Depois de publicar o que seria a primeira parte do meu estudo (que vai se transformar em um trabalho em grupo bem menor, em inglês), talvez fosse possível imaginar que eu estivesse bastante ocupada com as tarefas da matéria - ainda mais porque tive que adiantar algumas leituras para poder viajar.
Sim, viajar! Amanhã embarco para Kiruna, uma das cidades mais boreais do mundo (e a mais ao norte da Suécia, eu penso), para fazer aquelas coisas que se faz todo dia: ver a aurora boreal, hotéis de gelo, huskies puxando trenós...
Não sei como vai ser o acesso à internet, mas provavelmente vou passar mais tempo aproveitando (e escrevendo em um caderno, já que não levo o computador) para poder contar as coisas só na segunda-feira.
Até logo!
Viajar é um movimento - para os quatro cantos de um mundo redondo, pelas trilhas frágeis de uma mente caótica, pelos mil significados de um texto, uma música, um filme, por um mar de coisas absurdas e pelos caminhos tortuosos de sonhar com um mundo mais belo e lutar para vê-lo realizado. Viajar é muitas coisas - menos ficar parada.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
domingo, 26 de janeiro de 2014
Crianças suecas: um relatório
Engraçado que isso aqui é, ao mesmo tempo, postagem de blog e trabalho para a Universidade: o primeiro trabalho em grupo que estudamos é um pequeno estudo etnográfico sobre como as crianças aparecem no espaço urbano de Estocolmo. Em palavras mais simples, nossa tarefa é observar como as crianças se comportam e ocupam o espaço em alguns lugares da cidade: seus hábitos, suas falas ou silêncios, se há ou não crianças por lá, o que elas fazem, etc. Nada muito teoricamente trabalhado ou profundo, simplesmente um relato de um certo tempo de observação empírica.
Meu grupo escolheu como tema mais geral para orientar a observação a relação das crianças com o consumo - como elas se comportam em ambientes em que diferentes coisas são consumidas. A Drottninggatan, uma das ruas principais de compras da cidade, foi escolhida pela diversidade de espaços que comporta. Três locais foram escolhidos: logo na frente do parlamento, na ligação com o centro histórico; na saída do metrô, onde há uma grande circulação de pessoas e, por fim, em uma loja de brinquedos localizada na mesma rua.
Minha observação foi feita em um sábado, perto da hora do almoço. É uma das poucas horas em que o sol está no céu, e as lojas estão todas abertas. Desta forma, é um horário bastante propício tanto para quem está a turismo quanto para quem quer comprar alguma coisa.
1. Parlamento
O primeiro local a ser estudado é na frente do Parlamento, na junção entre essa rua e Gamla Stan, a cidade histórica. Ou seja, o consumo lá é algo menos imediato: não consumo como a loja, mas sim como um local bastante propício ao turismo, especialmente arrumado e mantido para, justamente, atrair o consumo da cidade como um todo, do turismo naquela região.
As características observadas nesse primeiro lugar incluem:
- Segurança reforçada, devido à importância política do prédio. Um guarda de segurança na porta o tempo todo.
- Proximidade com o centro histórico, tornando-se uma área com a presença, se não predominância, de turistas.
- Lugar mais amplo, com mais espaço, e perto de uma ponte, propício para tirar fotos e apreciar a paisagem.
1.1. - Forma de ocupar o espaço
A ocorrência de crianças aqui era bastante comum, embora não predominante: elas vinham junto com suas famílias, em sua grande maioria, enquanto nem todos os adultos estavam acompanhados de crianças.
As crianças, em sua grande maioria, apareciam na companhia dos pais, enquanto crianças maiores e adolescentes podiam estar tanto acompanhados quanto sozinhos. A maioria andava em grupos maiores de duas pessoas, posicionadas entre os adultos: ou seja, elas ficavam no centro, com adultos na frente e atrás, ao invés de liderarem o grupo, ou serem deixadas para trás. Aqui predominavam, portanto, grupos maiores, geralmente de quatro a mais.
Em relação aos adultos que as acompanham, apresentavam maior curiosidade em relação ao ambiente: olhavam mais para os lados e para cima, enquanto os adultos tinham uma tendência maior a olharem reto, para sua destinação.
Normalmente seguiam o passo dos pais, no mesmo ritmo. Algumas poucas corriam, mas isso também era feito ou com a anuência, ou mesmo com o encorajamento do pai, que corria junto.
As crianças, embora estivessem sempre à vista dos pais, tinham uma certa liberdade de andarem a uns 2, 3 metros de distância, explorarem sozinhas o ambiente, embora mantivessem, em geral, o passo dos adultos.
As vozes das crianças, em termos de volume, eram similares a dos pais, não falando nem mais alto, nem notadamente mais baixo, quando conversavam - ocorrência também frequente. Aliás, a similitude das crianças com os pais é notável: elas se vestem e se comportam de formas praticamente espelhadas - pode-se dizer que não é muito forte uma cultura diferenciadora em termos de forma de se vestir.
1.2. - Roupas
Um exemplo muito bom era a de uma mãe bastante elegante, de botas de cano alto, sobretudo e uma echarpe, que tinha uma filha vestida de forma bastante similar, no mesmo estilo (embora houvesse adaptações, como o fato de a bota não ter salto).
A vestimenta de crianças, embora não variasse em estilo, variava um pouco de cor: enquanto a maioria dos casacos dos adultos era em tons de preto, marrom e cinza, algumas das crianças trajavam roupas coloridas, casacos de cor cosa, azul claro, verde, até amarelo marca texto. Nesses casos, porém, eram crianças com o que pareciam ser roupas de ski, e os pais também estavam vestidos de forma mais colorida. Ou seja, se os pais estão com casacos de esqui coloridos, os filhos tendem a ter uma vestimenta em estilo parecido, enquanto pais de casaco mais urbanos também tinham filhos vestidos desta forma.
Não sei se é uma particularidade da roupa de inverno, mas notei que era bem pouca a presença de 'marcas infantis", como desenhos animados específicos, personagens de quadrinhos, etc. Vi um gorro do angry birds rosa, um gorro do Elmo, da Vila Sésamo, e um gorro do homem aranha em cabeças de crianças, mas nada mais do que isso. A grande maioria, mesmo que trajasse roupas mais "infantis", coloridas ou com bichinhos, estava com roupas genéricas.
1.3. Adolescentes
Um único grupo de adolescentes, que parecia ser de turistas, estava falando e rindo bastante alto, em grupoas maiores. Esse foi um comportamento que eu não encontrei entre os jovens suecos, que se locomoviam em grupos não maiores que duas pessoas, conversando baixo, ou sozinhos com os fones de ouvido. Parecia mais um comportamento de turistas em um grupo, mesmo.
1.4. Carrinhos de bebê
Muitos, muitos carrinhos de bebê, até para crianças maiores (de uns 3 anos), e alguns para mais de uma criança, embora elas tivessem idades diferentes. A maioria era estranhamente apática: enrolada em suas cobertas e casacos, olhava para frente com desinteresse. Havia notadamente pouca interação entre pais e bebês no carrinho. A maiora ficava virado para frente: ou seja, a criança não podia ver a pessoa empurrando o carrinho. Me chocou particularmente uma família: eram pai, mãe e três crianças, sendo duas delas maiores e um bebê. Os pais conversavam com as duas crianças maiores enquanto o bebê era puxado no carrinho como se fosse uma mala, virado para trás e sem ter qualquer tipo de interação com a família.
2. T-centralen
O segundo lugar é basicamente o coração da cidade: a saída da estação central (T-centralen), em que milhares de pessoas circulam todos os dias. As pessoas chegam do metrô por estações de quase todas as linhas, que se encontram lá, e sobem por uma escada rolante (ou elevador) até a rua, que é cercada de lojas dos mais variados tipos - em sua maioria, lojas de roupas.
O local estava bem cheio, com uma circulação constante de pessoas as mais variadas.
No meio de minha observação, um músico de rua que tocava violão e se utilizava de programas de computaodr para gerar efeitos começou a tocar em um estilo "one man band", em um ritmo bastante animado. Ou seja, isso afetou também a forma como as pessoas em volta se comportavam.
O ambiente contava também com pessoas distribuindo folhetos e uma lojinha de cachorro quente.
2.1. Crianças no espaço.
Em sua grande maioria, as crianças estavam de mãos dadas com seus responsáveis. Eles podiam ser tanto mães, pais ou mesmo irmãos mais velhos, que pareciam bastante envolvidos no cuidado com seus irmãos mais novos. Havia uma grande ocorrência de duplas: mães ou pais com apenas uma criança. Muito importante aqui era a proximidade e o controle constante: à medida que iam se aproximando da estação, e o local ficava mais cheio, pais procuravam ativamente dar as mãos aos filhos. Observei muitas vezes as próprias crianças procurando a proximidade de seus pais. Mesmo no caso de famílias que não estavam de mãos dadas, a proximidade e a vigilância era uma constante, bem mais do que no Parlamento.
As mãos se soltavam, porém, no minuto em que entravam em lojas, momento no qual as crianças adquiriam maior liberdade de circulação, enquanto os pais desviavam sua atenção para os produtos. Ou seja, no momento em que saíam na rua, as crianças todas estavam sob constante escrutínio e controle por parte dos pais.
As crianças, em geral, pareciam concordar com essa proximidade, ativamente procurando-a. Quando uma criança se soltava, a reação do adulto era de estender a mão enfaticamente, e, se não fosse correspondido, chamar a criança. Não foi preciso erguer a voz.
Apenas duas crianças estavam correndo, e era em círculos em volta da mãe, e não estavam gritando muito alto. Apenas um episódio de choro alto ocorreu, de uma criança tentando sair do carrinho de bebê.
A voz das crianças não era evidente neste espaço, se misturando ao barulho geral sem se sobrepor.
Elas interagiam mais com os estímulos locais - as pessoas distribuindo folhetos, o músico quando começou a tocar. Elas tinham muito mais propensão a pegar os folhetos (aceitar quando os adultos recusam, ou mesmo desviar o caminho para pegar o folheto). Elas queriam parar para ver o músico, mas em geral seguiam os passos dos pais. Algumas poucas paravam e eram arrastadas, e apenas uma mãe parou quando o filho quis parar, e o encorajou a dar uma moeda. A maioria, porém, embora mostrasse interesse, continuava seguindo o passo dos pais sem fazer nenhum movimento em direção a ver o músico.
2.2. - Roupas
As roupas, como repito, eram similares às dos pais. Crianças tinham apenas os marcadores de terem roupas mais coloridas, mas sempre seguindo o estilo geral dos adultos - isso talvez seja por causa do frio? Algumas crianças de macacões de corpo inteiro. Nenhuma criança usando maquiagem, ou qualquer roupa de adulto. Se elas pareciam "mini-adultos", era porque estavam vestidas de forma parecida com as dos pais.
2.3. Adolescentes
Em duplas ou sozinhos, muitos fones de ouvido, mas bastante integrados ao ambiente. Fazem compras sozinhos ou em duplas. Apenas um grupo com indumentária "otaku", enquanto o restante tinha roupas que não destoavam do ambiente. Não usam muita maquiagem. Aliás, não se nota uso de maquiagem entre crianças, tampouco adolescentes.
