sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Neve, neve neve * - * (e mais andanças na cidade)

O dia de hoje e o de ontem foram um pouco parecidos em alguns aspectos - andar pela cidade para aproveitar a luz do dia, fazer comida e resolver coisas da casa durante à noite, e logo terei meu quarto mais definitivo. Deixar, enfim, de viver a cidade como "viajante" para ser, enfim, "moradora"... Mas, enquanto isso, fico ainda ajeitando o que eu posso, observando comidas, costumes ( e o funcionamento dos botões do forno) ou só perambulando pela cidade.
Roupas adequadas para perambular pela cidade


Ontem fui ver a Universidade pela primeira vez, e começar a me inscrever nas matérias que vou cursar - mas hoje ainda não quero escrever sobre a Universidade, que provavelmente vai ocupar muitas de minhas postagens no futuro. Hoje, ao invés de escrever sobre minha corajosa batalha contra o frio toda vez que saio de casa, quero escrever sobre minha (ainda) lua de mel com a neve.

Ah, a neve...

Não sei se foram os filmes, toda a decoração de Natal eurocêntrica ao qual eu já fui submetida na vida ou talvez mesmo esse fascínio com o desconhecido, mas eu ainda fico me sentindo boba como uma criança quando vejo nevar lá fora. Depois de resolver as coisas da universidade, estávamos fazendo almoço, tranquilos em casa, quando eu olho pela janela e a neve está caindo. E não só uns floquinhos discretos, mas rajadas de vento e uma série de flocos acumulados indo tanto para cima quanto para baixo... Na hora, estava tocando Pink Floyd, então a cena acabou ficando épica. O vídeo não consegue descrever a sensação tão estranha de estar quentinha e confortável em casa vendo o mundo se acabar lá fora...





Naquela noite ( a última do Marcello em Estocolmo) fomos patinar de novo, mas, dessa vez, ao invés de alugar os patins, fui para uma loja de segunda mão comprar um... E não é que o preço foi quase o mesmo? Achei um certinho para o meu tamanho, e agora posso ir patinar quantas vezes quiser até o final da temporada... Yay!

Patinamos por um bom tempo e eu consegui ganhar bastante confiança e até velocidade andando! Me aguardem, olimpíadas de inverno, daqui a pouco eu estou assim:



(não se preocupa, mamãe, quando for ser fabulosa dançando Lady Gaga e dando piruetas vou estar melhor agasalhada).


Vamos ver se vou ter ânimo e mais chances de patinar nesses próximos dias... Afinal, tenho até o final do inverno para praticar.


Já no dia seguinte, pude experimentar ao vivo (e, literalmente, na pele) a neve caíndo para além de alguns floquinhos. No início a sensação era quase mágica - aqueles flocos perfeitos, daqueles que você vê o formato desenhado, caindo no seu casaco, nas suas coisas e à sua volta ( infelizmente não deu para pegar bem na foto)


...e depois, continuou sendo algo terrivelmente belo, mesmo que um pouco sombrio. Mas à medida em que a neve ia aumentando...





...e aumentando...





...foi ficando um pouco difícil, mesmo para uma pedestre deslumbrada como eu.

A neve, com todo o seu misticismo, não é mais do que chuva congelada de uma forma especial. A vantagem é que, antes de te deixar encharcada, a neve ainda sólida pode ser sacudida das roupas (e bolsas e rosto e sapatos e tudo o que você possa imaginar), mas é só deixar molhar que você vai se lembrar exatamente quais roupas que você tem são impermeáveis e quais não são. Para a minha sorte, meu casacão é bem impermeável, mas é difícil de andar quando os seus óculos começam a embaçar do calor do seu rosto (e também não vieram equipados com limpador de para-brisa), o seu nariz, que já estava anestesiado com o frio, começa a arder de novo de mais frio ainda e a sua touca de lã começa a ficar molhada do acúmulo de flocos de neve.

Foi o momento de, como em momentos de chuva, me abrigar em lojinhas, igrejas ou qualquer lugar um pouco mais quente, e ter novamente a experiência de olhar a neve linda caindo pela janela.

Passei o resto do dia andando a esmo, marcando algumas lojas que talvez eu queria visitar depois que tiver meu espaço (como uma loja de vários andares dedicada somente a ficção científica e coisas nerds em geral)

Vi o por-do-sol em Gamla Stan dessa vez, com a cidade ainda mais coberta de neve, e voltei para casa para me esquentar, lavar o cabelo (um processo perigoso, uma vez que, se eu sair para a rua com o cabelo molhado, ele pode congelar. Céus) e, é claro, escrever.





Conversando com amigos no facebook, comentei que estava gostando da experiência de ficar sozinha, assim como tinha achado a cidade muito bonita. Mas surgiu a pergunta: eu estou mesmo sozinha se, em tempos de internet, posso falar com minha família e amigos quando quiser? E segundo, a forma como eu acho a cidade bonita também não está relacionada com a forma com a qual eu estou vendo?

Olho de novo as fotos que eu postei até agora, e são todas de uma beleza delicada, melancólica, que quase chamam a uma maior introspecção. Afinal, tudo o que há de frio e hostil (embora bonito) lá fora é contrastado com o calor aconchegante que se entrevê por cada janela, por cada detalhe nos parapeitos que minha visão alcança. As casas, por dentro, parecem todas querer conter um pouquinho da cor e da alegria que o inverno torna tão difícil de achar.





Essa ideia tão forte na paisagem do aconchego do lar, porém, só se comunica comigo parcialmente - sei do calor físico, do alívio de não estar mais congelando, de um pijama e um cama confortável para dormir, mas do aconchego de família e pessoas queridas só tenho uma tela, uma comunicação que, por mais que seja presente, é incompleta.

A saudade é uma questão delicada, principalmente nesses primeiros dias, em que não tenho nada mais urgente para ocupar a minha mente. Estou muito feliz aqui, andando pela cidade ainda com o ânimo de ver coisas novas e interessantes, de absorver novas formas de viver e sentir o espaço à minha volta, mas alguns pequenos detalhes o tempo todo me trazem de volta para as pessoas amadas que eu deixei no Brasil. Uma camiseta que é a cara do meu pai, um comentário engraçado que eu faria com o meu irmão, um livro que é a cara de um amigo... É um jogo de espelhos, uma contradição ambulante: mesmo quando eu estou sozinha, vocês estão comigo o tempo todo, mas mesmo quando estou conversando com vocês no facebook, ainda me faz falta uma voz, um carinho, um abraço...

Talvez essa seja a resposta para a questão da solidão: ela ainda está ali, mesmo com as minhas pessoas amadas perto, a intermediação da tela torna as coisas um pouco frias. É como quando ando no metrô, e vejo as pessoas ao meu redor todas com seus smartphones, conversando com alguém que está longe - mas também completamente sozinhas entre as tantas outras pessoas que ali estão.  Mas, ao mesmo tempo, a saudade é o que fica das pessoas aqui, então é como se estivesse, desse jeito meio dolorido, com as pessoas que amo o tempo todo...

Mas isso tudo é só o começo. Da minha viagem, da minha saudade, e de todas as coisas que eu ainda vou fazer por aqui. Por enquanto, são só as sensações apenas semi-descritíveis de caminhar invisível em um local diferente, não-tão-turista mas também ainda não-moradora, ainda-não-estudante... Talvez uma simples estrangeira.

Mas vamos ver o que os próximos dias vão trazer.





Nenhum comentário:

Postar um comentário