domingo, 25 de maio de 2014

Mamãe!

Podem dizer que eu estou atrasada, mas hoje é dia das mães na Suécia. O porquê de a data ser diferente aqui me escapa completamente, mas essa na verdade é só uma desculpa para escrever um texto que há semanas já se formava na minha cabeça, lentamente, envolvido pela saudade que a cada dia é maior.Só nesse ano, já passei dois dias das mães (o brasileiro e o sueco) longe da minha mãezinha e morrendo de saudades.



Por isso, antes de qualquer coisa, antes de escrever do último mês que passei viajando, antes de tentar articular qualquer pensamento coerente pelas minhas experiências, quero falar sobre a pessoa que tornou isso tudo possível: minha mãe.

Sei que o dia das mães, com todos os seus diferentes significados que já foram assumidos na história, é muitas vezes visto como uma data meramente comercial, uma boa oportunidade de negócios para floristas, chocolaterias, e até algumas propagandas machistas que perpetuam um ideal de maternidade que está muito longe das mulheres de carne e osso que são mães. Sei que mães vêm em todos os tamanhos, temperamentos e tipos. Que, para além dos laços biológicos, existem milhões de mães de coração, avós, madrinhas, tias e vizinhas, amigas, colegas de trabalho que são as verdadeiras mães. Que alguns homens também são como mães. Que essa palavra, "mãe", é tão antiga e cheia de significados que ela já não significa mais nada de essência física. Por isso quero falar não sobre o que as mães são, genericamente, mas sim sobre o que mamãe é, essa mulher de carne e osso e do espírito mais forte que eu já tive o prazer de encontrar nessa vida.

Mãe. Mamãe. Mammi. (ou o famosíssimo MÃÃÃÃÃÃÃÃE). Só falar a palavra na minha cabeça já me desperta uma miríade de sentimentos que eu não consigo exatamente colocar em palavras, então nem vou tentar. Só sei que ela é minha mãe, seja lá o que isso significa para o mundo, mas para mim, tem alguns significados muito fortes.



Antes de mais nada, é uma mulher forte, poderosa, com aquele tipo de autoridade que surge do cuidado e do amor, daquela força imensa que não precisa da violência e dos gritos. E não falo só da autoridade em casa, mas sim do exemplo de ética do trabalho, de uma liderança firme e amorosa, de uma dedicação incansável, apesar de todos os desafios. Desde pequena aprendi com ela que não é preciso seguir o estereótipo do "macho alfa" para ser uma líder excelente. Não preciso gritar, falar alto, humilhar: a força e a firmeza estão na convicção, e não na altura da voz. É ela quem me diz que ser uma líder é servir, e é isso o que eu vejo quando ela chega tarde do trabalho, cansada, mas nunca aceitaria fazer diferente disso, porque simplesmente é o certo a fazer.

Qualquer pessoa ou grupo que tente dizer que as mulheres devem se sentir culpadas ou incompletas por trabalharem fora (porque na casa já trabalham de qualquer jeito), por sair da esfera privada, estão redondamente enganados. As consequências emocionais que sofri por minha mãe trabalhar todos os dias foram o respeito pela ética de trabalho, a seriedade em todas as tarefas que me são dadas, a dedicação àquilo que me proponho a fazer - e, principalmente, que nenhuma realização acontece de graça, e que tudo o que vale a pena precisa de disposição e sacrifícios.

Mas foi com ela também que eu aprendi que tudo isso não se conquista sendo uma estátua de mármore, pura de racionalidade mas de frieza, e sim com o coração e com a intuição.Ela que me ensinou que cada ser humano é infinitamente valioso, e que se deve tratar as pessoas bem não pelas vantagens que elas podem nos dar, mas sim porque cada um é uma alma, um mundo inteiro à parte. Que educação e sorrisos sinceros abrem portas. Que minha intuição é preciosa e deve ser escutada, que nosso conhecimento humano é só um pedacinho de tudo o que existe no universo. Que a natureza, as florestas, as flores, os mares, que não são só belos mas também sagrados, que respirar fundo na quietude da floresta nos enche de energia nova.

Ainda há algumas coisas que não tomaram raíz na minha cabeça, eu confesso - não consigo ter o cuidado meticuloso com a aparência que você tem, e minha forma de organização, eu sei, parece o mais puro caos aos seus olhos, mas estou aprendendo, estou tentando - quando não seguindo suas orientações, construindo meus próprios caminhos para atingir seus valores.

Ela me ensinou também, da maneira mais dolorida, que não há tapa ou berro que seja mais dolorido do que ouvir "estou decepcionada com você", e que haverão vezes que estar machucada por dentro vai fazer você querer machucar os outros, e isso é uma coisa contra a qual devemos lutar.

Mas também foi ela que me ensinou, da forma mais doce, que quando não temos mais nada nessa vida, quando parece que tudo está acabado, sempre vou ter o amor e o amparo da família, e lá minha mãe, pronta para me confortar como uma garotinha, não importa a idade.



No relacionamento lindo que ela tem com a própria mãe, também me ensinou que mãe não é só para crianças: os conselhos, o colo, o carinho vão estar lá por toda a vida, seja pessoalmente, por telefone ou por skype. Com 23, 30 ou 50 anos, ainda é "mamãe", ainda é um porto seguro em todas as coisas que mudam na vida...

...mas também ensinou que, enquanto passava de menina a mulher, o papel da mãe também muda, de autoridade para conselheira, de protetora para um apoio mútuo. Isso nós aprendemos juntas, e continuamos a aprender enquanto cada nova fase da minha vida se desvela. Terminar o colégio, e agora a faculdade. Dirigir, estudar, trabalhar...

Essa lição é particularmente difícil agora, mãe, quando fico pela primeira vez mais do que um mês longe de você. Eu achava que o difícil de morar no exterior fosse limpar o quarto e lavar as roupas e lembrar de pagar as coisas em dia, mas a verdadeira dificuldade é ficar longe da família. Sei que nós duas temos rotinas frenéticas, mas só aqueles poucos minutos de dizer bom dia e boa noite, aqueles momentos à noite, quando conversamos antes de ir dormir, fazem toda a diferença nesse país que é frio de corpo e alma...

Mas a distância, ao invés de apagar, só renova o meu carinho, meu amor e minha devoção a essa mulher que, mais do que a amorosa figura que me colocou nesse mundo, é um exemplo de profissional, de líder, de mulher.

Mesmo de longe, mando todo o meu amor para você, hoje e sempre.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Objetivo: conquistar a Europa (e mais dois continentes a sua escolha)


Poderia ser um objetivo de War, mas vai ser a minha vida pelos próximos meses.

