sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A safadeza (não) oculta de um discurso homofóbico

Eis que, em uma aula, uma das questões a serem trabalhadas era um debate ( de argumentação, a princípio, jurídica!) a respeito da adoção de crianças por casais homoafetivos.

Quando chegamos naquele assunto espinhoso, tive até algumas surpresas positivas - discussões acaloradas, sim, mas com argumentos interessantes e razoáveis - mas acho que existe alguma lei divina que proíbe que haja alguma discussão que envolva gênero de qualquer forma sem que apareça alguma pérola fantástica...

Eis que um sujeito pede a palavra. Começa armando-se do máximo de argumentos de autoridade o possível: tem psicólogos na família, estuda isso, então ele sabe cientificamente do que está falando. Brandindo uma Ciência (com "c" maiúsculo e efeitos especiais de brilho divino atrás) como seu grande escudo argumentativo, teoricamente fundado em supostas práticas da psicologia (que, como todas as pessoas sabem, é uma ciência unívoca, sem nenhuma dissidência teórica ou apropriação para essa ou aquela finalidade política), começa a desfiar suas teses.

Essa era a minha cara.
Enquanto isso, eu tentava ficar quieta, só anotando.

Começou com o básico de "a criança precisa de uma referência masculina e feminina para um desenvolvimento mental saudável" ( os dois conceitos obviamente muito bem definidos, que se aplicam necessariamente a pessoas que tem os aparelhos genitais correspondentes)  -  comecei a escrever, com grandes pontos de interrogação, sobre "argumentos cientificistas".

Depois, mais um clichê: "isso é anti-natural! Eles não se reproduzem assim!" E puxando uma ética Kantiana muito mal utilizada, argumentou que era impossível universalizar a homossexualidade - acabaria com a espécie humana! - e, por isso, seria eticamente incorreto. ( e a lei tem que proibi-los de adotar crianças porque...?)

E ia anotando, anotando, cada vez com a caneta mais forte e a letra aumentando...

Até que veio a pérola-mor: as causas da homossexualidade.

Segundo o douto indivíduo, elas eram três. A primeira, era genética. A segunda (e daí sua justificativa para a proibição da adoção) era a criação. Já a terceira... em suas palavras "é safadeza, mesmo."

Safadeza como causa da homossexualidade.


...



Não, eu não estou brincando.

Em uma sala de aula, em um curso de Direito de uma Universidade pública, no glorioso ano de 2011, precisei ouvir isso.

Obviamente, a turma não deixou barato.

Se as risadas profusas que seguiram a tão preciosa afirmação, uma estudante fez questão de esclarecer se era exatamente aquilo o que ele queria dizer. Para o riso geral, era sim: "tem gente que é homossexual por safadeza, mesmo."

Depois deste momento em que a aula se transfigurou em uma peça de teatro do absurdo, não havia nem mais como continuar, e, até pela hora avançada, as pessoas já se dispersaram e saíram da sala. A aula acabou, mas minha perplexidade continuava:

Safadeza?

Mil cenários passaram pela minha mente, um mais absurdo do que o outro. 
"Nossa, hoje me sinto safada, vou mudar minha orientação sexual e me agarrar com minhas amigas...?"
"Oba, vou me submeter a discriminação e violência dentro da família, igreja e da sociedade em geral, porque estou me sentindo tão safada hoje..." 

Mas havia uma situação mais curiosa ainda: se a safadeza é causa de homossexualidade, aí sim que a humanidade estaria à beira de sua extinção, se dependêssemos totalmente da reprodução natural. Oras, se toda vez que um casal heterossexual for fazer safadezas com funções reprodutivas, vão virar homossexuais? É o fim do sexo heterossexual, baby. E tudo por causa da safadeza! 

Ok, preciso confessar: o melhor resultado desta cena curiosa foi eu ter uma piada interna enorme com vários de meus amigos e amigas...

Mas, mesmo assim, há um aspecto sério e perturbador nisso.

Basta lembrar que, até 1993, a homossexualidade constava na lista de doenças mentais da Organização Mundial de Saúde; que até hoje há clínicas de "tratamento" para a homossexualidade em que homens e mulheres são submetidos a tratamentos degradantes para "corrigir" este "desvio"; que comunidades religiosas condenam a homossexualidade como se fosse uma escolha, ou vista como  ter demônios no corpo

E, o pior de tudo - saber que, se essa mesma assertiva tivesse sido feita há alguns - poucos - anos atrás, muita gente acharia uma hipótese interessante e viável em uma discussão acadêmica.

Por trás dos risos diante de argumentos que historicamente se transformaram em ridículos, há o amargo gosto de saber o quão nova - e também o quão frágil - são esses desenvolvimentos em matéria de reconhecimento de seres humanos, como, er... seres humanos.  Essa percepção de que explicações reducionistas e preconceituosas não são aceitáveis - muito menos sob o manto de uma ciência inquestionável - tem uma data e tem um espaço, infelizmente ainda reduzidos.



Diante do abismo do absurdo é que percebemos como ainda temos muito o que lutar...

PS: Sobre o mérito da adoção por casais homossexuais - e as preocupações com a criação das crianças - deixo falar a pessoa que é mais autorizada a falar do assunto: um filho de duas mães.



terça-feira, 15 de novembro de 2011

Vída de Sísifo

No inferno da mitologia grega, os piores castigos eram reservados a quem superava os Deuses. Não eram as pessoas mais perversas, as mais sanguinolentas ou as que tinham causado mais sofrimento humano. Os piores crimes - e, por isso, dignos dos castigos mais cruéis e criativos - eram aqueles contra a ordem instituída pelos Deuses, contra sua supremacia, contra seu orgulho, contra seus desígnios. 

Sísifo, ao que parece, tinha um lugar especial no coração do panteão grego por sua extrema rebeldia - conseguiu enganar a morte nada menos do que três vezes, (os deuses precisaram esperar que ele morresse de velhice), chegando até a prender Tânatos, a Morte, impedindo que as pessoas morressem por vários anos...

Seu castigo é proverbial de tão cruel: foi condenado a empurrar uma enorme pedra montanha acima e, quando estivesse quase conseguindo, uma força irresistível empurrava a pedra para baixo novamente. Não deram a ele a missão de carregar uma pedra que ele não consegue levar, ou de falhar logo no começo - não. O requinte de crueldade está em sua possibilidade de vislumbrar o outro lado da montanha, de estar quase lá, quase lá - e só então ver o trabalho de tantas horas rolar para o chão - provavelmente em cima do coitado.

