Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Cecília Meireles
Trilha sonora recomendada: Sound of Silence, de Simon & Garfunkel e Scarborough Fair, também deles.
Percebi que tenho, entre os tantos humores que me tomam ao longo dos dias, dois temas principais que definem os feixes de sentimentos: o "pra fora"e o "pra dentro"- ou, como um amigo comparou, a supernova e o buraco negro.
A supernova é a fase expansiva, que quer sair de casa e conquistar o mundo. É a fase de ter conversas longas e francas, de ficar indignada e reagir às coisas do mundo, tomada por uma energia quase nervosa que me impele a procurar mundos, textos e pessoas, a tocar novas músicas e ouvir novas ideias, conhecer os universos que são as pessoas, de interagir intensamente com tudo à minha volta...
E tem o jeito que estou agora.
O buraco negro não é um estado de espírito infeliz ou mesmo melancólico - dessas classificações talvez eu fale um pouquinho mais tarde - ele é simplesmente... introspectivo.
É o tempo de querer ficar quietinha no meu quarto - ou mesmo quieta em meio a uma multidão, sentada em um banco no parque (ou, como é o caso agora, em uma carteira na sala de aula que se enche de alunos)... É o momento de contemplar, e não de agir. É o de ouvir velhas músicas e ver novos significados, de sentir com calma cada sensação e pensamento que passa pela minha cabeça, de interpretar textos e ler poesia, de ficar abraçada à família e àqueles mais próximos...
E por que, afinal, estou escrevendo isso?
Primeiro ( se alguém lesse isso aqui) poderia ser quase uma clarificação do porquê eu fico "na minha" por alguns tempos, que isso não é algum problema pessoal ou alguma tristeza, mas um estado de espírito que também tem as suas belezas...
A própria natureza do que escrevo aqui, na verdade, reflete esse estado na medida em que não consegue ser combativo - queria até escrever sobre a dificuldade de aceitação da introspeção, do olhar para dentro em face a um arranjo social que prega e privilegia a comunicação ( mesmo que restrita ao mundo virtual), enquanto a solidão de estar também "desconectado" é vista com certa desconfiança -( imagine só ficar o dia inteiro sem se comunicar, só que esse comunicar também pode pressupor uma solidão, contanto que ela seja relativizada por uma tela de computador...)
Enfim, essa tendência a descarrilhar o trem da frase talvez seja um desses sintomas.
É um tempo de celebrar um tipo de solidão, não da incompreensão e náusea existencial, mas a da contemplação daquilo que é particular, de ver a lua e saber que ninguém mais vê tudo exatamente daquele jeito, exatamente com aquele humor ou com aquela música tocando sem parar na sua cabeça...
Tempo de redescobrir as sensações de nosso próprio corpo e mente, de como cada nota de uma música soa diferente quando estamos de olhos fechados...
Talvez isso seja um corpo cansado forçando a mente a desligar do turbilhão de informações e interações para olhar e acalmar os turbilhões internos, e como eles são igualmente ricos!
Então estou aqui para ser um pouco sozinha, para falar com Ninguém.
Por hoje é isso...



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