Eis que, em uma aula, uma das questões a serem trabalhadas era um debate ( de argumentação, a princípio, jurídica!) a respeito da adoção de crianças por casais homoafetivos.
Quando chegamos naquele assunto espinhoso, tive até algumas surpresas positivas - discussões acaloradas, sim, mas com argumentos interessantes e razoáveis - mas acho que existe alguma lei divina que proíbe que haja alguma discussão que envolva gênero de qualquer forma sem que apareça alguma pérola fantástica...
Eis que um sujeito pede a palavra. Começa armando-se do máximo de argumentos de autoridade o possível: tem psicólogos na família, estuda isso, então ele sabe cientificamente do que está falando. Brandindo uma Ciência (com "c" maiúsculo e efeitos especiais de brilho divino atrás) como seu grande escudo argumentativo, teoricamente fundado em supostas práticas da psicologia (que, como todas as pessoas sabem, é uma ciência unívoca, sem nenhuma dissidência teórica ou apropriação para essa ou aquela finalidade política), começa a desfiar suas teses.
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| Essa era a minha cara. |
Enquanto isso, eu tentava ficar quieta, só anotando.
Começou com o básico de "a criança precisa de uma referência masculina e feminina para um desenvolvimento mental saudável" ( os dois conceitos obviamente muito bem definidos, que se aplicam necessariamente a pessoas que tem os aparelhos genitais correspondentes) - comecei a escrever, com grandes pontos de interrogação, sobre "argumentos cientificistas".
Depois, mais um clichê: "isso é anti-natural! Eles não se reproduzem assim!" E puxando uma ética Kantiana muito mal utilizada, argumentou que era impossível universalizar a homossexualidade - acabaria com a espécie humana! - e, por isso, seria eticamente incorreto. ( e a lei tem que proibi-los de adotar crianças porque...?)
E ia anotando, anotando, cada vez com a caneta mais forte e a letra aumentando...
Até que veio a pérola-mor: as causas da homossexualidade.
Segundo o douto indivíduo, elas eram três. A primeira, era genética. A segunda (e daí sua justificativa para a proibição da adoção) era a criação. Já a terceira... em suas palavras "é safadeza, mesmo."
Safadeza como causa da homossexualidade.
...
Não, eu não estou brincando.
Em uma sala de aula, em um curso de Direito de uma Universidade pública, no glorioso ano de 2011, precisei ouvir isso.
Obviamente, a turma não deixou barato.
Se as risadas profusas que seguiram a tão preciosa afirmação, uma estudante fez questão de esclarecer se era exatamente aquilo o que ele queria dizer. Para o riso geral, era sim: "tem gente que é homossexual por safadeza, mesmo."
Depois deste momento em que a aula se transfigurou em uma peça de teatro do absurdo, não havia nem mais como continuar, e, até pela hora avançada, as pessoas já se dispersaram e saíram da sala. A aula acabou, mas minha perplexidade continuava:
Safadeza?
Mil cenários passaram pela minha mente, um mais absurdo do que o outro.
"Nossa, hoje me sinto safada, vou mudar minha orientação sexual e me agarrar com minhas amigas...?"
"Oba, vou me submeter a discriminação e violência dentro da família, igreja e da sociedade em geral, porque estou me sentindo tão safada hoje..."
Mas havia uma situação mais curiosa ainda: se a safadeza é causa de homossexualidade, aí sim que a humanidade estaria à beira de sua extinção, se dependêssemos totalmente da reprodução natural. Oras, se toda vez que um casal heterossexual for fazer safadezas com funções reprodutivas, vão virar homossexuais? É o fim do sexo heterossexual, baby. E tudo por causa da safadeza!
Ok, preciso confessar: o melhor resultado desta cena curiosa foi eu ter uma piada interna enorme com vários de meus amigos e amigas...
Mas, mesmo assim, há um aspecto sério e perturbador nisso.
Basta lembrar que, até 1993, a homossexualidade constava na lista de doenças mentais da Organização Mundial de Saúde; que até hoje há clínicas de "tratamento" para a homossexualidade em que homens e mulheres são submetidos a tratamentos degradantes para "corrigir" este "desvio"; que comunidades religiosas condenam a homossexualidade como se fosse uma escolha, ou vista como ter demônios no corpo"
E, o pior de tudo - saber que, se essa mesma assertiva tivesse sido feita há alguns - poucos - anos atrás, muita gente acharia uma hipótese interessante e viável em uma discussão acadêmica.
Por trás dos risos diante de argumentos que historicamente se transformaram em ridículos, há o amargo gosto de saber o quão nova - e também o quão frágil - são esses desenvolvimentos em matéria de reconhecimento de seres humanos, como, er... seres humanos. Essa percepção de que explicações reducionistas e preconceituosas não são aceitáveis - muito menos sob o manto de uma ciência inquestionável - tem uma data e tem um espaço, infelizmente ainda reduzidos.
Diante do abismo do absurdo é que percebemos como ainda temos muito o que lutar...
PS: Sobre o mérito da adoção por casais homossexuais - e as preocupações com a criação das crianças - deixo falar a pessoa que é mais autorizada a falar do assunto: um filho de duas mães.




