Depois de mais de um mês trancada no meu quarto para dar conta do excesso de matérias que eu estava fazendo em pouco tempo, vem o momento da recompensa: ao invés de terminar meu semestre no começo de junho, já estou livre na metade de abril!

Me explico: no sistema sueco, você precisa fazer 30 créditos por semestre, no mínimo. Geralmente você faz uma matéria de cada vez, que dura menos, mas exige um esforço bem maior em casa. Assim sendo, pode-se escolher fazer um curso grande de 30 crédito, ou dois de 15, ou três de 10, e por aí vai, sendo que cada um começa em um momento diferente.

O que eu fiz?

Bem, comecei com um curso de 15 créditos que ia do final de janeiro até o final de março, e depois fiz dois cursos de 10 créditos, que duraram um mês, começando em março e terminando, bem... Na semana passada.

Vocês podem imaginar a loucura que foi o meu mês de março, certo?

Estudei muito, aprendi horrores, consumi quantidades indizíveis de cafeína e gastei os meus olhos ao ponto da exaustão tentando dar conta das leituras extensivas, mas eu consegui: escrevi mais ou menos 40 páginas, ao todo, entre trabalhos, artigos finais e provas de se resolver em casa. Sim, eu sobrevivi - e agora é hora de aproveitar para conhecer esse mundo diferente que existe fora do meu quarto e da Universidade.

Primeiro, vou explorar um pouco mais 'localmente' e visitar o sul da Suécia: Malmö, a terceira maior cidade da Suécia, e Lund, uma cidade universitária ali perto. Depois disso, um final de semana em Copenhague, para completar o último país nórdico que falta para eu conhecer.

Depois de dez dias entre essas três cidades, volto só para lavar as roupas e já saio de novo, dessa vez um pouquinho mais para longe: Croácia, Áustria e Hungria. Aproveitando para rever uma amiga muito querida que não encontro há anos, vai ser minha primeira incursão para essa parte da Europa (fora a Áustria, minha velha conhecida).

Depois disso, terei, novamente, só poucos dias para descansar antes de ir para a Alemanha - mas dessa vez vai ser uma viagem para compromissos de família. Mas, quando eu voltar, vem uma das partes mais legais da minha estadia aqui: vou voltar para mostrar Estocolmo para a Oma!

Minha avó volta comigo da Alemanha, e, além de explorarmos a cidade, também devemos dar um pulinho em Riga, capital da Letônia, que fica aqui pertinho.

Depois que me despedir da Oma, meus planos já não estão tão claros por algumas semanas. O final de maio provavelmente fica para outros cantos da Suécia, ou talvez Portugal para visitar amigos intercambistas...  Em Junho chega meu amigo, notório explorador de países obscuros, e não me surpreenderia se eu fosse parar na Islândia ou talvez algum país que eu mal lembre o nome.

Na metade de Junho me despeço de Estocolmo, mas para finalmente conhecer Berlim e Praga, e em Julho tenho mais umas duas semanas ainda a planejar ( Itália, Sul da Alemanha...?), até que minha família vem me encontrar aqui para passear pela França antes de voltar para casa.

Ufa. Sim, é muita viagem, muitos países, mas, como me disseram os meus pais - o pecado seria eu estar aqui, com tudo ao alcance das mãos, e passar meus dias no meu quarto, no facebook, ou jogando videogame.

Eu posso sentir que vou ter muita coisa para contar, muitas viagens para relatar (e eu estou já com duas viagens de atraso! Céus!), mas vamos ver quando vou ter o tempo para parar e escrever. É claro que, sem as aulas, fica tudo mais fácil (vide o aumento do número de postagens desde que as aulas acabaram!), mas dessa vez, são as próprias viagens em profusão que vão me ocupar.

Mas para além das paisagens novas, lugares diferentes, línguas, moedas e todas as coisas forasteiras que eu vou encontrar, a maior estranheza está virada para o lado de dentro:

em alguns desses momentos, eu vou viajar sozinha.

Eu nunca viajei sozinha - sempre estive com família, amigas e amigos ou, no mínimo, colegas para passear junto. Nunca fui para um lugar diferente assim, só com um guia de viagem na mão, sem ninguém para discutir itinerários ou conversar sobre as curiosidades do local. Meu diário de viagem vai ser meu único companheiro agora no sul da Suécia.

Parece uma coisa meio nova e amedrontadora, mas se eu pensar bem, eu já explorei muito de Estocolmo sozinha, e gostei muito de descobrir cada canto da cidade, me perder e vagar sem rumo, ouvindo música ou parando para escutar os sons de cada lugar. Já li muito sozinha no metrô, enquanto ia de um lugar para o outro, e as fotos e pequenos vídeos eram o único substituto de realmente ter uma pessoa lá para comentar. Um substituto pobre, é claro, mas pelo menos é alguma coisa.

Queridas pessoas que lêem o blog, então, vocês serão todas minhas companheiras de viagem.

Próxima parada: Malmö. Até logo!

sábado, 12 de abril de 2014

A segunda saudade (de Kiruna a Estocolmo)


Kiruna, Fevereiro de 2014 



Sim, eu me diverti horrores - como deve ter ficado muito claro nesses posts da viagem - mas parece que não consigo fechar um ciclo sem falar da saudade.

Da primeira vez, era aquela saudade doída, chorosa da falta que tudo faz, mas agora é uma saudade diferente.

Sim, ainda é ausência, ainda é ar onde deveria, por todas as razões do coração, haver uma pessoa para abraçar.

Mas ah, é um saudade boa...

Tive 16 horas em um trem, de volta, para refletir sobre a viagem - e escrever boa parte dos relatos que eu coloquei nos últimos posts. Tempo para me sentir um pouco sozinha e acuada, em um trem cheio de pessoas suecas falando sueco, sem nem uma palavra familiar para me fazer companhia. Só as minhas próprias palavras passando para o papel, só os meus próprios pensamentos ecoando, e a tensão dos laços que me unem a pessoas tão longe, retesados no silêncio, se fazendo sentir.

Mas enquanto estava na Lapônia, eles estavam todos comigo.

Sim, eu via alguma coisa bonita, e pensava em como minha mãe ia admirar aquela beleza. Via uma coisa engraçada, e quase virava para o lado para comentar com o meu irmão. Com a enorme familiaridade vem aquele quase senso interno dos comportamentos esperados, de como eles reagiriam, das interjeições que iriam fazer...