2.4. Bebês.
Quase todos em carrinhos. Quando eram carregados no colo, parecia ser algum esforço excepcional. Bem agasalhados, a maioria era bem apático. Mas quando estavam em maior contato com o ambiente, demonstravam curiosidade. Só dois ou três, maiores, estavam em carrinhos mais abertos, interagindo com um ambiente. Pouquissima interação entre pais e bebês. Só uma mãe que movia o carrinho no ritmo da música, rindo enquanto o bebê dançava. Em compensação, uma mãe com carrinho de bebê parou para ver o músico... e sequer virou o bebê naquela direção!
2.5. Diferenças culturais
Primeiramente, a acessibilidade: quantos pais poderiam ficar andando com carrinhos de bebê se tivessem que pegar ônibus ou metrô? Isso praticamente não aconteceria. Mas o resultado é que, no Brasil, as pessoas interagem muito mais com os bebês. Carregando no colo,conversando, interagindo bem mais. As outras pessoas na rua também interagia muito pouco com os bebês. Não sorriam nem viravam a cabeça, não acenavam, nem nada - esse costume que temos de interagir com bebês parece que é uma coisa que os suecos não conhecem.
Depois, embora todos estivessem de mãos dadas com os filhos, não havia aquele aperto forte de quem segura uma criança que pode sair correndo a qualquer momento. Até eu, que sempre fui uma criança calma, era segurada quase pelo pulso por mamãe na rua, enquanto uma tênue mãozinha enluvada já era o suficiente por lá. Mais para saber onde a criança estava do que por uma percepção de real perigo - e olha que lá era o lugar mais cheio, em que era mais provável de se perder uma criança... As mães e pais, em geral, tinham um semblante mais relaxado, não vi nenhum estresse com os filhos, nem birras, nem nada fora de controle... Parecem que são, em geral, mais relaxados. Isso significa que eles meio que esquecem o bebê e andam na rua como se estivessem empurrando um carrinho de mão com um saco de batata, mas também que as crianças pequenas acompanham os pais com mais calma, sem muitas birras e manhas. Aliás, nem mesmo no lugar mais propício a birras e manhas eu vi qualquer manifestação extrema! Isso nos leva à
3. Loja de brinquedos
É um espaço no subsolo de um conjunto de lojas, e tinha desde brinquedos para bebês até videogames para nintendo wii e 3dsque eu fiquei com vontade de comprar que até crianças mais velhas poderiam aproveitar. Era um local claramente feito para crianças: os corredores eram largos e regulares, para os carrinhos de bebê poderem passar, e todos os produtos ficavam em prateleiras baixas o suficiente para que crianças pequenas alcançassem. Só brinquedos mais frágeis (tipo aqueles modelos lindos de vaquinhas, dragões, fadas, etc) ficavam um pouco mais alto.
3.1. As crianças no espaço.
O espaço feito para elas, e elas realmente o ocupavam - um dos poucos lugares em que elas eram algo como metade da população local. Andavam com bastante liberdade, tanto que eram elas que chamavam os pais (mamma! e pappa! eram as palavras mais ouvidas). Não conseguia entender sobre o que eles conversavam, mas podia ver vozes de negociação, de implorar, e até mesmo algumas vozes frustradas. Crianças mais velhas ou até adolescentes estavam lá com os pais, vendo alguns materiais escolares ou outros jogos. As crianças circulavam, mas não pegavam os brinquedos sem perguntar para os pais antes. Algumas menores brincavam com os brinquedos.
3.2. Diferenças culturais
Aqui, inúmeras: a primeira coisa que eu notei é como elas são diferentes das lojas do Brasil. Sem muita decoração, só os brinquedos dispostos nas prateleiras: e mais, sem separação entre brinquedos de meninos e meninas. Vi um menino falando sobre a Barbie com a mãe - era o carrinho da Barbie e era meio rosa, mas a mãe não parecia achar que a conversa fosse inapropriada de qualquer forma por tratar-se de um menininho.
Claro que havia alguns brinquedos gendrados - bonecas rosas, carrinhos de bombeiro azuis com só meninos nas propagandas - mas a disposição da loja não fazia o verdadeiro "apartheid" que as lojas brasileiras fazem. Os brinquedos eram mais divididos por tema e idade do que se eram de "menino" ou de "menina". Eu achei isso simplesmente ótimo!
Em outros detalhes, não havia nenhum lojista, ou qualquer pessoa vigiando a loja: se fossem crianças bagunceiras, poderiam tocar o terror. Ou seja, confia-se que os pais tenham total controle sobre a situação, sem interferência de outras pessoas. Não sei se isso é um reflexo dos serviços, ou se é mesmo uma confiança de que não há necessidade. Em uma loja de roupas, por exemplo, havia vendedoras... Talvez isso seja uma coisa interessante de perguntar para os colegas suecos.
Bem, essas foram minhas anotações no meu tempo de observação. Espero que não tenha entediado ninguém com os detalhes - e que, é claro, possa ser útil no meu trabalho depois. Agora, "só" mais dois pequenos textos para ler...
Meu grupo escolheu como tema mais geral para orientar a observação a relação das crianças com o consumo - como elas se comportam em ambientes em que diferentes coisas são consumidas. A Drottninggatan, uma das ruas principais de compras da cidade, foi escolhida pela diversidade de espaços que comporta. Três locais foram escolhidos: logo na frente do parlamento, na ligação com o centro histórico; na saída do metrô, onde há uma grande circulação de pessoas e, por fim, em uma loja de brinquedos localizada na mesma rua.
Minha observação foi feita em um sábado, perto da hora do almoço. É uma das poucas horas em que o sol está no céu, e as lojas estão todas abertas. Desta forma, é um horário bastante propício tanto para quem está a turismo quanto para quem quer comprar alguma coisa.
1. Parlamento
O primeiro local a ser estudado é na frente do Parlamento, na junção entre essa rua e Gamla Stan, a cidade histórica. Ou seja, o consumo lá é algo menos imediato: não consumo como a loja, mas sim como um local bastante propício ao turismo, especialmente arrumado e mantido para, justamente, atrair o consumo da cidade como um todo, do turismo naquela região.
As características observadas nesse primeiro lugar incluem:
- Segurança reforçada, devido à importância política do prédio. Um guarda de segurança na porta o tempo todo.
- Proximidade com o centro histórico, tornando-se uma área com a presença, se não predominância, de turistas.
- Lugar mais amplo, com mais espaço, e perto de uma ponte, propício para tirar fotos e apreciar a paisagem.
1.1. - Forma de ocupar o espaço
A ocorrência de crianças aqui era bastante comum, embora não predominante: elas vinham junto com suas famílias, em sua grande maioria, enquanto nem todos os adultos estavam acompanhados de crianças.
As crianças, em sua grande maioria, apareciam na companhia dos pais, enquanto crianças maiores e adolescentes podiam estar tanto acompanhados quanto sozinhos. A maioria andava em grupos maiores de duas pessoas, posicionadas entre os adultos: ou seja, elas ficavam no centro, com adultos na frente e atrás, ao invés de liderarem o grupo, ou serem deixadas para trás. Aqui predominavam, portanto, grupos maiores, geralmente de quatro a mais.
Em relação aos adultos que as acompanham, apresentavam maior curiosidade em relação ao ambiente: olhavam mais para os lados e para cima, enquanto os adultos tinham uma tendência maior a olharem reto, para sua destinação.
Normalmente seguiam o passo dos pais, no mesmo ritmo. Algumas poucas corriam, mas isso também era feito ou com a anuência, ou mesmo com o encorajamento do pai, que corria junto.
As crianças, embora estivessem sempre à vista dos pais, tinham uma certa liberdade de andarem a uns 2, 3 metros de distância, explorarem sozinhas o ambiente, embora mantivessem, em geral, o passo dos adultos.
As vozes das crianças, em termos de volume, eram similares a dos pais, não falando nem mais alto, nem notadamente mais baixo, quando conversavam - ocorrência também frequente. Aliás, a similitude das crianças com os pais é notável: elas se vestem e se comportam de formas praticamente espelhadas - pode-se dizer que não é muito forte uma cultura diferenciadora em termos de forma de se vestir.
1.2. - Roupas
Um exemplo muito bom era a de uma mãe bastante elegante, de botas de cano alto, sobretudo e uma echarpe, que tinha uma filha vestida de forma bastante similar, no mesmo estilo (embora houvesse adaptações, como o fato de a bota não ter salto).
A vestimenta de crianças, embora não variasse em estilo, variava um pouco de cor: enquanto a maioria dos casacos dos adultos era em tons de preto, marrom e cinza, algumas das crianças trajavam roupas coloridas, casacos de cor cosa, azul claro, verde, até amarelo marca texto. Nesses casos, porém, eram crianças com o que pareciam ser roupas de ski, e os pais também estavam vestidos de forma mais colorida. Ou seja, se os pais estão com casacos de esqui coloridos, os filhos tendem a ter uma vestimenta em estilo parecido, enquanto pais de casaco mais urbanos também tinham filhos vestidos desta forma.
Não sei se é uma particularidade da roupa de inverno, mas notei que era bem pouca a presença de 'marcas infantis", como desenhos animados específicos, personagens de quadrinhos, etc. Vi um gorro do angry birds rosa, um gorro do Elmo, da Vila Sésamo, e um gorro do homem aranha em cabeças de crianças, mas nada mais do que isso. A grande maioria, mesmo que trajasse roupas mais "infantis", coloridas ou com bichinhos, estava com roupas genéricas.
1.3. Adolescentes
Um único grupo de adolescentes, que parecia ser de turistas, estava falando e rindo bastante alto, em grupoas maiores. Esse foi um comportamento que eu não encontrei entre os jovens suecos, que se locomoviam em grupos não maiores que duas pessoas, conversando baixo, ou sozinhos com os fones de ouvido. Parecia mais um comportamento de turistas em um grupo, mesmo.
1.4. Carrinhos de bebê
Muitos, muitos carrinhos de bebê, até para crianças maiores (de uns 3 anos), e alguns para mais de uma criança, embora elas tivessem idades diferentes. A maioria era estranhamente apática: enrolada em suas cobertas e casacos, olhava para frente com desinteresse. Havia notadamente pouca interação entre pais e bebês no carrinho. A maiora ficava virado para frente: ou seja, a criança não podia ver a pessoa empurrando o carrinho. Me chocou particularmente uma família: eram pai, mãe e três crianças, sendo duas delas maiores e um bebê. Os pais conversavam com as duas crianças maiores enquanto o bebê era puxado no carrinho como se fosse uma mala, virado para trás e sem ter qualquer tipo de interação com a família.
2. T-centralen
O segundo lugar é basicamente o coração da cidade: a saída da estação central (T-centralen), em que milhares de pessoas circulam todos os dias. As pessoas chegam do metrô por estações de quase todas as linhas, que se encontram lá, e sobem por uma escada rolante (ou elevador) até a rua, que é cercada de lojas dos mais variados tipos - em sua maioria, lojas de roupas.
O local estava bem cheio, com uma circulação constante de pessoas as mais variadas.
No meio de minha observação, um músico de rua que tocava violão e se utilizava de programas de computaodr para gerar efeitos começou a tocar em um estilo "one man band", em um ritmo bastante animado. Ou seja, isso afetou também a forma como as pessoas em volta se comportavam.
O ambiente contava também com pessoas distribuindo folhetos e uma lojinha de cachorro quente.
