sexta-feira, 25 de maio de 2012

Desafio da Ostra 1- aprender.




Se há uma música que me traduz a fome (talvez no sentido mais fundo e antropofágico de fome) pelo conhecimento é essa música - em um álbum conceitual sobre a existência da banda "Pain of Salvation", entitulado "BE", uma das primeiras coisas trata do desejo de conhecimento como uma das coisas mais básicas, mais internas de nossa relação com o mundo que nos cerca. 

Na primavera, inocência, alegria, fascinação, do mundo lúdico, como um brinquedo. No verão, inquietude e curiosidade, anseios pelas limitações. No outono, conhecimento, ego, ego, orgulho, mas também vergonha do que não escondemos. E por fim, no inverno, a raiva, o Destino e o medo do inescapável. 

Mas em toda a música, os tambores, os instrumentos ansiosos e trêmulos, quase consigo ver o brilho nos olhos, a vontade de conhecer, o mundo todo como deleite e agonia, mas como algo vivo, pulsante, fascinante, belo e terrível para nós, que também somo parte desse mundo tão fascinante... 

...só que não consigo conciliar em nada o espírito dessa música com a forma de transmitir conhecimento em grande parte de minhas aulas. 

Em um de seus mini-contos, Rubem Alves fala de uma menina que conseguiu resumir toda a situação:

Aluninha

A Maria Alice (...) contou-me de uma aluninha que lhe dizia " Eu quero saber tanta coisa. O mundo está cheio de coisas tão interessantes. Mas não dá tempo. Tenho tanta lição para fazer..." 

E ler essa frase, justamente no meio de uma aula especialmente entediante, fez alguma coisa quebrar em mim. Sim, leio Rubem Alves desavergonhadamente durante a aula. 

Leio sobre a vivacidade das crianças, sobre o aprendizado pelo amor, do prazer da leitura - e quando olho para o lado, vejo sim, muitas pessoas aprendendo - mas não necessariamente com o professor. 

Eu leio e aprendo e me sensibilizo, alheia à voz que fala sobre uma coisa ou outra com o data show. Atrás de mim, um amigo joga Angry Birds (matemática, coordenação, e uma dose grande, grande de paciência). Ao meu redor, facebook e e-mails nas telas de computadores. Alguns anotam no cadernos, outros desenham, outros dormem e alguns só olham para o nada... E o professor fala.

Mortos ou semi-mortos, precisando tomar cuidado para não dar sinais de vida - segurar sorrisos com uma conversa, esconder o prazer de uma leitura interessante ou o sucesso no jogo - até porque, convenhamos, quem é que ficaria feliz ou animado com essa aula?

Pena que ela pudesse ser importante. Emocionante, até! O direito abstrato se fazendo concreto, ganhando vida e dinâmica nas mãos das partes e do juiz, travando batalhas por suas pequenas (ou grandes) causas que movem sua indignação, usando as ferramentas disponíveis no código com engenhosidade, construindo e destruindo argumentações, observando e dobrando formalidades, reforçando princípios e tentando, de alguma forma, ludibriar o acaso cego que é, de alguma forma, o resultado de uma decisão...

Mas o professor fala, e a matéria morre. Sem realidade ou oxigênio vital da prática, do interesse, temos nada mais que um desfile de cadáveres, de carcaças inanimadas à espera de uma reanimação...

Tento imaginar cada colega como uma criança: será que ainda há vida dentro da sala de aula? Para meu alívio, não é difícil ver aqui e ali olhares cúmplices, sorrisos abafados, sinais, leituras clandestinas e sonecas inocentes. Um mexer de cabelos, um tamborilar de dedos -estão vivos! Alguns necromantes experientes conseguem tirar alguma vida e importância da própria matéria, pensando em utilidades futuras... Mas eu realmente duvido que alguém consiga derivar de uma aula assim o prazer, a vontade igual à da música.

Será que sou uma louca ao pensar que a educação deve ser prazerosa, que o aprendizado deve ser acompanhado da curiosidade, da sensação boa de desbravar o mundo, de armar-se de técnicas para mexer, teorias para dar sentido e sentimento para continuar vivendo e agindo? Que uma matéria tão viva como o Direito deva ser igualmente viva e emocionante, que a agonia e expectativa das partes deva ser sentida em cada instituto, dispositivo e exceção? 

Termino com mais uma citação do Rubem Alves, e com a vontade enorme de poder ver o Direito com curiosidade de criança: 


Desejo e Inteligência

As crianças gostam de aprender. O que não quer dizer que elas gostem das escolas. As escolas são, frequentemente, lugares onde elas são obrigadas a aprender, sob pena de punições, aquilo que elas não querem aprender. E aquilo que as escolas tentam ensinar contra a nossa vontade é rapidamente esquecido. Sabedoria de um velho ditado caipira: "É fácil levar a égua até o meio do ribeirão. O difícil é obrigar a égua a beber a água..." . Aprendemos o que desejamos aprender. É o desejo que desperta em nós a inteligência. O filósofo Aristóteles disse: "Todos os homens têm, naturalmente, o desejo de aprender". Ele estava errado. Vou corrigi-lo: "Todos os homens, enquanto crianças, têm naturalmente o desejo de aprender...". O que dá às crianças desejo de aprender? Primeiro, é a curiosidade. As crianças acham as coisas do mundo muito interessantes e querem saber por que elas são do jeito como são. Pra que serve isso? Pra nada. Apenas pelo prazer: matar a curiosidade. Depois elas querem aprender para adquirir competências. Ser capaz e fazer... A criança quer aprender a andar de bicicleta, a descascar laranja, a abrir a porta com a chave - para ter o delicioso sentimento: "Eu posso!". É um sentimento de poder. E, por fim, elas querem aprender para brincar. Controlar a bola, armar quebra cabeças, jogar damas... Adultos, continuam vivos em nós os mesmos impulsos que levam as crianças a aprender. A menos que os matemos. 




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