Há saudades que são antigas, já - aquelas inevitáveis que carregamos da vida. Das pessoas amadas que estão longe, daquelas que demoram a voltar, e de outras que não voltam mais nesta vida. O texto de hoje poderia ser o mais longo de todos se fosse detalhar cada perda que é parte natural de nosso existir. Mil memórias de tempos que não voltam mais. Mil fotografias levemente apagadas com sorrisos que já estão fora do alcance de abraços.
Por isso que desta vez, recorro às palavras de um dos meus poetas preferidos, com o poema mais forte e que até hoje me deixa os olhos cheios d’água com suas palavras, :
Profundamente
Manuel Bandeira
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

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