E uma certeza, para esse norte frio e fantástico: eu vou voltar. Nem que seja para testar a reação deles e ver se minhas previsões estavam certas - cada foto que eu registro é para as pessoas amadas que eu deixei, quase uma promessa de "um dia você vai vir aqui também!"

E o engraçado é que é uma saudade tão poderosa quanto o outro tipo, tão forte que você sente as pessoas lá ao seu lado - mas por momento algum isso me deixou triste ou melancólica. Pelo contrário, era nos momentos em que eu mais estava maravilhada ou me divertindo horrores que vinha o pensamento, aquele paradoxo de ausência-presença que fazia com que gente tão longe estivesse perto, justamente nas horas em que fica mais evidente que as pessoas que estão mais perto do meu coração estão longe.

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Estocolmo, Abril de 2014


A saudade que me aperta agora, já de volta em Estocolmo e com dias de solidão autoimposta para escrever trabalhos, já é um pouquinho diferente.

Olho para as fotos penduradas nas paredes do meu quarto, e as imagens das pessoas queridas não são só figuras no papel, mas são momentos que eu vivi de uma forma ou outra, é uma viagem com a família, é um abraço de amigos, é um beijo de namorado... São pedaços de mim que eu represento em imagem, para me lembrar que, mesmo que fisicamente, eu não estou sozinha.

Mas ah, quem disse que isso faz a saudade toda ir embora?

Enquanto estou distraída com os estudos, até que vai - mesmo que eu estivesse em casa, com a família toda em volta, eles só veriam uma sombra quimicamente dependente de cafeína rondando a cozinha de vez em quando, enterrada em livros e escrevendo freneticamente no computador. Mas no momento que eu fecho o livro e o quarto está vazio, ou quando estou cansada demais para continuar, mas não tem alguém para conversar... Ah, é difícil. Quanto mais tempo passo em casa, mais quieta ela fica, e só as vozes pelo skype me aliviam desse silêncio devorador de almas que é a solidão. Não consigo nem imaginar como era para as pessoas nos tempos de antigamente, quando as cartas demoravam meses para chegar. Porque mesmo com todas as facilidades da vida digital, ainda não encontraram uma forma de traduzir o toque, de traduzir o cheiro e o conforto a presença física das pessoas amadas. Palavras no facebook não conseguem substituir a familiaridade da rotina conjunta; a convivência diária não cabe na janela do skype. As roupas de verão, que ainda não foram usadas e lavadas aqui, ainda tem o cheiro de casa, e eu sou pega de surpresa quando vou ajeitar as coisas no armário, uma coisa tão imediata e forte que meus olhos marejam antes de eu conseguir pensar. Quando não posso sair muito porque preciso estudar, meu quarto se torna o universo inteiro, e eu vejo o que é estar só.



Mas quando finalmente cumpro as obrigações, tudo o que quero é sair para a cidade e me cercar de gente, de sons, de cheiros e lugares, de estar no meio de gente e não estar só... Mas ainda estou solitária. Quando passeio sozinha nessa cidade que cada vez eu gosto mais, sempre fica aquela sensação de querer partilhar tudo aquilo que está acontecendo. Queria que minha família visse como eu já consigo pedir comida em sueco, ou que meu namorado andasse de mãos dadas comigo pelas ruas. Queria dividir cada barzinho legal que eu encontro, cada vista pitoresca, cada observação curiosa sobre os suecos...

Mas com ou sem companhia, a cidade é linda. Um quebra-cabeça de épocas e estilos arquitetônicos, com prédios de diferentes cores competindo pela atenção do olhar, com aquele trânsito que não pareceria nunca ser de uma capital - andar no meio da rua não é tão incomum assim -, mas uma população tão diversa que você não tem dúvida de que aqui não é o interior. Por trás da imagem estereotipada das pessoas loiras e altas, também falam sueco as gerações de imigrantes de todos os cantos do mundo, quebrando o monocromatismo da paisagem. Não existe nada estranho o suficiente que não possa ser usado nas ruas de Estocolmo - os suecos almofadinhas, impecáveis em seus penteados perfeitamente arrumados e casacos de inverno elegantes precisam dividir o espaço com gente que prefere adotar uma moda hipster dos anos 50, e punks com moicanos desafiadores de gravidade, e esportistas com suas roupas coladíssimas de inverno para fazer jogging, e isso somado a uma massa que não liga tanto assim pra estar elegante porque tem mais com o que se preocupar... E aí que se vislumbra um pouco da beleza da impessoalidade sueca: ninguém quer saber o que você quer dizer com as suas roupas. Contanto que você não fale nem toque nos suecos, tudo vai ficar bem. Mas isso é assunto para uma outra postagem...

O fato é que é fácil se apaixonar por Estocolmo. Toda vez que você pensa que está cansando da cidade, a linha de prédios se abre para mostrar que o que parecia metrópolezinha europeia pretensiosa na verdade era só mais uma ilha do arquipélago, e lá está o mar e as gaivotas e as pontes, enchendo tudo de uma beleza de derreter até a alma mais rancorosa com a cidade. Principalmente se o sol resolve dar as caras. Não raro no metrô, entre uma estação e outra, um vislumbre da paisagem me surpreendeu com as cores vivas que o sol projeta toda vez que aparece, deixando tudo mais real, menos nebuloso.

E foi andando assim, semi-perdida na orla do mar, que tive uma epifania: eu vou sentir saudades daqui. Não só da cidade que me fascina e que ainda quero explorar mais, mas com a Universidade, com a forma de vida tão diferente, com as pessoas ótimas que conheci aqui, com os cantinhos de calor humano no meio de uma cidade tão fria.

Minha volta para o Brasil será muito, mas muito comemorada - mas agora sei que nunca mais vou saber como é pertencer a um lugar só. Mesmo com a saudade me ardendo forte todos os dias, a cidade fica cada vez mais minha, e eu mais dela, e o por do sol de Brasília vai precisar abrir um espacinho no meu coração para acomodar as cerejeiras, as ilhas e o mar azul...

A partir de agora, sou e serei só saudade.






quinta-feira, 3 de abril de 2014

Spring fever!

Um dia depois que comecei a cantar a primavera, caiu uma nevasca, só pra me contradizer.

Janela da minha sala de aula no final de março: NEVE! 


Fiquei com dó das florzinhas enterradas pela neve, e por alguns dias só nevou e nevou, e quando todo mundo já ia pensando que os Starks estavam certos a qualquer momento e o Inverno estava, sim, chegando de volta, (isso foi uma piadinha de Game of Thrones, para os desavisados), vem um dia lindo e derrete a neve toda.

Podem nevar nas flores, mas não podem parar a primavera!