2.1. Crianças no espaço.
Em sua grande maioria, as crianças estavam de mãos dadas com seus responsáveis. Eles podiam ser tanto mães, pais ou mesmo irmãos mais velhos, que pareciam bastante envolvidos no cuidado com seus irmãos mais novos. Havia uma grande ocorrência de duplas: mães ou pais com apenas uma criança. Muito importante aqui era a proximidade e o controle constante: à medida que iam se aproximando da estação, e o local ficava mais cheio, pais procuravam ativamente dar as mãos aos filhos. Observei muitas vezes as próprias crianças procurando a proximidade de seus pais. Mesmo no caso de famílias que não estavam de mãos dadas, a proximidade e a vigilância era uma constante, bem mais do que no Parlamento.
As mãos se soltavam, porém, no minuto em que entravam em lojas, momento no qual as crianças adquiriam maior liberdade de circulação, enquanto os pais desviavam sua atenção para os produtos. Ou seja, no momento em que saíam na rua, as crianças todas estavam sob constante escrutínio e controle por parte dos pais.
As crianças, em geral, pareciam concordar com essa proximidade, ativamente procurando-a. Quando uma criança se soltava, a reação do adulto era de estender a mão enfaticamente, e, se não fosse correspondido, chamar a criança. Não foi preciso erguer a voz.
Apenas duas crianças estavam correndo, e era em círculos em volta da mãe, e não estavam gritando muito alto. Apenas um episódio de choro alto ocorreu, de uma criança tentando sair do carrinho de bebê.
A voz das crianças não era evidente neste espaço, se misturando ao barulho geral sem se sobrepor.
Elas interagiam mais com os estímulos locais - as pessoas distribuindo folhetos, o músico quando começou a tocar. Elas tinham muito mais propensão a pegar os folhetos (aceitar quando os adultos recusam, ou mesmo desviar o caminho para pegar o folheto). Elas queriam parar para ver o músico, mas em geral seguiam os passos dos pais. Algumas poucas paravam e eram arrastadas, e apenas uma mãe parou quando o filho quis parar, e o encorajou a dar uma moeda. A maioria, porém, embora mostrasse interesse, continuava seguindo o passo dos pais sem fazer nenhum movimento em direção a ver o músico.
2.2. - Roupas
As roupas, como repito, eram similares às dos pais. Crianças tinham apenas os marcadores de terem roupas mais coloridas, mas sempre seguindo o estilo geral dos adultos - isso talvez seja por causa do frio? Algumas crianças de macacões de corpo inteiro. Nenhuma criança usando maquiagem, ou qualquer roupa de adulto. Se elas pareciam "mini-adultos", era porque estavam vestidas de forma parecida com as dos pais.
2.3. Adolescentes
Em duplas ou sozinhos, muitos fones de ouvido, mas bastante integrados ao ambiente. Fazem compras sozinhos ou em duplas. Apenas um grupo com indumentária "otaku", enquanto o restante tinha roupas que não destoavam do ambiente. Não usam muita maquiagem. Aliás, não se nota uso de maquiagem entre crianças, tampouco adolescentes.
2.4. Bebês.
Quase todos em carrinhos. Quando eram carregados no colo, parecia ser algum esforço excepcional. Bem agasalhados, a maioria era bem apático. Mas quando estavam em maior contato com o ambiente, demonstravam curiosidade. Só dois ou três, maiores, estavam em carrinhos mais abertos, interagindo com um ambiente. Pouquissima interação entre pais e bebês. Só uma mãe que movia o carrinho no ritmo da música, rindo enquanto o bebê dançava. Em compensação, uma mãe com carrinho de bebê parou para ver o músico... e sequer virou o bebê naquela direção!
2.5. Diferenças culturais
Primeiramente, a acessibilidade: quantos pais poderiam ficar andando com carrinhos de bebê se tivessem que pegar ônibus ou metrô? Isso praticamente não aconteceria. Mas o resultado é que, no Brasil, as pessoas interagem muito mais com os bebês. Carregando no colo,conversando, interagindo bem mais. As outras pessoas na rua também interagia muito pouco com os bebês. Não sorriam nem viravam a cabeça, não acenavam, nem nada - esse costume que temos de interagir com bebês parece que é uma coisa que os suecos não conhecem.
Depois, embora todos estivessem de mãos dadas com os filhos, não havia aquele aperto forte de quem segura uma criança que pode sair correndo a qualquer momento. Até eu, que sempre fui uma criança calma, era segurada quase pelo pulso por mamãe na rua, enquanto uma tênue mãozinha enluvada já era o suficiente por lá. Mais para saber onde a criança estava do que por uma percepção de real perigo - e olha que lá era o lugar mais cheio, em que era mais provável de se perder uma criança... As mães e pais, em geral, tinham um semblante mais relaxado, não vi nenhum estresse com os filhos, nem birras, nem nada fora de controle... Parecem que são, em geral, mais relaxados. Isso significa que eles meio que esquecem o bebê e andam na rua como se estivessem empurrando um carrinho de mão com um saco de batata, mas também que as crianças pequenas acompanham os pais com mais calma, sem muitas birras e manhas. Aliás, nem mesmo no lugar mais propício a birras e manhas eu vi qualquer manifestação extrema! Isso nos leva à
3. Loja de brinquedos
É um espaço no subsolo de um conjunto de lojas, e tinha desde brinquedos para bebês até videogames para nintendo wii e 3ds
3.1. As crianças no espaço.
O espaço feito para elas, e elas realmente o ocupavam - um dos poucos lugares em que elas eram algo como metade da população local. Andavam com bastante liberdade, tanto que eram elas que chamavam os pais (mamma! e pappa! eram as palavras mais ouvidas). Não conseguia entender sobre o que eles conversavam, mas podia ver vozes de negociação, de implorar, e até mesmo algumas vozes frustradas. Crianças mais velhas ou até adolescentes estavam lá com os pais, vendo alguns materiais escolares ou outros jogos. As crianças circulavam, mas não pegavam os brinquedos sem perguntar para os pais antes. Algumas menores brincavam com os brinquedos.
3.2. Diferenças culturais
Aqui, inúmeras: a primeira coisa que eu notei é como elas são diferentes das lojas do Brasil. Sem muita decoração, só os brinquedos dispostos nas prateleiras: e mais, sem separação entre brinquedos de meninos e meninas. Vi um menino falando sobre a Barbie com a mãe - era o carrinho da Barbie e era meio rosa, mas a mãe não parecia achar que a conversa fosse inapropriada de qualquer forma por tratar-se de um menininho.
Claro que havia alguns brinquedos gendrados - bonecas rosas, carrinhos de bombeiro azuis com só meninos nas propagandas - mas a disposição da loja não fazia o verdadeiro "apartheid" que as lojas brasileiras fazem. Os brinquedos eram mais divididos por tema e idade do que se eram de "menino" ou de "menina". Eu achei isso simplesmente ótimo!
Em outros detalhes, não havia nenhum lojista, ou qualquer pessoa vigiando a loja: se fossem crianças bagunceiras, poderiam tocar o terror. Ou seja, confia-se que os pais tenham total controle sobre a situação, sem interferência de outras pessoas. Não sei se isso é um reflexo dos serviços, ou se é mesmo uma confiança de que não há necessidade. Em uma loja de roupas, por exemplo, havia vendedoras... Talvez isso seja uma coisa interessante de perguntar para os colegas suecos.
Bem, essas foram minhas anotações no meu tempo de observação. Espero que não tenha entediado ninguém com os detalhes - e que, é claro, possa ser útil no meu trabalho depois. Agora, "só" mais dois pequenos textos para ler...
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
A primeira saudade (e um ótimo dia sem fotos)
Como vocês devem ter visto pelos meus relatos até agora, estou adorando estar na Suécia - mesmo com o tempo ruim, a cidade é ótima, a Universidade está sendo maravilhosa e mesmo as questões cotidianas como costurar uma luva rasgada ou limpara neve do chão está sendo satisfatória de uma forma estoica de "olha, estou sozinha, fazendo minhas próprias coisas e o mundo ainda não caiu nem degenerou na barbárie e caos".
Mas eu confesso que a saudade bate forte desde os primeiros dias.
Parece uma coisa estranha de se dizer, uma vez que eu já passei uma semana, duas, até um mês sem a minha família sem grandes dramas (tá, quando eu fui passar um mês fora pela primeira vez eu chorei como um bebezinho no aeroporto, mas também me diverti horrores na viagem).
Mas seis meses é realmente muito tempo - e na primeira semana algumas coisas simples já fazem vir lagriminhas nos meus olhos.
A primeira delas é o cheiro - o menos civilizado dos nossos sentidos, mas o que tem a resposta emocional mais forte. O cheiro das roupas que eu ainda não usei, o cheiro de casa, ainda me pega de surpresa de vez em quando. Minha mente registra "cheiro de roupa nova de casa", e a agradável familiaridade logo se segue ao sombrio dado do tempo que ainda vai passar até eu poder sentir esse cheiro de novo. Até eu estar de volta com a minha família, na minha casa, junto com tudo o que é familiar.
Nesse ponto, acho que pouco importa se eu estivesse em casa sozinha ou a meio mundo de distância: é nessa hora que eu percebo como eu sou agarrada na minha família. Não só por sentir falta da presença física dessas pessoas tão queridas, mas também por elas estarem sempre no meu pensamento e na minha fala. Voltimeia solto um "minha mãe sempre me diz que..." ou " o meu pai adora sei lá o que...", ou "essa senhora é tão parecida com a minha Oma"...
Mas em algumas instâncias, como hoje, há coisas que eu sinto falta que são ao mesmo tempo gerais e muito específicas:
estou há 10 dias aqui e posso contar nos dedos de uma mão a quantidade de abraços que eu dei ou recebi.
Abraços!
No final das contas, sou uma pessoa muito afetuosa. Gosto de abraçar minha família e namorado, mas também amigos - e não só um "abraço social" de dizer oi ou tchau, mas abraçar de verdade, demonstrar afeto, estar fisicamente perto de uma pessoa com a qual você se sente bem. Sei que a proximidade física chega até a ter barreiras climáticas - afinal, para dar um aperto de mão você precisa tirar a luva! - mas essa coisa do contato físico acaba fazendo falta.
Não há lugar para pedir colo aqui, mas por outro lado estou conhecendo pessoas fascinantes. Tivemos uma primeira reunião do trabalho em grupo com os colegas da matéria que estou fazendo (e os resultados desse grupo com certeza serão material para mais um post. Aguardem.), e meus e minhas colegas são tão fascinantes! Cada um de uma área diferente de estudo, com uma especialiade diferente, uma visão levemente diferente das coisas...
Engraçado que descobri que aqui na SU (Stockholm University, a sigla a partir de agora) criminologia é completamente separada do Direito. Quando perguntei o porquê, o meu colega respondeu que era porque os juristas aprendiam a operar apenas dentro do sistema - mesmo que fosse com uma perspectiva mais crítica, era sempre uma reforma de dentro do sistema, sem pensar em modificá-lo de qualquer forma radical, enquanto a criminologia teria alguns aspectos mais sociológicos, com uma outra aproximação em relação ao fenômeno jurídico.
Embora eu tenha certeza de que a criminologia deveria ser uma especialização bem mais valorizada dentro do Direito (ao invés de só um afterthought em direito penal), fico muito feliz por ter podido ter mais contato com a criminologia na minha graduação em Direito (e mando muitos amores mentais para a UnB e as suas possibilidade de explorar perspectivas críticas mesmo dentro da aridez do Direito).