"Trabalho de Sísifo", então, é expressão usada para tarefas invariavelmente infrutíferas, no qual há um esforço enorme para nada. 

Aqui parece que temos o desfecho de nossa pequena história: Sísifo era um sujeito astucioso, inteligente, e sua insistência em desafiá-los foi tão grande que recebeu um castigo eterno dos mais ardilosamente cruéis: condenado a um esforço sem medidas de uma tarefa dificíllima, mas sem a satisfação de vê-la completa, mesmo tendo quase conseguido.

Que empurre a primeira pedra quem nunca se sentiu sisifando...

Através dos anos e dos oceanos, línguas e mitologias, algumas curiosas coisas se repetem - o desafio ao status quo, para qual a resposta é a condenação a uma tarefa longa, árdua e que, no final das contas, não consegue chegar a seu destino e terá que ser repetida de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo... 

E Sísifo está vivo em cada uma e cada um que procura agir nesse mundo para bater de frente com estruturas profundas e arraigadas na sociedade.


©2008-2011 ~dwsel
Tentar mudar a forma como as relações de gênero se desenvolvem na sociedade é uma dessas "sisifadas". Tantas argumentações, textos, vídeos, livros, conversas francas e explicações das coisas mais aparentemente óbvias, para vermos nossa própria família, nossos próprios amigos e amigas, com um comentário, um ato de ignorância ou uma omissão, empurrar a pedra para baixo, geralmente me atropelando no caminho.

Depois de levar uma (pedra) na cara, o mais óbvio seria largar aquele maravilhoso pedregulho e fazer alguma coisa - mas depois de desafiar os deuses, de ter um mínimo vislumbre de outro caminho possível, como é possível virar as costas? 

E a dura fase que segue é a de levantar-se de novo, chacoalhar a poeira e seguir em frente, carregando pedra. 

Carregando sonhos, carregando ideais, carregando mudanças radicais ou um coração aberto demais para esse mundo - vejo Sísifo em todos os rostos de olhos brilhantes, ora de esperança, ora de lágrimas.

Rolando suas pedras, em solidão ou em grupo, caindo e levantando, nesse mundo-montanha que gosta de nos fazer sentir formiguinhas pequenas e inúteis diante de forças que não controlamos...

Há dias em que penso que é isso mesmo - melhor mesmo é o refúgio dos sonhos, da ficção, do escapismo, e carregar pedra pelo impulso egoísta de não ser aquela que fica na base da montanha sem fazer nada...

Mas há aqueles dias, também, em que vejo um mundo de pés e pedras, que de tantas idas e quedas há de fazer a própria montanha ruir...
Low Vapors, por ~dwsel. 
©2011 ~dwsel

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A menina sem voz

Quando ficou mulher, perdeu a voz. Tal como a sereia, foi tirada sua possibilidade de expressão em troca de pernas "de gente grande", os gritos e cantigas de criança pelo silêncio - ora, pernas devem ser vistas, não?

Perdeu a voz e ninguém percebeu. Talvez nem mesmo ela mesma - em seu mundo sub-aquático de sereia só podia falar com bonecas - porque falar na mesa é para gente grande, e gritar na rua é coisa de moleque. De seu mundo de ser menina, pisou na terra para ser olhos grandes e um sorriso sempre no rosto, e assim era bela, e assim era querida.

Quer dizer, até que tentou falar.

Fora da difusa água de infância, tinham tirado sua canção - do que era uma nota clara só sobrou um eco arranhado, rouco baixinho em um mundo de gente que grita. Se tentava falar, era feia. O desconforto de um mundo que dizem "não é seu", os gritos que abafam tão fácil aquela voz rouca, e mais ainda, o espanto - a negação estética daquela voz rouca em um corpo que deveria ser bonito.

Edvard Munch - Melancholy
Vivia então de canções de sussurros, na calada da noite, cantando para a lua.   E seus versos eram os mais belos que ninguém queria ouvir; e suas palavras inventavam e destruíam mundos inteiros em sua força. 

Sussurros que formavam um enorme grito com tantos sussurros que não havia como ignorar, maior que uma estética de ver e ser vista, de mundos ignorados, de ideias perdidas...

Mas, se quiser, você pode fingir que não ouve.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Uma quantidade de desilusão

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Edvard Munch -  ninguém melhor para ilustrar
a angústia de precisões difusas...
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(...)
Álvaro de Campos - Fernando Pessoa. 

Hoje acordei ao som de uma furadeira e com sangue nos olhos. Uma revolta que me chega em ondas, difusa, lenta, imensa, mas inexorável, uma massa disforme de mil pequenas coisinhas sem importância que se juntam para uma catástrofe interior, que só se expressa naqueles dias claros e bonitos, parecendo ao olhar de um observador algo sem sentido nenhum, quando é, em verdade " Esta velha angústia que trago há séculos em mim..." 

Se seguisse a poesia, transbordaria a vasilha em lágrimas -  mas elas são fluidas e redentoras, anunciadoras de uma profunda paz que virá quando sair a angústia. Não. Desta vez, há só a revolta profunda de um animal enjaulado nos confins da própria mente, de uma alma essencialmente livre que sabe que nunca encontrará expressão fora deste quarto; e que mesmo na tão limitada forma das palavras e da interação humana, ainda é mais presa e acorrentada por questões simplesmente estúpidas... 

Sem mais rodeios, sinto-me revoltada porque tudo o que eu quiser expressar será visto, ouvido e relacionado ao corpo de uma menina - ou, pior ainda, ao corpo de uma mulher.

Nasci e cresci gostando do meu corpo - das sensações riquíssimas das experiências sensoriais, de poder expressar fisicamente o que sinto e penso, do simples estar e existir nesse mundo, do repouso do sono que me presenteia com sonhos... 

Mas uma das descobertas mais dolorosas que fiz em minha vida é que o formato do meu corpo, a configuração da minha voz e a interpretação de meus gestos vêm carregados de uma carga semântica pesada e opressora, que rouba de minha mente e a expressão de minha individualidade qualquer relevância para marcar justamente aquilo que deveria ser um detalhe...