Até os óculos escuros eu pude tirar da mala! 


Desde então não nevou mais - só choveu um pouquinho de gelo agora no começo de abril - mas o tempo está definitivamente virando.

Posso ver isso na janela, com os corvos pegando galhos para fazer ninhos e brotinhos minúsculos despontando na ponta dos galhos nus da árvore na frente da minha casa. Posso ver pela grama, brotando com mais força e cobrindo algumas partes do meu caminho até a Universidade de florezinhas coloridas. Posso ver, enfim, pela beleza indescritível das cerejeiras nos jardins reais - Kungsträdgården. Mas, mesmo que passasse o dia inteiro com as janelas fechadas, sem olhar para o lado e sem ver uma única árvore, eu veria a primavera no lugar mais inusitado: nas pessoas suecas.

As cerejeiras estão começando a florir, e acho que vou ter que dedicar uma postagem inteira à lindeza que é o jardim real com seus corredores de cerejeiras... 

Quando chego na Universidade, seis graus lá fora e sol, eles já estão saindo de suas conchas de casacos e caras amarradas para sentar na grama, nos bancos e - meu Deus! - até conversar e sorrir na rua. É como se a humanidade deles tivesse hibernado, e seus sentimentos de afeição pela vida e pelas outras pessoas acordassem com os primeiros raios de sol, depois de um longo inverno de introversão e uma atitude quase robótica em relação à vida. Será que eles vão chegar no patamar de "simpáticos" até o verão? Veremos, veremos...

(e longe de mim dizer que os suecos são mal educados - uma análise de generalidades sobre os estocolmenses fica pra outro texto - mas, embora eles, em geral, educados e atenciosos nos serviços, mas não tente tocar nem falar com nenhum sueco fora de um contexto formal. Eles ficam incomodados)

Com os meus meses na Suécia, confesso que entendo agora esse curioso fenômeno das pessoas tirando a roupa ao menor sinal de um raio de sol. Sete graus lá fora, caminhando de casa para a aula, e eu não resisti à tentação de sentir um pouquinho do sol nos braços, do vento no corpo, de finalmente me livrar dessa prisão corporal de casacos e mais casacos...

O frio é relativo ao desespero por vitamina D

Quando o sol está batendo, até mesmo o vento frio não consegue afastar essa sensação de vitalidade que permeia o corpo, essa sensação de nova vida que parece que está só nas estações, mas acaba contagiando os seres humanos...

E aí, em rompantes de um filosofar sazonal, eu vejo os pontinhos coloridos na grama, os brotinhos nos galhos secos e as cerejeiras no jardim, e meus olhos se enchem de água.

A primavera enche a cidade dura de concreto de coisas tão frágeis que um pisão já amassa - essas flores cheias de frio, que teimam em brotar mesmo com o tempo inconstante. De uma em uma, pequenas, singelas, mas com uma força coletiva capaz de alterar o mundo a sua volta de uma forma! É um crescimento lento, mas ele está lá: a cada dia os brotos mais fortes, maiores, a cada dia as flores mais vistosas, brigando com a neve pela paisagem, resistindo ao vento e ao frio com pétalas finas, mas sabendo que já não é mais tempo de inverno. Agora o tempo é de tudo o que é jovem e brota da terra, de tudo o que é novo e cresce por cima das folhas secas, de tudo o que é colorido não por vaidade, mas por necessidade de cor na paisagem cinzenta.


É o momento de celebrar essa força diferente, essa força que não vem de ferro e fogo e de agressividade, mas de uma delicadeza que, por mais que seja frágil, é avassaladora quando vem. Quem, nesse mundo, pode entender por que chamar alguém de "florzinha" significa dizer que essa pessoa é fraca, quando uma florzinha espera enterrada no chão o inverno todo só por alguns dias de cor?  Longe de mim querer promover uma flor a símbolo de virilidade, justamente porque nenhum símbolo viril resiste ao tempo e às flores. Foi esse, no final das contas, meu aprendizado de ir visitar Waterloo (onde Napoleão perdeu a guerra) quando fui para a Bélgica. (mais uma postagem que eu estou devendo). Napoleão quis conquistar o mundo, milhares de pessoas e animais derramaram seus sangues em campos de batalha, mas os velhos canhões viram ferrugem, e todo o sangue da carnificina vira alimento da terra para, na próxima primavera, fazer crescer as flores. Os canhões que amassam flores não resistem à próxima estação, mas em sua coletividade cíclica, as flores são eternas. Talvez, enquanto não tivermos sucesso na macabra obstinação em destruir todas as condições de reprodução da natureza, as flores sempre acabem vencendo o canhão.





segunda-feira, 10 de março de 2014

É primavera! (te amo!)


Passei um tempo sem escrever - fora os momentos atarefados das matérias (sim, agora são mais!), tive um pequeno incidente de decapitação do cabo da bateria e... Bem, basta dizer que fiquei alguns dias sem acesso ao meu computador (justamente o que tinha as fotos da Bélgica, que eu ainda preciso postar).

Muita coisa aconteceu nesse meio tempo, e vou tentar ir escrevendo aos poucos, à medida em que a minha carga de leitura permitir, mas uma coisa eu preciso compartilhar aqui:

É PRIMAVERA!

Com fantásticos 8 graus hoje, e um fim de semana ensolarado maravilhoso, a cidade, de pouquinho em pouquinho, se transforma. O céu é pálido, mas é definitivmente azul, e o sol, que andava tão estrangeiro, começa a tomar vergonha na cara e até esquentar um pouquinho. A grama parece um pouquinho mais verde, respirando aliviada com a ausência de neve, e finalmente, no meio da paisagem verde e cinza, nesse fim de semana eu vi flores! Pequenas flores amarelas, ainda tímidas, desabrochando ao pé de algumas árvores. Flores de grama, mesmo - mas o começo de uma promessa de cores. Já sinto cheiro de terra quando ando pelo campo entre o meu prédio e a Universidade, e fui pega completamente de surpresa, no metrô, quando ele surgiu na superfície entre uma ilha e outra (para os desavisados, Estocolmo é um arquipélago), e o mar tinha passado de cinza chumbo para um azul chocante, de fazer inveja no céu.

Eu estava me recuperando de uma gripe, ainda com o nariz todo entupido, indo no supermercado porque estavam faltando algumas coisas básicas, mas não conseguia parar de sorrir. É primavera!

