sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A primeira saudade (e um ótimo dia sem fotos)

Como vocês devem ter visto pelos meus relatos até agora, estou adorando estar na Suécia - mesmo com o tempo ruim, a cidade é ótima, a Universidade está sendo maravilhosa e mesmo as questões cotidianas como costurar uma luva rasgada ou limpara neve do chão está sendo satisfatória de uma forma estoica de "olha, estou sozinha, fazendo minhas próprias coisas e o mundo ainda não caiu nem degenerou na barbárie e caos". 

Mas eu confesso que a saudade bate forte desde os primeiros dias. 

Parece uma coisa estranha de se dizer, uma vez que eu já passei uma semana, duas, até um mês sem a minha família sem grandes dramas (tá, quando eu fui passar um mês fora pela primeira vez eu chorei como um bebezinho no aeroporto, mas também me diverti horrores na viagem).

Mas seis meses é realmente muito tempo - e na primeira semana algumas coisas simples já fazem vir lagriminhas nos meus olhos. 

A primeira delas é o cheiro - o menos civilizado dos nossos sentidos, mas o que tem a resposta emocional mais forte. O cheiro das roupas que eu ainda não usei, o cheiro de casa, ainda me pega de surpresa de vez em quando. Minha mente registra "cheiro de roupa nova de casa", e a agradável familiaridade logo se segue ao sombrio dado do tempo que ainda vai passar até eu poder sentir esse cheiro de novo. Até eu estar de volta com a minha família, na minha casa, junto com tudo o que é familiar. 

Nesse ponto, acho que pouco importa se eu estivesse em casa sozinha ou a meio mundo de distância: é nessa hora que eu percebo como eu sou agarrada na minha família. Não só por sentir falta da presença física dessas pessoas tão queridas, mas também por elas estarem sempre no meu pensamento e na minha fala. Voltimeia solto um "minha mãe sempre me diz que..." ou " o meu pai adora sei lá o que...", ou "essa senhora é tão parecida com  a minha Oma"... 

Mas em algumas instâncias, como hoje, há coisas que eu sinto falta que são ao mesmo tempo gerais e muito específicas:

estou há 10 dias aqui e posso contar nos dedos de uma mão a quantidade de abraços que eu dei ou recebi. 

Abraços! 

No final das contas, sou uma pessoa muito afetuosa. Gosto de abraçar minha família e namorado, mas também amigos - e não só um "abraço social" de dizer oi ou tchau, mas abraçar de verdade, demonstrar afeto, estar fisicamente perto de uma pessoa com a qual você se sente bem. Sei que a proximidade física chega até a ter barreiras climáticas - afinal, para dar um aperto de mão você precisa tirar a luva! - mas essa coisa do contato físico acaba fazendo falta. 

Não há lugar para pedir colo aqui, mas por outro lado estou conhecendo pessoas fascinantes. Tivemos uma primeira reunião do trabalho em grupo com os colegas da matéria que estou fazendo (e os resultados desse grupo com certeza serão material para mais um post. Aguardem.), e meus e minhas colegas são tão fascinantes! Cada um de uma área diferente de estudo, com uma especialiade diferente, uma visão levemente diferente das coisas... 

Engraçado que descobri que aqui na SU (Stockholm University, a sigla a partir de agora) criminologia é completamente separada do Direito. Quando perguntei o porquê, o meu colega respondeu que era porque os juristas aprendiam a operar apenas dentro do sistema - mesmo que fosse com uma perspectiva mais crítica, era sempre uma reforma de dentro do sistema, sem pensar em modificá-lo de qualquer forma radical, enquanto a criminologia teria alguns aspectos mais sociológicos, com uma outra aproximação em relação ao fenômeno jurídico.

Embora eu tenha certeza de que a criminologia deveria ser uma especialização bem mais valorizada dentro do Direito (ao invés de só um afterthought em direito penal), fico muito feliz por ter podido ter mais contato com a criminologia na minha graduação em Direito (e mando muitos amores mentais para a UnB e as suas possibilidade de explorar perspectivas críticas mesmo dentro da aridez do Direito). 

Fiquei pensando com os meus botões: eles tiraram todas as partes legais do Direito e mandaram para outros lugares. Será que eu ainda estudaria Direito se fosse aqui? Ou, pior, será então que as e os bacheréis em Direito se formam tendo tão pouco contato com as áreas mais filosóficas e sociológicas associadas ao seu trabalho? Mais técnicos, menos reflexivos? 

Eu ainda quero descobrir. Mas parece que não vou poder ter nem muito contato com os estudantes de Direito - dizem aqui que eles são bastante fechados e não são muito abertos para estudantes de outros departamentos, quiçá estudantes internacionais. Pessoal legalzinho esse, hein? Ainda bem que essa história de isolamento e elitização do Direito nunca aconteceria por aqui, (só que completamente ao contrário). Sério, o que acontece com as faculdades de Direito que as torna um lugar tão propício para gente elitista, isolacionista e, no geral, meio babaca? Ou isso é exclusivo de Brasil e Suécia? 

Para além disso, o meu relato do dia que ainda não terminou  acabou sendo fechado com chave de ouro: depois de passar no supermercado, no ônibus de volta para Lappis, entra uma senhora e vai se sentar ao meu lado. Eu, que estava com a mochila lotada de coisas e mais uma sacola plástica, tento puxar a mochila para não incomoda-la, mas a senhoa responde que pode deixar a bolsa ali que não incomoda. Só que ela respondeu em sueco, e lá vem a história de eu repetir um "I'm sorry" umas duas, três vezes até a pessoa se tocar que eu não sei falar sueco. A senhora ficou surpresa com isso e me perguntou por que eu não sabia falar sueco. Quando respondi que era brasileira e tinha acabado de chegar, aquele olhar de surpresa. 

No transporte público dominado por pessoas tendo longas conversas - em seus smartphones, com uma pessoa que pode estar a oceanos de distância - foi uma experiência nova e estranhamente familiar ter uma pessoa para conversar no ônibus. Ela desceu no mesmo ponto que eu, e até perguntou se eu queria ajuda para carregar as compras. Uma simpatia que só! Através de culturas e continentes, parece que ainda está vivo o arquétipo da senhora idosa simpática no transporte público. Quando nos despedimos, um aperto de mão sem luvas (um exercício logístico de mais de um minuto).

 Mesmo que breve, pelo menos algum contato humano! 


Um comentário:

  1. Excelente! Sensibilidade no texto e a família Morgenstern é desse jeito, sem fronteiras! Bem vinda ao clube! Este é apenas o começo. Abrços Marcos e família

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