Meu grupo escolheu como tema mais geral para orientar a observação a relação das crianças com o consumo - como elas se comportam em ambientes em que diferentes coisas são consumidas. A Drottninggatan, uma das ruas principais de compras da cidade, foi escolhida pela diversidade de espaços que comporta. Três locais foram escolhidos: logo na frente do parlamento, na ligação com o centro histórico; na saída do metrô, onde há uma grande circulação de pessoas e, por fim, em uma loja de brinquedos localizada na mesma rua.
Minha observação foi feita em um sábado, perto da hora do almoço. É uma das poucas horas em que o sol está no céu, e as lojas estão todas abertas. Desta forma, é um horário bastante propício tanto para quem está a turismo quanto para quem quer comprar alguma coisa.
1. Parlamento
O primeiro local a ser estudado é na frente do Parlamento, na junção entre essa rua e Gamla Stan, a cidade histórica. Ou seja, o consumo lá é algo menos imediato: não consumo como a loja, mas sim como um local bastante propício ao turismo, especialmente arrumado e mantido para, justamente, atrair o consumo da cidade como um todo, do turismo naquela região.
As características observadas nesse primeiro lugar incluem:
- Segurança reforçada, devido à importância política do prédio. Um guarda de segurança na porta o tempo todo.
- Proximidade com o centro histórico, tornando-se uma área com a presença, se não predominância, de turistas.
- Lugar mais amplo, com mais espaço, e perto de uma ponte, propício para tirar fotos e apreciar a paisagem.
1.1. - Forma de ocupar o espaço
A ocorrência de crianças aqui era bastante comum, embora não predominante: elas vinham junto com suas famílias, em sua grande maioria, enquanto nem todos os adultos estavam acompanhados de crianças.
As crianças, em sua grande maioria, apareciam na companhia dos pais, enquanto crianças maiores e adolescentes podiam estar tanto acompanhados quanto sozinhos. A maioria andava em grupos maiores de duas pessoas, posicionadas entre os adultos: ou seja, elas ficavam no centro, com adultos na frente e atrás, ao invés de liderarem o grupo, ou serem deixadas para trás. Aqui predominavam, portanto, grupos maiores, geralmente de quatro a mais.
Em relação aos adultos que as acompanham, apresentavam maior curiosidade em relação ao ambiente: olhavam mais para os lados e para cima, enquanto os adultos tinham uma tendência maior a olharem reto, para sua destinação.
Normalmente seguiam o passo dos pais, no mesmo ritmo. Algumas poucas corriam, mas isso também era feito ou com a anuência, ou mesmo com o encorajamento do pai, que corria junto.
As crianças, embora estivessem sempre à vista dos pais, tinham uma certa liberdade de andarem a uns 2, 3 metros de distância, explorarem sozinhas o ambiente, embora mantivessem, em geral, o passo dos adultos.
As vozes das crianças, em termos de volume, eram similares a dos pais, não falando nem mais alto, nem notadamente mais baixo, quando conversavam - ocorrência também frequente. Aliás, a similitude das crianças com os pais é notável: elas se vestem e se comportam de formas praticamente espelhadas - pode-se dizer que não é muito forte uma cultura diferenciadora em termos de forma de se vestir.
1.2. - Roupas
Um exemplo muito bom era a de uma mãe bastante elegante, de botas de cano alto, sobretudo e uma echarpe, que tinha uma filha vestida de forma bastante similar, no mesmo estilo (embora houvesse adaptações, como o fato de a bota não ter salto).
A vestimenta de crianças, embora não variasse em estilo, variava um pouco de cor: enquanto a maioria dos casacos dos adultos era em tons de preto, marrom e cinza, algumas das crianças trajavam roupas coloridas, casacos de cor cosa, azul claro, verde, até amarelo marca texto. Nesses casos, porém, eram crianças com o que pareciam ser roupas de ski, e os pais também estavam vestidos de forma mais colorida. Ou seja, se os pais estão com casacos de esqui coloridos, os filhos tendem a ter uma vestimenta em estilo parecido, enquanto pais de casaco mais urbanos também tinham filhos vestidos desta forma.
Não sei se é uma particularidade da roupa de inverno, mas notei que era bem pouca a presença de 'marcas infantis", como desenhos animados específicos, personagens de quadrinhos, etc. Vi um gorro do angry birds rosa, um gorro do Elmo, da Vila Sésamo, e um gorro do homem aranha em cabeças de crianças, mas nada mais do que isso. A grande maioria, mesmo que trajasse roupas mais "infantis", coloridas ou com bichinhos, estava com roupas genéricas.
