Não houve nenhuma dificuldade em escolher o tema: hoje, em 15 cidades de todo o Brasil aconteceu a segunda edição da Marcha das Vadias. Em Brasília, a Marcha passou pelo CONIC, a Rodoviária, o Eixo Monumental e foi desembocar até a W3... Com direito à chuva e um arco-íris enorme no final.
Já escrevi sobre a marcha das vadias antes, (coincidentemente, no dia em que aconteceu a marcha passada), e já há muitos posts ótimos e lindos falando sobre a importância da marcha, e o que ela significa - com uma atenção especial para o manifesto de 2012, assim como todo o blog da marcha das vadias. Grande parte das fotos que ilustram esta postagem, aliás, são frutos da ótima campanha que fizeram para divulgar a marcha - e também clarificar, de forma simples e contundente, muitas questões a respeito do feminismo.
Gostaria de falar hoje sobre um dos significados da marcha que mais me tocam (e talvez a tantas outras também!) e me enchem de vontade de marchar, de gritar, de bater em tambores e, literalmente assim como também em sua carga simbólica, sair às ruas: a lembrança, tão viva, de que não estamos sozinhas na enorme tarefa de sísifo que é lutar contra o machismo. Em dia de marcha, saímos todas com nosso feminismo à flor da pele, expostos em rostos pintados, cartazes criativos e a atmosfera de alegria e companheirismo que percebo nas ruas, na concentração, nas músicas, nas desconhecidas e desconhecidos que caminham ao nosso lado...
Assim como um dia de protesto, é um dia de celebração. Por algumas horas, a cidade (as cidades!) é tomada de mulheres e homens, velhinhas e crianças de colo, vozes fortes e passos determinados, parando as atividades cotidianas para deixar visível suas demandas, suas esperanças e suas exigências para uma sociedade tão desigual. Dedicamos essas horas a um aspecto que já toma um tempo tão grande de nossas vidas - as preocupações, angústias, discussões, incômodos, indignações cotidianas, que, dia após dia, são enfrentados por mulheres que vêem seus corpos mercantilizados, e o julgamento, tanto de familiares quanto de estranhos, aos menores atos de desvio do padrão socialmente imposto.
Porque, embora já tenha se passado a época da virgem recatada, hoje o fio de navalha é outro: entre a puta e a santa, são sempre duas respostas erradas. Se não gostar de sexo, é frígida. Mas se gosta, é vadia. Se quiser ficar em casa para ser mãe, é preguiçosa. Se quiser ir trabalhar e ser bem sucedida, é "machorra". O vídeo feito pela organização da Marcha em Brasília:
E lutar contra isso não é a tarefa de uma marcha, de um dia: é uma tarefa para o ano (quem dirá para a vida!) inteira.
Dia após dia, espaço por espaço, milhares de mulheres lutam por uma vida mais digna, pela igualdade no espaço de trabalho, pela educação não-machista de filhos, por ter voz nas decisões da família, por não serem menosprezadas no meio acadêmico, por serem respeitadas pelos parceiros e parceiras, por um mundo sem violência contra a mulher, pelo simples direito de andar na rua sem ser ameaçada de alguma forma...
Não é uma luta de filmes de super-herói, com toda a pompa e circunstância - é árdua, e muitas vezes se aloja nos pequenos detalhes que muitos diriam ser "só uma besteirinha"... São nos pequenos gestos, na atitude solitária, nos confrontos cotidianos, nas escaramuças do dia a dia que se constrói uma transformação que venha de dentro pra fora... Mil gritos do ipiranga sem cavalos ou uniformes reais, mil atos de independência que podem até passar desapercebidos...
Mas não hoje.
Hoje é o dia de mostrar, de exteriorizar todos os pequenos momentos de luta, de levar à cidade tudo aquilo que levamos em nossos corações no ano todo: não só pela visibilidade da causa, não só para fazer parar para pensar quem está em volta, mas também por nós mesmas - mulheres em protesto e também em festa, para celebrar - juntas! - em uma tarde, a exteriorização dos ideias pelos quais lutam todos os dias em seu cotidiano. É muito bom, muito bom mesmo, saber que não estamos sozinhas.
Eu iria terminar esta postagem em uma nota mais melancólica e solitária, com uma foto de minha bengala e uma explicação de como o meu pé machucado me impedia de ir hoje... Mas, enquanto escrevia, no começo da manhã, cada vez mais eu ia me convencendo...
Então, ao invés da bengala, a foto final ainda sim é em casa, com meu rosto depois da marcha: cheia de chuva, de tinta borrada, pés cansadíssimos, mas infinitamente feliz.
Mas não hoje.
Hoje é o dia de mostrar, de exteriorizar todos os pequenos momentos de luta, de levar à cidade tudo aquilo que levamos em nossos corações no ano todo: não só pela visibilidade da causa, não só para fazer parar para pensar quem está em volta, mas também por nós mesmas - mulheres em protesto e também em festa, para celebrar - juntas! - em uma tarde, a exteriorização dos ideias pelos quais lutam todos os dias em seu cotidiano. É muito bom, muito bom mesmo, saber que não estamos sozinhas.
Eu iria terminar esta postagem em uma nota mais melancólica e solitária, com uma foto de minha bengala e uma explicação de como o meu pé machucado me impedia de ir hoje... Mas, enquanto escrevia, no começo da manhã, cada vez mais eu ia me convencendo...
Então, ao invés da bengala, a foto final ainda sim é em casa, com meu rosto depois da marcha: cheia de chuva, de tinta borrada, pés cansadíssimos, mas infinitamente feliz.


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