Em uma sociedade de papéis sociais que se subvertem e ressignificam através de muito sofrimento daquelas que viveram e vivem essa vontade de ser sujeito, chego à beira da loucura ao saber que a minha individualidade, as minhas ideias, a minha mente, o meu ser - tudo isso pode ser sumariamente desconsiderado e mitigado em um segundo. 

O pior de tudo é que isso é feito inclusive por aquelas e aqueles que eram vistos como companheiros, confidentes e aliados na garantia de que todos os seres humanos sejam, justamente, vistos como tal. 

Sim, porque se reservasse uma revolta tão grande para cada vez que minha subjetividade é ferida por um idiota (ou uma idiota) que me objetifica, não poderia viver nesse mundo. Talvez a raiva seja mesclada com uma profunda decepção.

Hoje é daqueles dias que acordo querendo reagir, colocar o dedo na cara de quem for e gritar até não ter mais garganta, ou silenciosamente retirar a dignidade de cada um até que fiquem vulneráveis e objetificados, até que sintam, por um segundo, o peso do julgamento que recai sobre a cabeça de quem ousa desviar dos padrões da normalidade e quer ser também uma pessoa - mas sei que isso é ridículo.

No final das contas, não consigo sentir raiva das pessoas - porque isso significaria odiar a humanidade por inteiro, e meu egoísmo que é amar e ter carinho por cada uma delas me impede sequer de querer machucar alguém. 

Seria fácil também culpar um grande Sistema sem rosto, mas sei que se há um sistema, dele sou agente e vítima, assim como cada rosto que me é familiar e querido também está lá, seja indo com a corrente, seja lutando mentalmente contra uma coisa abstrata, quando por vezes, na concretude da experiência, giram as engrenagens de esmagar almas...

No final das contas, a raiva se explode sozinha, seja em lágrimas ou em linhas confusas escritas -como agora - mas volto para o meu mundo de sonhos com cada vez mais certeza de que o que mais há de errado é a possibilidade de percepção de injustiças tão aviltantes por seres tão frágeis que só podem seguir o caminho das engrenagens ou em seus dentes padecerem - inclusive pelas mãos de quem se propunha a um enfrentamento conjunto. 

Então só sei terminar isso que comecei agora com minha parte favorita do livro do desassossego, com uma pétala de rosa seca marcando a página:

A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.
Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.
Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.
Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.  

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Fundo do Baú (2) Dos sentimentos de ontem e hoje

Trilha sonora sugerida:



Eis que fiquei um tempão sem escrever - com muita vontade, muitos planos, e talvez até vida demais para conseguir sentar, escrever e terminar alguma coisa. Mas preciso parar. Começar a escrever com mais constância, principalmente agora que passei por tantas tempestades (estaria passando, ainda?) 

O fato é que com tudo isso uma daquelas temáticas espinhosas e profundamente pessoais - ou, talvez para nosso medo, terrivelmente gerais - afloram: os bons e velhos sentimentos.

Emocionar-se, sentir - aquela entidade tão delicada suspensa entre nossas funções mentais "frias" e impulsos biológicos, entre o corpo e o espírito, entre a consciência e os terrores de nossos pesadelos...

Com os meus sentimentos, me relaciono e forma estranha, como todo ser humano condicionado pela convivência em sociedade. É conveniente que se sinta as coisas corretas nos momentos corretos - mas sempre sem excessos. Sentimento pasteurizado, domável, e, de preferência, que não atrapalhe a funcionalidade. Socialmente, precisaríamos apenas sentir uma alegria elétrica - diante do entreternimento relacionado ao consumo -  contraposta apenas por um choque ou horror solene - diante das desgraças nossas de cada dia, devidamente distanciadas por trás de uma tela de televisão.

Para além disso, que mais podemos sentir (e demonstrar!) sem recair na inconveniência social?

Sei que hoje tenho uma resposta completamente diferente da de outrora. Choro bastante, caio em todos os abismos emocionais existentes e imaginados, me deixo ficar triste sem razão... Mas percebo que estou cada vez mais resistente às coisas que acontecem em minha vida. Ironicamente, acabam sendo justamente os sentimentos extremos e os momentos de "falta de funcionalidade" que me mantém uma pessoa equilibrada, que se move com as marés ao invés de quebrar e afundar...

Talvez seja por isso que é tão interessante olhar para trás e ver tudo o que já pensei e senti - justamente sobre sentimentos.

O quanto disso será que ainda resta em mim?

Essa é de novembro de 2008, quando estava prestes a me mudar para Brasília:

"Não é todo o sentimento do mundo"


Existem pessoas que choram em despedidas, que sorriem e abraçam todos o tempo todo, que sabem ser simpáticas e sociáveis, que gritam de susto, alegria ou surpresa, que pulam e dançam,mostram pena e compaixão, cobrem de elogios e sabem dizer exatamente o que estão sentindo para o mundo inteiro...


Mas existem também, neste vasto mundo, alguns que não se comovem com nada, dão de ombros diantes da solidão e das despedidas, mal sorriem sem um tiquinho de amargura e se mantém desconfiados de todos que se aproximam um pouco mais. São pessoas que vêem até as situações mais cruéis ou com potencial para magoar com um olhar clínico e tem como esporte falar para si mesmo as verdades mais inconvenientes, e talvez até deixá-las escapar para os outros. São pessoas sem grandes manifestações de alegria ou até mesmo de tristeza, de raiva contida, assim como gestos e a expressão de quase toda a emoção... São pessoas frias.
Me encaixo na segunda categoria.


Já fui chamada, direta ou indiretamente, de uma pessoa fria (criatura perversa que brinca com as emoções de pessoas só porque acha interessante entra na categoria de direto ou indireto?) E não é com autopiedade que digo isso: é quase com um certo orgulho estóico. Diante do que é negativo, a duras penas, consego me controlar relativamente bem: Domino a técnica de não chorar depois de terminar um relacionamento de mais de um ano, a incrível habilidade de sorrir diante das grandes decepções, maquiar uma quase-depressão por "é só cansaço, vou dormir mais cedo" e uma autocrítica dura que não permite que coisinhas bobas como emoções interfiram no relacionamento com os outros.


Quando confrontada com grandes sentimentos positivos, porém, o velho mecanismo também funciona: ser elogiada, quando acontece, provoca uma reação desconfiada e quase hostil, e o fantasma do risco de começar a ser sentimental também me faz calar alguns verdadeiros e bem-merecidos elogios que poderia fazer a pessoas que admiro. Talvez ser extremamente dura comigo mesmo me faça, inconscientemente, ser dura e crítica com o resto do mundo também - Mas não se preocupe, resto do mundo, não hei de submetê-lo à mesma ditadura a qual me submeto.






