quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Hamster do Direito Musical (ostra - dia 6)

Hoje demorei para começar a escrever, porque estou me sentindo absolutamente elétrica. Depois da discussão do filme "O Segredo de Vera Drake" ( o que poderia trazer a tão espinhosa temática do aborto, sua relação ainda mais complicada com a religião e as inúmeras facetas e complexidades que esse debate pode trazer);
o blog do PET foi atualizado com uma postagem linda sobre a marcha das vadias de duas amigas;
tive algumas epifanias sobre minhas tão sofridas questões relacionadas à confiança, discurso e o desafio de trabalhar em grupo, além de tantas outras coisas, publicáveis e impublicáveis. Tantos outros pontos deste dia que levantaram milhões de questionamentos, epifanias e atenções,  que mal sabia o que fazer - com a madrugada avançando, e meus pensamentos se aquietando, pensei até mesmo em ir dormir  - até que uma notícia do facebook me virou de cabeça pra baixo o humor, antes pensativo:

Vão lançar o filme com o musical Les Miserables.

Já é lindo ver esse pedaço de minha infância sendo feito filme - e na grande empolgação que estou com os filmes agora, tratando do Luz & Sombra, o evento de cinema e Direito que o PET promove, as duas coias começaram a dançar em minha cabeça...

Como já mencionei em outras ocasiões, tenho uma relação bastante próxima com a música - essa aproximação com o intangível. A linguagem de um musical, embora possa causar um estranhamento por sua dita artificialidade - afinal, quem começa a cantar e dançar aleatoriamente na rua, pelo menos com uma coreografia pré-arranjada em que todos os transeuntes também participam? Confesso que o mundo seria muito mais divertido se assim fosse, mas não posso esperar aquele realismo intimista de uma câmera que se propõe não estar lá.

Mas aí que está a vantagem dos musicais: desprendidos de uma pretensão de mera imitação da realidade na dramatização, a música permite que fiquem claras dimensões que vão além do discurso, tanto pelas falas quanto pela linguagem visual - a personagem canta, expressa sua alma para além de palavras e gestos e luz, e o som causa efeitos de arrepiar.

Aqui, mesmo os temas mais indizíveis conseguem achar uma expressão que mil palavras não conseguiriam. Como exemplo, pego a música do "Despertar da Primavera", musical sobre adolescentes alemães no séc. XIX e a repressão que sua sexualidade sofria, em que uma menina relata o abuso sexual que sofre do pai. Como colocar em palavras algo tão terrível?


"Lá no fundo de mim, um escuro sem fim" - e a música preenchendo os espaços, nos agonizando também, nos aproximando de uma dor tão sentida que nos chega mais perto...

Para além do estranhamento da artificialidade, podemos ver além.

Comecei a pensar no Direito dentro dos musicais - talvez, mais especificamente, em como nós podemos trabalhar, a partir das filmagens que temos de alguns musicais, de pontos essenciais da reflexão que nos exigem uma aproximação ora sensível para revelar nuances, e ora jocosas para apontar absurdos.

Seguindo o exemplo das duas últimas edições do luz e sombra, preparei rapidamente uma lista com os musicais que seria mais interessantes para uma aproximação com tantos temas.


1. RENT.

Esse musical é tão rico em temas que não sei nem por onde começar (e nem qual tema escolher!). Ele conta a história de vários amigos que moram na Nova York dos anos 90, desde advogadas até artistas de rua, que partilham a vida "boêmia", a amizade e enfrentam questões que vão desde a questão da moradia (do pagar o aluguel, do protestar contra o despejo de moradores de rua de uma área), até lidar com o vírus do HIV, a dificuldade de relacionamentos, o preconceito de tantas formas... Ah, sim, e é uma adaptação moderna de La Bohéme, a famosa ópera.

Destaque para a primeira música, que trata um tanto dos contrastes e absurdos da época, uma música mais extrovertida, de protesto e apresentação...

Mas, no final das contas, a música que acaba tocando mais é bem mais simples, com uma única estrofe:


"Will I lose my dignity? (Eu vou perder minha dignidade?)
Will someone care? ( Alguém vai se importar?)
Will I wake tomorrow (Será que eu vou acordar amanhã)
From this nightmare? (Desse pesadelo?)"

A cena é a de um grupo de apoio de pessoas portadoras do vírus da HIV, em que Mark (o da câmera), participa como "observador", um artista querendo documentar - mas também se vê tocado pela situação, pelas palavras que também são suas angústias...

Literalmente, é um prato cheio. Podemos falar da questão do HIV, do preconceito sofrido, assim como também a posição de um observador - seja ele em nome da arte, da ciência ou do direito - que lá participa. Em momentos se questiona o que significa essa interferência - oras, quando Mark filma e denuncia e conta, é uma exploração da situação (como uma moradora de rua aponta para ele em um momento do filme).

