quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Aventuras térmicas em Gamla Stan (e bônus de patinação no gelo!)

Comecei a escrever esse post antes do final do dia, e o começo era assim:

Minha pequena aventura de hoje pode ser resumida em: hoje andei.

Aconteceu bem mais do que isso - inesperadamente, já à noite - mas, por hora, as caminhadas no frio:

Andei bastante, na verdade. Fui a pé da casa onde estou ficando até Gamla Stan, o centro histórico da cidade, dei uma volta por lá e voltei, também a pé. Um rolezinho de pouco mais de 10 quilômetros, e posso dizer que gastei quase o dia inteiro para isso - de meio dia às três da tarde, que é o quanto o sol durou. Quer dizer, nasceu antes, lá por umas 9 da manhã, mas meu sono estava completamente atrasado e só fui sair das cobertas quando era quase meio dia.


E que meio dia é esse! 
Tirando foto de coisas raras: o sol. 

O que seria chamado de 'dia' por aqui no inverno é um tempo permanente de final de tarde - sol no horizonte, calor moderado, como um por do sol longo (e frio!), que deixa tudo com uma iluminação pálida e gostosa na curta duração do dia.

Mas a parte mais curiosa do meu dia, para além de observar a paisagem que já me era familiar transformada pelo inverno, foram as vicissitudes térmicas: a forma, até agora desconhecida, como o corpo lida com o frio. 

What time is it?
A primeira coisa que a gente pensa quando sabe que vai enfrentar o frio é em casaco: isolamento térmico, impermeável, quentinho... E isso é realmente essencial. Com o casaco bem fechado, o corpo fica protegido, mas é com as extremidades que realmente precisamos de cuidado: nariz, orelhas, boca, mãos... (isso é, já pressupondo que o sapato é quente e impermeável. Não há nada mais broxante e horripilante do que pés molhados no frio).

O Marcello (amigo da faculdade que ficou aqui no semestre passado) me diz que existe um homem que regula tão bem a sua temperatura que consegue fazer maratonas na neve descalço e usando sunga, mas não é absolutamente meu caso. O frio é doído e demora para se acostumar (mas a gente se acostuma, me assegura ele).

Apenas sair pela porta, longe da calefação, já dá um impacto, mas logo que o primeiro vento frio passa na sua cara você já sente menos. Pensar que isso é a totalidade dos efeitos do frio, porém, é um erro. Ao contrário do calor, que nos engolfa de uma vez e fica daquele jeito, os efeitos do frio vão mudando ao longo do tempo.

O primeiro choque é um pouco desagradável, mas é o efeito do frio entrando devagar no seu corpo que vai ficando tenso. Fazer exercícios - andar, patinar, etc - ajuda o corpo a se esquentar mais sozinho e afastar a sensação de frio, mas é só ficar parada um pouquinho que ele volta, esse frio traiçoeiro, entrando pelo rosto e qualquer centímetro de abertura nas roupas que deixe ele entrar. É aí que você lembra do quão fina é a sua calça, ou que todo o suor que você acumulou também é água e pode congelar. O lado bom é que, uma vez que o frio se instalou, ele começa a amortecer as partes expostas, e aí já não dói mais. Isso sem nem falar em efeitos do vento...

O corpo todo seca, os lábios vão rachando e as mãos, nesse tira-e-põe de luvas, ficam muito secas também.

Lá pelo meio do caminho estava tão frio que entrei num café para pegar alguma coisa quente. O efeito não é imediatamente agradável, também: o calor faz a pele fria doer enquanto esquenta de novo, pinicando com a mudança na circulação. Chegando lá, qual não é minha surpresa quando vejo um café brasileiro entre as atrações:




Novamente, o tratamento sueco: tive que falar duas vezes "I'm sorry, I don't understand" pra moça perceber que não, eu não falo sueco, moça, o DNA de ser loira não vem junto com conhecimentos de sueco. (mas me aguardem, assim que começar a aprender vou testar na rua :P )

Continuando meu passeio, cheguei na Drottninggatan, a rua da rainha, que é uma rua de pedestres que fica logo antes de Gamla Stan, a ilhazinha da cidade velha. Muitas lojas, muitas pessoas passando com carrinhos de bebês que pareciam mais mini-estufas cheias de corredores, e algum ou outro turista mais ousado. Turistas, é claro, são identificáveis principalmente por atitudes bizarras como subir nas estátuas, tirar fotos de coisas que não tem sentido e fazer pose em frente de vitrines de sex shop (sim, vi uns dois vibradores em uma vitrine assim, de boa).