Me torno assim uma pedra, um ser blindado para o bem e para o mal, refletido nos olhos frios que parecem estar olhando para dentro ao invés de para fora...


Mas eis um segredo, que muitos ignoram: Não sou fria por não ter sentimentos. Sou fria justamente por sentir de mais.


Parece contraditório, não é? A questão é que sentir e mostrar sentimentos é uma coisa muito diferente...


Começando o mais próximo possível de uma análise histórica, sendo que minha história não excede nem mesmo duas décadas de existência, é que se percebe a natureza da minha frieza. Eis que houve um dia uma menininha exuberante e extremamente afetiva, que tecia comentários sobre tudo e todos e não tinha tanto medo de falar com adultos... Mas ela tinha uma falha fatal e imperdoável: era sensível.


Na infância, fora os barulhos altos, boladas e briguinhas que a faziam chorar, tinha um ambiente em que podia afundar-se nos livros e viver no mundo da fantasia, voltando à realidade ocasionalmente para um jogo ou outro...


Mas quando a adolescência e suas melancolias chegaram, as coisas começaram a mudar. Começou a acordar dos sonhos de infância e entrar no mundo de dissimulação, manipulação e hierarquia social que já se delineava desde o maternal, mas só definia seus contornos mais finos agora.


Foi então que ocorreu a segunda "falha trágica" da história: ao invés de se posicionar seguramente atrás de um grupinho, onde os sentimentos expostos e compartilhados seriam parte de um pequeno tesouro comunal que somente se dissolveria junto com as amizades e relativamente protegidos, ela escolheu ( ou foi empurrada para, a depender da interpretação) um caminho alternativo, de mais livros e menos pessoas


E com isso, inevitavelmente, vieram os ataques.


De olhares de desdém até difamação, se todos os sentimentos estivessem assim explícitos, metade do tempo se passaria em uma depressão patética - aliás, em alguns momentos, não esteve muito longe disso.


Mostrar as emoções significaria não só conceder vitória a quem queria atormentar, mas também abrir minha vulnerabilidade para o mundo inteiro, e até mesmo suscitar pena.


E pena é a última coisa que eu quero que sintam de mim. Podem chamar de orgulho, arrogância ou até mesmo de vaidade, mas assim como eu só sinto pena de meus piores inimigos, não desejo que sintam pena de mim de forma alguma.


Então, depois de chorar no começo, se deprimir um pouco, fui progressivamente endurecendo. Cada decepção com supostas amizades reforçava isso, ao ponto em que estar me sentindo perfeitamente bem sozinha se torna a regra, e não a exceção. Pessoas com as quais eu possa me identificar são vistas com olhos críticos e desconfiados - mesmo que sob um aparente sorriso, a mente aprendeu a trabalhar da forma mais calculista possível.


Mas por que fazer isso? Por que não só esconder, mas suprimir os sentimentos, forçar uma mentalidade quase de máquina até mesmo em relacionamentos afetivos? É por orgulho? Por defesa?


É simplesmente pelo excesso de sensibilidade.


Não mostrar sentimentos não significa que eles não existem - eles existem, e em tamanha força que só com uma rígida disciplina pode-se mantê-los em ordem. Chorar apenas à noite, quando todos estão dormindo, descarregar tudo em música, poesia, escapar por algumas horas no mundo da ficção...
Porque as pessoas não merecem ouvir tudo o que sinto: é tedioso até para mim, seria para elas também, não?


Para algumas pessoas, não é.


(Ainda) não sou hermeticamente fechada, e de vez em nunca, algumas pouquíssimas e seletas pessoas vêem o que de fato está acontecendo - alguns porque enxergam o que há por trás de todo o sarcasmo, outros porque me conhecem melhor do que eu poderia sonhar em me conhecer - e, o mais incrível de tudo, não saem correndo diante de alguém que se revela ser tão temperamental.


Meus sentimentos não são o meu "tesouro" que eu só deixo alguns poucos verem - é na verdade a poeira embaixo do tapete da qual algumas visitas tomam conhecimento sem, porém, me criticar por isso - e assim caminha a humanidade.


Minha definição de ser fria não é a de não ter sentimentos - é simplesmente escondê-los a sete chaves e só realmente compartilhá-los com quem vale a pena.







segunda-feira, 25 de julho de 2011

Essa saudade bandida...


Amor e saudade... Desde aqueles momentos de DR mais tensos, até as conversas mais descontraídas acompanhadas de uma(s) cerveja(s), é um assunto praticamente impossível de se evitar em uma conversa com um ser humano que tenha um mínimo de sentimentos.

Interessante é ver o que o titio Derrida teve a dizer no assunto - depois de dizer da impossibilidade de responder a pergunta e zoar um pouquinho a entrevistadora, ele coloca um ponto interessante - o do amar "alguém", ao invés de amar "algo em alguém" - ou seja, do famoso amor incondicional...

Poderia seguir com algo profundo ou filosófico, mas o que me motivou foi tão prosaico...

O fato é que uma percepção mais clara de como é experimentar esse amor são as coisas estúpidas que nos dão saudades.

Eis que nesse tempo de férias, às vezes a família, namorado ou amigas e amigos ficam longe, e lá vem aquela saudade traiçoeira, que ataca quando menos esperamos. Algumas vezes em uma música que toca em um café, ou um objeto que lembra algum tempo, ou algum filme que todos iriam gostar - em geral lembranças de bons tempos, justamente das coisas que, a princípio, podem ser um fator de aproximação entre as pessoas...

Mas quando a saudade bate naqueles momentos que trazem lembranças de coisas irritantes ou desagradáveis , o que pensar?

Já me disseram que o tempo faz com que as memórias ruins sejam apagadas ou atenuadas, mas eu penso que que quando você quase fica com os olhos molhados ao ouvir um funk que o seu irmão (que está viajando sozinho pela primeira vez) cantava com o exclusivo objetivo de irritar, aí imagino que não haja outra resposta: isso é, sim, amor incondicional.

domingo, 3 de julho de 2011

Do fundo do baú (1) - escrever!

