sexta-feira, 13 de maio de 2011

Contra o tempo (e contra o método...)


Esse post foi escrito para ser postado ontem de madrugada, mas como o blogger saiu do ar, vai agora mesmo ^^ 



""Eu deveria estar dormindo" - provavelmente essa frase será ouvida lida inúmeras vezes ao longo de tantas viagens - talvez porque a noite seja minha mãe criativa, talvez porque a calma e o escuro sejam o berço de palavras - ou talvez porque fico sem tempo mesmo durante o dia.

Minhas olheiras me dizem que a Universidade conseguiu tomar uma parte considerável de meus dias - para enchê-los de pessoas e livros, queridos e fascinantes - mas também não tenho muito o que reclamar. Minha mãe fez duas faculdades e trabalhou ao mesmo tempo, e conseguia balancear tudo e cumprir bem suas tarefas - sem falar nas tantas mulheres que contam com uma dupla, tripla jornada de trabalho e não tem este trabalho sequer reconhecido...

Começo então, reconhecendo o meu privilégio de poder me dedicar exclusivamente aos estudos - e talvez seja por esse reconhecimento que eu quero beber de forma sedenta cada gotinha de experiência que eu puder ter, mergulhar de cabeça em tudo o que eu puder explorar, aprender, conhecer...

...mas se engana redondamente quem pensa que isso significa pegar um monte de matérias, assistir todas as aulas e tirar as melhores notas possíveis...

Afinal, isso é apenas uma das (muitas) possibilidades.

Indubitavelmente, precisamos todos estudar, mas como, no meio de tantas coisas interessantes acontecendo, e livros outros para ler, e "pessoas diferenciadas" (hehehe) para conhecer e conversar e aprender imensamente...  Além disso, como estruturar o nosso "estudar" para caber nas limitadas horas do dia, na necessidade (tantas vezes ignorada) das horas de sono, nos mil projetos interessantes e artigos e coisas...

Pela minha experiência, a melhor coisa é método nenhum.

A escola, por vezes a família, e principalmente os cursinhos nos colocam na cabeça uma ideia de método, de tantas horas por dia, de estudar em tal lugar e de tal jeito... Aquela padronização básica que caracteriza grande parte de nossa forma de aprender as coisas.

E exatamente o tipo de coisa que me faz morrer por dentro.

Veja bem, não estou falando do fim da disciplina - oras, você precisa estudar e ler muito até para fazer o que gosta, seja escrever um artigo, ter uma discussão embasada ou tocar violino - mas a forma como estruturamos isso já é outra história...

Uma das coisas que mais me impressionou na leitura de"Contra o Método", de Feyerabend, para epistemologia jurídica (sim, lido de última hora, se você vai perguntar) é que a anarquia epistemológica era necessária também porque:
Sim, ESTE é o Feyerabend


"O mais forte argumento contra qualquer método que estimule a uniformidade, quer seja esse método empírico ou não (...) Dá forças a um conformismo sombrio e fala de verdade; leva à deterioração das capacidades intelectuais, do poder de imaginação e fala de introvisão profunda; destrói o mais precioso dom da juventude - o enorme poder de imaginaçõa - e fala em educar."

As colocações que o Feyerabend fala são bem mais radicais do que aquelas que eu falo agora - ele fala sobre a metodologia de todo o conhecimento humano - mas convenhamos que os métodos de se ver o dito "aproveitamento de tempo" e os estudos são realmente duvidosos.

Por vezes, vejo quase uma culpa católica no ato de estudar - é uma mortificação do corpo (e da mente!), um sacrifício em nome do ganho que é o diploma, ou a nota boa, e completamente diferenciada do prazer...

Mas isso é completamente compreensível quando nós vemos o jeito que somos apresentados ao "estudar" - precisamos nos distanciar dos outros, tirar todos os estímulos outros, e aprender a matéria de forma linear, de preferência reproduzindo em fichamentos ou exercícios...
 
Memorizar, reproduzir, no máximo dos máximos, articular...

Não vou entrar no tema dos objetivos da educação para não passar a vida escrevendo, mas quero só manifestar como eu fico incomodada com os apelos à padronização da forma de estudar, que de racionais, se vamos ver, não tem lá muita coisa...

A primeira coisa é um sentimento de finalidade, ou, melhor do que isso, uma paixão, praticamente uma sedução pela matéria em questão:

O meu primeiro exemplo são as músicas que eu tocava no vionlino. Confesso que nunca fui uma violinista de tocar todos os dias, de conseguir fazer os exercícios e escalas certinhos e etc - mas quando amava uma música, chegava a passar o dia sem almoçar na escola para poder ficar aquela hora em alguma sala, tocando e tocando e tocando... Seja uma apresentação para a qual eu queria me preparar, ou a simples paixão pela música, isso fazia toda a diferença entre 15 minutinhos que eu me forçava e cansava, ou 2 horas que eu nem sentia passando...

O segundo exemplo é de minha mãe e o Direito Tributário. A princípio, não há nada mais enfadonho - a grande arte de cobrar impostos, uhul! - mas é só ver o brilho nos olhos dela quando fala dos cofres dos contribuintes e a utilidade do que ela está fazendo, que até as coisas mais abstratas tomam vida e interesse.

Paixão, emoção, ou até mesmo tesão - por que esses sentimentos tão essenciais acabam passando longe de nossa concepção tradicional de estudos?

Da minha parte, a vida é boa com a intensidade, e frustrante pela metade.

Entendo que o meu sono é tão importante quanto ler tudo antes de uma prova, e que estar feliz e relaxada fazem meia hora de estudos render muito mais do que duas horas infelizes batendo a cabeça na escrivaninha. Sei que reprimir tristezas ou emoções dizendo "tenho que estudar" é meio que besteira, uma vez que a associaçõa negativa dos estudos com os sentimentos vão fazer o cérebro praticamente querer apagar aquilo tudo - e lá se vai o tempo de estudos...

Tudo bem que essas concessões fazem com que os meus momentos de estudos sejam todos intensos - ler muito em pouco tempo, fazer trabalhos nas janelas de inspiração, ficar horas obcecada com uma mesma coisa, falar obsessivamente de minhas áreas de estudo preferidas na mesa de jantar ou em conversas coloquiais...

Enfim, não separar os estudos de minha vida afetiva e social, tentar não separar, enfim, nada de nada.

O resultado final? Muita adrenalina acadêmica...


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