Depois de deixar para trás Ushuaia (snif, snif), cruzamos a Patagônia de seu extremo Sul para um ponto um pouco mais ao norte e ao Oeste - El Calafate, cidade turística nomeada por uma planta muito comum na região.
Longe do Mar, com todo seu abastecimento de água vindo do degelo das neves dos Andes, aqui era realmente visível o caráter mais desértico da Patagônia
A paisagem de El Calafate, porém, era dominada pelo grande lago à beira da qual a cidade foi construída.
Confesso que minha primeira reação à cidade não foi tão positiva quanto em Ushuaia - depois de conhecer um lugar tão encantador, não conseguia ver muita graça, para além da beleza desértica e montanhosa, naquele lugar...
Ushuaia deixou saudade- Calafate é uma cidade só turística, sem o charme e a vida e o espírito, a energia de Ushuaia. É mais uma parada temporária para peregrinos da natureza, que descansam deois de ver seus milagres...
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| Embora inegavelmente lindo... |
Mas o fato é que, ao contrário de Ushuaia, que concentrava todos seus encantos no alcance de suas mãos, esse deserto exigia algumas horas de viagem para revelar seus maiores encantos e segredos...
Logo no primeiro dia, fomos visitar o Museu do Gelo - assim, antes mesmo de ver as paisagens surreais que me aguardavam, pelo menos conhecia um pouco de sua formação. Mas acho que, ao invés de qualquer tipo de desencantamento, compreender todo o processo de transformação de água em neve, neve em gelo e gelo em geleira servia para dar uma dimensão quase que histórica do que eu estava por ver - como o oxigênio, através da pressão e dos anos, saía da neve para começar a formar o gelo sólido das geleiras, como eram eles imensos rios de gelo que se deslocavam lentamente, caindo como icebergs em uma ponta e se alimentando de neve fresca lá em cima das montanhas...
Infelizmente, não podia tirar fotos no museu.
O que pude tirar fotos, porém, foi no bar de gelo ao lado do museu, que me rendeu uma experiência
bastante divertida...
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| Nem parece tanta coisa, mas era essa capinha brega que me impedia de congelar completamente nessa temperatura... Só tirar a luva para bater fotos já era um sacrifício! |
Chegando, enfim, na cidade, fomos ao museu de gelo - que falava sobre os glaciares- e o bar de gelo, que ficava logo ao lado. O museu era muito bem feito, com vídeos, placas e fotografias lindas -e aprendi bastante sobre esse mundo congelado que nos é tão estranho. Acho uma pena que não haja também um museu do cerrado assim! Depois, ao bar do Gelo: roupas isolantes, paredes geladas, esculturas e compos de gelo -e, como em todo espaço fechado, música alta. A Oma quis logo sair, mas eu fiquei para tomar meus quase-mojitos e até um copinho de whisky - que ao invés de "whisky on the rocks" era "whisky in the rocks"... Enfim, trocadilho ruim.
No dia seguinte, aí sim, fomos ver ao vivo o que já tinha visto em fotos e explicações: a geleira "Perito Moreno", uma das mais famosas geleiras do local. Aqui eu começo a lidar com a limitação das palavras - afinal, por mais que eu explique as sensações, o frio quase palpável ao chegar perto, os constantes sons aterradores de gelo caindo, a sensação imensa de paz e de assombro de estar diante de algo tão belo... Talvez as imagens e palavras consigam acender uma centelha - mas não posso prometer nem um centésimo da experiência que foi estar ali...
No dia seguinte, aí sim, visitamos o próprio glaciar (geleira?) Perito Moreno - uma parede monstruosa de gelo que cascateia desde lá em cima na montanha para erguer-se encostado na península de Magalhães.
Várias escadas e caminhos nos davam diferentes perspectivas da enorme parede, ora mais ao norte, ao Sul, acima ou abaixo... Que coisa mais linda!
A geleira... Como posso descrever algo tão lindo e tão estranho?
Ela se forma no alto de um vale entre montanhas, por neve que vai se compactando e perdendo o oxigênio, ficando cada vez mais densa até ser gelo puro. Aí, essa camada de gelo pesa e desce, até desprender-se em um lago ou rio, e formar icebergs.
O gelo é algo de extaordinariamente azul, de todos os tons (pois os fótons azuis penetram mais fundo que os demais) e se erguem em formas impossíveis em seu fim, como esculturas de cristais azuis gigantes - e caem estrondosamente no lago... É uma coisa viva.