Em cada música, uma reflexão, uma faceta nova, e personagens que nos chegam com uma proximidade e leveza em temas por vezes pesados...


2. HAIR

Esse é um clássico. Quem não conhece a Era de Aquário, os hippies e a guerra do vietnã sendo cantadas dessa forma tão cativante? Certo, é capaz que eu esteja um pouco geracionalmente deslocada para afirmar isso, mas as músicas pelo menos devem soar familiares, certo?

O filme de Milos Foreman, (que é diferente do musical), trata da história de um jovem do interior que vai se alistar para a guerra, e cruza caminhos com um grupo de hippies, com os quais passa várias experiências (também em nova York). As possibilidades de reflexão são enormes - sobre ativismo, sobre não-agressão, guerra, drogas, desobediência civil, liberdade...

Temas da época, que continuam tão atuais - marginalização, discriminação racial, e exclusão social não apenas pelo material, mas sim pelo esvaziamento dos significados, a retirada também da possibilidade da formação de identidades... Entre as listas do "ain't got no", não são só sapatos e casa, mas tantas coisas mais negadas...

Sem falar no verdadeiro hino que é o "let the sunshine in", com a guerra e sua total falta de sentido... Como falar isso sem a música?



3. THE WALL

Saíndo de Nova York para uma mente bastante perturbada como cenário, temos The Wall. O filme  de Roger Waters, feito para o álbum homônimo do Pink Floyd, fala sobre o espírito de uma época, sobre a mente de um menino, sobre psicanálise, sobre críticas pesadas à uma época e uma forma de se conceber a sociedade... A cena mais famosa, obviamente, é o another brick in the wall (parte dois!)

A crítica à educação ao que Paulo Freire chama de "sistema bancário" de educação não poderia estar mais claramente colocada: a uniformização, a falta de sentido, o medo... e o moedor de carne humana no grande sonho de homogeneidade.

Passamos também, em the wall, por nosso onipresente fascista interior, com as duas versões de "in the flesh", mas a parte que mais intriga e instiga é o julgamento:

É como se Kafka tivesse tomado LSD, para resumir. Não um julgamento por lei, mas um julgamento pela mente, pelos grandes julgadores da consciência. Ah, sim, temos muita psicanálise aqui, o juíz-verme que condena o menino insano por não ter passado pelo moedor de carne educacional que a todos transforma em vermes. A mãe e a esposa - a mãe castradora e o mito da vagina dentada em pessoa - também na condenação, e ao final, aquela parede é derrubada. Aquela prisão, mas também segurança. É a barreira mental? É a separação entre civilização e barbárie? É a barreira contra a loucura de um homem, ou a loucura de uma sociedade? Quem é julgado, e quem é juiz?

No tribunal surrealista, tantas respostas são possíveis...


4. Chicago

Por fim, depois de tratar com seriedade (e até alguns toques de loucura e surrealismo) questões que provocam o direito a serem tocadas e exloradas, temos aqui uma grande paródia não dos conteúdos, mas da forma que o Direito assume (eu diria "assumiu", por tratar-se algo de uma época, mas ele não mudou tanto assim, eu diria...

É a explicitação da grande sociedade do espetáculo quando se volta para o Direito.

"Era um assassinato, mas não era um crime." Em um misto de humor, raiva e orgulho, as mulheres explicam suas razões para assassinato, na dança (se a madrugada me permitir os trocadilhos) entre o direito e a moral.

A figura do advogado é outra coisa das mais interessantes nesse espetáculo (que ele já deixa claro desde o início).

Razzle dazzle - nem sei bem como traduzir, mas enquanto no júri americano o que impressiona são as explosões emotivas, talvez não tenhamos o nosso glamour hermético-juridiquês para fazermos nossos números não-musicais em cortes e, principalmente, perante a sociedade?


O número de musicais que podem ser abordados não se esgota (ao contrário de minhas possíveis horas de sono). Mas fica,l depois de tanta empolgação, a pergunta: será que um projeto assim seria possível?

... ou será que o Direito ainda está sério demais para pessoas que cantam?

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Desafio da Ostra 5 + Fundo do Baú - Minha auto-ajuda

Muitas ideias, muito cansaço, pouco tempo - e um texto a ser escrito.  Um dia cheio de atividades, de coisas feitas, lidas, de participações - mas ao final do dia, o tempo de reflexão se esvai no sono, e na perspectiva de mais um dia ocupado amanhã.... Mas, se não tenho nem forças para escrever, vou buscar nos meus textos antigos...

E um dos mais fortes deles aflora.

Seu título é "minha auto-ajuda",  escrito em um caderno antigo em garranchos de uma menina de ensino médio, que eu achei que já estava muito longe de mim - mas, relendo algumas coisas, percebo que há ainda algo de pulsante, algo de muito próximo...


