Nos dois primeiros dias que ficamos lá - o final da tarde de quinta e o dia todo de sexta - não saímos do acampamento. Os dois passeios que iríamos fazer, por uma confusão na reserva, acabaram ficando para o mesmo dia, e o sábado vai ter, portanto, uma postagem separada para não cansar os olhos (sem falar na parte de colocar as fotos, que é sempre um pouco complicadinha).
Pois bem, Camp Alta. Ao invés de tendas congeladas que se imagina quando se fala em um acampamento na Lapônia, ficamos em um chalé quentinho com dois beliches e uma cozinha simpática.
| Estrelando: meu pé com meias vermelhas. |
A parte de "acampamento" se aplicava mais ao serviço: nada de room service, comida pronta ou mesmo serviço de limpeza: desde fazer a comida até limpar o apartamento todo antes e depois, tudo éramos nós. Até a roupa de cama nós tínhamos que trazer, levando a situações divertidas como o Abominável Monstro do Edredom:
| Encontre a Luisa na foto. |
Assim, era um chalé bem aquecido e confortável, bem na beira do lago - mas mal dava para notar, já que só víamos uma imensidão de neve. Além dos chalés e do lago, dois quartos de fogueira, e a grande atração da primeira noite: a sauna.
No verão, ela flutua no lago, e no inverno, mal se nota - é só uma casa mais afastada. Demora 1h 30 para aquecer, e chega a 90°C para contrastar com o frio lá fora...
Depois de arrumarmos as nossas coisas, para não ficarmos só dentro de casa no jantar, fomos ver as fogueiras... E logo surgiu a ideia da sauna. No nosso 'tour' pelo acampamento, ouvimos que as pessoas suecas (e alemãs) vão peladas para a sauna (mista, obviamente), mas valia de qualquer jeito. Mas o mais divertido era o alçapão no chão da sauna, que dava direto para o lago gelado. Mas é claro que eu queria ver como era. Como eu esqueci meu biquíni no Brasil, fui de calcinha colorida e um top, mesmo... E, no final, a sauna era tão quente que não só entramos no lago, mas também saímos correndo na nevel, descalços, para esfriar o corpo da sauna quentíssima.
| Essa é a porta da sauna, e a neve na qual a gente saía correndo quando ficava quente demais. Não, não vou mostrar a foto do povo só de roupa de baixo correndo na neve. |
Maravilhosa a sensação de poder ir sem casaco para a neve, daquele frio que faz a gente se sentir vivo. Enquanto isso, com a gente estavam 3 chineses e um alemão. Duas chinesas estavam só de toalha, e o alemão queria estar sem sua toalha, e o chinês, só de roupa de baixo, tinha uma esposa que estava do lado de fora, só em função dele (questões de gênero nuncadormem). Mas o interessante é que nesse mundo de calor e umidade, tudo é possível - mexer assim com a temperatura do corpo nos faz sentir tão incrivelmente vivos!
De repente, nosso corpo sozinho aguenta a neve, aguenta o lago gelado, aguenta tudo - embora o efeito logo passe e nos deixe tremendo e colocando mais água para evaporar nas pedras da sauna...
Mas logo vem o desafio de sair - me secar com a toalha, botar as roupas de volta e enfrentar bravamente o frio até a casa, dessa vez sem as temperaturas altas do corpo para me ajudar.
| Vista do lago. Que lago? Esse aí, embaixo de 1 metro de gelo... |
Na sexta, sem programação, foi o dia de nos divertirmos feito crianças na neve.
| Não há varinha mais mágica do que uma de gelo. Sério. |
| Que tal um belo piquenique no jardim? |
| Luisa, nos últimos segundos antes de cair espetacularmente no monte de neve à sua frente. |
| Não preciso nem mencionar que essa neve toda nas calças jeans, que não são impermeáveis, viram água gelada em contato com o calor do corpo, certo? |
Também entramos em um iglu que alguns hóspedes europeus habilidosos construíram, e era um negócio super interessante...
| Algo como a suíte presidencial do acampamento, só que ao contrário. |
Confesso que não era lá a coisa mais quente do mundo, mas hey, era bem mais agradável a temperatura lá dentro do que fora...
Eu até construí um boneco de neve! Tudo bem que não ficou aquelas coisas (já que a minha habilidade de fazer bonecos de neve nunca tinha sido testada até agora), mas estava lá, pareendo mesmo um boneco, com bracinhos de galho e tudo!
| Behold the masterpiece! |
Tiramos a noite para beber vinho, comer pipoca, pizza e falar sobre as vicissitudes da vida. Muita nostalgia com música brasileira, muitos risos com a tentativa de traduzir as letras dos funks, e toda a delícia de mostrar para alguém o que é essa loucura diversa da música brasileira. Maravilha. Antes de comer (e ainda na esperança de ver a aurora boreal), eu e o Lucas fomos caminhar sobre o lago congelado enquanto os outros estavam tentando fazer cross country skiing. E nós dois atravessamos o lago de cabo a rabo, sentindo todo aquele medo primal das coisas que surgem no escuro na floresta que cercava as margens. O silêncio era tota e cada pequeno som nos fazia querer correr, mas ainda sim era tudo bonito - in a kind of a creepy way. Um silêncio que ameaça apagar você, esse pontinho indistinto na imensidão de árvores e neve. Difícil se sentir importante quando você é um pacotinho de calor indefeso no meio do ciclo extremo das estações. Na neve que abafa tudo e come até o som desajeitado dos seus passos.
| Minha cara de "atravessei um lago gelado, agora bora pra casa que minha cara está tão congelada que eu nem consigo sorrir!" |
E as estrelas... Olhar as estrelas, coisa boba, quase me deu vontade de chorar. Que estrelas estranhas são essas no céu, sem meu cruzeiro do sul, sem as 3 marias... Céu limpo e o frio, tantas estrelas, mas não era o meu céu. Por que isso me afetou agora? O que há no céu, que isso me move? Talvez o fato de não ser o céu que minhas pessoas queridas olham. São sempre as pessoas que voltam à minha mente... E talvez também de lembrar do Sítio, desse meu lugar de ver estrelas...
Nossa, estar longe e sozinha é difícil. Eu me divirto muito, sim, mas está lá sempre a falta que faz, a separação doendo, sem um familiar ou pessoa mais próxima para aplacar minha saudade - para falar o que eu sinto, para encostar no ombro... Sinto isso mais ainda agora, sozinha em um trem, só ouvindo uma língua que eu não entendo.
Foi muito bom estar com os meninos, ter um tempo para conversar, ter alguém com quem dividir as coisas todas que estavam acontecendo... Agora sozinha no trem, por contraste, isso me parece ainda mais precioso.
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