Meu "eu" de 16 anos era um bichinho curioso, tão próxima e tão distante do que eu sou hoje... Era mais tímida, mais sofrida, querendo negar todos os meus sentimentos para sobreviver a um ambiente escolar hostil - mas ao mesmo tempo, com os germes das ideias que me movem ainda hoje, de muitas pedras basilares de meu pensamento...

Re-encontrei um caderno antigo em uma madrugada meio desesperada, quando precisava escrever e não encontrava um caderno vazio... Acabou que escrevi só um parágrafo, e passei boa parte da noite vendo as coisas que eu já tinha escrito, pensamentos e confissões, ideias ingênuas ou sombrias, que talvez tenham alguma interesse para cá. Entào, para aproveitar meu silêncio atual (não de temas, mas de tempo e disposição para escrever), aqui vai um deles, sobre, justamente, escrever: 



Desde pequena, escrevia livros. Tinha meus planos de fazer histórias, ou até mesmo um quase-dicionários sem os significados (na época (tinha uns 6 anos de idade), meu plano era incentivar as pessoas a usarem os dicionários se ficassem curiosos com o significado das palavras)  Mas nunca cheguei a terminar. Comecei, então, uma fanfic em um caderno aos 10 anos - e eu nem sabia o que era fanfic! Desde que me lembro imagino histórias, com complicados enredos que vinham a mim à noite, que me entretinham antes de dormir.

Sempre fui muito ligada à ficção. A realidade sempre era um borrão, a tela onde meus sonhos eram tecidos, onde cada corredor cinzento da escola era uma avenida larga e cheia de possibilidades. Amigos imaginários, cavalos, dragões... Em algum momento, estiveram sempre comigo. Livros, filmes e fantasias eram tão reais quanto os cadernos em que escrevi mais tarde, e minha infância fluiu tranquila.

Foto minha (reconhecível pela caneca do Fantasma
da Ópera) 
Então veio a adolescência, mas meu mundo ainda estava lá. Fiz poesia, vivi paixões em sonhos e comecei a escrever realmente. Depois de uma tempestade na minha vida, traição e exílio, a coisa mais improvável me tirou da ficção: me apaixonei. Por um ano não toquei na caneta, apenas para escrever para ele, talvez... Não mais para mim. Mas passado este ano eles voltam... Não sonho mais com a realidade, mas meu mundo se povoa com novas histórias, para me anestesiar, talvez, de uma realidade que se fecha sobre mim.

Me sinto sozinha.

Em um humor muito "barroco", cheio de contradições. Meu mundo de ficção, escrita e criatividade voltou, mas ainda não mergulhei nele: não consigo escrever mais tanto. Preguiça? Medo de compromisso? Faço um agora: esse caderno terá de tudo - mais um dragão para meus pensamentos, desenhos, sonhos, poemas, rabiscos... 

Meu. Caderno.

Para tudo que eu precisar.


sábado, 18 de junho de 2011

Quem são estas vadias?

- SUA VADIAAAAAA!!!

O grito vem acompanhado de uma buzina. Estou vestindo calça jeans e uma camiseta larga, mas tudo o que meu gentil interlocutor deve ter visto através do vidro do carro é minha trança longa e meus olhos assustados. Mulher.

De tantas delicadezas que a infinita criatividade humana nos disponibiliza para utilizar em momentos de descontrole, “vadia” é uma das mais intrigantes. Para começar, está no imenso rol de palavras que possui um significado completamente diferente quando é usado no feminino ou no masculino – assim como governante e governanta, homem público e mulher pública, homem da vida e mulher da vida, pistoleiro e pistoleira... E por aí vai.

Vadio é aquele que, pelo dicionário, não tem residência ou ocupação certa, aquele que é ocioso – e, segundo nossa bela lei brasileira, é uma contravenção penal, para a qual aplica-se pena de 15 a 30 dias de reclusão. A lei não é muito aplicada – mas ela ainda não caiu no total desuso.

A razão de ser da punição deriva da ethos do trabalho e da utilidade social do mesmo – é vadio aquele que não trabalha mesmo tendo condições de fazê-lo, ou seja, que não cumpre o papel social que a ele é atribuído.

Foto tirada na Marcha das Vadias de Recife
Já o termo “vadia” – como quase todos os termos pejorativos usados para descrever mulheres – refere-se ao comportamento sexual da mulher, que expressa de sua sexualidade de forma diversa daquela aceita socialmente – seja a prostituição, seja ter mais de um parceiro sexual por vez, ou até assumir um comportamento dito “ousado” e “provocativo”. Não constam, nos textos legais, referências à palavra vadia, mas ela está muito viva nas regras sociais com efeito de acusação e de sentença: Sua vadia!

E aí está a ligação entre o vadio e a vadia – ambos são desviantes das expectativas sociais a eles tradicionalmente atribuídas – mas enquanto vadio é o homem que não é um provedor, vadia é a mulher que não está no espaço privado, cuidando de afazeres domésticos e da educação da prole, e que não expressa sua sexualidade apenas dentro do casamento.

Em última análise, a julgar pelos olhares e comentários raivosos recebidos por tantas mulheres nas mais diversas situações, todas nós somos essas vadias...


Somos vadias, como no exemplo que começou esse texto, quando precisamos nos locomover, seja a pé, de bicicleta, de carro ou usando o transporte público, e nossa mera presença torna-se um inconveniente para os demais ( porque quando um homem comete um erro, está destraído; já a mulher, é por ser mulher) 


Somos vadias quando desbravamos o espaço público, estudando e trabalhando, e somos julgadas não por nossa competência no trabalho, mas sim pela nossa aparência física e forma de vestir


Somos vadias quando somos culpadas pelos crimes pelas quais somos vítimas - "foi estuprada porque estava vestida assim, porque estava andando por onde não devia, porque ela estava pedindo..."


Somos vadias quando não adotamos um comportamento submisso diante das coisas que nos acontecem, seja respondendo a quem nos assedia na rua, seja argumentando com firmeza, sou apenas suavemente apontando as contradições dos discursos que se voltam contra nós...


Somos vadias, enfim, pelo simples fato de sermos mulheres e nos comportarmos como protagonistas de nossos corpos, nossas vidas e nossas histórias, sem conformar-se com um modelo arcaico e sem sentido do que deve ser e fazer uma mulher...


Daqui a pouco começa a marcha das vadias de Brasília - e adivinhem onde estarei?
.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma pequena viagem

Acordei mais cedo do que de costume, com medo de me atrasar para a apresentação de um trabalho, e consegui chegar meia hora antes na Universidade. De lá só saí brevemente para almoçar e para jantar ali por perto, e só fui voltar para casa mais de 12 horas depois...