Mesmo que eu apreciasse a estética melancólica do inverno, confesso que me sinto infinitamente feliz com as pequenas coisas de primavera - as horas a mais de sol, o verde ficando mais forte, poder abrir a janela de casa sem congelar... Hoje, no caminho para a aula, decidi ir a pé e acabei tirando o casaco no meio do caminho: lá fui eu, só de camiseta, andando pelos bosques ainda esqueléticos para o canto meio isolado onde fica minha aula de direitos da criança e adolescente.

Eu não tinha percebido antes, mas como eu sentia a falta do ar fresco nos meus braços, no meu pescoço, de ter o meu corpo um pouco mais exposto... Agora eu entendo porque essas pessoas suecas doidas já estão tirando a roupa quando a temperatura passa dos 10 graus. Não estavam nem 7 e eu já estava só de camiseta!

Só percebo o quanto preciso escrever sobre tantas coisas aqui ainda quando vou falar do que me é familiar e me lembro que não expliquei nada: a Universidade, a biblioteca municipal, o metrô e os meus cantinhos preferidos da cidade. Tudo a seu tempo, cada vez menos com voz de turista, cada vez mais com perspectiva de residente.

Mas sempre, sempre com olhos estrangeiros.

Talvez até em Brasília esses olhos estrangeiros não me abandonam - uma mania peculiar de olhar para os arredores todos os dias como se fosse a primeira vez, estranhando a beleza e os contornos peculiares de cada lugar, pensando sobre cada estação de metrô, cada pessoa que senta ao meu lado no ônibus, cada etnografia de supermercado... Sinceramente espero que nunca me acostume verdadeiramente com lugar nenhum.

Mas isso já passa um pouquinho de minha pretendida observação. Talvez seja o efeito da primavera. Por aqui, as pessoas atribuem muita coisa ao efeito das estações - e olha, elas não estão erradas.

Para começo de conversa, essa instabilidade no tempo faz todo mundo (inclusive eu!) a ficar meio doente. Não, o problema não era o frio de antes, mas dá uma esquentadinha e lá vai... Mas é a influência psicológica que as estações exercem que é de especial interesse aqui. Meus amigos suecos falam de um país quase bipolar, de melancólicos introspectivos no inverno que se transfiguram em esportistas bronzeados e animados. E que isso se torna praticamente uma pressão social, ao ponto dos suicídios geralmente acontecerem na primavera - sim, na primavera, e não no inverno. Afinal, estar triste e deprimida no inverno é o que é de se esperar, e ainda fica aquela expectativa de algo externo qeu vai salvar - "quando chegar a primavera, as coisas melhoram..." Só que às vezes não melhora, porque o problema não estava exatamente nas estações... E é aí que a coisa complica.

De qualquer forma, apesar de me descobrir sazonal aqui, na hora de escrever decidi que a melhor estratégia é abrir mão da linearidade. Se fosse escrever das viagens "grandes" em ordem, acabo perdendo muitos momentos e postagens menores que vão me ocorrendo no dia a dia, que podem ser mais interessantes do que intervalos de semanas, como foi esse...

Assim sendo - estou de volta!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Kiruna, parte 4 - a aurora boreal

Sim, é isso aí mesmo
Eu demorei tanto para escrever essa postagem. Já fui e voltei de uma viagem, mas nem assim para conseguir escrever... Afinal, como você consegue descrever a aurora boreal?

Entenda, embora a foto seja muito bonita, e as palavras possam ser tão reais que até evoquem sensações quase físicas a quem lê, simplesmente não tem como descrever adequadamente todo o jogo sensorial, emocional e até espiritual (para quem pensa que tem alma) do que foi essa experiência.

Mas vou tentar começar.

Tínhamos acabado de chegar do passeio dos huskies, cansados, felizes e com um pouco de frio. Apesar de não ter tido a aurora até aquele momento, eu iria embora feliz - só os primeiros dias já foram experiências interessantíssimas para a vida toda.

Mas mal tínhamos chegado e tirado as muitas camadas de roupa que nos envolvia, quando começamos a ouvir gritos: conforme o combinado pelo acampamento, quem visse as luzes gritava NORTHERN LIGHTS para que todos os outros pudessem sair pra ver.

Na verdade, não precisavam ter falado -  ao longo das cerca de duas horas que ficamos lá fora, gritar exclamações de surpresa e amazement não era incomum, como quem aplaude e grita para um espetáculo fantástico. Só que gritávamos para o céu...


No começo, era uma coloração estranha entre as nuvens, como se alguém tivesse mexido com as cores do céu em algum editor de imagens, como algum efeito estranho de instagram de algum/a adolescente que gosta demais de filtros. Mas logo, uma linha tênue, quase como que um arco íris verde atravessou o céu, e as cores começavam.

O céu estava vivo, e dançava.

As luzes apareciam, ficavam mais brilhantes, variavam suavemente de posição e se acalmavam, até que ouvíssemos o próximo grito de surpresa e, do outro lado do horizonte, uma nova pincelada verde forte, que às vezes se mexia na frente dos nossos olhos, transformando a paisagem do céu, com sua solene e lenta rotação das estrelas, em uma transformação veloz e solene.

Eu me sentia como se o mundo pudesse acabar a qualquer instante, como se o céu estivesse sendo cortado por ecos de outra dimensão, e que a qualquer momento um anjo ia descer dali e dizer que era o dia do Juízo. Era como se outra dimensão invadisse a eternidade das estrelas, e o mero choque temporal pudesse destruir o tecido do nosso universo. Como uma humana formiguinha (que, ainda por cima adora ficção científica e literatura fantástica), com aquelas cores no céu parecia que qualquer coisa era possível.

A formiguinha nerd na frente do céu infinito
Mas não era só para os olhos que a aurora estava lá - a Lapônia, querendo ou não, ataca os seus sentidos por todos os lados.

Aquela foi a noite mais fria até agora, beirando os menos 30 graus, e por mais que eu quisesse deitar e ficar olhando para o céu até minhas pupilas congelarem, a dor no corpo causada pelo frio não deixava. Entre uma foto e outra, fazíamos polichinelos, corríamos olhando para cima ou inventávamos qualquer exercício bobo para manter nosso corpo quente, para enganar o frio que nos apertava com força. Depois de um tempo, mesmo depois de tudo ter anestesiado já, começa a arder e formigar de novo - e, acredite, entrar em algum lugar quente quase que piora a situação.

Depois que mal aguentava mais, eu e o Victor visitávamos a antesala da sauna, que tinha uma lareira, para conseguir ficar mais tempo vendo as luzes sem virar picolé.

O frio intenso, as luzes no céu, e aquele silêncio quase solene da neve cortado apenas pelos gritos de surpresas de quem via, "meu Deus, o céu está vivo!" 


