice hotel, eu juro! 

A volta de snowmobile foi mais pela emoção do que pela vista - fomos rápido, e nevava muito, a ponto de mal conseguirmos ver o que acontecia à nossa frente. Nada de outra margem do lago, ou mesmo a pessoa à nossa frente... Só o silêncio rasgado pelo motor do snowmobile. Eu juro que comecei a ouvir coisas nesse barulho. Um triângulo, às vezes até uma música inteira... Mas era mesmo um barulho ensurdecedor.

Depois do passeio, um kebab de carne de rena. Omnomnom, sério, delicioso. 
E uma cidra para acompanhar. Tem coisa mais sueca do que isso?

Descansar algumas horas, até dormir um pouco (dessa vez, ouvindo música catalã), e se preparar para a próxima experiência:

andar de trenó! Com huskies! Omg! 

Lá foi o mesmo procedimento de colocar roupa mais quente, mas dessa vez um pouco menor: só um chapéu peludo, sem balaclava. Foram os quatro no trenó, comigo na frente, e os cães latiam e uivavam, pulando, ansiosos. Um "yipp, yipp" e eles estavam correndo, um passeio mais lento, mas mesmo assim emocionante. E quieto. Podíamos ver e ouvir a floresta, podíamos ser parte daquilo ao invés de só cortar a paisagem fazendo barulho. É quase mágico andar assim, só ouvindo o estalo do trenó, os passos leves dos huskies e os sons da floresta congelada... 

Detalhes para os olhos creepies brilhando no escuro atrás... 
Foi mais difícil tirar foto dessa parte da viagem, embora a paisagem estivesse infinitamente bonita. Além de já ser noite, e ficar mais difícil fazer tudo com o flash, segurar no trenó era meio que prioridade sobre as fotos... Mas as fotos conseguem capturar muito pouco do foi - afinal, uma boa parte da experiência se prende muito aos outros sentidos. Em um momento, na volta, a lanterna do condutor ficou sem bateria e nós andamos um trecho no escuro... Acho que foi a melhor parte do passeio. sem nenhuma luz artificial, só as estrelas fracamente refletindo na neve e aquele silêncio que ficava ainda maior sem os estímulos visuais para se distraírem... As árvores eram sombras enormes em um mundo já sombrio, e parecia que estávamos longe de tudo que nos cerca e define tão facilmente, longe da luz elétrica, das cidades, das ruas ou do calor... 


E depois ainda chegamos em uma cabana, onde comemos pão e sopa de cogumelos, esquentados em uma fogueira.

Não sem antes fazer carinho nos cães que tinham nos levado, é claro. Eu achei que iriam ser bem treinados para cumprir sua tarefa, mas sérios e até agressivos... Mas eram uns fofos. Se derretiam com carinhos, cheiravam, pulavam e até ganhei uma lambida no nariz quando desavisada. TÃO FOFOS!  


O engraçado é que, com o domínio dos comandos verbais que os cachorros tinham, poderíamos dizer facilmente que eles sabem mais sueco do que eu. 

Os cães eram bastante bem treinados e tratados, sem chicotes ou xingamentos. Recebiam seus nomes de acordo com a posição que ocupam no trenó - alguns com nome de doce (honey, cherry, mint), de personagens de filmes ( como Gimli ou Sauron, hihi). Essa raça foi criada para estar em constante movimento, e ficam na neve sem problema, graças ao seu metabolismo de taxas altíssimas. Na verdade, quando passa de -40, eles só param os tours por causa dos turistas, já que os cachorros ficam até melhor nas temperaturas hiper baixas, porque esfriam seu corpo um pouquinho mais rápido, deixando-os mais confortáveis. Enquanto eles corriam, pareciam silenciosos e contentes, mas era só parar que começavam a chorar, cavar no chão e ficar impacientes. Nessa estação, ganhavam muita comida (em sua maior parte, carne congelada), mas no verão são alimentados bem menos, para que não morram por sobrecarga no fígado em mais ou menos dois anos. 

São tantos detalhes sobre esses cachorros peculiares que daria para ficar um tempão falando - como são diferentes, mas iguais, aos bichinhos que temos em casa. Afinal, quando estávamos na van voltando para o acampamento, Snow, um dos cachorros mais velhos, simplesmente entrou no porta malas e quis dar um passeio conosco. Depois de anos de puxar trenós, eles viram bichinhos de estimação. (eu já disse milhares de vezes o quanto eles são fofos, certo?) 

Depois de voltarmos para casa, e dar aquela olhadinha no termômetro chegando cada vez mais perto de 30...


...já estávamos conformados que tudo o que veríamos no céu tão perto do ártico eram estrelas. Elas estavam lindas no passeio de trenó, aliás - mas nada de colorido no céu. 

Mas com uma postagem grande assim - e com o tanto mais de fotos que ainda precisaria colocar - achei melhor separar em outra postagem a aurora boreal.

Basta dizer que, logo que voltamos para o hotel e estávamos começando a tirar as roupas e preparar as coisas para ir embora no dia seguinte, ouvimos os outros hóspedes gritando "THE LIGHTS!" 

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