Confesso que minha tolerância a sapatos desconfortáveis é baixíssima - passaria minha vida inteira usando havaianas, sapatilhas e tênis se eu pudesse. Assim, grande parte da justificativa para meus "padecimentos podológicos" poderia ser o fato de eu não estar nem um pouco acostumada a esse tipo de calçado, a mal aguentar em pé depois de um dia usando um salto, por menor que seja...
Então, é claro, o meu problema não é o fato da prática social de usar salto alto ser torturante - é só que eu não me adaptei direito ao sistema. Deve ser esse o preço que tenho que pagar por ter tido uma infância e adolescência de pés confortáveis - uma transição mais dolorosa para meus pés mimados.
É claro.
Mas não é exatamente do como o salto alto é torturante, doente e bizarro que eu queria comentar hoje- e sim de algumas consequências interessantes que esse uso tem em relação ao controle do corpo da mulher (e das meninas, se a gente for pensar no quão cedo elas começam a usar esse tipo de instrumento de tortura sapato.)
Uma rápida pesquisa no google aponta para diversos links que brevemente sobre a história do salto, de origem desconhecida, mas que aflorava ao longo da história para denotar status social, de acordo com a altura que a pessoa alcançava, assim como à sexualidade - as prostitutas de Roma Antiga eram reconhecidas pelo seu salto. Outras bizarrices incluem sapatos tão altos que as mulheres precisvam de bengalas para andar neles, e o fato do imperador do Japão ter sido coroado usando uma plataforma de 30 cm, mas a informação mais interessante, no meu ponto de vista, é o fato de concubinas chinesas e as odaliscas serem obrigadas a usar salto para evitar fugas de seus respectivos haréns...
Então, usamos orgulhosamente nosso grande amigo salto alto: indicador de classe social, muito louvado por suas relações (simbólicas, e não causais) com a sexualidade e, no final das contas, um interessantíssimo instrumento de controle.
Controle porque, equilibradas em nossos sapatos que diminuem nosso centro de massa, temos um equilíbrio reduzido. Em todas as artes marciais, uma das coisas mais importantes é manter a base - os pés firmemente plantados no chão, pernas separadas, por vezes o joelho levemente flexionado - e o que acontece quando precisamos apoiar todo o nosso peso ou no peito do pé, ou em um fiapinho fino que sustenta nosso calcanhar inteiro? Defender-se de qualquer pressão aplicada sobre nós - um empurrão, alguém puxando nosso braço - fica um tanto quanto mais difícil quando, a depender do salto, ficar em pé e andar exige muito treino e disciplina.
Controle porque nem começamos a falar da capacidade de andar e de correr, de expressar-se corporalmente de forma mais livre e exuberante - uma das coisas que mais me partiu o coração neste documentário a respeito da forma como a propaganda afetava as crianças é o fato de que meninas pequenas não brincavam no parquinho na hora do intervalo porque estavam usando salto alto... A energia da infância, por fim, encontra o limite de ser "uma mocinha" - existe forma mais eficiente de controlar uma criança do que colocá-la em uma situação que ela não possa correr, pular ou fazer bagunça? Mais efetivo (e, pelo que vejo, menos chocante) do que colocar uma coleira. Não, não imagino que os pais tenham exatamente isso em mente quando decidem comprar uma coisa dessas para uma criança - mas não é exatamente esse o efeito?
Já crescidas e devidamente domesticadas, os saltos vão aumentando, e com ele uma série de restrições - fora a questão do equilíbrio, o salto impede a mulher de dirigir - ou melhor, a lei proíbe - e restringe o quanto (e onde!) a mulher pode andar: já pensou precisar caminhar mais do que algumas quadras empoleirada em um negócio desses? Ou pior, precisar andar por um terreno sem calçada ( tão comum aqui em Brasília), ou com uma calçada tão irregular que torna-se quase um rally?
Aqui revela-se outro aspecto perverso do salto alto: sua "beleza"e o status social que seu uso traz só é realmente acessível a quem não precisa andar distâncias consideráveis ou enfrentar obstáculos no caminho (como, por exemplo, uma escada de ônibus), ou seja, quem possui um carro e, de preferência, tem alguma outra pessoa que possa dirigir por ela - novamente, nada de autonomia.
Ah sim, a beleza!
Assim, depois de achar o calçado mais confortável que a beleza permita, que - pelo menos - não deixa dedos em carne viva, precisamos aguentar a dor até que nossos pés estejam deformados o suficiente para caber naquela posição o dia todo, lidar com calos e joanetes... Mas olha que elegante que a mulher fica!
Depois todo mundo acha absurdo quando mostram alguma "cultura exótica" em que as pessoas se submetem a rituais dolorosos e "sem sentido", ai esses bárbaros, esses malucos que fazem essas coisas estranhas (!) porque não conhecem nossa cultura, tão livre e digna...
...tudo porque alguém queria que as concubinas não escapassem do harém, então obrigaram-nas a usar sapatos que as impossibilitavam de correr para fora, para a liberdade... Sapatos que fragilizam o equilíbrio e restringem a mobilidade...
Mas aí vejo o tanto de coisas incríveis que mulheres conseguem fazer, mesmo com o salto alto, e o meu lado poético abre suas asas para ver as concubinas chinesas correndo com seus saltos, depois de tanto tempo de dor da adaptação: depois da dor e dos calos vem o domínio sobre nossos pequenos torturadores, não só pela conformação (não muito saudável) dos pés a essa nova situação, mas com uma mobilidade recuperada.
Afinal, estão as trabalhadoras "vestidas para a guerra" equilibradas em seus saltos, andando, correndo e desbravando o espaço público que outrora era dominado apenas pelos sapatos sociais "levemente desconfortáveis", com o passo firme;
Temos dançarinas que têm um domínio tal sobre seu corpo que tornam os saltos extensão de si mesmas, realizando movimentos que fazem o meu tornozelo torcer só de olhar... Não é um sapato de salto que vai deter os avanços das mulheres - como tantos outros estimgas e obstáculos, eles são incorporados ao resto da carga, contornados e agora eles, domesticados pelas mulheres que, com ou sem dor, sabem muito bem onde pisam e onde querem pisar.
Por vezes fico pensando em como o sapato de salto é quase que uma metáfora para a entrada da mulher na esfera pública - aquela que, no seu caminhar encontra exigências externas esdrúxulas e injustificadas, ainda assim passa pela dor que os outros não precisam passar e, mesmo com uma fragilidade imposta pelo sistema social, consegue trilhar os mesmos caminhos que o resto, também podendo criar os seus próprios...
Ouve-se voltimeia aquela frase "Fazemos tudo que o homem faz, e ainda de salto alto!"
Mas meu questionamento, no final das contas, é o seguinte: imagine então tudo o que podemos com os pés firmemente plantados no chão!


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