Eis então as angústias de 4 anos atrás...

Minha Auto-Ajuda



Preciso voltar a escrever, e não é por vaidade.
Não é para deixar a minha marca no mundo,
Nem para extravasar minha criatividade.
Não é para me distrair no tédio,
Nem para que os outros leiam.

Escrevo unicamente para mim.
Para minha sanidade mental.

Porque meu interior se inunda de emoções que nã oposso demonstrar.
Porque o exterior é tão hostil que a tempestade interior é minha única alternativa de refúgio.
Porque a depressão está do outro lado, me chamando, e a apatia da auto-piedade parece tão confortável...
Porque as veias do meu braço pulsam tão azuis e frias, quando eu quero sentir quente e vermelho.
Porque quero ser uma rocha, quando tudo o que tenho é um coração de manteiga e uma casca de fel...
Porque minha garganta dói de engolir sapos, abacaxis, meu orgulho e tantas lágrimas...
Porque me sinto acuada por bolhas de mundo cor-de-rosa, com suas risadinhas que me reviram o estômago, que escondem a inveja e crueldade...
Porque, se eu falo alto, todos dizem que não está acontecendo nada.

Assim esparramo minha vulnerabilidade no papel
Domando a tempestade com palavras
Mãos escoando o que me arranha a garganta
Me acalmo, vou lamber minhas feridas
Aguentar as pedras e mais um dia
Sem quebrar, mesmo com tantas rachaduras

Para quando me levantar,
Quando a cobra tiver de volta seu veneno
Erguer escudos com casquinhas de feridas
Transformar cada ferida em uma lição
A antiga tristeza, em desprezo,
Pensar em todo esse processo como uma banalidade corriqueira
E sorrir.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Esta é a língua do opressor - mas preciso dela para falar com você.


"this is the oppressor's language
yet I need it to talk to you"

As palavras da poesia de Adrienne Rich, "The Burning of Paper Instead of Children impressionaram profundamente a ativista feminista e do movimento negro bell books (intencionalmente sem letras maiúsculas). Em eu belíssimo artigo sobre o lugar da linguagem nas relações de poder, em especial no tocante à raça, ela nos leva a pensar como a língua inglesa, para além da violência da imposição de um colonizador que quer aniquilar os prévios modos de vida das pessoas escravizadas, pode se transformar em um instrumento de luta política. Com o perdão do trecho longuíssimo, mas é bonito demais para coloca só um parágrafo: 

Refletindo sobre as palavras de Adrienne Rich, eu sei que não é a língua inglesa que me fere, mas o que os opressores fazem com ela, como eles a moldam para se tornar um território que limita e define, como eles fazem dela uma arma que pode envergonhar, humilhar, colonizar. (...) Nós temos tão pouco conhecimento de como as pessoas africanas deslocadas, escravizadas ou livres, que vieram ou foram trazidas contra sua vontade para os Estados Unidos, se sentiram a respeito da perda da língua, a respeito de aprender o inglês. Somente como mulher adulta comecei a pensar sobre essas pessoas negras com relação à língua, pensar sobre seu trauma de serem forçadas a testemunhar sua língua se tornar sem sentido na cultura européia colonizadora, onde vozes julgadas estrangeiras não poderiam ser faladas, eram línguas fora da lei, fala renegada. Quando me dei conta de quanto tempo tinha levado para os americanos brancos reconhecerem as diferentes línguas dos americanos nativos, aceitarem que a fala que seus ancestrais colonizadores declararam ser meramente grunhidos ou cuinchos era de fato língua, é difícil não ouvir sempre no inglês padrão o som de massacre e conquista. Eu penso agora no pesar de africanos deslocados "sem casa", forçados a habitarem um mundo onde eles viam pessoas como eles mesmos, sob a mesma pele, a mesma condição, mas que não tinham uma língua compartilhada para falar um com o outro, que precisaram da "língua do opressor". "Esta é a língua do opressor, no entanto eu preciso dela para falar com você". Quando imagino o terror de africanos a bordo de navios negreiros, em conjunto para leilões, habitando a desconhecida arquitetura das plantações, eu considero que esse terror se estende além do medo da punição, que isso consiste também na angústia de ouvir uma língua que eles não poderiam compreender. O genuíno som do inglês tinha de apavorar. Eu penso nas pessoas negras se encontrando num espaço longe das culturas e línguas diversas que as distinguiam umas das outras, forçadas pelas circunstâncias a encontrar maneiras para falar umas com as outras em um "novo mundo" onde a negritude ou a escuridão da pele, e não a língua, poderia tornar-se o espaço de ligação. De que modo recordar, evocar esse terror... De que modo descrever o que deve ter sido para os africanos, cujas ligações mais profundas foram forjadas historicamente no espaço da fala compartilhada, serem transportados abruptamente para um mundo onde o verdadeiro som da língua materna não tinha sentido...


