quinta-feira, 28 de julho de 2016

17 - Meu pedacinho de fim de mundo


Até agora, falei mais de saudade de pessoas - até porque são elas que dão sentido aos lugares pelos quais passamos. Mas há um lugar para mim que deixa uma pequena dor no coração, que ainda é palco do meu inconsciente nos mais diversos sonhos, e sempre vai ser o lugar do meu coração. É um sítio escondido na Serra do Mar, em um lugar no qual nem o sinal de celular chega, e que, se tudo der certo, será vendido. Tive um tanto de dificuldade de lidar com essa decisão da minha família - menina sentimental que sou - mas o começo da aceitação veio com esse texto, escrito há mais de 2 anos atrás, mas que só vê a luz do dia agora:  

O lugar sobre o qual escrevo não existe mais. A casa que ficou pronta quando eu nasci,
palco de grande parte das minhas memórias de infância, de meus devaneios de
adolescência e reflexões de jovem adulta em breve deixará de ser um lugar físico para
ser apenas uma memória. É um Sítio grande, mas a parte pela qual tenho esse enorme
afeto não é muito maior do que uma chácara – uma casa, um pátio de pedrinhas, um
quintal, uma horta, uma casa antiga, uma colina cheia de árvores, dois laguinhos, uma
pequena cachoeira.


Olhos frios vêem isso mesmo: uma casa com móveis velhos, um quintal bonito com
flores, um terreno sem nada de extraordinário, um lugarzinho bonito encarrapitado na
Serra do Mar em Santa Catarina. E eu? Francamente eu vejo pouco, porque meus olhos
já se enchem de água em pensar que esse lugar, esse único lugar pelo qual tenho algum
sentimento de pertencimento, o único pedacinho de terra que tem duradoura, a marca da
minha família há mais de 30 anos vai ser vendido.


As razões eu entendo, e com elas concordo. Sei que minha vida já me leva para outros
caminhos, talvez até para fora do Brasil como um todo, e quantas vezes eu poderia
voltar para visitar o Sítio? Sim, é o caminho, é o momento de adeus... Mas nenhuma
racionalização vai me impedir de ficar triste, do fundo do meu coração.


Vejo o resto de minha família, e cada pessoa sente essa decisão de uma forma diferente - mas talvez seja meu jeito peculiar de encarar coisas e lugares que me deixe tão mexida. Talvez minha
forma de processar as memórias de verões longos da minha infância tenham criado
raízes fundas em mim para este lugar, e eu ainda precise chorar muito até conseguir
desalojar essas memórias de uma terra que já não será mais nossa, de deixá-las no
terreno mais suave e simples das meras lembranças...


Porque no fundo, eu sei que não é a matéria que me prende – a terra, a casa, as árvores,
por mais bonitas que sejam, são só isso, terra, casa e árvores, como quaisquer outras que
se repetem em maravilhosas variações pelo mundo. O que me prende nessa casa são as
incontáveis memórias de todas as fases da minha vida que se acumulam pelos quartos e
pelos corredores; as flores no quintal importam porque eu colhia desajeitadamente suas
ancestrais para presentear minha mãe quando era criança; a cachoeira importa pelas
lembranças da água gelada nas minhas costas e de uma aventura quando resolvi subi-la
por inteiro. Importa que essa terra, mesmo que eu a veja só algumas poucas vezes por
ano, está tão carregada da minha vida que é simplesmente inconcebível imaginar esses
20 e tantos anos sem ela. Mas agora, não é mais só questão de imaginar – vai chegar o momento em que não poderei mais voltar aqui porque será a casa de uma outra pessoa. E, mesmo que volte, será um lugar diferente, para pessoas diferentes, e não maisos momentos reconfortantes de um passado gostoso de lembrar.


Mas se vejo o lugar com meus olhos de hoje, percebo claramente que o lugar da minha
infância já não existe mais justamente porque minha infância não existe mais. Muitas vozes queridas que já passaram por essa casa são apenas ecos distantes na memória. O galho da árvore onde ficava meu balanço já apodreceu e caiu há anos. Gerações de cães fervorosamente amados já se foram, e até o relógio cuco que sempre contou os segundos tão fielmente já está com um ponteiro manco. A casa parece pequena diante da enormidade que ela era quando eu era criança, e a paisagem do mato, embora seja sempre a mesma em sua diversidade, também vai se modificando com caminhos abertos aqui, momento do corte das árvores acolá, e assim por diante. . Todo esforço de conservar as coisas “como sempre foram”, afinal, é inútil, porque é da natureza do mundo ser a própria impermanência – modificando-se em ciclos, alguns tão rápidos que parecem constantes e eternos, outros tão lentos que nos pegam de surpresa quando percebemos o quanto mudou. E esse ciclo está chegando ao fim, e não adianta, em um ânimo conservador, tentar segurar entre meus dedos a areia que já escorre. O tempo passou e nenhum lugar é o mesmo. Eu já não sou a mesma, e a conservação desse lugar enquanto eu passava por todos os estágios da minha vida até agora foi uma coisa excepcional em si.


Mas o tesouro que foi poder passar esses anos aqui, afinal, não pode ser conservado na casa, que envelhece, ou mesmo na terra, que sempre se renova. É só através das minhas lembranças, dos lampejos de memória que me passam pela cabeça cada vez que vejo uma árvore onde pendurava a rede, uma flor que me alegra todo ano, um canto de passarinho familiar, só esses preciosos segundos é que permanecem. O sentimento, a memória. É tolice minha querer carregar a pesada bagagem de um sítio atrás de mim enquanto encontro meu caminho no mundo, mas ainda sim posso manter o poder das memórias frescas – e por isso, enfim, estou aqui escrevendo.


Quero meus últimos dias aqui para ouvir todos os pássaros, todo o farfalhar do vento sobre as folhas, ver todas as belezas e guarda-las para mim – em lembranças, em fotos, e também em texto, eternizando em algumas linhas não um local objetivo que sempre estará aqui, mas o meu Sítio, esse que existe só na minha cabeça desde o princípio, este que vou carregar comigo para todos os cantos do mundo pelos quais eu decidir me aventurar.

Levo daqui tudo o que aprendi – aqui dei meus primeiros passos, fui introduzida ao mundo da cozinha, aprendiz a jogar xadrez, a soltar pipa, plantar flores, colher uvas, subir em árvore, fazer uma fogueira, dirigir um trator, represar um rio, alimentar carneiros, cozinhar pinhão... e agora, finalmente, a dizer adeus.

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