Fiquei pensando com os meus botões: eles tiraram todas as partes legais do Direito e mandaram para outros lugares. Será que eu ainda estudaria Direito se fosse aqui? Ou, pior, será então que as e os bacheréis em Direito se formam tendo tão pouco contato com as áreas mais filosóficas e sociológicas associadas ao seu trabalho? Mais técnicos, menos reflexivos?
Eu ainda quero descobrir. Mas parece que não vou poder ter nem muito contato com os estudantes de Direito - dizem aqui que eles são bastante fechados e não são muito abertos para estudantes de outros departamentos, quiçá estudantes internacionais. Pessoal legalzinho esse, hein? Ainda bem que essa história de isolamento e elitização do Direito nunca aconteceria por aqui, (só que completamente ao contrário). Sério, o que acontece com as faculdades de Direito que as torna um lugar tão propício para gente elitista, isolacionista e, no geral, meio babaca? Ou isso é exclusivo de Brasil e Suécia?
Para além disso, o meu relato do dia que ainda não terminou acabou sendo fechado com chave de ouro: depois de passar no supermercado, no ônibus de volta para Lappis, entra uma senhora e vai se sentar ao meu lado. Eu, que estava com a mochila lotada de coisas e mais uma sacola plástica, tento puxar a mochila para não incomoda-la, mas a senhoa responde que pode deixar a bolsa ali que não incomoda. Só que ela respondeu em sueco, e lá vem a história de eu repetir um "I'm sorry" umas duas, três vezes até a pessoa se tocar que eu não sei falar sueco. A senhora ficou surpresa com isso e me perguntou por que eu não sabia falar sueco. Quando respondi que era brasileira e tinha acabado de chegar, aquele olhar de surpresa.
No transporte público dominado por pessoas tendo longas conversas - em seus smartphones, com uma pessoa que pode estar a oceanos de distância - foi uma experiência nova e estranhamente familiar ter uma pessoa para conversar no ônibus. Ela desceu no mesmo ponto que eu, e até perguntou se eu queria ajuda para carregar as compras. Uma simpatia que só! Através de culturas e continentes, parece que ainda está vivo o arquétipo da senhora idosa simpática no transporte público. Quando nos despedimos, um aperto de mão sem luvas (um exercício logístico de mais de um minuto).
Mesmo que breve, pelo menos algum contato humano!
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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Vissicitudes climáticas da balada (e outras formas de diversão na neve)
Post curto, porque já é de madrugada e eu ainda tenho dois posts para ler para amanhã:
O clima muda tudo.
Seres humanos mortais que somos, esses seres inescapavalmente biológicos, pensamos que fazemos cidades iguais com a globalização. Que jovens que escolhem fazer intercâmbio podem ter a mesma experiência de sair à noite em Estocolmo e em Brasília. Que o mundo vai virar aquele espaço homogêneo e artificialmente construído, sem identidade, sem características marcantes que não aquelas que obedecem ao padrão pasteurizado e hegemônico.
Aí vem o fato de você precisar voltar para casa à 1 da manhã na neve. Nem meu deslumbramento que ainda não desvaneceu me impediu de xingar internamente quando começou a nevar no caminho de volta.
Mas vamos começar por aspectos mais agradáveis da neve -
...sua absoluta falta de atrito.
Além de produzir entretenimento gratuito na forma de pessoas comicamente escorregando e caíndo tombos cinematográficos na neve fofa, que não machuca (sendo que cada pessoa é, ao mesmo tempo, espectadora e show, em seu momento), escorregar deliberadamente pode ser muito divertido.
A velocidade, o vento frio na cara, aquela imensidão branca fazendo mudar a paisagem até conseguem fazer você esquecer, por alguns momentos, que aquela coisa branca e fofinha toda vai virar água e congelar de novo em forma de gelo nas partes mais inapropriadas das suas roupas e da sua pele. Porque a neve é a poeira congelada de água -entra em absolutamente tudo e todos os lugares, como se a natureza, em troca de toda essa beleza e diversão da neve, cobrasse um pedágio de água gelada.
(mas mesmo assim, andar de skibunda de neve é MUITO legal)
De qualquer forma, depois de ver os aspectos divertidos da neve, fomos resolver nossas coisas, jantar e ir para a festa de boas vindas que o Student's Union organizou para as pessoas que vieram de intercâmbio.
Depois da outra faceta de entretenimento gratuito que é a oportunidade de ver europeus dançando (o famoso bambuzal ao vento, que mexe de tudo, menos a cintura), e alguns asiáticos fantásticos que pareciam ter baixado o espírito do PSY, tivemos nosso encontro com a parte do "ok, tudo igual aqui" - o mesmo batae-estaca do nosso lado do atlântico, as mesmas musiquinhas...
...só o funk, sertanejo e todo o resto que deixa as festas interessantes é que fez um pouco de falta.
Mas o highlight mesmo foi na hora de ir embora. Com os táxis custando uma pequena fortuna, não era uma opção sair da região central onde era o club até nosso alojamento perto da Universidade. Então fomos pegar o metrô, para descobrir que estávamos alguns bons minutos atrasados, ou extremamente adiantados - metrô funcionava até pouco depois de meia noite, e o próximo trem seria lá pelas 5, 6 da manhã.
Como Estocolmo é uma cidade que gosta de gente, pudemos pegar a linha de Ônibus noturno, que passa em lugares-chave, incluindo um ponto perto da Universidade.
Porém, como o clima de Estocolmo não foi feito para seres humanos, nossa caminhada de 10-15 minutos foi feita numa madrugada hiper fria e com o bônus de um ventinho e neve na cara.
Só ficava pensando numa caminhada assim em Brasília, naquele friozinho leve que um abraço resolve, naquela imensidão de grama e céu estrelado... Mas sem, é claro, os Ônibus maravilhosos para fazer com que ninguém tenha medo de blitz.
De qualquer forma, esse frio é justamente o que faz as pessoas pensarem duas vezes antes de sair à noite; sair cedo das festas para pegar o metrô, e, mais ainda, torna muito tentadora a opção de simplesmente ficar em casa... Nada de conversas na varanda até de madrugada.
Mas enfim, o sono é uma boa parte da nostalgia. Sei que quando voltar ao Brasil vou sentir falta de mil coisas aqui que já começam a se tornar óbvias... Mas por hora, me contento em ser aqui estrangeira e tentar absorver e aprender o máximo que puder... Isso é, se aguentar acordada para conseguir ler meus dois textos que preciso ler para amanhã.
(grande vitória da equipe brasileira de tombos na neve em Estocolmo)
O clima muda tudo.
Seres humanos mortais que somos, esses seres inescapavalmente biológicos, pensamos que fazemos cidades iguais com a globalização. Que jovens que escolhem fazer intercâmbio podem ter a mesma experiência de sair à noite em Estocolmo e em Brasília. Que o mundo vai virar aquele espaço homogêneo e artificialmente construído, sem identidade, sem características marcantes que não aquelas que obedecem ao padrão pasteurizado e hegemônico.
Aí vem o fato de você precisar voltar para casa à 1 da manhã na neve. Nem meu deslumbramento que ainda não desvaneceu me impediu de xingar internamente quando começou a nevar no caminho de volta.
Mas vamos começar por aspectos mais agradáveis da neve -
...sua absoluta falta de atrito.
Além de produzir entretenimento gratuito na forma de pessoas comicamente escorregando e caíndo tombos cinematográficos na neve fofa, que não machuca (sendo que cada pessoa é, ao mesmo tempo, espectadora e show, em seu momento), escorregar deliberadamente pode ser muito divertido.
A velocidade, o vento frio na cara, aquela imensidão branca fazendo mudar a paisagem até conseguem fazer você esquecer, por alguns momentos, que aquela coisa branca e fofinha toda vai virar água e congelar de novo em forma de gelo nas partes mais inapropriadas das suas roupas e da sua pele. Porque a neve é a poeira congelada de água -entra em absolutamente tudo e todos os lugares, como se a natureza, em troca de toda essa beleza e diversão da neve, cobrasse um pedágio de água gelada.
(mas mesmo assim, andar de skibunda de neve é MUITO legal)
De qualquer forma, depois de ver os aspectos divertidos da neve, fomos resolver nossas coisas, jantar e ir para a festa de boas vindas que o Student's Union organizou para as pessoas que vieram de intercâmbio.
Depois da outra faceta de entretenimento gratuito que é a oportunidade de ver europeus dançando (o famoso bambuzal ao vento, que mexe de tudo, menos a cintura), e alguns asiáticos fantásticos que pareciam ter baixado o espírito do PSY, tivemos nosso encontro com a parte do "ok, tudo igual aqui" - o mesmo batae-estaca do nosso lado do atlântico, as mesmas musiquinhas...
...só o funk, sertanejo e todo o resto que deixa as festas interessantes é que fez um pouco de falta.
Mas o highlight mesmo foi na hora de ir embora. Com os táxis custando uma pequena fortuna, não era uma opção sair da região central onde era o club até nosso alojamento perto da Universidade. Então fomos pegar o metrô, para descobrir que estávamos alguns bons minutos atrasados, ou extremamente adiantados - metrô funcionava até pouco depois de meia noite, e o próximo trem seria lá pelas 5, 6 da manhã.
Como Estocolmo é uma cidade que gosta de gente, pudemos pegar a linha de Ônibus noturno, que passa em lugares-chave, incluindo um ponto perto da Universidade.
Porém, como o clima de Estocolmo não foi feito para seres humanos, nossa caminhada de 10-15 minutos foi feita numa madrugada hiper fria e com o bônus de um ventinho e neve na cara.
Só ficava pensando numa caminhada assim em Brasília, naquele friozinho leve que um abraço resolve, naquela imensidão de grama e céu estrelado... Mas sem, é claro, os Ônibus maravilhosos para fazer com que ninguém tenha medo de blitz.
De qualquer forma, esse frio é justamente o que faz as pessoas pensarem duas vezes antes de sair à noite; sair cedo das festas para pegar o metrô, e, mais ainda, torna muito tentadora a opção de simplesmente ficar em casa... Nada de conversas na varanda até de madrugada.
Mas enfim, o sono é uma boa parte da nostalgia. Sei que quando voltar ao Brasil vou sentir falta de mil coisas aqui que já começam a se tornar óbvias... Mas por hora, me contento em ser aqui estrangeira e tentar absorver e aprender o máximo que puder... Isso é, se aguentar acordada para conseguir ler meus dois textos que preciso ler para amanhã.
(grande vitória da equipe brasileira de tombos na neve em Estocolmo)
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
NEAT FREAK! (saindo do armário com a mania de limpeza)
Passei alguns dias sem postar nada, porque estava muito ocupada no caos todo de ir para o hostel, pegar metrô para a Universidade pegar as chaves do apartamento, achar o apartamento, colocar os cacarecos no apartamento ( o que incluiu duas viagens do centro da cidade pra Universidade, para conseguirmos carregar todas as malas ), assistir à primeira aula, assistir à palestra de introdução e, finalmente, limpar todo o apartamento. (Ufa.)
Agora que começa minha rotina, já não faz mais tanto sentido um relato cronológio na maior parte dos dias, já que vai ser um "acordei, fui pra aula, vi coisas de neve, esquentei minha marmita, estudei, estudei, estudei, fiz o jantar, falei no skype com a família, fui dormir". Mas ainda sim, sempre há aquelas coisas curiosas que vale a pena mencionar, aspectos curiosos da paisagem, hábitos, matérias, professores e, quando for viajar por aqui, aí sim um relato de viagem mais "tradicional".