Eu os imagino ouvindo inglês falado como a língua do opressor, no entanto eu os imagino também se dando conta de que essa língua precisaria ser possuída, tomada, reivindicada como um espaço de resistência. Imagino que o momento em que eles perceberam que a língua do opressor, tomada e falada pelas bocas dos colonizados, poderia ser um espaço de ligação foi uma intensa alegria. Nessa percepção estava a compreensão de que a intimidade poderia ser restaurada, de que uma cultura de resistência poderia ser formada de tal maneira que tornaria possível a recuperação do trauma da escravidão. Imagino, então, as pessoas africanas ouvindo pela primeira vez o inglês como "a língua do opressor" e então re-ouvindo-a como um local potencial de resistência. Aprender inglês, aprender a falar a língua estranha, era uma maneira de os escravos africanos começarem a recuperar seu poder pessoal dentro de um contexto de dominação. Possuindo a língua compartilhada, povos negros poderiam encontrar de novo uma maneira de fazer comunidade, e um sentido para criar a solidariedade política necessária para resistir.


Necessitando da língua do opressor para falar uns com os outros, eles não obstante também reinventavam, refaziam essa língua de tal modo que ela falaria além das fronteiras da conquista e da dominação. Nas bocas de africanos negros no chamado "Novo Mundo", o inglês foi alterado, transformado, e tornou-se uma fala diferente. O povo negro escravizado pegou pedaços partidos do inglês e fez deles uma contralíngua. Eles colocaram junto suas palavras de tal maneira que o colonizador tivesse de repensar o significado da língua inglesa. Ainda que se tenha tornado comum na cultura contemporânea falar sobre as mensagens de resistência que emergiram na música criada por escravos, particularmente o spiritual, pouco foi dito sobre a construção gramatical das sentenças nessas músicas. Freqüentemente, o inglês usado nas músicas refletia o mundo destruído, rompido do escravo. Quando os escravos cantavam "nenhum corpo conhece o problema que eu vejo", seu uso da expressão "nenhum corpo"(nobody) adicionava um significado mais rico do que se eles tivessem usado a expressão "ninguém"(no one), porque era o corpo do escravo que era o local concreto de sofrimento. E ao mesmo tempo que o povo negro liberto cantava o spiritual, eles não mudavam a língua, a estrutura da sentença, de nossos ancestrais. Para cada uso incorreto de palavras, para cada colocação incorreta das palavras, era um espírito de rebelião que reivindicava a língua como um local de resistência. Usar o inglês de uma maneira que rompeu o uso e o significado padrões, de tal modo que o povo branco poderia freqüentemente não entender a fala negra, fez do inglês muito mais do que a língua do opressor.




A riqueza desse trecho é inesgotável - poderia falar da grande polêmica da linguagem inclusiva, poderia falar da violência quando usada pelas pessoas oprimidas como arma de reação, em geral, poderia falar da colonização e da produção acadêmica ainda colonizada que é a nossa... Mas hoje, falo de cinema.



Uma das atividades do PET que mais me encantam é o Luz & Sombra, que hoje começa sua segunda edição em um novo formato: ao invés de uma sala de aula no horário do almoço, no Museu da República à noite, com os debates igualmente acalorados e interessantes com convidadas e convidados, mas agora com microfones e água em jarra de vidro. 

O filme de hoje, que me lembrou a assombrosa frase do poema, foi "Mississipi em Chamas", de Alan Parker, que fala sobre o caso verídico em que o FBI investigava o desaparecimento de três ativistas de direitos civis em 1964, e acaba entrando em confronto com a Ku Klux Klan local. Os ativistas - dois garotos brancos, e um negro - estavam em uma cidadezinha no Mississipi ensinando à comunidade negra os procedimentos para que eles pudessem votar, quando desapareceram. O FBI foi chamado para investigar o caso, mas isso se mostra uma tarefa extremamente difícil - tanto pela conivência e acobertamento das autoridades do Estado (que eram favoráveis à segregação e tinham vários de seus membros envolvidos na KKK), quanto pelo verdadeiro terror imposto à população negra que, caso alguém testemunhasse, poderia contar com violentos ataques à sua dignidade, propriedade e, principalmente, dignidade e vida. 


Ao final, nesse terrível impasse em que cada passo a frente do FBI significava algum tipo de violência ainda mais cruel contra a população negra, os agentes só conseguiram condenar os racistas por crimes federais quando resolveram também "jogar sujo" - intimidar e manipular - ao invés de se manter aos procedimentos oficiais que se mostravam cada vez menos eficientes. Aí, o primeiro ponto de convergência: diante de uma situação tão desesperadora, apenas "falando a língua" da KKK que os agentes conseguem alguma vitória contra a organização...