Minhas palavras chegam ao limite nessas horas - o frio, a dor, o silêncio, a brancura da noite estrelada e uma bailarina lenta em cima do céu, deixando as pegadas de suas sapatilhas em verde...

Não, acho que não consigo mais. As metáforas soam estranhas, forçadas; as analogias não parecem nada com o que foi...

O que sei dizer é que, depois que voltei para o chalé, precisei ficar quase abraçada no aquecedor para, lentamente, fazer meu corpo voltar à sua temperatura normal.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Kiruna, parte 3: Huskies, snowmobiles e um hotel de gelo


O nosso último dia em Kiruna foi, de longe, o mais cheio - de passeios, de experiências, de tudo. Do começo até o final, acho que não paramos um minuto, e quando achava que já tinha tido o clímax e nada do que seguisse pudesse ser tão incrível, lá vinha a próxima coisa interessante para provar que eu estava errada...

De manhã fizemos um passeio para conhecer o Ice Hotel, mas não era só o destino que era peculiar: fomos para lá de Snowmobile, uma espécie de jet ski feito para a neve, o que em si já foi uma aventura. 

Luisa em pose de pin-up no Snowmobile: vulgar sem ser sexy. 

Sábado foi um dia cheio! Às 9:30 saiu o nosso primeiro tour, de snowmobile, para o hotel de gelo. Fomos em um grupo grande - mais de 40 pessoas! - mas isso só se sentiu na hora de colocar as roupas de inverno para sair. 

Sim, parecia a linha de partida de Mario Kart 

Macacão, meias, botas, balaclava, cachecol extra, luvas, capacete, óculos... 

Depois de colocar toda a indumentária, além de ter qualquer senso substituído pela única possibilidade de não congelar e morrer em alta velocidade na neve, me fez parecer um robocop friorento: 

Robocop gay, a julgar pelo cachecol embaixo, mas enfim... 
Os snowmobiles são como jets kis da neve, com trenós na frente, e é o meio de trnasporte ideal para esses meses congelados. É um pouco como dirigir uma moto, com suas inclinações todas... Deus, que medinho, como eu ia devagar! O bom mesmo era ficar sentada atrás, onde era mais estável e eu podia olhar para a paisagem linda.

Pra que correr se você pode aproveitar uma paisagem assim? 

Eu e o Lucas fomos até "demovidos" para o fim da linha de snowmobiles por nossa lerdeza. Mas vimos paisagens lindas na ida e, apesar da roupa toda, meu rosto e nariz congelavam. O negócio é que meus óculos embaçavam se eu colocasse o cachecol sobre o nariz. Sorte, né? Mas o frio era até suportável enquanto cruzávamos lagos congelados e florestas... 



Chegando no ice hotel (e olha que, quando fomos para a Lapônia, nem esperávamos isso como a principal atração), que coisa mais fantástica! 

Só essas construções de gelo já são impressionantes - mas esperem só para ver como é por dentro! 
O hotel é construído do zero todo ano, em outubro, para fechar e derreter inteiro em abril - é o típico exemplo do quanto a beleza é efêmera. 

E como... Todo ano é feito um concurso para artistas que queiram decorar os quartos, os locais de convivência e até a igreja (essa porta preta na foto acima). E a cada ano é uma coisa completamente diferente, feita por algum autor ou autora diferente, renascendo novo e diferente para se desfazer logo depois... Só esse fato já é incrível em si. 


A capela (consagrada pela igreja da Suécia) é feita por uma combinação de neve e gelo feita para o sol poder brilhar azul pelas paredes, como se fosse um mosaico...


Ela era toda esculpida com formas triangulares por dentro, e lá eram feitos muitos casamentos - na sua maioria, de suecos, mesmo - e até mesmo alguns batizados - de pessoas da região, principalmente. Mas veja bem, se precisassem acender alguma vela para a ocasião, só poderia ser por um curtíssimo período de tempo para não derreter ou sujar permanentemente o teto da igreja.



Em uma Europa cheia de igrejas que emanam seu sentido do sagrado através dos séculos que aguentaram, o que pensar de uma igreja que não dura mais do que uma estação? Ela é quase uma rosa de Adônis perto das catedrais que despontam no horizonte mesmo em Estocolmo - mas uma construção toda de neve desse jeito é arrepiante de se imaginar, mais ainda de entrar... Na Suécia extremamente agnóstica, é até engraçado pensar nos significados depositados nesse gelo. São casamentos, batizados, rituais da vida que talvez já tenham perdido o significado... Sou eu sozinha, então, que carrego comigo a ideia do sagrado para repousar nesses cantos tão remotos? 





Depois da igreja, entramos no hotel em si, e cada a recepção e os corredores já eram cheios de artes e desenhos. O artista que fez a recepção desse ano é um brasileiro - o mesmo que fez o logo da copa, pelo que falaram - com direito até a hashtag em português... 

#instalapônia #tinhaqueserbrasileiro #macacãohorrível #luvasruinsprahashtag #chapéudofinn 
Mas antes de entrar nos quartos, ainda tinha uma atração a mais: o ICE BAR! 



Para variar, estava tocando pink floyd quando eu decidi filmar. Para além de todas as esculturas e colunas e estruturas de gelo, tenho certeza que a coisa mais incrível que vocês vão ver nesse vídeo é como o meu cabelo consegue desafiar a gravidade, a moral, os bons costumes e até o decoro diplomático com esse formato bizarro. 

Nope, chapéu não é só para o frio nas orelhas. 
Depois disso, fomos visitar os quartos (e sem invadir a privacidade de ninguém, por favor...). É que, até as 18h, o hotel funciona como uma espécie de museu, e só depois os hóspedes podem fechar cortinas - veja bem, nada de portas. É que, como a estrutura é de gelo e neve, ela se acomoda ao longo do inverno, e se mesmo colunas que eram originalmente retas começam a torcer com o peso da neve, imagine só o que aconteceria com uma porta?! 

Sim, elas eram retas no começo da estação. Foram feitas para ficarem assim, claro, mas ainda sim, imagina só! 

Os hóspedes comem e vão ao banheiro em um prédio "quente" que fica logo ao lado, e também tem um alojamento diponível se não aguentarem o frio. Afinal, por mais que falem de como os iglus esquentam, basta lembrar que qualquer temperatura acima de zero graus faz o hotel inteiro derreter...


Enquanto haviam vários quartos "standard" quase iguais, alguns dos quartos eram assinados por artistas. Todo ano há um concurso para fazer cada um desses quartos, e os temas iam desde "antes do big bang", que é a foto acima, até Narciso, beijando seu próprio reflexo...