Move-se em seu tempo próprio, estalando e rugindo, quebrando o silêncio com os estrondos dos pequenos pedaços que se desprendem...
Sinto que descrevo mal toda a majestade do que eu vi. Palavras assim são poucas e pobres para descrever aquele fantasma congelado de rio, aquele cobertor de cristais que coroava o vão entre as montanhas e terminava abrupto, em ângulos fortes, formando uma parede de gelo...
Me senti como se estivesse em uma igreja - não pelos rituais, mas pelo sentimento de sagrado que eu tive ao ver aquela imensidão - o sentimento de que era um lugar de profundidade e contemplação, como se cada rachadura e movimento da geleira pudese conter o mais puro grito da natureza, do mundo que vive e que, alheio a nós, mera humanidade, anda a seu próprio passo de maravilhas.
Eu queria esganar todas as pessoas que ficavam conversando nos mirantes ao invés de se prostarem silentes diante da natureza forte, linda e perfeita.
Desci e subi escadas como que em peregrinação, oferecendo meu rosto ao Sol e meu suor à Montanha, e meus olhos, ah, meus olhos marejados - à imensidão de gelo que resiste, que se projeta bela porque simplesmente é, e nada mais.
É claro que o meu lado nerd também encheu a paisagem de referências a Game of Thrones ( se você acabou de aterrisar no planeta Terra, aqui vai o link na wikipedia)
, praticamente podia imaginar o cenário da Patrulha da Noite, me enchendo de vontade de escalar a geleira toda como quem sobe a Muralha e gritar "I've come to take the black!" Hehe.
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| Ok, desculpa, mas eu não me aguentei em minha nerdice... |
Depois de ver a geleira por terra, dois dias depois (porque meus propósitos aqui são temáticos, e não cronológicos, pularei um dia que passei no Chile, do qual tratarei amanhã), tivemos a oportunidade de ver não apenas Perito Moreno, mas também outras geleiras com um barco.
O tempo estava miserável - não só frio e vento, mas uma chuva fininha e massacrante, principalmente com a velocidade que o barco assumia - mas, se muito, o tempo cinzento apenas realçou os azuis impossíveis dos icebergs. Com o mar e o céu apagados, eles praticamente brilhavam.
Novamente, fotos e palavras não fazem justiça à diversidade de cores e tons que vimos - a cada formato curioso, a cada floreio da mão escultora do acaso, cada detalhe colorido que me fazia ficar lá fora, rosto congelando e fustigado pelos pingos de chuva afiados pelo vento, sem vontade de sair um milímetro do lugar...
Não sei se as fotos de agora parecem só um monte de gelo azul no lago azul (o que, em verdade é), mas o contexto todo tornava tudo fascinante:
Imagine só estar em um barco, com bancos confortáveis e janelas amplas, enquanto lá fora chove fininho, venta abundantemente e o frio espanta até os mais corajosos do deck externo. Porém, quando, ao longe, começam a aparecer umas pequenas figuras azuis, logo as pessoas saem pela porta, tentando não se molhar, embaixo de um pequeno teto...
Á medida que crescem em cores e amanhos os icebergs, alguns doidos se aventuram para fora do toldo para congelar na chuva - até que, ao longe, finalmente pode-se ver o primeiro glaciar, e ninguém quer saber mais se chove ou não...
Novamente, mais dessa estética cinzenta e fria, de uma natureza dura cobrando um preço alto por sua imensa beleza: mesmo cercados de todo os confortos possíveis, só conseguia realmente
viver aquele momento se estivesse lá fora. É como se o frio e a umidade e a dor nos dedos e nariz e olhos fosse não um impedimento, mas uma parte inexorável da paisagem - como um pequeno sacrifício, uma doação de corpo para poder alimentar a alma com tanta beleza...
Acho que cheguei, realmente, ao limite das descrições: minha vontade era simplesmente de passar todas as fotos grandes, sem mais nada explicar, apenas com as imagens e nada mais -
Mas então, o sol surge bem no final do passeio, logo que nos aproximamos da outra face do Perito Moreno (a geleira que tinha visto por outro ângulo, a pé) e, além daquela imensa Muralha de gelo com todas as suas peculiaridades...
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Se alguém perguntar, eu secretamente apelidava esse morrinho à esquerda de "Castle Black" (sim, mais uma referência a Game of Thrones)
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E o sol, afinal, nos entregou um presente final nessa viagem: a cor desse iceberg, simplesmente inacreditável e inexplicável em palavras...