sexta-feira, 1 de junho de 2012

Minha madrugada


A madrugada, desde que eu era pequena, é minha parte favorita do dia.


Até alguns anos atrás não era minha companheira tão frequente - como criança que estudava de manhã, não podia dormir tarde - mas nas raras ocasiões em que nos encontrávamos, vivia uma intensa história de amor e fascínio com essa hora tão peculiar do dia.

De início, a madrugada era alívio da noite quieta de minha normalidade quando acordava de pesadelos - não, eu não estava em meio a monstros, alienígenas, sofrimento e crueldade, minha família estava viva, todos estavam seguros e calmos: até mesmo a própria terra dormia, com seu grande olho luminoso fechado, e era a calma e o conforto da escuridão que me encontravam quando saía da vertigem de meu (agitado) mundo interior. 

Quando criança, acordar de madrugada significava que o pesadelo tinha acabado. 

Um ou outro acesso de insônia nesta época me revelava um mundo completamente transformado: meu quarto, a casa, a cidade pela janela, tudo parecia estar em uma outra dimensão, como se fosse em uma paisagem lunar, com os sons distantes de um ou outro carro solitário que passava pela rua. Os prédios vizinhos só mostravam uma ou outra janela acesa, e minha mente infantil viajava por cada uma dessas janelas, pensando, com assombro, que cada uma dessas janelas era de uma casa, que em cada casa havia uma família, e que em cada família haviam tantas mentes que também pensavam. Será que o mundo interior de cada pessoa era como o meu? Será que havia, em um desses prédios, uma criança que não conseguia dormir e olhava pela janela para descobrir se a humanidade realmente existia?

Os postes de luz que cobrem a cidade pintavam as nuvens de um tom carmesim, e o céu nublado de madrugada era avermelhado. Como eu preferia as noites claras, em que a luz dos postes, ao invés de refletir-se nas nuvens, servia apenas para deixar o céu ainda mais escuro, como que abandonado pelo brilho das estrelas.

Mas se havia algo de realmente sublime nas horas da madrugada, eram os momentos que precediam o nascer do sol. Quando o céu ficava o mais escuro o possível, o azul escuro parecendo quase completamente preto - mas no horizonte, bem suavemente, uma faixa amarela começava a aparecer. 

Eu sabia que o sol ainda ia demorar bastante - como em uma sinfonia, o momento de maior triunfo melódico, quando abrupto, faz bem menos efeito do que quando precedido por um grande crescendo - mas só aquela expectativa de sol que, ao invés de se concentrar em um ponto luminoso e dolorido, acariciava todo o horizonte, me deixava com uma estranha euforia. 

Ali estava, em sua forma mais pura, a Esperança e a Promessa. Com pequenas carícias de luz, o sol conseguia tocar todo o horizonte de uma vez antes mesmo de aparecer e concentrar-se em sua forma redonda, como que um sol preguiçoso que ainda está deitado e não teve tempo de se reunir. A claridade não chegava a iluminar muita coisa, propriamente dita, e a cidade toda ainda dormia - mas aquele céu colorido de expectativa era uma das coisas mais bonitas que eu podia imaginar. 

Quando o sol começava a nascer, meu interesse pelo céu se esvanecia - agora era à terra que minha curiosidade se voltava. Os barulhos da rua aumentavam, pessoas passavam na rua, luzes começavam a se acender nas casas e o som e cheiro do café da manhã não tardaria a aparecer. O mundo acordava, e já via o sol que acordava também, e o mundo já não era mais minha paisagem exótica. Voltava o mundo de todos os dias, e logo viria algum adulto surpreso por eu ter acordado tão cedo. 

Com o passar dos anos, as madrugadas já eram sentidas por outras maneiras - ao invés da silenciosa contemplação, eu mais ouvia do que via a madrugada - no tão necessário silêncio para meus pensamentos por vezes sombrios, nos reconfortantes sons do nada que me permitiam largar todas as defesas e chorar, na garantia de que não havia mais ninguém além de mim para me expressar da forma como quisesse...

...e, depois também, que não houvessem distrações em meu processo criativo. 

Nunca ousaria dizer que instrumentalizo minha querida madrugada para meus propósitos - produtivos ou não - de escrita ou reflexão. Em verdade, acho que eles acabam sendo mais parte da madrugada do que qualquer outra coisa. Pois, para além de sons e imagens, a madrugada se torna um verdadeiro estado de espírito, uma harmonização do mundo exterior com minha disposição interna, de uma introspecção prazerosa porque não é fuga - é uma solidão amiga. 

Assim escrevo porque a madrugada me promete, dormindo ou acordada, os sonhos e delírios que minha mente conjura na ausência de distrações; porque ela me abraça, tal como velha amiga que é, deixando-me ver a cidade como algo novo e até fantástico sem que o cotidiano consiga tirar-lhe o encanto...

...e também porque às vezes, em meio à insônia, não tenho muita escolha.

Deixo, assim, falar Álvaro de Campos em mais uma de suas inquietações.





INSÓNIA ( Álvaro de Campos, Fernando Pessoa)

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

(...)

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...

Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperanças,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.

Vem, madrugada, chega!

(...)

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras,
Costuma dizer-se isto.

A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

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