"this is the oppressor's language
yet I need it to talk to you"
As palavras da poesia de Adrienne Rich, "The Burning of Paper Instead of Children impressionaram profundamente a ativista feminista e do movimento negro bell books (intencionalmente sem letras maiúsculas). Em eu belíssimo artigo sobre o lugar da linguagem nas relações de poder, em especial no tocante à raça, ela nos leva a pensar como a língua inglesa, para além da violência da imposição de um colonizador que quer aniquilar os prévios modos de vida das pessoas escravizadas, pode se transformar em um instrumento de luta política. Com o perdão do trecho longuíssimo, mas é bonito demais para coloca só um parágrafo:
Refletindo sobre as palavras de Adrienne Rich, eu sei que não é a língua inglesa que me fere, mas o que os opressores fazem com ela, como eles a moldam para se tornar um território que limita e define, como eles fazem dela uma arma que pode envergonhar, humilhar, colonizar. (...) Nós temos tão pouco conhecimento de como as pessoas africanas deslocadas, escravizadas ou livres, que vieram ou foram trazidas contra sua vontade para os Estados Unidos, se sentiram a respeito da perda da língua, a respeito de aprender o inglês. Somente como mulher adulta comecei a pensar sobre essas pessoas negras com relação à língua, pensar sobre seu trauma de serem forçadas a testemunhar sua língua se tornar sem sentido na cultura européia colonizadora, onde vozes julgadas estrangeiras não poderiam ser faladas, eram línguas fora da lei, fala renegada. Quando me dei conta de quanto tempo tinha levado para os americanos brancos reconhecerem as diferentes línguas dos americanos nativos, aceitarem que a fala que seus ancestrais colonizadores declararam ser meramente grunhidos ou cuinchos era de fato língua, é difícil não ouvir sempre no inglês padrão o som de massacre e conquista. Eu penso agora no pesar de africanos deslocados "sem casa", forçados a habitarem um mundo onde eles viam pessoas como eles mesmos, sob a mesma pele, a mesma condição, mas que não tinham uma língua compartilhada para falar um com o outro, que precisaram da "língua do opressor". "Esta é a língua do opressor, no entanto eu preciso dela para falar com você". Quando imagino o terror de africanos a bordo de navios negreiros, em conjunto para leilões, habitando a desconhecida arquitetura das plantações, eu considero que esse terror se estende além do medo da punição, que isso consiste também na angústia de ouvir uma língua que eles não poderiam compreender. O genuíno som do inglês tinha de apavorar. Eu penso nas pessoas negras se encontrando num espaço longe das culturas e línguas diversas que as distinguiam umas das outras, forçadas pelas circunstâncias a encontrar maneiras para falar umas com as outras em um "novo mundo" onde a negritude ou a escuridão da pele, e não a língua, poderia tornar-se o espaço de ligação. De que modo recordar, evocar esse terror... De que modo descrever o que deve ter sido para os africanos, cujas ligações mais profundas foram forjadas historicamente no espaço da fala compartilhada, serem transportados abruptamente para um mundo onde o verdadeiro som da língua materna não tinha sentido...
Eu os imagino ouvindo inglês falado como a língua do opressor, no entanto eu os imagino também se dando conta de que essa língua precisaria ser possuída, tomada, reivindicada como um espaço de resistência. Imagino que o momento em que eles perceberam que a língua do opressor, tomada e falada pelas bocas dos colonizados, poderia ser um espaço de ligação foi uma intensa alegria. Nessa percepção estava a compreensão de que a intimidade poderia ser restaurada, de que uma cultura de resistência poderia ser formada de tal maneira que tornaria possível a recuperação do trauma da escravidão. Imagino, então, as pessoas africanas ouvindo pela primeira vez o inglês como "a língua do opressor" e então re-ouvindo-a como um local potencial de resistência. Aprender inglês, aprender a falar a língua estranha, era uma maneira de os escravos africanos começarem a recuperar seu poder pessoal dentro de um contexto de dominação. Possuindo a língua compartilhada, povos negros poderiam encontrar de novo uma maneira de fazer comunidade, e um sentido para criar a solidariedade política necessária para resistir.
Necessitando da língua do opressor para falar uns com os outros, eles não obstante também reinventavam, refaziam essa língua de tal modo que ela falaria além das fronteiras da conquista e da dominação. Nas bocas de africanos negros no chamado "Novo Mundo", o inglês foi alterado, transformado, e tornou-se uma fala diferente. O povo negro escravizado pegou pedaços partidos do inglês e fez deles uma contralíngua. Eles colocaram junto suas palavras de tal maneira que o colonizador tivesse de repensar o significado da língua inglesa. Ainda que se tenha tornado comum na cultura contemporânea falar sobre as mensagens de resistência que emergiram na música criada por escravos, particularmente o spiritual, pouco foi dito sobre a construção gramatical das sentenças nessas músicas. Freqüentemente, o inglês usado nas músicas refletia o mundo destruído, rompido do escravo. Quando os escravos cantavam "nenhum corpo conhece o problema que eu vejo", seu uso da expressão "nenhum corpo"(nobody) adicionava um significado mais rico do que se eles tivessem usado a expressão "ninguém"(no one), porque era o corpo do escravo que era o local concreto de sofrimento. E ao mesmo tempo que o povo negro liberto cantava o spiritual, eles não mudavam a língua, a estrutura da sentença, de nossos ancestrais. Para cada uso incorreto de palavras, para cada colocação incorreta das palavras, era um espírito de rebelião que reivindicava a língua como um local de resistência. Usar o inglês de uma maneira que rompeu o uso e o significado padrões, de tal modo que o povo branco poderia freqüentemente não entender a fala negra, fez do inglês muito mais do que a língua do opressor.