Esses eram os métodos do opressor, mas eles precisaram dele para conseguir mudar alguma coisa em uma situação tão absurda e cruel que me fazia querer saltar da poltrona, entrar na tela e esmagar a cabeça de cada um dos racistas com a minha bengala. Há algo de fundamental que se perde com essa lógica aplicada ao caso, eu me pergunto? Diante de um impasse total, há outra saída? 

A segunda instância em que a frase se aplica, talvez com um tom mais amargo, seja na própria estrutura do filme. Quer-se abordar a questão do racismo e de seus horrores, mas o ponto de vista assumido pelo diretor é o dos dois agentes (brancos, não preciso nem dizer) do FBI. É um filme do FBI versus KKK - em que o sofrimento e morte de pessoas da comunidade negra figuram sim, em sua dramaticidade, e como razão do FBI estar lá - mas o foco central não está em uma das famílias na cidade, por mais corajosos que tenham sido, e sim nos agentes que vêm de fora para resolver o problema...

Ao externar essa pequena frustração à debatedora de hoje, a Dra. Dora Lúcia, que me levou de volta à bell hooks e Adrienne Rich. Para chegar com tanta facilidade até nós, o filme precisava de algum apelo comercial - dois agentes do FBI bonitões, o suspense da investigação, um ensaio de romancezinho, a história contada pelo ponto de vista de um homem branco - mas mesmo assim a mensagem chega, pungente e chocante, ao grande público, com todos os horrores da segregação que fazem um eco tão forte em nosso presente que não podemos ignorar. As formas mudam, se tornam mais sutis, se escondem em subterfúgios à medida que a esfera pública é alcançada pelo movimento negro - mas o ódio, essa velha emoção que compõe o caos que é o ser humano, encontra suas rachaduras para se expressar, doendo fundo mesmo quando tão invisibilizado...

Mas a tradução de uma mensagem tão importante para essa linguagem de Hollywood é uma perda ou um ganho? A concessão é maléfica à integridade do movimento, ou apenas facilita e abre o espaço para que mais um passo seja dado, para que os próximos filmes talvez não precisem desse subterfúgio específico?

Identidade versus instrumentalização - eis aí o grande dilema de cada movimento que quiser mudar qualquer coisa em nossa sociedade.

Afinal, a frase doce e amarga de Adrienne Rich traz, em si, duas afirmações que fecham o ciclo dessa jornada: primeiro, o desespero do silêncio e do esquecimento de um modo de ser e pensar, que só admite sua própria expressão sob moldes que por vezes tendem a negar o conteúdo da própria mensagem original - mas, por outro lado, a esperança na possibilidade de subversão desta mesma linguagem opressora como instrumento de luta, como apropriação, como a transmutação de um alquimista de vitimização em força, de lágrima em água da vida.

Esta é a língua de meu opressor -  no entanto, preciso dela para falar com você. 




domingo, 27 de maio de 2012

Desafio da Ostra 3 - Que é a Ostra, afinal.

Quando me falta o tempo, ou o ânimo ou a ideia, percebo que começo a ficar metalinguística.

Em meus diários antigos, quando me faltava assunto para escrever-  ou vontade de escrever sobre os assuntos espinhosos que me vinham - escrevia sobre o ato de escrever. Sobre como sentia vontade, sobre a sensação do papel e da caneta, sobre as linhas em branco e a sucessão de páginas que faziam o caderno, sobre o ambiente em que escrevia... E sempre acabava falando muito mais dessa forma indireta do que falaria se atacasse diretamente alguma coisa que me incomodada.



Hoje escrevo então, sobre o meu escrever aqui porque o que me angustia é por vezes impublicável - não tanto pelo seu conteúdo, que pode ser até simples e banal, mas sim pelas palavras que fogem sempre que vamos falar daquilo que nos deixa inseguras, dos espinhos alojados dentro da carne que não se mostram no exterior...

Teria até outros assuntos para falar - análises de gênero em filmes que vi, mais reflexões sobre a marcha de ontem,  e tantas mais outras coisas dignas de reflexão que vi hoje - mas escrevo, ironicamente, sobre o fato de não conseguir escrever realmente. Escrevo brevemente porque os abraços do irmãozinho e assistir juntos a uma série qualquer, por vezes, conforta muito mais do que palavras.

Mas me comprometi a escrever, e escrevo. Sei que, mesmo que destrinchasse todos os meus problemas aqui, não poderia arrancar espinho algum - às vezes é preciso mudanças, às vezes é preciso conversas, às vezes é preciso só o tempo, aquele lento e por vezes amargo bálsamo para todos os espinhos do mundo - mas pelo menos, escrevendo, falando, cantando, posso, tal como a ostra que faz de um doloroso grão de areia uma pérola, fazer algo que seja minimamente bonito. 