Andando pelas ruas da cidade, mais um pequeno detalhe: em alguns lugares há neve, mas em outros, a neve derreteu e se congelou de novo, constituindo a mais perfeita armadilha para pedestres desavisados. Tive mais de um escorregão pela rua - por sorte, nenhuma queda.

A cidade que eu conheci no verão, afinal, está transformada - neve onde havia verde, poucas pessoas encasacadas onde havia uma multidão de shortinhos. Mesmo a iluminação diferente dá um outro humor ao local, que, embora um pouco melancólico, não deixa de ser muito bonito.















Depois de algum tempo andando pela cidade velha, decido enfim comer meu almoço, um sanduíche que eu tinha levado. Como qualquer boa turista, pensei em sentar em algum banquinho com alguma vista bonita lá fora para comer meu almoço rápido e logo voltar a caminhar...

Afinal, que tal almoçar olhando para uma vista assim? 
Mas, porém, contudo, entretanto, eu não tinha contado com o meu querido amigo frio para mudar as coisas. É engraçado como a minha mente e meus costumes de Brasil (ou de verão sueco) ainda estavam funcionando fora da realidade. No momento em que achei um banco que não estivesse coberto de neve e me sentei para comer, notei algumas coisinhas:

1. O meu sanduíche, mesmo que fosse para ser frio, estava geladíssimo.
2. O meu queixo estava dormente de tão congelado, então era inicialmente difícil de mastigar
3. Sentar no frio faz com que o corpo esfrie, e logo eu estava tremendo. 

Bem, mais rápido e confortável comer andando, e logo já tinha passado a fome. Engraçado é quem diz que o frio dá fome. Esse frio dá é aversão a qualquer atividade que envolva abrir a boca. Sério. 

Só o meu café de horas atrás tinha me dado sensações térmicas engraçadas: era um chai latte quente, daqueles tão quentes que fica difícil de segurar pelo fundo, mas estava tão frio que era simplesmente uma maravilha ter uma fonte externa de calor na mão. Assim, eu passava o copo de papel para uma mão gelada, esperava ela esquentar e começar a queimar e ficar desconfortável, aí passava para a outra mão que, de tão gelada, achava aquela temperatura escaldante uma maravilha até começar a queimar, e assim por diante... 


O sorriso torto não é por estilo - o outro lado da cara era o lado do vento, e ainda estava meio dormente. 
Depois de terminado meu curto dia (com uma pausa na livraria para comprar uma agenda e de me passar por sueca acenando com a cabeça com o que o caixa dizia e exercitando meu maravilhoso sueco de uma palavra - Tak, que é obrigada), pensei que iria passar uma tarde-que-já-é-noite mais tranquila, mas ainda havia uma surpresa reservada: o Marcello me levou para patinar no gelo.

Tudo bem que eu acabei de falar que a perspectiva de sair já é trabalhosa  (e imagine então sair à noite,  -5 graus lá fora), mas preciso dizer que algumas coisas no inverno com neve me deixam boba como uma criança. 

Estava nevando de leve lá fora, com alguns floquinhos de neve parando nas luvas e nos cabelos, e a iluminação amarelada dos postes e das janelas das casas dão um ar quase aconchegante para contrastar com o frio lá fora. A lua cheia estava linda, também, e a cidade toda assumia um ar sonhador... 


E patinar no gelo, surpreendentemente, não foi tão difícil para mim. Eu já estava prevendo algumas horas de pura tortura enquanto eu me agarrava nas grades e caía milhões de vezes, mas depois de alguns minutos de insegurança, eu já estava patinando como as criancinhas que estavam ali...

...mentira, elas me humilhavam completamente com suas manobras e velocidade e saber coisas como virar de costas ou até mesmo freiar. Mas e daí, consegui me soltar das grades, aumentar um pouquinho a velocidade e fiquei super feliz com as minhas habilidades.

A pista de patinação, ao contrário de um ringue em um shopping que era tudo o que eu tinha visto do tipo no Brasil, era uma praça cercada por grades de madeira com gelo em cima. Provavelmente só jogaram um monte de água e esperaram congelar... E, é claro, colocaram um stand de aluguel de patins e uns altos falantes. A vibe do dia eram músicas dos anos 80, e me diverti horrores.

Amanhã já começo a ver coisas na Universidade, e talvez não acumule tantas coisas dignas de relatar - também não quero cansar as pessoas que queiram eventualmente me acompanhar por aqui ao postar coisas longas todos os dias... Mas vamos ver como fica. 

(caso tenham se perguntado da falta de fotos de patinação do gelo, pasemem: há um vídeo. Mas não, ele não será mostrado aqui, e minhas estonteantes habilidades só serão mostradas às almas que abstraírem o fato de eu parecer um pinguim desajeitado) 

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