(preciso dizer que ficou meio que preso na hora de tirar a boca?) 
...ou o metrô de londres...

A cama ficava dentro do trem. Ge-ni-al. 
...ou uma paisagem de cidade...


...até coisas como ursos fazendo poledance.

Ser sexy na Lapônia é uma coisa muito difícil. 
Só sei que, de tantas fotos que foram tiradas, por mais que seja incrível olhar para tudo agora, posso dizer com segurança que não passa nem metade do que era a sensação de estar lá.


Se eu pudesse, passaria horas olhando para cada detalhe, cada reflexo de luz no gelo, cada curva da neve, cada detalhe bonito dos quartos, fruto de tantas horas de trabalho que, só do meu olhar e tocar, já anunciava que tinha pouco tempo de permanência naquela forma...


Pensar que aquele hotel todo é só água, e para a água ia voltar no verão, com uma forma tão trabalhada, mas só emprestada da natureza enquanto a temperatura permite... 


Para além do frio, alguém iria sinceramente querer dormir nesse hotel ao invés de ficar olhando para toda a estranheza do próprio quarto? 

Eu pulando com o unicórnio vai ser a última foto do ice hotel, eu juro! 

A volta de snowmobile foi mais pela emoção do que pela vista - fomos rápido, e nevava muito, a ponto de mal conseguirmos ver o que acontecia à nossa frente. Nada de outra margem do lago, ou mesmo a pessoa à nossa frente... Só o silêncio rasgado pelo motor do snowmobile. Eu juro que comecei a ouvir coisas nesse barulho. Um triângulo, às vezes até uma música inteira... Mas era mesmo um barulho ensurdecedor.

Depois do passeio, um kebab de carne de rena. Omnomnom, sério, delicioso. 
E uma cidra para acompanhar. Tem coisa mais sueca do que isso?

Descansar algumas horas, até dormir um pouco (dessa vez, ouvindo música catalã), e se preparar para a próxima experiência:

andar de trenó! Com huskies! Omg! 

Lá foi o mesmo procedimento de colocar roupa mais quente, mas dessa vez um pouco menor: só um chapéu peludo, sem balaclava. Foram os quatro no trenó, comigo na frente, e os cães latiam e uivavam, pulando, ansiosos. Um "yipp, yipp" e eles estavam correndo, um passeio mais lento, mas mesmo assim emocionante. E quieto. Podíamos ver e ouvir a floresta, podíamos ser parte daquilo ao invés de só cortar a paisagem fazendo barulho. É quase mágico andar assim, só ouvindo o estalo do trenó, os passos leves dos huskies e os sons da floresta congelada... 

Detalhes para os olhos creepies brilhando no escuro atrás... 
Foi mais difícil tirar foto dessa parte da viagem, embora a paisagem estivesse infinitamente bonita. Além de já ser noite, e ficar mais difícil fazer tudo com o flash, segurar no trenó era meio que prioridade sobre as fotos... Mas as fotos conseguem capturar muito pouco do foi - afinal, uma boa parte da experiência se prende muito aos outros sentidos. Em um momento, na volta, a lanterna do condutor ficou sem bateria e nós andamos um trecho no escuro... Acho que foi a melhor parte do passeio. sem nenhuma luz artificial, só as estrelas fracamente refletindo na neve e aquele silêncio que ficava ainda maior sem os estímulos visuais para se distraírem... As árvores eram sombras enormes em um mundo já sombrio, e parecia que estávamos longe de tudo que nos cerca e define tão facilmente, longe da luz elétrica, das cidades, das ruas ou do calor... 


E depois ainda chegamos em uma cabana, onde comemos pão e sopa de cogumelos, esquentados em uma fogueira.

Não sem antes fazer carinho nos cães que tinham nos levado, é claro. Eu achei que iriam ser bem treinados para cumprir sua tarefa, mas sérios e até agressivos... Mas eram uns fofos. Se derretiam com carinhos, cheiravam, pulavam e até ganhei uma lambida no nariz quando desavisada. TÃO FOFOS!  


O engraçado é que, com o domínio dos comandos verbais que os cachorros tinham, poderíamos dizer facilmente que eles sabem mais sueco do que eu. 

Os cães eram bastante bem treinados e tratados, sem chicotes ou xingamentos. Recebiam seus nomes de acordo com a posição que ocupam no trenó - alguns com nome de doce (honey, cherry, mint), de personagens de filmes ( como Gimli ou Sauron, hihi). Essa raça foi criada para estar em constante movimento, e ficam na neve sem problema, graças ao seu metabolismo de taxas altíssimas. Na verdade, quando passa de -40, eles só param os tours por causa dos turistas, já que os cachorros ficam até melhor nas temperaturas hiper baixas, porque esfriam seu corpo um pouquinho mais rápido, deixando-os mais confortáveis. Enquanto eles corriam, pareciam silenciosos e contentes, mas era só parar que começavam a chorar, cavar no chão e ficar impacientes. Nessa estação, ganhavam muita comida (em sua maior parte, carne congelada), mas no verão são alimentados bem menos, para que não morram por sobrecarga no fígado em mais ou menos dois anos. 

São tantos detalhes sobre esses cachorros peculiares que daria para ficar um tempão falando - como são diferentes, mas iguais, aos bichinhos que temos em casa. Afinal, quando estávamos na van voltando para o acampamento, Snow, um dos cachorros mais velhos, simplesmente entrou no porta malas e quis dar um passeio conosco. Depois de anos de puxar trenós, eles viram bichinhos de estimação. (eu já disse milhares de vezes o quanto eles são fofos, certo?) 

Depois de voltarmos para casa, e dar aquela olhadinha no termômetro chegando cada vez mais perto de 30...


...já estávamos conformados que tudo o que veríamos no céu tão perto do ártico eram estrelas. Elas estavam lindas no passeio de trenó, aliás - mas nada de colorido no céu. 

Mas com uma postagem grande assim - e com o tanto mais de fotos que ainda precisaria colocar - achei melhor separar em outra postagem a aurora boreal.

Basta dizer que, logo que voltamos para o hotel e estávamos começando a tirar as roupas e preparar as coisas para ir embora no dia seguinte, ouvimos os outros hóspedes gritando "THE LIGHTS!" 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Kiruna, parte 2: pular no lago congelado, correr descalça na neve.

Sim, eu fiz os dois logo no primeiro dia em Camp Alta.