Talvez, mais do que o sentido isolado desta postagem, a ostra seja um significado maior para o meu propósito aqui nesses 30 dias (no qual, com certa felicidade, digo que cheguei na marca dos 10%): transformar minhas dores, incômodos, indignações e inquietações, grãos de areia, espinhos e machadadas, em pérolas. Podem ser pequenas, podem ser insignificantes até - mas, quem sabe, para alguém não acabam tendo algum significado, tendo algum sentido que traga um sorriso que seja. 

Então mais do que apenas o nome do livro que me inspirou, (e a belíssima mini-crônica do Rubem Alves, que eu transcrevo depois), meu desafio da ostra aqui é encontrar cutucar 30 dos tantos espinhos por trás de meus olhos e, pela transformação que só o mistério da arte nos permite, transformá-los em ato criativo, em texto, em poema, quem sabe - transformá-lo em algo que possa ser bonito e ter significado.

Sim, porque muitas dores não tem sentido. Fernando Pessoa escreve, em sua transbordante angústia, de "grandes emoções súbitas sem sentido algum", e não há quem possa me dizer que elas doem um grão de areia a menos do que as dores causadas por algo com sentido, direção e causa determinada. Angústia é angústia - sentimento por excelência, entra em nossa mente sem pedir licença, sem dar procedência ou passar por qualquer pedigree científico que nos permita tê-la. Podemos até negar, varrer para debaixo do tapete, mas ela estará lá - desafiadora e irracional, cravada em seu lugarzinho para surgir nas horas mais inesperadas, tendo crescido a proporções enormes em seu exílio de nosso consciente. 


Assim, ao invés de ignorar, de racionalizar, ou até mesmo chorar - minha saída favorita até então - vou ver se transformo cada grão de areia em uma pérola.

Pra variar, termino com Rubem Alves: 

Ostra Feliz Não Faz Pérola 


Ostras são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, de pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas - são animais mansos - seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário.

Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: "Ela não sai da sua depressão...". Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado na sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor.

O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava o seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho - por causa da dor que o grão de areia lhe causava.

Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-a para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa.

Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre O nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo.


A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa...”


sábado, 26 de maio de 2012

Marcha das Vadias - um dia de marcha em um ano de lutas.

Não houve nenhuma dificuldade em escolher o tema: hoje, em 15 cidades de todo o Brasil aconteceu a segunda edição da Marcha das Vadias. Em Brasília, a Marcha passou pelo CONIC, a Rodoviária, o Eixo Monumental e foi desembocar até a W3... Com direito à chuva e um arco-íris enorme no final. 

Já escrevi sobre a marcha das vadias antes, (coincidentemente, no dia em que aconteceu a marcha passada), e já há muitos posts ótimos e lindos falando sobre a importância da marcha, e o que ela significa - com uma atenção especial para o manifesto de 2012, assim como todo o blog da marcha das vadias. Grande parte das fotos que ilustram esta postagem, aliás, são frutos da ótima campanha que fizeram para divulgar a marcha - e também clarificar, de forma simples e contundente, muitas questões a respeito do feminismo.

Gostaria de falar hoje sobre um dos significados da marcha que mais me tocam (e talvez a tantas outras também!) e me enchem de vontade de marchar, de gritar, de bater em tambores e, literalmente assim como também em sua carga simbólica, sair às ruas: a lembrança, tão viva, de que não estamos sozinhas na enorme tarefa de sísifo que é lutar contra o machismo. Em dia de marcha, saímos todas com nosso feminismo à flor da pele, expostos em rostos pintados, cartazes criativos e a atmosfera de alegria e companheirismo que percebo nas ruas, na concentração, nas músicas, nas desconhecidas e desconhecidos que caminham ao nosso lado... 

Assim como um dia de protesto, é um dia de celebração. Por algumas horas, a cidade (as cidades!) é tomada de mulheres e homens, velhinhas e crianças de colo, vozes fortes e passos determinados, parando as atividades cotidianas para deixar visível suas demandas, suas esperanças e suas exigências para uma sociedade tão desigual. Dedicamos essas horas a um aspecto que já toma um tempo tão grande de nossas vidas - as preocupações, angústias, discussões, incômodos, indignações cotidianas, que, dia após dia, são enfrentados por mulheres que vêem seus corpos mercantilizados, e o julgamento, tanto de familiares quanto de estranhos, aos menores atos de desvio do padrão socialmente imposto.

Porque, embora já tenha se passado a época da virgem recatada, hoje o fio de navalha é outro: entre a puta e a santa, são sempre duas respostas erradas. Se não gostar de sexo, é frígida. Mas se gosta, é vadia. Se quiser ficar em casa para ser mãe, é preguiçosa. Se quiser ir trabalhar e ser bem sucedida, é "machorra". O vídeo feito pela organização da Marcha em Brasília:



E lutar contra isso não é a tarefa de uma marcha, de um dia: é uma tarefa para o ano (quem dirá para a vida!) inteira. 

