o blog do PET foi atualizado com uma postagem linda sobre a marcha das vadias de duas amigas;
tive algumas epifanias sobre minhas tão sofridas questões relacionadas à confiança, discurso e o desafio de trabalhar em grupo, além de tantas outras coisas, publicáveis e impublicáveis. Tantos outros pontos deste dia que levantaram milhões de questionamentos, epifanias e atenções, que mal sabia o que fazer - com a madrugada avançando, e meus pensamentos se aquietando, pensei até mesmo em ir dormir - até que uma notícia do facebook me virou de cabeça pra baixo o humor, antes pensativo:
Vão lançar o filme com o musical Les Miserables.
Já é lindo ver esse pedaço de minha infância sendo feito filme - e na grande empolgação que estou com os filmes agora, tratando do Luz & Sombra, o evento de cinema e Direito que o PET promove, as duas coias começaram a dançar em minha cabeça...
Como já mencionei em outras ocasiões, tenho uma relação bastante próxima com a música - essa aproximação com o intangível. A linguagem de um musical, embora possa causar um estranhamento por sua dita artificialidade - afinal, quem começa a cantar e dançar aleatoriamente na rua, pelo menos com uma coreografia pré-arranjada em que todos os transeuntes também participam? Confesso que o mundo seria muito mais divertido se assim fosse, mas não posso esperar aquele realismo intimista de uma câmera que se propõe não estar lá.
Mas aí que está a vantagem dos musicais: desprendidos de uma pretensão de mera imitação da realidade na dramatização, a música permite que fiquem claras dimensões que vão além do discurso, tanto pelas falas quanto pela linguagem visual - a personagem canta, expressa sua alma para além de palavras e gestos e luz, e o som causa efeitos de arrepiar.
Aqui, mesmo os temas mais indizíveis conseguem achar uma expressão que mil palavras não conseguiriam. Como exemplo, pego a música do "Despertar da Primavera", musical sobre adolescentes alemães no séc. XIX e a repressão que sua sexualidade sofria, em que uma menina relata o abuso sexual que sofre do pai. Como colocar em palavras algo tão terrível?
"Lá no fundo de mim, um escuro sem fim" - e a música preenchendo os espaços, nos agonizando também, nos aproximando de uma dor tão sentida que nos chega mais perto...
Para além do estranhamento da artificialidade, podemos ver além.
Comecei a pensar no Direito dentro dos musicais - talvez, mais especificamente, em como nós podemos trabalhar, a partir das filmagens que temos de alguns musicais, de pontos essenciais da reflexão que nos exigem uma aproximação ora sensível para revelar nuances, e ora jocosas para apontar absurdos.
Seguindo o exemplo das duas últimas edições do luz e sombra, preparei rapidamente uma lista com os musicais que seria mais interessantes para uma aproximação com tantos temas.
1. RENT.
Esse musical é tão rico em temas que não sei nem por onde começar (e nem qual tema escolher!). Ele conta a história de vários amigos que moram na Nova York dos anos 90, desde advogadas até artistas de rua, que partilham a vida "boêmia", a amizade e enfrentam questões que vão desde a questão da moradia (do pagar o aluguel, do protestar contra o despejo de moradores de rua de uma área), até lidar com o vírus do HIV, a dificuldade de relacionamentos, o preconceito de tantas formas... Ah, sim, e é uma adaptação moderna de La Bohéme, a famosa ópera.
Mas, no final das contas, a música que acaba tocando mais é bem mais simples, com uma única estrofe:
"Will I lose my dignity? (Eu vou perder minha dignidade?)
Will someone care? ( Alguém vai se importar?)
Will I wake tomorrow (Será que eu vou acordar amanhã)
From this nightmare? (Desse pesadelo?)"
A cena é a de um grupo de apoio de pessoas portadoras do vírus da HIV, em que Mark (o da câmera), participa como "observador", um artista querendo documentar - mas também se vê tocado pela situação, pelas palavras que também são suas angústias...
Literalmente, é um prato cheio. Podemos falar da questão do HIV, do preconceito sofrido, assim como também a posição de um observador - seja ele em nome da arte, da ciência ou do direito - que lá participa. Em momentos se questiona o que significa essa interferência - oras, quando Mark filma e denuncia e conta, é uma exploração da situação (como uma moradora de rua aponta para ele em um momento do filme).
Em cada música, uma reflexão, uma faceta nova, e personagens que nos chegam com uma proximidade e leveza em temas por vezes pesados...
2. HAIR
Esse é um clássico. Quem não conhece a Era de Aquário, os hippies e a guerra do vietnã sendo cantadas dessa forma tão cativante? Certo, é capaz que eu esteja um pouco geracionalmente deslocada para afirmar isso, mas as músicas pelo menos devem soar familiares, certo?
O filme de Milos Foreman, (que é diferente do musical), trata da história de um jovem do interior que vai se alistar para a guerra, e cruza caminhos com um grupo de hippies, com os quais passa várias experiências (também em nova York). As possibilidades de reflexão são enormes - sobre ativismo, sobre não-agressão, guerra, drogas, desobediência civil, liberdade...
3. THE WALL
Saíndo de Nova York para uma mente bastante perturbada como cenário, temos The Wall. O filme de Roger Waters, feito para o álbum homônimo do Pink Floyd, fala sobre o espírito de uma época, sobre a mente de um menino, sobre psicanálise, sobre críticas pesadas à uma época e uma forma de se conceber a sociedade... A cena mais famosa, obviamente, é o another brick in the wall (parte dois!)
Passamos também, em the wall, por nosso onipresente fascista interior, com as duas versões de "in the flesh", mas a parte que mais intriga e instiga é o julgamento:
No tribunal surrealista, tantas respostas são possíveis...
4. Chicago
Por fim, depois de tratar com seriedade (e até alguns toques de loucura e surrealismo) questões que provocam o direito a serem tocadas e exloradas, temos aqui uma grande paródia não dos conteúdos, mas da forma que o Direito assume (eu diria "assumiu", por tratar-se algo de uma época, mas ele não mudou tanto assim, eu diria...
"Era um assassinato, mas não era um crime." Em um misto de humor, raiva e orgulho, as mulheres explicam suas razões para assassinato, na dança (se a madrugada me permitir os trocadilhos) entre o direito e a moral.
A figura do advogado é outra coisa das mais interessantes nesse espetáculo (que ele já deixa claro desde o início).
O número de musicais que podem ser abordados não se esgota (ao contrário de minhas possíveis horas de sono). Mas fica,l depois de tanta empolgação, a pergunta: será que um projeto assim seria possível?
... ou será que o Direito ainda está sério demais para pessoas que cantam?


