1.3. Adolescentes
Um único grupo de adolescentes, que parecia ser de turistas, estava falando e rindo bastante alto, em grupoas maiores. Esse foi um comportamento que eu não encontrei entre os jovens suecos, que se locomoviam em grupos não maiores que duas pessoas, conversando baixo, ou sozinhos com os fones de ouvido. Parecia mais um comportamento de turistas em um grupo, mesmo.
1.4. Carrinhos de bebê
Muitos, muitos carrinhos de bebê, até para crianças maiores (de uns 3 anos), e alguns para mais de uma criança, embora elas tivessem idades diferentes. A maioria era estranhamente apática: enrolada em suas cobertas e casacos, olhava para frente com desinteresse. Havia notadamente pouca interação entre pais e bebês no carrinho. A maiora ficava virado para frente: ou seja, a criança não podia ver a pessoa empurrando o carrinho. Me chocou particularmente uma família: eram pai, mãe e três crianças, sendo duas delas maiores e um bebê. Os pais conversavam com as duas crianças maiores enquanto o bebê era puxado no carrinho como se fosse uma mala, virado para trás e sem ter qualquer tipo de interação com a família.
2. T-centralen
O segundo lugar é basicamente o coração da cidade: a saída da estação central (T-centralen), em que milhares de pessoas circulam todos os dias. As pessoas chegam do metrô por estações de quase todas as linhas, que se encontram lá, e sobem por uma escada rolante (ou elevador) até a rua, que é cercada de lojas dos mais variados tipos - em sua maioria, lojas de roupas.
O local estava bem cheio, com uma circulação constante de pessoas as mais variadas.
No meio de minha observação, um músico de rua que tocava violão e se utilizava de programas de computaodr para gerar efeitos começou a tocar em um estilo "one man band", em um ritmo bastante animado. Ou seja, isso afetou também a forma como as pessoas em volta se comportavam.
O ambiente contava também com pessoas distribuindo folhetos e uma lojinha de cachorro quente.
2.1. Crianças no espaço.
Em sua grande maioria, as crianças estavam de mãos dadas com seus responsáveis. Eles podiam ser tanto mães, pais ou mesmo irmãos mais velhos, que pareciam bastante envolvidos no cuidado com seus irmãos mais novos. Havia uma grande ocorrência de duplas: mães ou pais com apenas uma criança. Muito importante aqui era a proximidade e o controle constante: à medida que iam se aproximando da estação, e o local ficava mais cheio, pais procuravam ativamente dar as mãos aos filhos. Observei muitas vezes as próprias crianças procurando a proximidade de seus pais. Mesmo no caso de famílias que não estavam de mãos dadas, a proximidade e a vigilância era uma constante, bem mais do que no Parlamento.
As mãos se soltavam, porém, no minuto em que entravam em lojas, momento no qual as crianças adquiriam maior liberdade de circulação, enquanto os pais desviavam sua atenção para os produtos. Ou seja, no momento em que saíam na rua, as crianças todas estavam sob constante escrutínio e controle por parte dos pais.
As crianças, em geral, pareciam concordar com essa proximidade, ativamente procurando-a. Quando uma criança se soltava, a reação do adulto era de estender a mão enfaticamente, e, se não fosse correspondido, chamar a criança. Não foi preciso erguer a voz.
Apenas duas crianças estavam correndo, e era em círculos em volta da mãe, e não estavam gritando muito alto. Apenas um episódio de choro alto ocorreu, de uma criança tentando sair do carrinho de bebê.
A voz das crianças não era evidente neste espaço, se misturando ao barulho geral sem se sobrepor.
Elas interagiam mais com os estímulos locais - as pessoas distribuindo folhetos, o músico quando começou a tocar. Elas tinham muito mais propensão a pegar os folhetos (aceitar quando os adultos recusam, ou mesmo desviar o caminho para pegar o folheto). Elas queriam parar para ver o músico, mas em geral seguiam os passos dos pais. Algumas poucas paravam e eram arrastadas, e apenas uma mãe parou quando o filho quis parar, e o encorajou a dar uma moeda. A maioria, porém, embora mostrasse interesse, continuava seguindo o passo dos pais sem fazer nenhum movimento em direção a ver o músico.
2.2. - Roupas
As roupas, como repito, eram similares às dos pais. Crianças tinham apenas os marcadores de terem roupas mais coloridas, mas sempre seguindo o estilo geral dos adultos - isso talvez seja por causa do frio? Algumas crianças de macacões de corpo inteiro. Nenhuma criança usando maquiagem, ou qualquer roupa de adulto. Se elas pareciam "mini-adultos", era porque estavam vestidas de forma parecida com as dos pais.
2.3. Adolescentes
Em duplas ou sozinhos, muitos fones de ouvido, mas bastante integrados ao ambiente. Fazem compras sozinhos ou em duplas. Apenas um grupo com indumentária "otaku", enquanto o restante tinha roupas que não destoavam do ambiente. Não usam muita maquiagem. Aliás, não se nota uso de maquiagem entre crianças, tampouco adolescentes.
