...e o adeus não começa no momento em que vamos viajar. Longe disso, eu arriscaria até dizer.
Minha viagem começou quando abriu o edital do intercâmbio, e a vaga ideia de "quero passar um semestre fora" se tornou o "para onde vou viajar?". Talvez eu não soubesse que a viagem já tinha começado, mas ela já estava lá na correria para arranjar os documentos, nas (intermináveis) horas passadas com burocracia, nas especulações e, por que não, sonhos.
Mas era justamente isso ainda - aquele sonho, aquela ideia vaga e distante que ficava atrás das preocupações mais imediatas com o semestre que termina, com o estágio, com questões de amigos e de família.Aos poucos, essa possibilidade intangível foi se tornando real: a carta de aceitação; a compra da passagem; o pagamento de parte do aluguel de lá.
Logo, as consequências não eram mais só as práticas - vi a oferta do próximo semestre na universidade e já ia clicar no link quando percebi que seria inútil. Não, meu próximo semestre não vai ser mais aqui. Os abraços na família se tornam mais longos, os momentos com amigos se tornam mais significativos, e de repente coisas cotidianas como as árvores e o céu e os passarinhos e o calor do sol no começo da manhã se enchem de um significado. Sem falar, é claro, nos primeiros tentáculos do monstro da saudade já se apertando - e não só sobre mim.
É interessante como os efeitos de uma coisa futura - passar um semestre fora, em outro hemisfério, em outro clima - se fazem tão presentes nesses poucos dias antes de viajar que minha própria forma de estar aqui em Brasília se modifica. Eu já me vejo de fora, andando com um sentimento quase de perda por paisagens que eu sempre tive como as mais comuns, e tirando um especial prazer da companhia e das palavras de pessoas queridas. Minha cabeça já está longe, mas ao mesmo tempo quer se agarrar com todas as forças a cada detalhe corriqueiro que até me irritava, mas já passo a antecipadamente amar e sentir falta.
Por outro lado, minha cabeça já está por lá por causa dos infinitos detalhes para planejar, listas para fazer, matérias para cursar, medos e planos e sonhos se misturando em um grande ponto de interrogação que se aproxima cada vez mais. Afinal, estou concretizando algo que eu queria desde antes mesmo de entrar na graduação... Mas eu confesso que não imaginava que esse momento de adeus fosse ser tão significativo.
O fato é que eu volto em breve - agosto às vezes parece logo ali, mas às vezes parece tão longe - e encontrarei novamente Brasília, a UnB, minha família, meus amigos, meu namorado... Mas aí é que está. Não será o mesmo lugar, não serão as mesmas pessoas, e nem eu serei eu mesma. Não se mergulha duas vezes no mesmo rio, e competem pelo domínio da minha mente a apreensão pelo desconhecido dessas mudanças e a vontade de mergulhar de cabeça em novas águas.
O melhor de viajar, não importa o quão longe e para quê, é a oportunidade de conhecer e reconhecer melhor tanto a si mesma quanto os lugares que vão ficando para trás. É justamente essa nova perspectiva de reflexão que eu busco nesses seis meses - e que quero relatar o melhor possível.
Assim, antes mesmo de pisar no avião, esse já foi o meu primeiro relato da viagem.

Que beleza, Lu!!!! Vai de alma e coração! A gente espera você ... renovada!
ResponderExcluirAbraços apertados,
Andreia Marreiro