Essas três linhas podem resumir meu dia fora das loucuras corriqueiras da Universidade - e a totalidade do assunto que quero abordar hoje - momentos de rotina, de trânsito, de estar "só de passagem" pelas tão conhecidas e exploradas paisagens entre uma atividade e outra...

...curiosamente, foram os momentos mais belos do meu dia.

Talvez fosse o sono pesado ainda nos meus olhos, ou estranho frio matinal que lentamente se esvanecia - mas quando olhei para o lago, havia uma neblina tão densa sobre ele que parecia estar em chamas. Era como se, cansado de apenas refletir as nuvens do céu, o lago tivesse decidido fazer suas próprias nuvens para enfeitar e recobrir seu azul, com aquela intensidade e furor de quem pega um brinquedo novo...

Chegando no prédio do Direito, o próprio ar parecia carregado de resquícios de nuvens-de-lago: o ar, frio e fresco, emprestava uma clareza quase difusa aos jardins, aumentado pelo silêncio que reinava no prédio ainda vazio... Havia algo de onírico naquela cena, seja pelo primeiro colorido do sol que se levantava, seja pelo fato de meus próprios olhos ainda relutarem em sair do campo dos sonhos...

O prédio, até então estranhamente quieto, foi lentamente enchendo-se de sons e cores dos alunos e professores que começavam a chegar, copinhos de café, bocejos e casacos coloridos, e o tempo, que vagava com a mesma lentidão das nuvens em terra, voltou a seu tempo normal - de aulas, conversas e seminários, do sol forte que dissipa o frio e as pretensões do lago de brincar de céu.

Quando peguei o carro para almoçar, passei novamente bem perto do lago - mas agora, com o impiedoso sol brasiliense a pino, não havia como se esconder por trás de subterfúgios o fato de ser apenas um lago -isto é, se "apenas" for uma palavra adequada para me colocar em um novo momento de torpor contemplativo - ou talvez me tirar do torpor da rotina para me fazer sentir incrivelmente viva - com sua "lagosidade pura".

A água era de um azul profundo, de fazer inveja ao céu clarinho, compensando a falta de um sol concentrado com milhares de reflexos dourados que oscilavam com as ondas. Novamente, os segundos em que passei na orla do lago estenderam-se por um tempo indeterminado - garanto que foram poucos os segundos, pelo fato de não ter espatifado meu carro em algum poste qualquer do caminho - me colocando assombrada feito criança diante de um mundo que esconde tantas coisas incríveis em alguns segundos de caminho.

Até aqui, nota-se um padrão claro: Luisa fica meio boba quando vê coisas bonitas - talvez principalmente quando esteja sofrendo de falta de sono crônica.  Mas não foi o Lago Paranoá minha única vítima de contemplação (e, vá lá, piração) do dia de hoje.

Afinal, para uma estudante do período noturno, há sempre a vivência da universidade à luz do luar...

E que luar lindo era esse hoje!

Confesso que foi uma beleza meio alarmante - a lua que eu vira há pouco como um fiozinho no céu estava tão cheia, e no meio de minhas correrias vi um calendário celeste que ria de meu despreparo, fazendo o tempo voar na medida em que a lua cresce e decresce, escondida de meus olhos cansados e ocupados...

E é com essa lua cheia, que me pegou e surpresa, que me despeço agora - com sono nos olhos, mas a alma embalada pelas mil pequenas belezas que tanto me assombram.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Gênero e Direito - como (não) lidamos com o assunto

Esse texto já foi postado no blog do PET-Direito da UnB, mas  coloco aqui tanto como "arquivo pessoal" quanto pra atestar que não, eu não morri, e continuo escrevendo... 

"Não se nasce mulher: torna-se” – Simone de Beauvoir
Silêncio na sala de aula. Uma turma do primeiro semestre de Direito trabalhava a noção de paradigmas através de debates de frases potencialmente polêmicas, mas aquelas poucas palavras escritas no quadro pareceram suscitar mais confusão do que posicionamentos antagônicos. Depois de alguma contextualização, perceberam todos que os argumentos vão à guerra por uma questão de gênero – a vida e o papel social de uma mulher são ditados por configurações biológicas, naturais, ou trata-se de uma construção social, obra humana passível de ser transformada?
Ok, isso é tecnicamente
uma valquíria, divindade da mitologia
viking,  mas dá pra pegar a ideia, né?
Como uma das integrantes do PET responsável pela aula em questão, sabia que não era hora de minha guerreira viking feminista interior sacar seu machado retórico e sair cortando cabeças e outros órgãos vitais – metaforicamente, por favor – mas sim de observar e no máximo mediar um embate entre as diferentes concepções que os alunos trouxessem. Esperava que, junto a posicionamentos embasados na autonomia e autodeterminação, viessem concepções essencialistas, naturalizadoras de desigualdades por considerações biológicas ou até mesmo religiosas para identificar alguma “essência feminina” que justificasse as desigualdades de tratamento que encontramos.
Para meu grande espanto, não foi o que aconteceu.
Mesmo que estivéssemos em um debate entre pessoas não especializadas em estudos de gênero ou biologia, seria de se esperar que, como em todos os outros argumentos considerados válidos dentro de uma universidade, houvesse alguma fundamentação dos argumentos usados, contra ou a favor. Não precisa ser um marco teórico estabelecido e reconhecido, mas sim uma mínima justificativa para um posicionamento! Entre a míríade de argumentos, vindos de várias fontes, mais ou menos explícitas, havia alguns, não menos fervorosos, cuja fundamentação pairava no éter:
Em minha concepção, “Essa frase é falsa porque homem é homem e mulher é mulher” não é justificativa o suficiente.
Quando ouvi este, bem, este dito argumento, precisei perguntar o que, exatamente, constituía um homem ou uma mulher. São os órgãos sexuais? É o formato do corpo? É um comportamento que é próprio, natural? Em algum momento os corroboradores dessa visão simplesmente recusavam-se a responder, não queriam falar “disso”, mas essa recusa não alterava o furor de sua defesa. Os fundamentos, então, ficam confortavelmente no limbo das verdades absolutas e irrefutáveis que sussurram os dogmas sociais não questionados. É uma recusa a confrontar, com os dedos gelados do discurso de pretensão racional (talvez até científica!), as cantigas de ninar que ouviam desde crianças (homem é homem, mulher é mulher, homem é homem, mulher é mulher…)
Não somos preparadas para falar de gênero. Ponto. Nem na família, nem Ensino Médio – o que naturalmente reflete na mentalidade de alguns e algumas ao chegarem na Universidade. Lidamos com os papéis sociais atribuídos a homens e mulheres e com questões relativas à sexualidade, sim – mas através da reprodução impensada de padrões que se auto-alimentam e geram uma dita verdade tautológica, inquestionável, mas cujos fundamentos e as bases simplesmente não conseguem chegar ao plano da reflexão, do pensamento consciente que não se resume à razão. Poderia continuar por horas sobre como fica impossível trabalhar o reconhecimento através da sensibilidade quando a alteridade fica negada por noções que não encontram justificativa alguma a não ser o “é desse jeito mesmo”, mas a recusa ao tratamento racional da questão, requisito para cientificidade nas concepções mais conservadoras de Universidade e de conhecimento, é extremamente alarmante.
É particularmente grave que uma discussão tão importante a respeito do mundo social que cercam as mulheres e os homens seja ignorada – que o digam as tantas mulheres que sofrem de violência em suas próprias casas, amordaçadas pelo peso de uma estrutura social que, mesmo em seus âmbitos de produção de conhecimento, por vezes não consegue abordar com seriedade as questões de gênero.
Cinco ou seis anos depois, estarão nossas calouras e calouros entrando na vida profissional, deixando de lado as lentes da Universidade para sentir na pele (ou, minimamente, nos autos) os conflitos que afligem a humanidade, entre elas, eventualmente, envolvendo essas questões tão delicadas. Enquanto muitas e muitos estarão, por sua própria vontade e esforço, preparados para navegar águas tão turbulentas, como reagirão aquelas e aqueles que terão apenas o referencial do que o curso de Direito lhes ofereceu a respeito de gênero?
Encontramo-nos em um momento privilegiado para este tipo de reflexão, com a reforma de nosso Projeto Político Pedagógico acontecendo – e, para além da necessidade de complementar a formação do jurista em outras áreas para lidar com a questão de gênero, precisamos nos perguntar o quanto o próprio Direito pode contribuir com este debate – e o quanto deixamos de explorar seu potencial reflexivo e emancipatório ao ignorá-lo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles


