sábado, 8 de fevereiro de 2014

Kiruna, parte 1 - uma cidade perdida na neve


Frozen? Isso, bem isso. 


Precisei de quase uma semana para começar a escrever sobre Kiruna depois que eu voltei, e as razões para isso são tantas.

Primeiro, cheguei logo no dia de uma apresentação de trabalho, e como meu objetivo principal aqui é estudar, minha prioridade é acompanhar as leituras da matéria.

Segundo que há muita coisa ainda por processar - para poder contar de um lugar, acho que eu realmente preciso ter voltado completamente. Sacudir o gelo e a neve que enchiam os meus olhos, deixar esquentar por dentro tudo o que o frio tinha roubado e, principalmente, lidar com o estranhíssimo sentimento de voltar para Estocolmo e dizer ufa, estou em casa. Isso em si já dá uma daquelas postagens até sentimentais - mas ela virá só depois. Por agora, com as memórias mais sedimentadas e um fim de semana chuvoso começando, sento para escrever sobre Kiruna.

A ideia da viagem em si foi bastante inusitada - mal tínhamos chegado aqui quando o Lucas (amigo que ficou em Estocolmo no último semestre) nos chamou para formarmos um grupo para alugar um lugar para quatro pessoas em um camping. Sim, um camping. Na Lapônia. -30 graus. Aurora boreal. Renas. Trenós de huskies...

Enfim, Lapônia. 


Claro que, a essa altura, a ideia de acampar no gelo pareça realmente bizarra. Basta dizer que o camping é, em verdade, uma série de chalés muito bem aquecidos (mais quentes do que o meu quarto em Estocolmo nesse momento) , mas só o impacto de dizer "vou para um camping na Lapônia" já valeu...

Dançando no ritmo dos preços mais baratos possíveis, fomos de avião na quinta-feira para voltar, de domingo para segunda, de trem. A maior parte do relato de viagem, escrito no caderno, foi feita, aliás, nas 16 horas que demorou para cruzar o país de trem e voltar para Estocolmo.

Vou cruzar a Suécia de trem - sair de Kiruna, o município mais ao norte da Suécia e um dos mais boreais do mundo, até Estocolmo, meu lar por esse tempo, e bastante ao sul. De -28°C até os +3°C que fez com que a neve derretesse lá em casa. Serão 16 horas de viagem, mais algum bom tempinho de espera, e não há lugar melhor para começar a fazer meu primeiro relato de viagem desses 6 meses de Europa... 

Primeira, e muito impactante. Assim como ir para Ushuaia em março de 2012 me impressionou muito, ir ao extremo Norte também me deixa suas marcas... Ainda mais agora no inverno. 

Eu já estava me sentindo no frio nos -6°C de casa, então foi com grande cautela que eu levei minhas roupas mais quentes para Kiruna, levando até mesmo dois casacos pesados ao invés de um só. O vôo em si foi tranquilo, depois da aventura que foi chegar no aeroporto usando apenas o transporte público regular, mas já descemos da aeronave direito para o ar livre, e o choque foi imediato.



Sim. Neve na pista na aterrizagem, tanto que não dá nem para ver o asfalto preto embaixo. Neve que fazia os nossos passos afundarem na hora de pisar no chão, e isso mesmo no aeroporto! Parece que a neve é tão persistente por lá (outubro a abril, ao que parece) que não faz sentido nenhum tirar neve da maior parte dos lugares - é um segundo chão, e é preciso simplesmente conviver com isso. 

Para além do corpo muito coberto, o rosto queimava e gelava ao ponto de anestesiar em poucos segundos. Eram 2 horas da tarde e o sol já estava perto de se por, mas ainda iluminava a neve de uma forma que emprestava um brilho quase confortável à branquidão imensa. Mas esse sol - não se enganem - não esquentava nada. É luz para os olhos, mas não para a pele. Você só sente mesmo a diferença que o sol faz quando ele se vai e faz frio.


Chegamos em Kiruna com um ônibus, e esperamos no centro da cidade, comprando nossa comida para o acampamento. Enquanto esperava na estação, coletei alguns dados curioso:

1. Aqui fica a maior mina de ferro do mundo, razão pela qual a cidade existe (afinal, peloamordedeus, por que alguém iria querer viver nesse frio?)

2. Além do turismo ártico e da mineração, Kiruna é o local onde a Suécia faz toda sua pesquisa especial. Yay, cidade de astronautas!

3. Por causa da mineração, todo o centro da cidade vai ser movido para outro lugar. Isso mesmo, uma cidade inteira mudando de lugar. Não que seja lá um negócio muito grande, mas para toda a propaganda de que essa mina é uma mina "verde", os impactos são grandes.



4. Eles tem pouco sol agora mas, de dezembro a janeiro, não há sol nenhum. Isso se compensa no verão, quando há um mês com sol direto, mas ouch! Um mês sem sol?

5. É um dos maiores municípios da Suécia, e onde fica a montanha mais alta do país.

6. Os Sámi, povo indígena do Norte, ainda tem 4 povoados que se dedicam, principalmente, à criação de renas.

7. Aqui a neve chega a outro nível. 



Não estamos falando de algo que muda a paisagem, mas de um elemento deformador e formador de tudo o que se pode ver e fazer. Qualquer superfície, por mais despretensiosa que seja, se cobre de alguns dedos de altura de neve, e tudo, tudo congela ou regela. O pobre corpo humano trabalha muito para se segurar, produzir o calor que sai pela respiração, pelo vão do casaco, pelas mãos. Queimauras de frio, pele seca deixada pelo congelamento de toda a água que tinha...

E neve de outubro a abril.

As árvores não se cobrem de neve só... Elas SÃO neve, inteiramente cobertas ou congeladas, curvadas pelo peso, milhares de braços brancos retorcido. Até o verde dos pinheiros fica cinzento. A paisagem, além de monocromática, engana o chão. Daqui do trem eu vejo algumas copas de árvores - e um ou outro galho de plantas totalmente soterradas. 

Lagos viram estradas, com mais de 1 m de gelo, só uns tocos congelados de cais lembram que há água ali dentro... 

A paisagem é monótona, mas imensamente complexa em sua unicidade. A neve curva e dobra os pinheiros mais orgulhosos, e me faz perguntar se algumas das árvores conseguem se recuperar no verão ou ficam sempre curvadas e mirradas desse jeito. As árvores nã oconíferas, entõa, são de dar pena. Parecem curvadas de derrota, de orgulho ferido por  uma força inexorável, prostradas no chão. São essas as florestas do desconhecido, do medo infantil, das sombras longas e das árvores ameaçadoras. A ameaça do eterno inverno das mitologias faz muito mais sentido agora. São frios os dedos da morte. É estéril e uniformizante e onipresente a neve, descolorindo e matando e gelando tudo. Mas nossa, ainda é lindo. 






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