quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Hamster do Direito Musical (ostra - dia 6)

Hoje demorei para começar a escrever, porque estou me sentindo absolutamente elétrica. Depois da discussão do filme "O Segredo de Vera Drake" ( o que poderia trazer a tão espinhosa temática do aborto, sua relação ainda mais complicada com a religião e as inúmeras facetas e complexidades que esse debate pode trazer);
o blog do PET foi atualizado com uma postagem linda sobre a marcha das vadias de duas amigas;
tive algumas epifanias sobre minhas tão sofridas questões relacionadas à confiança, discurso e o desafio de trabalhar em grupo, além de tantas outras coisas, publicáveis e impublicáveis. Tantos outros pontos deste dia que levantaram milhões de questionamentos, epifanias e atenções,  que mal sabia o que fazer - com a madrugada avançando, e meus pensamentos se aquietando, pensei até mesmo em ir dormir  - até que uma notícia do facebook me virou de cabeça pra baixo o humor, antes pensativo:

Vão lançar o filme com o musical Les Miserables.

Já é lindo ver esse pedaço de minha infância sendo feito filme - e na grande empolgação que estou com os filmes agora, tratando do Luz & Sombra, o evento de cinema e Direito que o PET promove, as duas coias começaram a dançar em minha cabeça...

Como já mencionei em outras ocasiões, tenho uma relação bastante próxima com a música - essa aproximação com o intangível. A linguagem de um musical, embora possa causar um estranhamento por sua dita artificialidade - afinal, quem começa a cantar e dançar aleatoriamente na rua, pelo menos com uma coreografia pré-arranjada em que todos os transeuntes também participam? Confesso que o mundo seria muito mais divertido se assim fosse, mas não posso esperar aquele realismo intimista de uma câmera que se propõe não estar lá.

Mas aí que está a vantagem dos musicais: desprendidos de uma pretensão de mera imitação da realidade na dramatização, a música permite que fiquem claras dimensões que vão além do discurso, tanto pelas falas quanto pela linguagem visual - a personagem canta, expressa sua alma para além de palavras e gestos e luz, e o som causa efeitos de arrepiar.

Aqui, mesmo os temas mais indizíveis conseguem achar uma expressão que mil palavras não conseguiriam. Como exemplo, pego a música do "Despertar da Primavera", musical sobre adolescentes alemães no séc. XIX e a repressão que sua sexualidade sofria, em que uma menina relata o abuso sexual que sofre do pai. Como colocar em palavras algo tão terrível?


"Lá no fundo de mim, um escuro sem fim" - e a música preenchendo os espaços, nos agonizando também, nos aproximando de uma dor tão sentida que nos chega mais perto...

Para além do estranhamento da artificialidade, podemos ver além.

Comecei a pensar no Direito dentro dos musicais - talvez, mais especificamente, em como nós podemos trabalhar, a partir das filmagens que temos de alguns musicais, de pontos essenciais da reflexão que nos exigem uma aproximação ora sensível para revelar nuances, e ora jocosas para apontar absurdos.

Seguindo o exemplo das duas últimas edições do luz e sombra, preparei rapidamente uma lista com os musicais que seria mais interessantes para uma aproximação com tantos temas.


1. RENT.

Esse musical é tão rico em temas que não sei nem por onde começar (e nem qual tema escolher!). Ele conta a história de vários amigos que moram na Nova York dos anos 90, desde advogadas até artistas de rua, que partilham a vida "boêmia", a amizade e enfrentam questões que vão desde a questão da moradia (do pagar o aluguel, do protestar contra o despejo de moradores de rua de uma área), até lidar com o vírus do HIV, a dificuldade de relacionamentos, o preconceito de tantas formas... Ah, sim, e é uma adaptação moderna de La Bohéme, a famosa ópera.

Destaque para a primeira música, que trata um tanto dos contrastes e absurdos da época, uma música mais extrovertida, de protesto e apresentação...

Mas, no final das contas, a música que acaba tocando mais é bem mais simples, com uma única estrofe:


"Will I lose my dignity? (Eu vou perder minha dignidade?)
Will someone care? ( Alguém vai se importar?)
Will I wake tomorrow (Será que eu vou acordar amanhã)
From this nightmare? (Desse pesadelo?)"

A cena é a de um grupo de apoio de pessoas portadoras do vírus da HIV, em que Mark (o da câmera), participa como "observador", um artista querendo documentar - mas também se vê tocado pela situação, pelas palavras que também são suas angústias...