Mas o que eu queria falar hoje é muito simples:
Eu tinha mania de limpeza e não sabia.
Primeiramente um enorme obrigada para a minha família, linda, maravilhosa e muito limpa, que me fez viver 22 anos sem perceber isso ao manter (e me obrigar a manter também) um padrão de limpeza na casa e nas coisas que me fez estranhar o nível de (não)-limpeza de algumas coisas por aqui.
Porque é só eu ir para um lugar estranho em que a responsável pela limpeza sou eu, que eu me transformo da preguiçosa que só limpa coisas quando mandam fazer para alguém que acorda cedo em um dia sem aulas com a exclusiva tarefa de limpar o quarto todo até ele ficar cheiroso e brilhando.
Para conseguir isso, não foi uma missão fácil.
Tudo começou com o grande desafio de sair da cama de manhã. 7:30 e ainda está escuro como a noite aqui, e o cobertor é tão deliciosamente tentador que eu poderia ficar o dia todo embaixo dele.
Depois disso, o negócio foi decifrar os hieroglifos dos produtos de limpeza. Claro, até para poder comprá-los eu tinha alguma ideia de que um era para limpar o banheiro (dica: tem uma privada desenhada na embalagem), e outro era pra limpar outras superfícies em geral (dica: tinha "universal cleaner" escrito na embalagem). Agora, sobre a forma de usar...
Eu fico imaginando como as pessoas de antigamente faziam para se virar com isso. Sem o google translator, eu teria solenemente ignorado algumas instruções muito importantes , além de multiplicar a possibilidade de fazer burradas.
Mas depois de algumas vigorosas esfregadas (e aquele momento em que você pensa se exagerou no produto de limpeza quando começa a ficar tonta com o cheiro) meu lindo banheiro ficou assim:
Engraçado que enquanto uma parte parece essencial - privada limpa, tirar as manchas de lama e neve do chão e dos sapatos - há uma parte que muita gente (inclusive a pessoa que estava aqui antes de mim, cahem) não acha tão importante - embaixo da mesa, a poeira nos cantos, os cabelos no chão do banheiro - mas só o fato de ter dado conta até desses detalhes me faz sentir muito melhor.
Talvez a noção do controle do ambiente tenha a ver, aumentando a familiaridade com tudo. O que diferencia um quarto de hotel bem limpo de um quarto seu é justamente esse controle que você tem sobre o ambiente, sobre como estão as coisas, e até mesmo a atenção e o cuidado que você investe em um lugar...
O fato é que agora eu começo a me sentir mais em casa.
Claro que isso não apaga a falta imensa que faz todo mundo (e sobre a saudade ainda há muitos posts específicos para escrever), mas já é alguma coisa.
Então, seguindo o conselho da minha própria toalha: nada de pânico. Um dia de cada vez, estudar bastante para não me atrasar nas leituras das aulas, e começar devagarinho a planejar as viagens que vou fazer por aqui. (aguardem!)
E sobre essas coisas cotidianas, vou ver se posto um pouquinho todos os dias. Há um mundo de detalhes curiosos e coisas singelas, desde um professor que lembra estranhamente o Mick Jagger até o fabulosos sistema de transporte público ou os hábitos curiosos das pessoas suecas...
Mas uma coisa de cada vez. Agora tenho que estudar... Amanhã tem mais!
Agora que começa minha rotina, já não faz mais tanto sentido um relato cronológio na maior parte dos dias, já que vai ser um "acordei, fui pra aula, vi coisas de neve, esquentei minha marmita, estudei, estudei, estudei, fiz o jantar, falei no skype com a família, fui dormir". Mas ainda sim, sempre há aquelas coisas curiosas que vale a pena mencionar, aspectos curiosos da paisagem, hábitos, matérias, professores e, quando for viajar por aqui, aí sim um relato de viagem mais "tradicional".
Mas o que eu queria falar hoje é muito simples:
Eu tinha mania de limpeza e não sabia.
Primeiramente um enorme obrigada para a minha família, linda, maravilhosa e muito limpa, que me fez viver 22 anos sem perceber isso ao manter (e me obrigar a manter também) um padrão de limpeza na casa e nas coisas que me fez estranhar o nível de (não)-limpeza de algumas coisas por aqui.
Porque é só eu ir para um lugar estranho em que a responsável pela limpeza sou eu, que eu me transformo da preguiçosa que só limpa coisas quando mandam fazer para alguém que acorda cedo em um dia sem aulas com a exclusiva tarefa de limpar o quarto todo até ele ficar cheiroso e brilhando.
Para conseguir isso, não foi uma missão fácil.
Tudo começou com o grande desafio de sair da cama de manhã. 7:30 e ainda está escuro como a noite aqui, e o cobertor é tão deliciosamente tentador que eu poderia ficar o dia todo embaixo dele.
![]() |
| Este é o caminho que leva para a minha casa. Dá para ter uma ideia, só de olhar, de como é encorajador sair no frio só que ao contrário. |
Eu fico imaginando como as pessoas de antigamente faziam para se virar com isso. Sem o google translator, eu teria solenemente ignorado algumas instruções muito importantes , além de multiplicar a possibilidade de fazer burradas.
Mas depois de algumas vigorosas esfregadas (e aquele momento em que você pensa se exagerou no produto de limpeza quando começa a ficar tonta com o cheiro) meu lindo banheiro ficou assim:
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| Sim, tirei uma foto do banheiro. Get over it. |
Engraçado que enquanto uma parte parece essencial - privada limpa, tirar as manchas de lama e neve do chão e dos sapatos - há uma parte que muita gente (inclusive a pessoa que estava aqui antes de mim, cahem) não acha tão importante - embaixo da mesa, a poeira nos cantos, os cabelos no chão do banheiro - mas só o fato de ter dado conta até desses detalhes me faz sentir muito melhor.
Talvez a noção do controle do ambiente tenha a ver, aumentando a familiaridade com tudo. O que diferencia um quarto de hotel bem limpo de um quarto seu é justamente esse controle que você tem sobre o ambiente, sobre como estão as coisas, e até mesmo a atenção e o cuidado que você investe em um lugar...
O fato é que agora eu começo a me sentir mais em casa.
Claro que isso não apaga a falta imensa que faz todo mundo (e sobre a saudade ainda há muitos posts específicos para escrever), mas já é alguma coisa.
Então, seguindo o conselho da minha própria toalha: nada de pânico. Um dia de cada vez, estudar bastante para não me atrasar nas leituras das aulas, e começar devagarinho a planejar as viagens que vou fazer por aqui. (aguardem!)
E sobre essas coisas cotidianas, vou ver se posto um pouquinho todos os dias. Há um mundo de detalhes curiosos e coisas singelas, desde um professor que lembra estranhamente o Mick Jagger até o fabulosos sistema de transporte público ou os hábitos curiosos das pessoas suecas...
Mas uma coisa de cada vez. Agora tenho que estudar... Amanhã tem mais!
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Neve, neve neve * - * (e mais andanças na cidade)
O dia de hoje e o de ontem foram um pouco parecidos em alguns aspectos - andar pela cidade para aproveitar a luz do dia, fazer comida e resolver coisas da casa durante à noite, e logo terei meu quarto mais definitivo. Deixar, enfim, de viver a cidade como "viajante" para ser, enfim, "moradora"... Mas, enquanto isso, fico ainda ajeitando o que eu posso, observando comidas, costumes ( e o funcionamento dos botões do forno) ou só perambulando pela cidade.
Ontem fui ver a Universidade pela primeira vez, e começar a me inscrever nas matérias que vou cursar - mas hoje ainda não quero escrever sobre a Universidade, que provavelmente vai ocupar muitas de minhas postagens no futuro. Hoje, ao invés de escrever sobre minha corajosa batalha contra o frio toda vez que saio de casa, quero escrever sobre minha (ainda) lua de mel com a neve.
Ah, a neve...
Não sei se foram os filmes, toda a decoração de Natal eurocêntrica ao qual eu já fui submetida na vida ou talvez mesmo esse fascínio com o desconhecido, mas eu ainda fico me sentindo boba como uma criança quando vejo nevar lá fora. Depois de resolver as coisas da universidade, estávamos fazendo almoço, tranquilos em casa, quando eu olho pela janela e a neve está caindo. E não só uns floquinhos discretos, mas rajadas de vento e uma série de flocos acumulados indo tanto para cima quanto para baixo... Na hora, estava tocando Pink Floyd, então a cena acabou ficando épica. O vídeo não consegue descrever a sensação tão estranha de estar quentinha e confortável em casa vendo o mundo se acabar lá fora...
Naquela noite ( a última do Marcello em Estocolmo) fomos patinar de novo, mas, dessa vez, ao invés de alugar os patins, fui para uma loja de segunda mão comprar um... E não é que o preço foi quase o mesmo? Achei um certinho para o meu tamanho, e agora posso ir patinar quantas vezes quiser até o final da temporada... Yay!
Patinamos por um bom tempo e eu consegui ganhar bastante confiança e até velocidade andando! Me aguardem, olimpíadas de inverno, daqui a pouco eu estou assim:
(não se preocupa, mamãe, quando for ser fabulosa dançando Lady Gaga e dando piruetas vou estar melhor agasalhada).
Vamos ver se vou ter ânimo e mais chances de patinar nesses próximos dias... Afinal, tenho até o final do inverno para praticar.
Já no dia seguinte, pude experimentar ao vivo (e, literalmente, na pele) a neve caíndo para além de alguns floquinhos. No início a sensação era quase mágica - aqueles flocos perfeitos, daqueles que você vê o formato desenhado, caindo no seu casaco, nas suas coisas e à sua volta ( infelizmente não deu para pegar bem na foto)
...e depois, continuou sendo algo terrivelmente belo, mesmo que um pouco sombrio. Mas à medida em que a neve ia aumentando...
...e aumentando...
...foi ficando um pouco difícil, mesmo para uma pedestre deslumbrada como eu.
A neve, com todo o seu misticismo, não é mais do que chuva congelada de uma forma especial. A vantagem é que, antes de te deixar encharcada, a neve ainda sólida pode ser sacudida das roupas (e bolsas e rosto e sapatos e tudo o que você possa imaginar), mas é só deixar molhar que você vai se lembrar exatamente quais roupas que você tem são impermeáveis e quais não são. Para a minha sorte, meu casacão é bem impermeável, mas é difícil de andar quando os seus óculos começam a embaçar do calor do seu rosto (e também não vieram equipados com limpador de para-brisa), o seu nariz, que já estava anestesiado com o frio, começa a arder de novo de mais frio ainda e a sua touca de lã começa a ficar molhada do acúmulo de flocos de neve.
Foi o momento de, como em momentos de chuva, me abrigar em lojinhas, igrejas ou qualquer lugar um pouco mais quente, e ter novamente a experiência de olhar a neve linda caindo pela janela.
Passei o resto do dia andando a esmo, marcando algumas lojas que talvez eu queria visitar depois que tiver meu espaço (como uma loja de vários andares dedicada somente a ficção científica e coisas nerds em geral)
Vi o por-do-sol em Gamla Stan dessa vez, com a cidade ainda mais coberta de neve, e voltei para casa para me esquentar, lavar o cabelo (um processo perigoso, uma vez que, se eu sair para a rua com o cabelo molhado, ele pode congelar. Céus) e, é claro, escrever.