A riqueza desse trecho é inesgotável - poderia falar da grande polêmica da linguagem inclusiva, poderia falar da violência quando usada pelas pessoas oprimidas como arma de reação, em geral, poderia falar da colonização e da produção acadêmica ainda colonizada que é a nossa... Mas hoje, falo de cinema.
Uma das atividades do PET que mais me encantam é o Luz & Sombra, que hoje começa sua segunda edição em um novo formato: ao invés de uma sala de aula no horário do almoço, no Museu da República à noite, com os debates igualmente acalorados e interessantes com convidadas e convidados, mas agora com microfones e água em jarra de vidro.
O filme de hoje, que me lembrou a assombrosa frase do poema, foi "Mississipi em Chamas", de Alan Parker, que fala sobre o caso verídico em que o FBI investigava o desaparecimento de três ativistas de direitos civis em 1964, e acaba entrando em confronto com a Ku Klux Klan local. Os ativistas - dois garotos brancos, e um negro - estavam em uma cidadezinha no Mississipi ensinando à comunidade negra os procedimentos para que eles pudessem votar, quando desapareceram. O FBI foi chamado para investigar o caso, mas isso se mostra uma tarefa extremamente difícil - tanto pela conivência e acobertamento das autoridades do Estado (que eram favoráveis à segregação e tinham vários de seus membros envolvidos na KKK), quanto pelo verdadeiro terror imposto à população negra que, caso alguém testemunhasse, poderia contar com violentos ataques à sua dignidade, propriedade e, principalmente, dignidade e vida.
Ao final, nesse terrível impasse em que cada passo a frente do FBI significava algum tipo de violência ainda mais cruel contra a população negra, os agentes só conseguiram condenar os racistas por crimes federais quando resolveram também "jogar sujo" - intimidar e manipular - ao invés de se manter aos procedimentos oficiais que se mostravam cada vez menos eficientes. Aí, o primeiro ponto de convergência: diante de uma situação tão desesperadora, apenas "falando a língua" da KKK que os agentes conseguem alguma vitória contra a organização...
Esses eram os métodos do opressor, mas eles precisaram dele para conseguir mudar alguma coisa em uma situação tão absurda e cruel que me fazia querer saltar da poltrona, entrar na tela e esmagar a cabeça de cada um dos racistas com a minha bengala. Há algo de fundamental que se perde com essa lógica aplicada ao caso, eu me pergunto? Diante de um impasse total, há outra saída?
A segunda instância em que a frase se aplica, talvez com um tom mais amargo, seja na própria estrutura do filme. Quer-se abordar a questão do racismo e de seus horrores, mas o ponto de vista assumido pelo diretor é o dos dois agentes (brancos, não preciso nem dizer) do FBI. É um filme do FBI versus KKK - em que o sofrimento e morte de pessoas da comunidade negra figuram sim, em sua dramaticidade, e como razão do FBI estar lá - mas o foco central não está em uma das famílias na cidade, por mais corajosos que tenham sido, e sim nos agentes que vêm de fora para resolver o problema...
Ao externar essa pequena frustração à debatedora de hoje, a Dra. Dora Lúcia, que me levou de volta à bell hooks e Adrienne Rich. Para chegar com tanta facilidade até nós, o filme precisava de algum apelo comercial - dois agentes do FBI bonitões, o suspense da investigação, um ensaio de romancezinho, a história contada pelo ponto de vista de um homem branco - mas mesmo assim a mensagem chega, pungente e chocante, ao grande público, com todos os horrores da segregação que fazem um eco tão forte em nosso presente que não podemos ignorar. As formas mudam, se tornam mais sutis, se escondem em subterfúgios à medida que a esfera pública é alcançada pelo movimento negro - mas o ódio, essa velha emoção que compõe o caos que é o ser humano, encontra suas rachaduras para se expressar, doendo fundo mesmo quando tão invisibilizado...
Mas a tradução de uma mensagem tão importante para essa linguagem de Hollywood é uma perda ou um ganho? A concessão é maléfica à integridade do movimento, ou apenas facilita e abre o espaço para que mais um passo seja dado, para que os próximos filmes talvez não precisem desse subterfúgio específico?
Identidade versus instrumentalização - eis aí o grande dilema de cada movimento que quiser mudar qualquer coisa em nossa sociedade.
Afinal, a frase doce e amarga de Adrienne Rich traz, em si, duas afirmações que fecham o ciclo dessa jornada: primeiro, o desespero do silêncio e do esquecimento de um modo de ser e pensar, que só admite sua própria expressão sob moldes que por vezes tendem a negar o conteúdo da própria mensagem original - mas, por outro lado, a esperança na possibilidade de subversão desta mesma linguagem opressora como instrumento de luta, como apropriação, como a transmutação de um alquimista de vitimização em força, de lágrima em água da vida.
Esta é a língua de meu opressor - no entanto, preciso dela para falar com você.





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