Dia após dia, espaço por espaço, milhares de mulheres lutam por uma vida mais digna, pela igualdade no espaço de trabalho, pela educação não-machista de filhos, por ter voz nas decisões da família, por não serem menosprezadas no meio acadêmico, por serem respeitadas pelos parceiros e parceiras, por um mundo sem violência contra a mulher, pelo simples direito de andar na rua sem ser ameaçada de alguma forma...

Não é uma luta de filmes de super-herói, com toda a pompa e circunstância - é árdua, e muitas vezes se aloja nos pequenos detalhes que muitos diriam ser "só uma besteirinha"... São nos pequenos gestos, na atitude solitária, nos confrontos cotidianos, nas escaramuças do dia a dia que se constrói uma transformação que venha de dentro pra fora... Mil gritos do ipiranga sem cavalos ou uniformes reais, mil atos de independência que podem até passar desapercebidos...


Mas não hoje. 


Hoje é o dia de mostrar, de exteriorizar todos os pequenos momentos de luta, de levar à cidade tudo aquilo que levamos em nossos corações no ano todo: não só pela visibilidade da causa, não só para fazer parar para pensar quem está em volta, mas também por nós mesmas - mulheres em protesto e também em festa, para celebrar - juntas! -  em uma tarde, a exteriorização dos ideias pelos quais lutam todos os dias em seu cotidiano. É muito bom, muito bom mesmo, saber que não estamos sozinhas.


Eu iria terminar esta postagem em uma nota mais melancólica e solitária, com uma foto de minha bengala e uma explicação de como o meu pé machucado me impedia de ir hoje... Mas, enquanto escrevia, no começo da manhã, cada vez mais eu ia me convencendo...


Então, ao invés da bengala, a foto final ainda sim é em casa, com meu rosto depois da marcha: cheia de chuva, de tinta borrada, pés cansadíssimos, mas infinitamente feliz.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Desafio da Ostra 1- aprender.




Se há uma música que me traduz a fome (talvez no sentido mais fundo e antropofágico de fome) pelo conhecimento é essa música - em um álbum conceitual sobre a existência da banda "Pain of Salvation", entitulado "BE", uma das primeiras coisas trata do desejo de conhecimento como uma das coisas mais básicas, mais internas de nossa relação com o mundo que nos cerca. 

Na primavera, inocência, alegria, fascinação, do mundo lúdico, como um brinquedo. No verão, inquietude e curiosidade, anseios pelas limitações. No outono, conhecimento, ego, ego, orgulho, mas também vergonha do que não escondemos. E por fim, no inverno, a raiva, o Destino e o medo do inescapável. 

Mas em toda a música, os tambores, os instrumentos ansiosos e trêmulos, quase consigo ver o brilho nos olhos, a vontade de conhecer, o mundo todo como deleite e agonia, mas como algo vivo, pulsante, fascinante, belo e terrível para nós, que também somo parte desse mundo tão fascinante... 

...só que não consigo conciliar em nada o espírito dessa música com a forma de transmitir conhecimento em grande parte de minhas aulas. 

Em um de seus mini-contos, Rubem Alves fala de uma menina que conseguiu resumir toda a situação:

Aluninha

A Maria Alice (...) contou-me de uma aluninha que lhe dizia " Eu quero saber tanta coisa. O mundo está cheio de coisas tão interessantes. Mas não dá tempo. Tenho tanta lição para fazer..." 

E ler essa frase, justamente no meio de uma aula especialmente entediante, fez alguma coisa quebrar em mim. Sim, leio Rubem Alves desavergonhadamente durante a aula. 

Leio sobre a vivacidade das crianças, sobre o aprendizado pelo amor, do prazer da leitura - e quando olho para o lado, vejo sim, muitas pessoas aprendendo - mas não necessariamente com o professor. 

Eu leio e aprendo e me sensibilizo, alheia à voz que fala sobre uma coisa ou outra com o data show. Atrás de mim, um amigo joga Angry Birds (matemática, coordenação, e uma dose grande, grande de paciência). Ao meu redor, facebook e e-mails nas telas de computadores. Alguns anotam no cadernos, outros desenham, outros dormem e alguns só olham para o nada... E o professor fala.

Mortos ou semi-mortos, precisando tomar cuidado para não dar sinais de vida - segurar sorrisos com uma conversa, esconder o prazer de uma leitura interessante ou o sucesso no jogo - até porque, convenhamos, quem é que ficaria feliz ou animado com essa aula?

Pena que ela pudesse ser importante. Emocionante, até! O direito abstrato se fazendo concreto, ganhando vida e dinâmica nas mãos das partes e do juiz, travando batalhas por suas pequenas (ou grandes) causas que movem sua indignação, usando as ferramentas disponíveis no código com engenhosidade, construindo e destruindo argumentações, observando e dobrando formalidades, reforçando princípios e tentando, de alguma forma, ludibriar o acaso cego que é, de alguma forma, o resultado de uma decisão...