Conversando com amigos no facebook, comentei que estava gostando da experiência de ficar sozinha, assim como tinha achado a cidade muito bonita. Mas surgiu a pergunta: eu estou mesmo sozinha se, em tempos de internet, posso falar com minha família e amigos quando quiser? E segundo, a forma como eu acho a cidade bonita também não está relacionada com a forma com a qual eu estou vendo?
Olho de novo as fotos que eu postei até agora, e são todas de uma beleza delicada, melancólica, que quase chamam a uma maior introspecção. Afinal, tudo o que há de frio e hostil (embora bonito) lá fora é contrastado com o calor aconchegante que se entrevê por cada janela, por cada detalhe nos parapeitos que minha visão alcança. As casas, por dentro, parecem todas querer conter um pouquinho da cor e da alegria que o inverno torna tão difícil de achar.
Essa ideia tão forte na paisagem do aconchego do lar, porém, só se comunica comigo parcialmente - sei do calor físico, do alívio de não estar mais congelando, de um pijama e um cama confortável para dormir, mas do aconchego de família e pessoas queridas só tenho uma tela, uma comunicação que, por mais que seja presente, é incompleta.
A saudade é uma questão delicada, principalmente nesses primeiros dias, em que não tenho nada mais urgente para ocupar a minha mente. Estou muito feliz aqui, andando pela cidade ainda com o ânimo de ver coisas novas e interessantes, de absorver novas formas de viver e sentir o espaço à minha volta, mas alguns pequenos detalhes o tempo todo me trazem de volta para as pessoas amadas que eu deixei no Brasil. Uma camiseta que é a cara do meu pai, um comentário engraçado que eu faria com o meu irmão, um livro que é a cara de um amigo... É um jogo de espelhos, uma contradição ambulante: mesmo quando eu estou sozinha, vocês estão comigo o tempo todo, mas mesmo quando estou conversando com vocês no facebook, ainda me faz falta uma voz, um carinho, um abraço...
Talvez essa seja a resposta para a questão da solidão: ela ainda está ali, mesmo com as minhas pessoas amadas perto, a intermediação da tela torna as coisas um pouco frias. É como quando ando no metrô, e vejo as pessoas ao meu redor todas com seus smartphones, conversando com alguém que está longe - mas também completamente sozinhas entre as tantas outras pessoas que ali estão. Mas, ao mesmo tempo, a saudade é o que fica das pessoas aqui, então é como se estivesse, desse jeito meio dolorido, com as pessoas que amo o tempo todo...
Mas isso tudo é só o começo. Da minha viagem, da minha saudade, e de todas as coisas que eu ainda vou fazer por aqui. Por enquanto, são só as sensações apenas semi-descritíveis de caminhar invisível em um local diferente, não-tão-turista mas também ainda não-moradora, ainda-não-estudante... Talvez uma simples estrangeira.
Mas vamos ver o que os próximos dias vão trazer.
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| Roupas adequadas para perambular pela cidade |
Ontem fui ver a Universidade pela primeira vez, e começar a me inscrever nas matérias que vou cursar - mas hoje ainda não quero escrever sobre a Universidade, que provavelmente vai ocupar muitas de minhas postagens no futuro. Hoje, ao invés de escrever sobre minha corajosa batalha contra o frio toda vez que saio de casa, quero escrever sobre minha (ainda) lua de mel com a neve.
Ah, a neve...
Não sei se foram os filmes, toda a decoração de Natal eurocêntrica ao qual eu já fui submetida na vida ou talvez mesmo esse fascínio com o desconhecido, mas eu ainda fico me sentindo boba como uma criança quando vejo nevar lá fora. Depois de resolver as coisas da universidade, estávamos fazendo almoço, tranquilos em casa, quando eu olho pela janela e a neve está caindo. E não só uns floquinhos discretos, mas rajadas de vento e uma série de flocos acumulados indo tanto para cima quanto para baixo... Na hora, estava tocando Pink Floyd, então a cena acabou ficando épica. O vídeo não consegue descrever a sensação tão estranha de estar quentinha e confortável em casa vendo o mundo se acabar lá fora...
Naquela noite ( a última do Marcello em Estocolmo) fomos patinar de novo, mas, dessa vez, ao invés de alugar os patins, fui para uma loja de segunda mão comprar um... E não é que o preço foi quase o mesmo? Achei um certinho para o meu tamanho, e agora posso ir patinar quantas vezes quiser até o final da temporada... Yay!
Patinamos por um bom tempo e eu consegui ganhar bastante confiança e até velocidade andando! Me aguardem, olimpíadas de inverno, daqui a pouco eu estou assim:
(não se preocupa, mamãe, quando for ser fabulosa dançando Lady Gaga e dando piruetas vou estar melhor agasalhada).
Vamos ver se vou ter ânimo e mais chances de patinar nesses próximos dias... Afinal, tenho até o final do inverno para praticar.
Já no dia seguinte, pude experimentar ao vivo (e, literalmente, na pele) a neve caíndo para além de alguns floquinhos. No início a sensação era quase mágica - aqueles flocos perfeitos, daqueles que você vê o formato desenhado, caindo no seu casaco, nas suas coisas e à sua volta ( infelizmente não deu para pegar bem na foto)
...e depois, continuou sendo algo terrivelmente belo, mesmo que um pouco sombrio. Mas à medida em que a neve ia aumentando...
...e aumentando...
...foi ficando um pouco difícil, mesmo para uma pedestre deslumbrada como eu.
A neve, com todo o seu misticismo, não é mais do que chuva congelada de uma forma especial. A vantagem é que, antes de te deixar encharcada, a neve ainda sólida pode ser sacudida das roupas (e bolsas e rosto e sapatos e tudo o que você possa imaginar), mas é só deixar molhar que você vai se lembrar exatamente quais roupas que você tem são impermeáveis e quais não são. Para a minha sorte, meu casacão é bem impermeável, mas é difícil de andar quando os seus óculos começam a embaçar do calor do seu rosto (e também não vieram equipados com limpador de para-brisa), o seu nariz, que já estava anestesiado com o frio, começa a arder de novo de mais frio ainda e a sua touca de lã começa a ficar molhada do acúmulo de flocos de neve.
Foi o momento de, como em momentos de chuva, me abrigar em lojinhas, igrejas ou qualquer lugar um pouco mais quente, e ter novamente a experiência de olhar a neve linda caindo pela janela.
Passei o resto do dia andando a esmo, marcando algumas lojas que talvez eu queria visitar depois que tiver meu espaço (como uma loja de vários andares dedicada somente a ficção científica e coisas nerds em geral)
Vi o por-do-sol em Gamla Stan dessa vez, com a cidade ainda mais coberta de neve, e voltei para casa para me esquentar, lavar o cabelo (um processo perigoso, uma vez que, se eu sair para a rua com o cabelo molhado, ele pode congelar. Céus) e, é claro, escrever.
Conversando com amigos no facebook, comentei que estava gostando da experiência de ficar sozinha, assim como tinha achado a cidade muito bonita. Mas surgiu a pergunta: eu estou mesmo sozinha se, em tempos de internet, posso falar com minha família e amigos quando quiser? E segundo, a forma como eu acho a cidade bonita também não está relacionada com a forma com a qual eu estou vendo?
Olho de novo as fotos que eu postei até agora, e são todas de uma beleza delicada, melancólica, que quase chamam a uma maior introspecção. Afinal, tudo o que há de frio e hostil (embora bonito) lá fora é contrastado com o calor aconchegante que se entrevê por cada janela, por cada detalhe nos parapeitos que minha visão alcança. As casas, por dentro, parecem todas querer conter um pouquinho da cor e da alegria que o inverno torna tão difícil de achar.
A saudade é uma questão delicada, principalmente nesses primeiros dias, em que não tenho nada mais urgente para ocupar a minha mente. Estou muito feliz aqui, andando pela cidade ainda com o ânimo de ver coisas novas e interessantes, de absorver novas formas de viver e sentir o espaço à minha volta, mas alguns pequenos detalhes o tempo todo me trazem de volta para as pessoas amadas que eu deixei no Brasil. Uma camiseta que é a cara do meu pai, um comentário engraçado que eu faria com o meu irmão, um livro que é a cara de um amigo... É um jogo de espelhos, uma contradição ambulante: mesmo quando eu estou sozinha, vocês estão comigo o tempo todo, mas mesmo quando estou conversando com vocês no facebook, ainda me faz falta uma voz, um carinho, um abraço...
Talvez essa seja a resposta para a questão da solidão: ela ainda está ali, mesmo com as minhas pessoas amadas perto, a intermediação da tela torna as coisas um pouco frias. É como quando ando no metrô, e vejo as pessoas ao meu redor todas com seus smartphones, conversando com alguém que está longe - mas também completamente sozinhas entre as tantas outras pessoas que ali estão. Mas, ao mesmo tempo, a saudade é o que fica das pessoas aqui, então é como se estivesse, desse jeito meio dolorido, com as pessoas que amo o tempo todo...
Mas isso tudo é só o começo. Da minha viagem, da minha saudade, e de todas as coisas que eu ainda vou fazer por aqui. Por enquanto, são só as sensações apenas semi-descritíveis de caminhar invisível em um local diferente, não-tão-turista mas também ainda não-moradora, ainda-não-estudante... Talvez uma simples estrangeira.
Mas vamos ver o que os próximos dias vão trazer.
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Aventuras térmicas em Gamla Stan (e bônus de patinação no gelo!)
Comecei a escrever esse post antes do final do dia, e o começo era assim:
Minha pequena aventura de hoje pode ser resumida em: hoje andei.
Aconteceu bem mais do que isso - inesperadamente, já à noite - mas, por hora, as caminhadas no frio:
Andei bastante, na verdade. Fui a pé da casa onde estou ficando até Gamla Stan, o centro histórico da cidade, dei uma volta por lá e voltei, também a pé. Um rolezinho de pouco mais de 10 quilômetros, e posso dizer que gastei quase o dia inteiro para isso - de meio dia às três da tarde, que é o quanto o sol durou. Quer dizer, nasceu antes, lá por umas 9 da manhã, mas meu sono estava completamente atrasado e só fui sair das cobertas quando era quase meio dia.
Minha pequena aventura de hoje pode ser resumida em: hoje andei.
Aconteceu bem mais do que isso - inesperadamente, já à noite - mas, por hora, as caminhadas no frio:
Andei bastante, na verdade. Fui a pé da casa onde estou ficando até Gamla Stan, o centro histórico da cidade, dei uma volta por lá e voltei, também a pé. Um rolezinho de pouco mais de 10 quilômetros, e posso dizer que gastei quase o dia inteiro para isso - de meio dia às três da tarde, que é o quanto o sol durou. Quer dizer, nasceu antes, lá por umas 9 da manhã, mas meu sono estava completamente atrasado e só fui sair das cobertas quando era quase meio dia.
E que meio dia é esse!
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| Tirando foto de coisas raras: o sol. |
O que seria chamado de 'dia' por aqui no inverno é um tempo permanente de final de tarde - sol no horizonte, calor moderado, como um por do sol longo (e frio!), que deixa tudo com uma iluminação pálida e gostosa na curta duração do dia.
Mas a parte mais curiosa do meu dia, para além de observar a paisagem que já me era familiar transformada pelo inverno, foram as vicissitudes térmicas: a forma, até agora desconhecida, como o corpo lida com o frio.