Literalmente, é um prato cheio. Podemos falar da questão do HIV, do preconceito sofrido, assim como também a posição de um observador - seja ele em nome da arte, da ciência ou do direito - que lá participa. Em momentos se questiona o que significa essa interferência - oras, quando Mark filma e denuncia e conta, é uma exploração da situação (como uma moradora de rua aponta para ele em um momento do filme).

Em cada música, uma reflexão, uma faceta nova, e personagens que nos chegam com uma proximidade e leveza em temas por vezes pesados...


2. HAIR

Esse é um clássico. Quem não conhece a Era de Aquário, os hippies e a guerra do vietnã sendo cantadas dessa forma tão cativante? Certo, é capaz que eu esteja um pouco geracionalmente deslocada para afirmar isso, mas as músicas pelo menos devem soar familiares, certo?

O filme de Milos Foreman, (que é diferente do musical), trata da história de um jovem do interior que vai se alistar para a guerra, e cruza caminhos com um grupo de hippies, com os quais passa várias experiências (também em nova York). As possibilidades de reflexão são enormes - sobre ativismo, sobre não-agressão, guerra, drogas, desobediência civil, liberdade...

Temas da época, que continuam tão atuais - marginalização, discriminação racial, e exclusão social não apenas pelo material, mas sim pelo esvaziamento dos significados, a retirada também da possibilidade da formação de identidades... Entre as listas do "ain't got no", não são só sapatos e casa, mas tantas coisas mais negadas...

Sem falar no verdadeiro hino que é o "let the sunshine in", com a guerra e sua total falta de sentido... Como falar isso sem a música?



3. THE WALL

Saíndo de Nova York para uma mente bastante perturbada como cenário, temos The Wall. O filme  de Roger Waters, feito para o álbum homônimo do Pink Floyd, fala sobre o espírito de uma época, sobre a mente de um menino, sobre psicanálise, sobre críticas pesadas à uma época e uma forma de se conceber a sociedade... A cena mais famosa, obviamente, é o another brick in the wall (parte dois!)

A crítica à educação ao que Paulo Freire chama de "sistema bancário" de educação não poderia estar mais claramente colocada: a uniformização, a falta de sentido, o medo... e o moedor de carne humana no grande sonho de homogeneidade.

Passamos também, em the wall, por nosso onipresente fascista interior, com as duas versões de "in the flesh", mas a parte que mais intriga e instiga é o julgamento:

É como se Kafka tivesse tomado LSD, para resumir. Não um julgamento por lei, mas um julgamento pela mente, pelos grandes julgadores da consciência. Ah, sim, temos muita psicanálise aqui, o juíz-verme que condena o menino insano por não ter passado pelo moedor de carne educacional que a todos transforma em vermes. A mãe e a esposa - a mãe castradora e o mito da vagina dentada em pessoa - também na condenação, e ao final, aquela parede é derrubada. Aquela prisão, mas também segurança. É a barreira mental? É a separação entre civilização e barbárie? É a barreira contra a loucura de um homem, ou a loucura de uma sociedade? Quem é julgado, e quem é juiz?

No tribunal surrealista, tantas respostas são possíveis...


4. Chicago

Por fim, depois de tratar com seriedade (e até alguns toques de loucura e surrealismo) questões que provocam o direito a serem tocadas e exloradas, temos aqui uma grande paródia não dos conteúdos, mas da forma que o Direito assume (eu diria "assumiu", por tratar-se algo de uma época, mas ele não mudou tanto assim, eu diria...

É a explicitação da grande sociedade do espetáculo quando se volta para o Direito.

"Era um assassinato, mas não era um crime." Em um misto de humor, raiva e orgulho, as mulheres explicam suas razões para assassinato, na dança (se a madrugada me permitir os trocadilhos) entre o direito e a moral.

A figura do advogado é outra coisa das mais interessantes nesse espetáculo (que ele já deixa claro desde o início).

Razzle dazzle - nem sei bem como traduzir, mas enquanto no júri americano o que impressiona são as explosões emotivas, talvez não tenhamos o nosso glamour hermético-juridiquês para fazermos nossos números não-musicais em cortes e, principalmente, perante a sociedade?


O número de musicais que podem ser abordados não se esgota (ao contrário de minhas possíveis horas de sono). Mas fica,l depois de tanta empolgação, a pergunta: será que um projeto assim seria possível?

... ou será que o Direito ainda está sério demais para pessoas que cantam?

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