2.4. Bebês.
Quase todos em carrinhos. Quando eram carregados no colo, parecia ser algum esforço excepcional. Bem agasalhados, a maioria era bem apático. Mas quando estavam em maior contato com o ambiente, demonstravam curiosidade. Só dois ou três, maiores, estavam em carrinhos mais abertos, interagindo com um ambiente. Pouquissima interação entre pais e bebês. Só uma mãe que movia o carrinho no ritmo da música, rindo enquanto o bebê dançava. Em compensação, uma mãe com carrinho de bebê parou para ver o músico... e sequer virou o bebê naquela direção!
2.5. Diferenças culturais
Primeiramente, a acessibilidade: quantos pais poderiam ficar andando com carrinhos de bebê se tivessem que pegar ônibus ou metrô? Isso praticamente não aconteceria. Mas o resultado é que, no Brasil, as pessoas interagem muito mais com os bebês. Carregando no colo,conversando, interagindo bem mais. As outras pessoas na rua também interagia muito pouco com os bebês. Não sorriam nem viravam a cabeça, não acenavam, nem nada - esse costume que temos de interagir com bebês parece que é uma coisa que os suecos não conhecem.
Depois, embora todos estivessem de mãos dadas com os filhos, não havia aquele aperto forte de quem segura uma criança que pode sair correndo a qualquer momento. Até eu, que sempre fui uma criança calma, era segurada quase pelo pulso por mamãe na rua, enquanto uma tênue mãozinha enluvada já era o suficiente por lá. Mais para saber onde a criança estava do que por uma percepção de real perigo - e olha que lá era o lugar mais cheio, em que era mais provável de se perder uma criança... As mães e pais, em geral, tinham um semblante mais relaxado, não vi nenhum estresse com os filhos, nem birras, nem nada fora de controle... Parecem que são, em geral, mais relaxados. Isso significa que eles meio que esquecem o bebê e andam na rua como se estivessem empurrando um carrinho de mão com um saco de batata, mas também que as crianças pequenas acompanham os pais com mais calma, sem muitas birras e manhas. Aliás, nem mesmo no lugar mais propício a birras e manhas eu vi qualquer manifestação extrema! Isso nos leva à
3. Loja de brinquedos
É um espaço no subsolo de um conjunto de lojas, e tinha desde brinquedos para bebês até videogames para nintendo wii e 3ds
3.1. As crianças no espaço.
O espaço feito para elas, e elas realmente o ocupavam - um dos poucos lugares em que elas eram algo como metade da população local. Andavam com bastante liberdade, tanto que eram elas que chamavam os pais (mamma! e pappa! eram as palavras mais ouvidas). Não conseguia entender sobre o que eles conversavam, mas podia ver vozes de negociação, de implorar, e até mesmo algumas vozes frustradas. Crianças mais velhas ou até adolescentes estavam lá com os pais, vendo alguns materiais escolares ou outros jogos. As crianças circulavam, mas não pegavam os brinquedos sem perguntar para os pais antes. Algumas menores brincavam com os brinquedos.
3.2. Diferenças culturais
Aqui, inúmeras: a primeira coisa que eu notei é como elas são diferentes das lojas do Brasil. Sem muita decoração, só os brinquedos dispostos nas prateleiras: e mais, sem separação entre brinquedos de meninos e meninas. Vi um menino falando sobre a Barbie com a mãe - era o carrinho da Barbie e era meio rosa, mas a mãe não parecia achar que a conversa fosse inapropriada de qualquer forma por tratar-se de um menininho.
Claro que havia alguns brinquedos gendrados - bonecas rosas, carrinhos de bombeiro azuis com só meninos nas propagandas - mas a disposição da loja não fazia o verdadeiro "apartheid" que as lojas brasileiras fazem. Os brinquedos eram mais divididos por tema e idade do que se eram de "menino" ou de "menina". Eu achei isso simplesmente ótimo!
Em outros detalhes, não havia nenhum lojista, ou qualquer pessoa vigiando a loja: se fossem crianças bagunceiras, poderiam tocar o terror. Ou seja, confia-se que os pais tenham total controle sobre a situação, sem interferência de outras pessoas. Não sei se isso é um reflexo dos serviços, ou se é mesmo uma confiança de que não há necessidade. Em uma loja de roupas, por exemplo, havia vendedoras... Talvez isso seja uma coisa interessante de perguntar para os colegas suecos.
Bem, essas foram minhas anotações no meu tempo de observação. Espero que não tenha entediado ninguém com os detalhes - e que, é claro, possa ser útil no meu trabalho depois. Agora, "só" mais dois pequenos textos para ler...
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