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| What time is it? |
O Marcello (amigo da faculdade que ficou aqui no semestre passado) me diz que existe um homem que regula tão bem a sua temperatura que consegue fazer maratonas na neve descalço e usando sunga, mas não é absolutamente meu caso. O frio é doído e demora para se acostumar (mas a gente se acostuma, me assegura ele).
Apenas sair pela porta, longe da calefação, já dá um impacto, mas logo que o primeiro vento frio passa na sua cara você já sente menos. Pensar que isso é a totalidade dos efeitos do frio, porém, é um erro. Ao contrário do calor, que nos engolfa de uma vez e fica daquele jeito, os efeitos do frio vão mudando ao longo do tempo.
O primeiro choque é um pouco desagradável, mas é o efeito do frio entrando devagar no seu corpo que vai ficando tenso. Fazer exercícios - andar, patinar, etc - ajuda o corpo a se esquentar mais sozinho e afastar a sensação de frio, mas é só ficar parada um pouquinho que ele volta, esse frio traiçoeiro, entrando pelo rosto e qualquer centímetro de abertura nas roupas que deixe ele entrar. É aí que você lembra do quão fina é a sua calça, ou que todo o suor que você acumulou também é água e pode congelar. O lado bom é que, uma vez que o frio se instalou, ele começa a amortecer as partes expostas, e aí já não dói mais. Isso sem nem falar em efeitos do vento...
O corpo todo seca, os lábios vão rachando e as mãos, nesse tira-e-põe de luvas, ficam muito secas também.
Lá pelo meio do caminho estava tão frio que entrei num café para pegar alguma coisa quente. O efeito não é imediatamente agradável, também: o calor faz a pele fria doer enquanto esquenta de novo, pinicando com a mudança na circulação. Chegando lá, qual não é minha surpresa quando vejo um café brasileiro entre as atrações:
Continuando meu passeio, cheguei na Drottninggatan, a rua da rainha, que é uma rua de pedestres que fica logo antes de Gamla Stan, a ilhazinha da cidade velha. Muitas lojas, muitas pessoas passando com carrinhos de bebês que pareciam mais mini-estufas cheias de corredores, e algum ou outro turista mais ousado. Turistas, é claro, são identificáveis principalmente por atitudes bizarras como subir nas estátuas, tirar fotos de coisas que não tem sentido e fazer pose em frente de vitrines de sex shop (sim, vi uns dois vibradores em uma vitrine assim, de boa).
Andando pelas ruas da cidade, mais um pequeno detalhe: em alguns lugares há neve, mas em outros, a neve derreteu e se congelou de novo, constituindo a mais perfeita armadilha para pedestres desavisados. Tive mais de um escorregão pela rua - por sorte, nenhuma queda.
A cidade que eu conheci no verão, afinal, está transformada - neve onde havia verde, poucas pessoas encasacadas onde havia uma multidão de shortinhos. Mesmo a iluminação diferente dá um outro humor ao local, que, embora um pouco melancólico, não deixa de ser muito bonito.
Depois de algum tempo andando pela cidade velha, decido enfim comer meu almoço, um sanduíche que eu tinha levado. Como qualquer boa turista, pensei em sentar em algum banquinho com alguma vista bonita lá fora para comer meu almoço rápido e logo voltar a caminhar...
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| Afinal, que tal almoçar olhando para uma vista assim? |
Mas, porém, contudo, entretanto, eu não tinha contado com o meu querido amigo frio para mudar as coisas. É engraçado como a minha mente e meus costumes de Brasil (ou de verão sueco) ainda estavam funcionando fora da realidade. No momento em que achei um banco que não estivesse coberto de neve e me sentei para comer, notei algumas coisinhas:
1. O meu sanduíche, mesmo que fosse para ser frio, estava geladíssimo.
2. O meu queixo estava dormente de tão congelado, então era inicialmente difícil de mastigar
3. Sentar no frio faz com que o corpo esfrie, e logo eu estava tremendo.
Bem, mais rápido e confortável comer andando, e logo já tinha passado a fome. Engraçado é quem diz que o frio dá fome. Esse frio dá é aversão a qualquer atividade que envolva abrir a boca. Sério.
Só o meu café de horas atrás tinha me dado sensações térmicas engraçadas: era um chai latte quente, daqueles tão quentes que fica difícil de segurar pelo fundo, mas estava tão frio que era simplesmente uma maravilha ter uma fonte externa de calor na mão. Assim, eu passava o copo de papel para uma mão gelada, esperava ela esquentar e começar a queimar e ficar desconfortável, aí passava para a outra mão que, de tão gelada, achava aquela temperatura escaldante uma maravilha até começar a queimar, e assim por diante...
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| O sorriso torto não é por estilo - o outro lado da cara era o lado do vento, e ainda estava meio dormente. |
Depois de terminado meu curto dia (com uma pausa na livraria para comprar uma agenda e de me passar por sueca acenando com a cabeça com o que o caixa dizia e exercitando meu maravilhoso sueco de uma palavra - Tak, que é obrigada), pensei que iria passar uma tarde-que-já-é-noite mais tranquila, mas ainda havia uma surpresa reservada: o Marcello me levou para patinar no gelo.
Tudo bem que eu acabei de falar que a perspectiva de sair já é trabalhosa (e imagine então sair à noite, -5 graus lá fora), mas preciso dizer que algumas coisas no inverno com neve me deixam boba como uma criança.
Estava nevando de leve lá fora, com alguns floquinhos de neve parando nas luvas e nos cabelos, e a iluminação amarelada dos postes e das janelas das casas dão um ar quase aconchegante para contrastar com o frio lá fora. A lua cheia estava linda, também, e a cidade toda assumia um ar sonhador...
E patinar no gelo, surpreendentemente, não foi tão difícil para mim. Eu já estava prevendo algumas horas de pura tortura enquanto eu me agarrava nas grades e caía milhões de vezes, mas depois de alguns minutos de insegurança, eu já estava patinando como as criancinhas que estavam ali...
...mentira, elas me humilhavam completamente com suas manobras e velocidade e saber coisas como virar de costas ou até mesmo freiar. Mas e daí, consegui me soltar das grades, aumentar um pouquinho a velocidade e fiquei super feliz com as minhas habilidades.
A pista de patinação, ao contrário de um ringue em um shopping que era tudo o que eu tinha visto do tipo no Brasil, era uma praça cercada por grades de madeira com gelo em cima. Provavelmente só jogaram um monte de água e esperaram congelar... E, é claro, colocaram um stand de aluguel de patins e uns altos falantes. A vibe do dia eram músicas dos anos 80, e me diverti horrores.
Amanhã já começo a ver coisas na Universidade, e talvez não acumule tantas coisas dignas de relatar - também não quero cansar as pessoas que queiram eventualmente me acompanhar por aqui ao postar coisas longas todos os dias... Mas vamos ver como fica.
(caso tenham se perguntado da falta de fotos de patinação do gelo, pasemem: há um vídeo. Mas não, ele não será mostrado aqui, e minhas estonteantes habilidades só serão mostradas às almas que abstraírem o fato de eu parecer um pinguim desajeitado)
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terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Dia 1 - viagem e primeiras impressões
Enquanto ia vivenciando as coisas, pensava já no título que colocaria na hora de escrever no blog. Passou por vários títulos, mas até agora, quase o final do dia, já foi tanta coisa que eu nem conseguiria achar um título que pudesse encompassar tudo. Assim, com o cansaço da viagem ainda pesando demais para poder organizar qualquer padrão maior ou linha única de pensamento coerente, deixo algumas impressões desconexas de aspectos da viagem até agora:
I - A Maratona de Guarulhos.
Por causa do tempo, o primeiro vôo, o mais simples, que era só até São Paulo, acabou se atrasando por volta de uma hora. Ocorrência normal, embora chateante, para a maior parte das pessoas - mas pânico total para quem, como eu, iria ter pouco menos de uma hora para aterrisar, pegar a mala, fazer check in de novo, passar pela polícia federal e entrar no vôo. Basta dizer que o terminal da Lufthansa ficava, por acaso, do lado exatamente oposto do aeroporto de onde eu desembarcava. Basta dizer que foi uma corrida de obstáculos, levantamento de peso e mito suor frio para, enfim, chegar no avião. Depois dessa correria, as doze horas pareceram quase relaxantes... quase.
II - Ah, a neve...
Depois de tantas horas e conexões e dor no ombro de carregar todas as minhas tralhas, eis que finalmente chego ao meu destino final: Estocolmo. Da janela do avião, uma profusão de pequenas ilhas cobertas de neve, alguns cursos d'água congelados e casinhas que pareciam um bolo confeitado com açúcar. Aquela animação quase infantil vai tomando conta - seja por causa do imaginário construído, ou seja talvez mesmo pela novidade disso tudo - ao ver tanta neve. Será que os suecos se sentem assim ao sobrevoar uma floresta tropical exuberante como tantas que temos?
De qualquer forma, a animação dura até as orelhas e o nariz começarem a congelar depois de poucos minutos lá fora. Aquelas partes que mal consideramos quando alguém fala em "vestir algo quente": olhos, nariz, orelhas, bochechas. Na escolha entre passar frio dignamente, prefiro enrolar o cachecol no meu rosto todo e ficar só com os olhinhos de fora enquanto levava a mala de um lugar para o outro...
III - Por-do-sol às 3 da tarde
Mais uma coisa bonita e tensa ao mesmo tempo - o por do sol suave, lento, só que no meio da tarde e deixando um vácuo de escuridão no meio do dia. Com o meu corpo todo desregulado da viagem, as mensagens são mistas: meus olhos vêem o escuro e dizem que é hora de descansar; meu corpo abatido pela viagem concorda; mas meu fuso-horário brasileiro me diz que é bem no meio da manhã e que dormir seria uma estupidez... E lá fico eu, andando pra lá e pra cá, sem coragem de tomar medidas mais produtivas mas também sem poder ir dormir tão cedo para não acordar no horário errado...
O frio e o escuro são dois fatores constantes no começo da minha estadia aqui, mas só o tempo mesmo vai dizer como vou reagir - com essa mistura de cansaço e saudade e animação e expectativa, é difícil fazer qualquer análise mais refletida sobre a forma como esses fatores me afetam. Mas vocês podem ter certeza que ainda vão ouvir muito sobre isso.
IV - Uma sueca fake no supermercado.
Engraçado que, mesmo eu sendo mais baixinha do que a média das pessoas aqui, todos pensam que eu sou sueca. Desde o motorista do ônibus do aeroporto até o atendente do supermercado, todos começam a falar sueco comigo e se surpreendem quando eu respondo em inglês. Em um caixa do supermercado em que você mesmo passava seus produtos e pagava com cartão, o atendente ficou um bom tempo tentando me explicar coisas em sueco até que eu falei inglês. Eu estava na frente de um caixa em que estava escrito "caixa fechado", e mesmo assim tentava passar os produtos. Mesmo diante da obviedade do quanto eu estava perdida, minha aparência me camufla perfeitamente aqui... Curioso mesmo.
