terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Dia 1 - viagem e primeiras impressões

Enquanto ia vivenciando as coisas, pensava já no título que colocaria na hora de escrever no blog. Passou por vários títulos, mas até agora, quase o final do dia, já foi tanta coisa que eu nem conseguiria achar um título que pudesse encompassar tudo. Assim, com o cansaço da viagem ainda pesando demais para poder organizar qualquer padrão maior ou linha única de pensamento coerente, deixo algumas impressões desconexas de aspectos da viagem até agora:


I - A Maratona de Guarulhos.

Por causa do tempo, o primeiro vôo, o mais simples, que era só até São Paulo, acabou se atrasando por volta de uma hora. Ocorrência normal, embora chateante, para a maior parte das pessoas - mas pânico total para quem, como eu, iria ter pouco menos de uma hora para aterrisar, pegar a mala, fazer check in de novo, passar pela polícia federal e entrar no vôo. Basta dizer que o terminal da Lufthansa ficava, por acaso, do lado exatamente oposto do aeroporto de onde eu desembarcava. Basta dizer que foi uma corrida de obstáculos, levantamento de peso e mito suor frio para, enfim, chegar no avião. Depois dessa correria, as doze horas pareceram quase relaxantes... quase.

II - Ah, a neve...



Depois de tantas horas e conexões e dor no ombro de carregar todas as minhas tralhas, eis que finalmente chego ao meu destino final: Estocolmo. Da janela do avião, uma profusão de pequenas ilhas cobertas de neve, alguns cursos d'água congelados e casinhas que pareciam um bolo confeitado com açúcar. Aquela animação quase infantil vai tomando conta - seja por causa do imaginário construído, ou seja talvez mesmo pela novidade disso tudo - ao ver tanta neve. Será que os suecos se sentem assim ao sobrevoar uma floresta tropical exuberante como tantas que temos?

De qualquer forma, a animação dura até as orelhas e o nariz começarem a congelar depois de poucos minutos lá fora. Aquelas partes que mal consideramos quando alguém fala em "vestir algo quente": olhos, nariz, orelhas, bochechas. Na escolha entre passar frio dignamente, prefiro enrolar o cachecol no meu rosto todo e ficar só com os olhinhos de fora enquanto levava a mala de um lugar para o outro...


III - Por-do-sol às 3 da tarde



Mais uma coisa bonita e tensa ao mesmo tempo - o por do sol suave, lento, só que no meio da tarde e deixando um vácuo de escuridão no meio do dia. Com o meu corpo todo desregulado da viagem, as mensagens são mistas: meus olhos vêem o escuro e dizem que é hora de descansar; meu corpo abatido pela viagem concorda; mas meu fuso-horário brasileiro me diz que é bem no meio da manhã e que dormir seria uma estupidez... E lá fico eu, andando pra lá e pra cá, sem coragem de tomar medidas mais produtivas mas também sem poder ir dormir tão cedo para não acordar no horário errado...

O frio e o escuro são dois fatores constantes no começo da minha estadia aqui, mas só o tempo mesmo vai dizer como vou reagir - com essa mistura de cansaço e saudade e animação e expectativa, é difícil fazer qualquer análise mais refletida sobre a forma como esses fatores me afetam. Mas vocês podem ter certeza que ainda vão ouvir muito sobre isso.


IV - Uma sueca fake no supermercado.

Engraçado que, mesmo eu sendo mais baixinha do que a média das pessoas aqui, todos pensam que eu sou sueca. Desde o motorista do ônibus do aeroporto até o atendente do supermercado, todos começam a falar sueco comigo e se surpreendem quando eu respondo em inglês. Em um caixa do supermercado em que você mesmo passava seus produtos e pagava com cartão, o atendente ficou um bom tempo tentando me explicar coisas em sueco até que eu falei inglês. Eu estava na frente de um caixa em que estava escrito "caixa fechado", e mesmo assim tentava passar os produtos. Mesmo diante da obviedade do quanto eu estava perdida, minha aparência me camufla perfeitamente aqui... Curioso mesmo.


V - Detalhes, detalhes

 Aliás, falando em caixa de supermercado estranhamente autônomo, já tive aqui minhas primeiras liçõezinhas e alfinetadas de autonomia. Entro no lugar em que estou ficando, saio da rua, e só depois que sento para ligar o computador que percebo que fiz uma verdadeira trilha de água enlameada pelo quarto com as minhas botas de neve. Sim, andar pela neve suja, e agora eu entendo porque os suecos compartilham com os japoneses o hábito de tirar os sapatos ao entrar em casa. Aí lá fui eu, caçar um outro calçado na mala, sem não antes limpar com um pano todas as minhas pegadas. E depois, como limpar o pano em um quarto sem lavanderia? Mais improvisos, mais mistérios dos panos de chão. Claro que é bastante anedótico pensando agora, mas isso só me lembra o tanto de detalhes novos que eu preciso lembrar, do quanto eu vou precisar me adaptar a essa nova situação - com neve, botas cheias de gelo, nariz vermelho e absolutamente todos, todos os utensílios e móveis do quarto sendo da IKEA.


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