Quando me falta o tempo, ou o ânimo ou a ideia, percebo que começo a ficar metalinguística.
Em meus diários antigos, quando me faltava assunto para escrever- ou vontade de escrever sobre os assuntos espinhosos que me vinham - escrevia sobre o ato de escrever. Sobre como sentia vontade, sobre a sensação do papel e da caneta, sobre as linhas em branco e a sucessão de páginas que faziam o caderno, sobre o ambiente em que escrevia... E sempre acabava falando muito mais dessa forma indireta do que falaria se atacasse diretamente alguma coisa que me incomodada.
Hoje escrevo então, sobre o meu escrever aqui porque o que me angustia é por vezes impublicável - não tanto pelo seu conteúdo, que pode ser até simples e banal, mas sim pelas palavras que fogem sempre que vamos falar daquilo que nos deixa inseguras, dos espinhos alojados dentro da carne que não se mostram no exterior...
Teria até outros assuntos para falar - análises de gênero em filmes que vi, mais reflexões sobre a marcha de ontem, e tantas mais outras coisas dignas de reflexão que vi hoje - mas escrevo, ironicamente, sobre o fato de não conseguir escrever realmente. Escrevo brevemente porque os abraços do irmãozinho e assistir juntos a uma série qualquer, por vezes, conforta muito mais do que palavras.
Mas me comprometi a escrever, e escrevo. Sei que, mesmo que destrinchasse todos os meus problemas aqui, não poderia arrancar espinho algum - às vezes é preciso mudanças, às vezes é preciso conversas, às vezes é preciso só o tempo, aquele lento e por vezes amargo bálsamo para todos os espinhos do mundo - mas pelo menos, escrevendo, falando, cantando, posso, tal como a ostra que faz de um doloroso grão de areia uma pérola, fazer algo que seja minimamente bonito.
Talvez, mais do que o sentido isolado desta postagem, a ostra seja um significado maior para o meu propósito aqui nesses 30 dias (no qual, com certa felicidade, digo que cheguei na marca dos 10%): transformar minhas dores, incômodos, indignações e inquietações, grãos de areia, espinhos e machadadas, em pérolas. Podem ser pequenas, podem ser insignificantes até - mas, quem sabe, para alguém não acabam tendo algum significado, tendo algum sentido que traga um sorriso que seja.
Então mais do que apenas o nome do livro que me inspirou, (e a belíssima mini-crônica do Rubem Alves, que eu transcrevo depois), meu desafio da ostra aqui é encontrar cutucar 30 dos tantos espinhos por trás de meus olhos e, pela transformação que só o mistério da arte nos permite, transformá-los em ato criativo, em texto, em poema, quem sabe - transformá-lo em algo que possa ser bonito e ter significado.
Sim, porque muitas dores não tem sentido. Fernando Pessoa escreve, em sua transbordante angústia, de "grandes emoções súbitas sem sentido algum", e não há quem possa me dizer que elas doem um grão de areia a menos do que as dores causadas por algo com sentido, direção e causa determinada. Angústia é angústia - sentimento por excelência, entra em nossa mente sem pedir licença, sem dar procedência ou passar por qualquer pedigree científico que nos permita tê-la. Podemos até negar, varrer para debaixo do tapete, mas ela estará lá - desafiadora e irracional, cravada em seu lugarzinho para surgir nas horas mais inesperadas, tendo crescido a proporções enormes em seu exílio de nosso consciente.
Assim, ao invés de ignorar, de racionalizar, ou até mesmo chorar - minha saída favorita até então - vou ver se transformo cada grão de areia em uma pérola.
Pra variar, termino com Rubem Alves:
Ostra Feliz Não Faz Pérola
Ostras são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, de pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas - são animais mansos - seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.
Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário.
Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: "Ela não sai da sua depressão...". Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado na sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor.
O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava o seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho - por causa da dor que o grão de areia lhe causava.
Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-a para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa.
Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre O nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo.
A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa...”




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