quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Kiruna, parte 4 - a aurora boreal

Sim, é isso aí mesmo
Eu demorei tanto para escrever essa postagem. Já fui e voltei de uma viagem, mas nem assim para conseguir escrever... Afinal, como você consegue descrever a aurora boreal?

Entenda, embora a foto seja muito bonita, e as palavras possam ser tão reais que até evoquem sensações quase físicas a quem lê, simplesmente não tem como descrever adequadamente todo o jogo sensorial, emocional e até espiritual (para quem pensa que tem alma) do que foi essa experiência.

Mas vou tentar começar.

Tínhamos acabado de chegar do passeio dos huskies, cansados, felizes e com um pouco de frio. Apesar de não ter tido a aurora até aquele momento, eu iria embora feliz - só os primeiros dias já foram experiências interessantíssimas para a vida toda.

Mas mal tínhamos chegado e tirado as muitas camadas de roupa que nos envolvia, quando começamos a ouvir gritos: conforme o combinado pelo acampamento, quem visse as luzes gritava NORTHERN LIGHTS para que todos os outros pudessem sair pra ver.

Na verdade, não precisavam ter falado -  ao longo das cerca de duas horas que ficamos lá fora, gritar exclamações de surpresa e amazement não era incomum, como quem aplaude e grita para um espetáculo fantástico. Só que gritávamos para o céu...


No começo, era uma coloração estranha entre as nuvens, como se alguém tivesse mexido com as cores do céu em algum editor de imagens, como algum efeito estranho de instagram de algum/a adolescente que gosta demais de filtros. Mas logo, uma linha tênue, quase como que um arco íris verde atravessou o céu, e as cores começavam.

O céu estava vivo, e dançava.

As luzes apareciam, ficavam mais brilhantes, variavam suavemente de posição e se acalmavam, até que ouvíssemos o próximo grito de surpresa e, do outro lado do horizonte, uma nova pincelada verde forte, que às vezes se mexia na frente dos nossos olhos, transformando a paisagem do céu, com sua solene e lenta rotação das estrelas, em uma transformação veloz e solene.

Eu me sentia como se o mundo pudesse acabar a qualquer instante, como se o céu estivesse sendo cortado por ecos de outra dimensão, e que a qualquer momento um anjo ia descer dali e dizer que era o dia do Juízo. Era como se outra dimensão invadisse a eternidade das estrelas, e o mero choque temporal pudesse destruir o tecido do nosso universo. Como uma humana formiguinha (que, ainda por cima adora ficção científica e literatura fantástica), com aquelas cores no céu parecia que qualquer coisa era possível.

A formiguinha nerd na frente do céu infinito
Mas não era só para os olhos que a aurora estava lá - a Lapônia, querendo ou não, ataca os seus sentidos por todos os lados.

Aquela foi a noite mais fria até agora, beirando os menos 30 graus, e por mais que eu quisesse deitar e ficar olhando para o céu até minhas pupilas congelarem, a dor no corpo causada pelo frio não deixava. Entre uma foto e outra, fazíamos polichinelos, corríamos olhando para cima ou inventávamos qualquer exercício bobo para manter nosso corpo quente, para enganar o frio que nos apertava com força. Depois de um tempo, mesmo depois de tudo ter anestesiado já, começa a arder e formigar de novo - e, acredite, entrar em algum lugar quente quase que piora a situação.

Depois que mal aguentava mais, eu e o Victor visitávamos a antesala da sauna, que tinha uma lareira, para conseguir ficar mais tempo vendo as luzes sem virar picolé.

O frio intenso, as luzes no céu, e aquele silêncio quase solene da neve cortado apenas pelos gritos de surpresas de quem via, "meu Deus, o céu está vivo!" 


Minhas palavras chegam ao limite nessas horas - o frio, a dor, o silêncio, a brancura da noite estrelada e uma bailarina lenta em cima do céu, deixando as pegadas de suas sapatilhas em verde...

Não, acho que não consigo mais. As metáforas soam estranhas, forçadas; as analogias não parecem nada com o que foi...

O que sei dizer é que, depois que voltei para o chalé, precisei ficar quase abraçada no aquecedor para, lentamente, fazer meu corpo voltar à sua temperatura normal.

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