Nos dois primeiros dias que ficamos lá - o final da tarde de quinta e o dia todo de sexta - não saímos do acampamento. Os dois passeios que iríamos fazer, por uma confusão na reserva, acabaram ficando para o mesmo dia, e o sábado vai ter, portanto, uma postagem separada para não cansar os olhos (sem falar na parte de colocar as fotos, que é sempre um pouco complicadinha).



Pois bem, Camp Alta. Ao invés de tendas congeladas que se imagina quando se fala em um acampamento na Lapônia, ficamos em um chalé quentinho com dois beliches e uma cozinha simpática.

Estrelando: meu pé com meias vermelhas. 

A parte de "acampamento" se aplicava mais ao serviço: nada de room service, comida pronta ou mesmo serviço de limpeza: desde fazer a comida até limpar o apartamento todo antes e depois, tudo éramos nós. Até a roupa de cama nós tínhamos que trazer, levando a situações divertidas como o Abominável Monstro do Edredom: 

Encontre a Luisa na foto. 


Assim, era um chalé bem aquecido e confortável, bem na beira do lago - mas mal dava para notar, já que só víamos uma imensidão de neve. Além dos chalés e do lago, dois quartos de fogueira, e a grande atração da primeira noite: a sauna.

No verão, ela flutua no lago, e no inverno, mal se nota - é só uma casa mais afastada. Demora 1h 30 para aquecer, e chega a 90°C para contrastar com o frio lá fora...

Depois de arrumarmos as nossas coisas, para não ficarmos só dentro de casa no jantar, fomos ver as fogueiras... E logo surgiu a ideia da sauna. No nosso 'tour' pelo acampamento, ouvimos que as pessoas suecas (e alemãs) vão peladas para a sauna (mista, obviamente), mas valia de qualquer jeito. Mas o mais divertido era o alçapão no chão da sauna, que dava direto para o lago gelado. Mas é claro que eu queria ver como era.  Como eu esqueci meu biquíni no Brasil, fui de calcinha colorida e um top, mesmo... E, no final, a sauna era tão quente que não só entramos no lago, mas também saímos correndo na nevel, descalços, para esfriar o corpo da sauna quentíssima.

Essa é a porta da sauna, e a neve na qual a gente saía correndo quando ficava quente demais. Não, não vou mostrar a foto do povo só de roupa de baixo correndo na neve. 

Maravilhosa a sensação de poder ir sem casaco para a neve, daquele frio que faz a gente se sentir vivo. Enquanto isso, com a gente estavam 3 chineses e um alemão. Duas chinesas estavam só de toalha, e o alemão queria estar sem sua toalha, e o chinês, só de roupa de baixo, tinha uma esposa que estava do lado de fora, só em função dele (questões de gênero nuncadormem). Mas o interessante é que nesse mundo de calor e umidade, tudo é possível - mexer assim com a temperatura do corpo nos faz sentir tão incrivelmente vivos! 

De repente, nosso corpo sozinho aguenta a neve, aguenta o lago gelado, aguenta tudo - embora o efeito logo passe e nos deixe tremendo e colocando mais água para evaporar nas pedras da sauna... 

Mas logo vem o desafio de sair - me secar com a toalha, botar as roupas de volta e enfrentar bravamente o frio até a casa, dessa vez sem as temperaturas altas do corpo para me ajudar. 

Vista do lago. Que lago? Esse aí, embaixo de 1 metro de gelo...



Na sexta, sem programação, foi o dia de nos divertirmos feito crianças na neve. 


Não há varinha mais mágica do que uma de gelo. Sério.

Que tal um belo piquenique no jardim?

Luisa, nos últimos segundos antes de cair espetacularmente no monte de neve à sua frente. 
Não preciso nem mencionar que essa neve toda nas calças jeans, que não são impermeáveis, viram água gelada em contato com o calor do corpo, certo? 

Também entramos em um iglu que alguns hóspedes europeus habilidosos construíram, e era um negócio super interessante... 

Algo como a suíte presidencial do acampamento, só que ao contrário. 


Confesso que não era lá a coisa mais quente do mundo, mas hey, era bem mais agradável a temperatura lá dentro do que fora...

Eu até construí um boneco de neve! Tudo bem que não ficou aquelas coisas (já que a minha habilidade de fazer bonecos de neve nunca tinha sido testada até agora), mas estava lá, pareendo mesmo um boneco, com bracinhos de galho e tudo! 

Behold the masterpiece! 

Tiramos a noite para beber vinho, comer pipoca, pizza e falar sobre as vicissitudes da vida. Muita nostalgia com música brasileira, muitos risos com a tentativa de traduzir as letras dos funks, e toda a delícia de mostrar para alguém o que é essa loucura diversa da música brasileira. Maravilha. Antes de comer (e ainda na esperança de ver a aurora boreal), eu e o Lucas fomos caminhar sobre o lago congelado enquanto os outros estavam tentando fazer cross country skiing. E nós dois atravessamos o lago de cabo a rabo, sentindo todo aquele medo primal das coisas que surgem no escuro na floresta que cercava as margens. O silêncio era tota e cada pequeno som nos fazia querer correr, mas ainda sim era tudo bonito - in a kind of a creepy way. Um silêncio que ameaça apagar você, esse pontinho indistinto na imensidão de árvores e neve. Difícil se sentir importante quando você é um pacotinho de calor indefeso no meio do ciclo extremo das estações. Na neve que abafa tudo e come até o som desajeitado dos seus passos.

Minha cara de "atravessei um lago gelado, agora bora pra casa que minha cara está tão congelada que eu nem consigo sorrir!" 
E as estrelas... Olhar as estrelas, coisa boba, quase me deu vontade de chorar. Que estrelas estranhas são essas no céu, sem meu cruzeiro do sul, sem as 3 marias... Céu limpo e o frio, tantas estrelas, mas não era o meu céu. Por que isso me afetou agora? O que há no céu, que isso me move? Talvez o fato de não ser o céu que minhas pessoas queridas olham. São sempre as pessoas que voltam à minha mente... E talvez também de lembrar do Sítio, desse meu lugar de ver estrelas...

Nossa, estar longe e sozinha é difícil. Eu me divirto muito, sim, mas está lá sempre a falta que faz, a separação doendo, sem um familiar ou pessoa mais próxima para aplacar minha saudade - para falar o que eu sinto, para encostar no ombro... Sinto isso mais ainda agora, sozinha em um trem, só ouvindo uma língua que eu não entendo. 

Foi muito bom estar com os meninos, ter um tempo para conversar, ter alguém com quem dividir as coisas todas que estavam acontecendo... Agora sozinha no trem, por contraste, isso me parece ainda mais precioso.