Mas o professor fala, e a matéria morre. Sem realidade ou oxigênio vital da prática, do interesse, temos nada mais que um desfile de cadáveres, de carcaças inanimadas à espera de uma reanimação...

Tento imaginar cada colega como uma criança: será que ainda há vida dentro da sala de aula? Para meu alívio, não é difícil ver aqui e ali olhares cúmplices, sorrisos abafados, sinais, leituras clandestinas e sonecas inocentes. Um mexer de cabelos, um tamborilar de dedos -estão vivos! Alguns necromantes experientes conseguem tirar alguma vida e importância da própria matéria, pensando em utilidades futuras... Mas eu realmente duvido que alguém consiga derivar de uma aula assim o prazer, a vontade igual à da música.

Será que sou uma louca ao pensar que a educação deve ser prazerosa, que o aprendizado deve ser acompanhado da curiosidade, da sensação boa de desbravar o mundo, de armar-se de técnicas para mexer, teorias para dar sentido e sentimento para continuar vivendo e agindo? Que uma matéria tão viva como o Direito deva ser igualmente viva e emocionante, que a agonia e expectativa das partes deva ser sentida em cada instituto, dispositivo e exceção? 

Termino com mais uma citação do Rubem Alves, e com a vontade enorme de poder ver o Direito com curiosidade de criança: 


Desejo e Inteligência

As crianças gostam de aprender. O que não quer dizer que elas gostem das escolas. As escolas são, frequentemente, lugares onde elas são obrigadas a aprender, sob pena de punições, aquilo que elas não querem aprender. E aquilo que as escolas tentam ensinar contra a nossa vontade é rapidamente esquecido. Sabedoria de um velho ditado caipira: "É fácil levar a égua até o meio do ribeirão. O difícil é obrigar a égua a beber a água..." . Aprendemos o que desejamos aprender. É o desejo que desperta em nós a inteligência. O filósofo Aristóteles disse: "Todos os homens têm, naturalmente, o desejo de aprender". Ele estava errado. Vou corrigi-lo: "Todos os homens, enquanto crianças, têm naturalmente o desejo de aprender...". O que dá às crianças desejo de aprender? Primeiro, é a curiosidade. As crianças acham as coisas do mundo muito interessantes e querem saber por que elas são do jeito como são. Pra que serve isso? Pra nada. Apenas pelo prazer: matar a curiosidade. Depois elas querem aprender para adquirir competências. Ser capaz e fazer... A criança quer aprender a andar de bicicleta, a descascar laranja, a abrir a porta com a chave - para ter o delicioso sentimento: "Eu posso!". É um sentimento de poder. E, por fim, elas querem aprender para brincar. Controlar a bola, armar quebra cabeças, jogar damas... Adultos, continuam vivos em nós os mesmos impulsos que levam as crianças a aprender. A menos que os matemos. 




quinta-feira, 24 de maio de 2012

Começo, recomeço (ou o momento da ostra)

Esse começo de 2012 foi difícil.

Entre correrias, problemas de saúde e angústias existenciais na madrugada, senti falta de escrever. Fiquei de falar de uma viagem (dessa vez física), de fazer mil reflexões que se empilham em minha cabeça, de antigos projetos voltando, e talvez, principalmente, de uma necessidade de me sentir viva novamente...

Rubem Alves, em suas linhas deliciosas sobre tudo, com sua característica sensibilidade, escreveu um livro de pequenos pensamentos soltos, os fragmentos de um cadernos que foram publicados assim mesmo, pequenos pássaros que voam com a nossa imaginação...

Foi então que li sobre ostras - que só a partir de sua dor conseguiam fazer pérolas - conseguiam fazer arte. 

E percebi, é isso que quero fazer - não textos para "esclarecer as massas", ou para falar de mim, ou para fazer qualquer tipo de terapia coletiva - mas sim para ver se, a partir do que me incomoda, não posso fazer algo belo. Não precisa ser muito grande. Só algumas frases, só um poema, só alguma coisa que faça uma pessoa que seja rir ou pensar...

E aí percebi que muito do que eu não escrevia era tanto por megalomania de querer algo grande e completo, quanto pela insegurança de começar e falhar. Queria algo útil, algo completo, algo talvez perfeito... Quando, em verdade, tudo o que eu posso querer é algo que simplesmente seja, que exista.  Não quero ser condenada a ter mil ruínas construídas em minha mente, mas sentir mãos impotentes para realizar qualquer coisa...

Por isso, me forço a escrever. Arbitrariamente, o dia é hoje. Por um mês, até o dia 25 de Junho, me desafio a escrever todos os dias, nem que seja só uma frase, um pequeno verso, um comentário de citação...

Vamos ver no que isso dá.