V - Detalhes, detalhes
Aliás, falando em caixa de supermercado estranhamente autônomo, já tive aqui minhas primeiras liçõezinhas e alfinetadas de autonomia. Entro no lugar em que estou ficando, saio da rua, e só depois que sento para ligar o computador que percebo que fiz uma verdadeira trilha de água enlameada pelo quarto com as minhas botas de neve. Sim, andar pela neve suja, e agora eu entendo porque os suecos compartilham com os japoneses o hábito de tirar os sapatos ao entrar em casa. Aí lá fui eu, caçar um outro calçado na mala, sem não antes limpar com um pano todas as minhas pegadas. E depois, como limpar o pano em um quarto sem lavanderia? Mais improvisos, mais mistérios dos panos de chão. Claro que é bastante anedótico pensando agora, mas isso só me lembra o tanto de detalhes novos que eu preciso lembrar, do quanto eu vou precisar me adaptar a essa nova situação - com neve, botas cheias de gelo, nariz vermelho e absolutamente todos, todos os utensílios e móveis do quarto sendo da IKEA.
I - A Maratona de Guarulhos.
Por causa do tempo, o primeiro vôo, o mais simples, que era só até São Paulo, acabou se atrasando por volta de uma hora. Ocorrência normal, embora chateante, para a maior parte das pessoas - mas pânico total para quem, como eu, iria ter pouco menos de uma hora para aterrisar, pegar a mala, fazer check in de novo, passar pela polícia federal e entrar no vôo. Basta dizer que o terminal da Lufthansa ficava, por acaso, do lado exatamente oposto do aeroporto de onde eu desembarcava. Basta dizer que foi uma corrida de obstáculos, levantamento de peso e mito suor frio para, enfim, chegar no avião. Depois dessa correria, as doze horas pareceram quase relaxantes... quase.
II - Ah, a neve...
Depois de tantas horas e conexões e dor no ombro de carregar todas as minhas tralhas, eis que finalmente chego ao meu destino final: Estocolmo. Da janela do avião, uma profusão de pequenas ilhas cobertas de neve, alguns cursos d'água congelados e casinhas que pareciam um bolo confeitado com açúcar. Aquela animação quase infantil vai tomando conta - seja por causa do imaginário construído, ou seja talvez mesmo pela novidade disso tudo - ao ver tanta neve. Será que os suecos se sentem assim ao sobrevoar uma floresta tropical exuberante como tantas que temos?
De qualquer forma, a animação dura até as orelhas e o nariz começarem a congelar depois de poucos minutos lá fora. Aquelas partes que mal consideramos quando alguém fala em "vestir algo quente": olhos, nariz, orelhas, bochechas. Na escolha entre passar frio dignamente, prefiro enrolar o cachecol no meu rosto todo e ficar só com os olhinhos de fora enquanto levava a mala de um lugar para o outro...
III - Por-do-sol às 3 da tarde
Mais uma coisa bonita e tensa ao mesmo tempo - o por do sol suave, lento, só que no meio da tarde e deixando um vácuo de escuridão no meio do dia. Com o meu corpo todo desregulado da viagem, as mensagens são mistas: meus olhos vêem o escuro e dizem que é hora de descansar; meu corpo abatido pela viagem concorda; mas meu fuso-horário brasileiro me diz que é bem no meio da manhã e que dormir seria uma estupidez... E lá fico eu, andando pra lá e pra cá, sem coragem de tomar medidas mais produtivas mas também sem poder ir dormir tão cedo para não acordar no horário errado...
O frio e o escuro são dois fatores constantes no começo da minha estadia aqui, mas só o tempo mesmo vai dizer como vou reagir - com essa mistura de cansaço e saudade e animação e expectativa, é difícil fazer qualquer análise mais refletida sobre a forma como esses fatores me afetam. Mas vocês podem ter certeza que ainda vão ouvir muito sobre isso.
IV - Uma sueca fake no supermercado.
Engraçado que, mesmo eu sendo mais baixinha do que a média das pessoas aqui, todos pensam que eu sou sueca. Desde o motorista do ônibus do aeroporto até o atendente do supermercado, todos começam a falar sueco comigo e se surpreendem quando eu respondo em inglês. Em um caixa do supermercado em que você mesmo passava seus produtos e pagava com cartão, o atendente ficou um bom tempo tentando me explicar coisas em sueco até que eu falei inglês. Eu estava na frente de um caixa em que estava escrito "caixa fechado", e mesmo assim tentava passar os produtos. Mesmo diante da obviedade do quanto eu estava perdida, minha aparência me camufla perfeitamente aqui... Curioso mesmo.
V - Detalhes, detalhes
Aliás, falando em caixa de supermercado estranhamente autônomo, já tive aqui minhas primeiras liçõezinhas e alfinetadas de autonomia. Entro no lugar em que estou ficando, saio da rua, e só depois que sento para ligar o computador que percebo que fiz uma verdadeira trilha de água enlameada pelo quarto com as minhas botas de neve. Sim, andar pela neve suja, e agora eu entendo porque os suecos compartilham com os japoneses o hábito de tirar os sapatos ao entrar em casa. Aí lá fui eu, caçar um outro calçado na mala, sem não antes limpar com um pano todas as minhas pegadas. E depois, como limpar o pano em um quarto sem lavanderia? Mais improvisos, mais mistérios dos panos de chão. Claro que é bastante anedótico pensando agora, mas isso só me lembra o tanto de detalhes novos que eu preciso lembrar, do quanto eu vou precisar me adaptar a essa nova situação - com neve, botas cheias de gelo, nariz vermelho e absolutamente todos, todos os utensílios e móveis do quarto sendo da IKEA.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
A viagem começa com o adeus...
...e o adeus não começa no momento em que vamos viajar. Longe disso, eu arriscaria até dizer.
Minha viagem começou quando abriu o edital do intercâmbio, e a vaga ideia de "quero passar um semestre fora" se tornou o "para onde vou viajar?". Talvez eu não soubesse que a viagem já tinha começado, mas ela já estava lá na correria para arranjar os documentos, nas (intermináveis) horas passadas com burocracia, nas especulações e, por que não, sonhos.
Mas era justamente isso ainda - aquele sonho, aquela ideia vaga e distante que ficava atrás das preocupações mais imediatas com o semestre que termina, com o estágio, com questões de amigos e de família.Aos poucos, essa possibilidade intangível foi se tornando real: a carta de aceitação; a compra da passagem; o pagamento de parte do aluguel de lá.
Logo, as consequências não eram mais só as práticas - vi a oferta do próximo semestre na universidade e já ia clicar no link quando percebi que seria inútil. Não, meu próximo semestre não vai ser mais aqui. Os abraços na família se tornam mais longos, os momentos com amigos se tornam mais significativos, e de repente coisas cotidianas como as árvores e o céu e os passarinhos e o calor do sol no começo da manhã se enchem de um significado. Sem falar, é claro, nos primeiros tentáculos do monstro da saudade já se apertando - e não só sobre mim.
É interessante como os efeitos de uma coisa futura - passar um semestre fora, em outro hemisfério, em outro clima - se fazem tão presentes nesses poucos dias antes de viajar que minha própria forma de estar aqui em Brasília se modifica. Eu já me vejo de fora, andando com um sentimento quase de perda por paisagens que eu sempre tive como as mais comuns, e tirando um especial prazer da companhia e das palavras de pessoas queridas. Minha cabeça já está longe, mas ao mesmo tempo quer se agarrar com todas as forças a cada detalhe corriqueiro que até me irritava, mas já passo a antecipadamente amar e sentir falta.
Por outro lado, minha cabeça já está por lá por causa dos infinitos detalhes para planejar, listas para fazer, matérias para cursar, medos e planos e sonhos se misturando em um grande ponto de interrogação que se aproxima cada vez mais. Afinal, estou concretizando algo que eu queria desde antes mesmo de entrar na graduação... Mas eu confesso que não imaginava que esse momento de adeus fosse ser tão significativo.
O fato é que eu volto em breve - agosto às vezes parece logo ali, mas às vezes parece tão longe - e encontrarei novamente Brasília, a UnB, minha família, meus amigos, meu namorado... Mas aí é que está. Não será o mesmo lugar, não serão as mesmas pessoas, e nem eu serei eu mesma. Não se mergulha duas vezes no mesmo rio, e competem pelo domínio da minha mente a apreensão pelo desconhecido dessas mudanças e a vontade de mergulhar de cabeça em novas águas.
O melhor de viajar, não importa o quão longe e para quê, é a oportunidade de conhecer e reconhecer melhor tanto a si mesma quanto os lugares que vão ficando para trás. É justamente essa nova perspectiva de reflexão que eu busco nesses seis meses - e que quero relatar o melhor possível.
Assim, antes mesmo de pisar no avião, esse já foi o meu primeiro relato da viagem.
Minha viagem começou quando abriu o edital do intercâmbio, e a vaga ideia de "quero passar um semestre fora" se tornou o "para onde vou viajar?". Talvez eu não soubesse que a viagem já tinha começado, mas ela já estava lá na correria para arranjar os documentos, nas (intermináveis) horas passadas com burocracia, nas especulações e, por que não, sonhos.
Mas era justamente isso ainda - aquele sonho, aquela ideia vaga e distante que ficava atrás das preocupações mais imediatas com o semestre que termina, com o estágio, com questões de amigos e de família.Aos poucos, essa possibilidade intangível foi se tornando real: a carta de aceitação; a compra da passagem; o pagamento de parte do aluguel de lá.
Logo, as consequências não eram mais só as práticas - vi a oferta do próximo semestre na universidade e já ia clicar no link quando percebi que seria inútil. Não, meu próximo semestre não vai ser mais aqui. Os abraços na família se tornam mais longos, os momentos com amigos se tornam mais significativos, e de repente coisas cotidianas como as árvores e o céu e os passarinhos e o calor do sol no começo da manhã se enchem de um significado. Sem falar, é claro, nos primeiros tentáculos do monstro da saudade já se apertando - e não só sobre mim.
É interessante como os efeitos de uma coisa futura - passar um semestre fora, em outro hemisfério, em outro clima - se fazem tão presentes nesses poucos dias antes de viajar que minha própria forma de estar aqui em Brasília se modifica. Eu já me vejo de fora, andando com um sentimento quase de perda por paisagens que eu sempre tive como as mais comuns, e tirando um especial prazer da companhia e das palavras de pessoas queridas. Minha cabeça já está longe, mas ao mesmo tempo quer se agarrar com todas as forças a cada detalhe corriqueiro que até me irritava, mas já passo a antecipadamente amar e sentir falta.
Por outro lado, minha cabeça já está por lá por causa dos infinitos detalhes para planejar, listas para fazer, matérias para cursar, medos e planos e sonhos se misturando em um grande ponto de interrogação que se aproxima cada vez mais. Afinal, estou concretizando algo que eu queria desde antes mesmo de entrar na graduação... Mas eu confesso que não imaginava que esse momento de adeus fosse ser tão significativo.
O fato é que eu volto em breve - agosto às vezes parece logo ali, mas às vezes parece tão longe - e encontrarei novamente Brasília, a UnB, minha família, meus amigos, meu namorado... Mas aí é que está. Não será o mesmo lugar, não serão as mesmas pessoas, e nem eu serei eu mesma. Não se mergulha duas vezes no mesmo rio, e competem pelo domínio da minha mente a apreensão pelo desconhecido dessas mudanças e a vontade de mergulhar de cabeça em novas águas.
O melhor de viajar, não importa o quão longe e para quê, é a oportunidade de conhecer e reconhecer melhor tanto a si mesma quanto os lugares que vão ficando para trás. É justamente essa nova perspectiva de reflexão que eu busco nesses seis meses - e que quero relatar o melhor possível.
Assim, antes mesmo de pisar no avião, esse já foi o meu primeiro relato da viagem.
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