Percebi que tenho, entre os tantos humores que me tomam ao longo dos dias, dois temas principais que definem os feixes de sentimentos: o "pra fora"e o "pra dentro"- ou, como um amigo comparou, a supernova e o buraco negro.

A supernova é a fase expansiva, que quer sair de casa e conquistar o mundo. É a fase de ter conversas longas e francas, de ficar indignada e reagir às coisas do mundo, tomada por uma energia quase nervosa que me impele a procurar mundos, textos e pessoas, a tocar novas músicas e ouvir novas ideias, conhecer os universos que são as pessoas, de interagir intensamente com tudo à minha volta...

E tem o jeito que estou agora.

O buraco negro não é um estado de espírito infeliz ou mesmo melancólico - dessas classificações talvez eu fale um pouquinho mais tarde - ele é simplesmente... introspectivo.

É o tempo de querer ficar quietinha no meu quarto - ou mesmo quieta em meio a uma multidão, sentada em um banco no parque (ou, como é o caso agora, em uma carteira na sala de aula que se enche de alunos)... É o momento de contemplar, e não de agir. É o de ouvir velhas músicas e ver novos significados, de sentir com calma cada sensação e pensamento que passa pela minha cabeça, de interpretar textos e ler poesia, de ficar abraçada à família e àqueles mais próximos...

E por que, afinal, estou escrevendo isso?

Primeiro ( se alguém lesse isso aqui) poderia ser quase uma clarificação do porquê eu fico "na minha" por alguns tempos, que isso não é algum problema pessoal ou alguma tristeza, mas um estado de espírito que também tem as suas belezas...

A própria natureza do que escrevo aqui, na verdade, reflete esse estado na medida em que não consegue ser combativo - queria até escrever sobre a dificuldade de aceitação da introspeção, do olhar para dentro em face a um arranjo social que prega e privilegia a comunicação ( mesmo que restrita ao mundo virtual), enquanto a solidão de estar também "desconectado" é vista com certa desconfiança -( imagine só ficar o dia inteiro sem se comunicar, só que esse comunicar também pode pressupor uma solidão, contanto que ela seja relativizada por uma tela de computador...)

Enfim, essa tendência a descarrilhar o trem da frase talvez seja um desses sintomas. 

É um tempo de celebrar um tipo de solidão, não da incompreensão e náusea existencial, mas a da contemplação daquilo que é particular, de ver a lua e saber que ninguém mais vê tudo exatamente daquele jeito, exatamente com aquele humor ou com aquela música tocando sem parar na sua cabeça...

Tempo de redescobrir as sensações de nosso próprio corpo e mente, de como cada nota de uma música soa diferente quando estamos de olhos fechados... 

Talvez isso seja um corpo cansado forçando a mente a desligar do turbilhão de informações e interações para olhar e acalmar os turbilhões internos, e como eles são igualmente ricos!

Então estou aqui para ser um pouco sozinha, para falar com Ninguém.

Por hoje é isso...

domingo, 22 de maio de 2011

Salto alto: dor, controle e mobilidade.

Escrevo agora no meio de uma aula, com certo desconforto em meus pés - não, não estou sentada com um sapato de salto alto, e sim de meias e all star - em verdade, eu usei um sapato de salto alto domingo passado, e as tiras da sandália deixaram os meus dedos em carne viva - e as casquinhas de ferida ainda incomodam quando uso tênis fechados. 

Confesso que minha tolerância a sapatos desconfortáveis é baixíssima - passaria minha vida inteira usando havaianas, sapatilhas e tênis se eu pudesse. Assim, grande parte da justificativa para meus "padecimentos podológicos" poderia ser o fato de eu não estar nem um pouco acostumada a esse tipo de calçado, a mal aguentar em pé depois de um dia usando um salto, por menor que seja...

Então, é claro, o meu problema não é o fato da prática social de usar salto alto ser torturante - é só que eu não me adaptei direito ao sistema. Deve ser esse o preço que tenho que pagar por ter tido uma infância e adolescência de pés confortáveis - uma transição mais dolorosa para meus pés mimados.

