Caminho pelos dias já com olhos de saudade. 20 chances para Brasília me impressionar com um pôr do sol colorido; 20 almoços para comer a comida gostosa de casa vou aproveitar a conversa gostosa de alguma amizade. Parece muito e ao mesmo tempo tão pouco para quem está com a cabeça além do atlântico e o coração apertado se agarrando aos últimos momentos no lugar que aprendi a chamar de lar. 20 dias antes de me despedir de Brasília para ir me aventurar do outro lado do Atlântico.
É alguma coisa dentro dos olhos que transforma os momentos, banindo tudo que há de prosaico para preencher o cotidiano de significado. É a ideia de “quando será a próxima vez que vou ver essa árvore?” “Será que vou sentir falta do caminho de casa até a comercial?” “Quando vou ter uma conversa assim de novo?”. É uma atenção a cada detalhe, cada voz, cada minuto, aumentado e ecoando pela consciência da finitude de tudo o que me parecia normal e cotidiano.
Por um lado, não é uma sensação inteiramente agradável - às vezes uma dor lancinante, às vezes uma melancolia que me acompanha o dia todo, sussurrando tudo aquilo que não vai poder mais ser - mas me faz sentir incrivelmente viva. De repente, cada grão de areia da ampulheta metafórica é feita de ouro, e todos os momentos são cheios de significados. De repente a cidade não é normal, e fico olhando para o céu azul escuro de Brasília tentando memorizar o formato de cada nuvem.
Esta peculiar disposição não é novidade - não é nem a primeira ocasião, muito menos o primeiro dia. Talvez tenha começado quando fui aceita na Universidade, talvez até mesmo quando tenha começado a preencher os formulários para me candidatar. Contei os dias sem querer quando faltavam 50, e os momentos de saudade foram aumentando em intensidade e duração. Agora? Com 20 dias faltando, se não estiver mergulhada em alguma ficção, os olhos de saudade estão ali, úmidos por dentro, enchendo minha mente de cores fortes e silêncios cortantes, querendo transbordar… Mas como?
Uma parte de mim quer tirar mil fotos - prender luz e sombra para mim, parar o tempo para os olhos - mas como reduzir esse mundo a imagens quando o que me aperta o coração é a ausência de movimentos, sons, cheiros e toques? O que são imagens simples sem os olhos saudosos? Palavras, então: minhas armas, minhas amigas, asas de pensamento que mais gosto. Talvez com essas duas consiga assentar um pouco aquilo que borbulha na minha garganta enquanto me preparo para a próxima aventura.
A escolha da imagem de hoje é complicada - o que é uma foto de saudade? - mas essa coroa de flores de 2014 é mais um aviso - um momento de saudade antiga. Há pouco mais de 2 anos atrás eu deixava a Suécia pela primeira vez, saudosa das minhas experiências lá, e prometendo que um dia voltaria. E agora aqui estou eu, cumprindo essa promessa mas cheia de saudades daquilo que deixo aqui. Talvez a lição dela seja entender que colocar o pé para fora de casa é uma sentença de eterna incompletude do lugar para se chamar de lar.
Afinal, se eu for feliz onde vou, um dia terei o privilégio de andar por Lund também com olhos de saudade.

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