É claro.

Mas não é exatamente do como o salto alto é torturante, doente e bizarro que eu queria comentar hoje- e sim de algumas consequências interessantes que esse uso tem em relação ao controle do corpo da mulher (e das meninas, se a gente for pensar no quão cedo elas começam a usar esse tipo de instrumento de tortura sapato.) 

Uma rápida pesquisa no google aponta para diversos links que brevemente sobre a história do salto, de origem desconhecida, mas que aflorava ao longo da história para denotar status social, de acordo com a altura que a pessoa alcançava, assim como à sexualidade - as prostitutas de Roma Antiga eram reconhecidas pelo seu salto. Outras bizarrices incluem sapatos tão altos que as mulheres precisvam de bengalas para andar neles, e o fato do imperador do Japão ter sido coroado usando uma plataforma de 30 cm, mas a informação mais interessante, no meu ponto de vista, é o fato de concubinas chinesas e as odaliscas serem obrigadas a usar salto para evitar fugas de seus respectivos haréns...

Então, usamos orgulhosamente nosso grande amigo salto alto: indicador de classe social, muito louvado por suas relações (simbólicas, e não causais) com a sexualidade e, no final das contas, um interessantíssimo instrumento de controle. 

Controle porque, equilibradas em nossos sapatos que diminuem nosso centro de massa, temos um equilíbrio reduzido. Em todas as artes marciais, uma das coisas mais importantes é manter a base - os pés firmemente plantados no chão, pernas separadas, por vezes o joelho levemente flexionado - e o que acontece quando precisamos apoiar todo o nosso peso ou no peito do pé, ou em um fiapinho fino que sustenta nosso calcanhar inteiro? Defender-se de qualquer pressão aplicada sobre nós - um empurrão, alguém puxando nosso braço - fica um tanto quanto mais difícil quando, a depender do salto, ficar em pé e andar exige muito treino e disciplina.

Controle porque nem começamos a falar da capacidade de andar e de correr, de expressar-se corporalmente de forma mais livre e exuberante - uma das coisas que mais me partiu o coração neste documentário a respeito da forma como a propaganda afetava as crianças é o fato de que meninas pequenas não brincavam no parquinho na hora do intervalo porque estavam usando salto alto... A energia da infância, por fim, encontra o limite de ser "uma mocinha" - existe forma mais eficiente de controlar uma criança do que colocá-la em uma situação que ela não possa correr, pular ou fazer bagunça? Mais efetivo (e, pelo que vejo, menos chocante) do que colocar uma coleira. Não, não imagino que os pais tenham exatamente isso em mente quando decidem comprar uma coisa dessas para uma criança - mas não é exatamente esse o efeito?

Já crescidas e devidamente domesticadas, os saltos vão aumentando, e com ele uma série de restrições - fora a questão do equilíbrio, o salto impede a mulher de dirigir - ou melhor, a lei proíbe - e restringe o quanto (e onde!) a mulher pode andar: já pensou precisar caminhar mais do que algumas quadras empoleirada em um negócio desses? Ou pior, precisar andar por um terreno sem calçada ( tão comum aqui em Brasília), ou com uma calçada tão irregular que torna-se quase um rally?

Aqui revela-se outro aspecto perverso do salto alto: sua "beleza"e o status social que seu uso traz só é realmente acessível a quem não precisa andar distâncias consideráveis ou enfrentar obstáculos no caminho (como, por exemplo, uma escada de ônibus), ou seja, quem possui um carro e, de preferência, tem alguma outra pessoa que possa dirigir por ela - novamente, nada de autonomia.

Andar de sapato de salto alto significa, enfim, um pé torturado, um corpo de equilíbrio vulnerável e uma autonomia e mobilidade comprometidas. Por que nos submetemos (por vezes diariamente) a isso, mesmo?

Ah sim, a beleza! 

Assim, depois de achar o calçado mais confortável que a beleza permita, que - pelo menos - não deixa dedos em carne viva, precisamos aguentar a dor até que nossos pés estejam deformados o suficiente para caber naquela posição o dia todo, lidar com calos e joanetes... Mas olha que elegante que a mulher fica!

Depois todo mundo acha absurdo quando mostram alguma "cultura exótica" em que as pessoas se submetem a rituais dolorosos e "sem sentido", ai esses bárbaros, esses malucos que fazem essas coisas estranhas (!) porque não conhecem nossa cultura, tão livre e digna...

...tudo porque alguém queria que as concubinas não escapassem do harém, então obrigaram-nas a usar sapatos que as impossibilitavam de correr para fora, para a liberdade... Sapatos que fragilizam o equilíbrio e restringem a mobilidade...

Mas aí vejo o tanto de coisas incríveis que mulheres conseguem fazer, mesmo com o salto alto, e o meu lado poético abre suas asas para ver as concubinas chinesas correndo com seus saltos, depois de tanto tempo de dor da adaptação: depois da dor e dos calos vem o domínio sobre nossos pequenos torturadores, não só pela conformação (não muito saudável) dos pés a essa nova situação, mas com uma mobilidade recuperada.

Afinal, estão as trabalhadoras "vestidas para a guerra" equilibradas em seus saltos, andando, correndo e desbravando o espaço público que outrora era dominado apenas pelos sapatos sociais "levemente desconfortáveis", com o passo firme; 

Temos dançarinas que têm um domínio tal sobre seu corpo que tornam os saltos extensão de si mesmas, realizando movimentos que fazem o meu tornozelo torcer só de olhar... Não é um sapato de salto que vai deter os avanços das mulheres - como tantos outros estimgas e obstáculos, eles são incorporados ao resto da carga, contornados e agora eles, domesticados pelas mulheres que, com ou sem dor, sabem muito bem onde pisam e onde querem pisar.

Por vezes fico pensando em como o sapato de salto é quase que uma metáfora para a entrada da mulher na esfera pública - aquela que, no seu caminhar encontra exigências externas esdrúxulas e injustificadas, ainda assim passa pela dor que os outros não precisam passar e, mesmo com uma fragilidade imposta pelo sistema social, consegue trilhar os mesmos caminhos que o resto, também podendo criar os seus próprios...
Ouve-se voltimeia aquela frase "Fazemos tudo que o homem faz, e ainda de salto alto!"

Mas meu questionamento, no final das contas, é o seguinte: imagine então tudo o que podemos com os pés firmemente plantados no chão!