segunda-feira, 11 de junho de 2012

Viagem ao Sul do Mundo (3) - o Fim do Mundo e a Morte

Água tão gelada que eu mal conseguia colocar as pontinhas dos dedos - mas a cor era tão bonita que dava [quase] vontade de arriscar um mergulho...


Nossa próxima parada, naquele dia mesmo, fio no Parque Nacional da Terra do Fogo, uma reserva que, como tantas coisas nessa Patagônia que tanto me fascinou, era uma mistura indivisível de beleza e tristeza. Pela primeira vez, alguma natureza exuberante - entre as montanhas nuas de pouca neve e lagos de degelo, pinheiros, altivos e resistentes, cobriam as encostas. 




Nas cercanias, locais em que os residentes podiam acampar, e, até mesmo, fazer churrascos - tudo com essa paisagem quase onírica e acompanhados de um elegante bando de cisnes de pescoço preto...




Em meio à tanta vida, pensava que finalmente tinha encontrado um descanso - nesta natureza, mesmo que impiedosa, enfim havia o santuário, um local de calma onde as montanhas pudessem seguir seu passo de eternidade...




Até que, novamente, nos deparamos com um sombrio cemitério de árvores. Dessa vez, elas não tinham sido cortadas por prisioneiros: morriam inteiras, carcaças orgulhosas, triste testemunho de sua antiga majestade... O motivo?



Para variar um pouco, a estupidez humana. Deixo aqui o relato que fiz na hora:

As árvores se vingam? 


Se o primeiro cemitério de árvores era testemunha da crueldade contra o homem, agora ele fala da irresponsabilidade em relação à natureza. Trouxeram castores para a Patagônia, visando obter vantagens econômicas com suas peles - mas, sem predadores naturais, eles espalharam seus diques pelos rios, inundaram muitas áreas, e mataram toda a área de bosque inundada.


A flora aqui é tão frágil - ao contrário da vida exuberante que se multiplica no Brasil, da mata atlânica que avança e explode de vida, do cerrado que renasce nas cinzas - é uma floresta dura, sóbria - e tão, tão frágil. 


Demoraria séculos para nascer de novo - e suas enormes carcaças brancas, vítimas da quebra de seu equilíbrio milenar, nos ficam de testemunha da vida que já não é mais. 


Os nativos também - que caçavam leões marinhos em canoas e vestiam-se só com gorduras para cobrir seus corpos de frio. Eles, que conseguiam habitar áreas consideradas inabitáveis no século XXI, sumiram todos. Morreram acometidos pela civilização ocidental, e deles só restaram fotos e histórias.


Das árvores, sobram suas carcaças, seus fantasmas brancos e sólidos que são triste testemunho da ferida humana que tanto desequilibra o andar dos séculos.


As árvores se vingam?


Como quem faz greve de fome, sendo belas em sua tristeza, vestindo sua morte de forma digna e solene. Sua vingança será a dos séculos que nos corroerão em vida, enquanto sua morte permanece bela. Uma vida e uma morte de planta que segue um tempo diferente do nosso, para nos olhar com seus não-olhos de julgamento quanto nossas almas fugazes forem embora - seu corpo é pó, humana, e sua vingança é de ideias - já meu corpo de madeira permanece, mesmo com os idos de minha alma, e assim eu me vingo - eu sou, eu permaneço em morte para lembrar todos os dias de minha morte que foi causada...


Depois de meus minutos de silêncio contemplando as árvores, fomos até o ponto mais ao Sul do parque no qual podíamos caminhar - que era, também, o fim de uma estrada que passava por toda o continente americano, do Alasca até Ushuaia.


Estávamos num canto bem ao Sul - provavelmente o mais ao Sul que poderíamos caminhar em Ushuaia - e as placas orgulhosamente anunciavam - é por aqui o fim do mundo. E a morte, dessa vez, novamente se fez presente em meus pensamentos - mas dessa vez sem o trauma do assassinato, sem os clamores silenciosos de vingança, mas aquela paz... Talvez as palavras que escrevi no dia possam explicar melhor:




Se visita o fim do mundo para aprender a morrer.


Porque o fim de um mundo redondo é por bem um conceito relativo - quem diz que não estamos no centro, e o mapa não é uma bola de gelo antártico no meio com franjas de gelo ártico nas pontas? 


Mas chegar tão longe ao Sul e saber que esse é o fim de seu continente tem lá sua carga simbólica.


Agora o que realmente define para mim esse caráter de fim de mundo não tem lá tanto a ver com algum marco ou mesmo localização geográfica - é o fim de mundo pelo silêncio. Pelo frio.


O vento forte, as nuvens, as pedras que se fazem montanhas e principalmente essa sensação fortíssima que para além daquilo, nada há...


É como encarar a morte.


Não aquela morte de caveiras, de espada, de escuridão sem fim - ms sim aquele suave fim de uma jornada, aquela coisa de indestrutível - aquele silêncio. Silêncio paraece ser a minha palavra favorita agora.


Fiquei parada no parapeito do mirante, quando as pessoas já tinham voltado pelo caminho. Era água, pedra e vento na terra do Fogo... Algumas plantas ralas, pedra nua nas montanhas, o mar escuro, paz. Uma paz de tormenta, um silêncio assobiante de ventos, mas mesmo assim, paz.


Olhei para as pedras que se estendiam e minha mente estava vazia. Rezei um pouquinho e fui embora - mas sentia que poderia ter ficado lá o dia todo, poderia ter só ficado até as montanhas se dissolverem...


O problema de estar em uma excursão é que não há o tempo que eu queria. Mas tudo bem. Só esses momentos já ficaram marcados, por poucos que tenham sido.


Difícil descrever o que senti. Como se algo puxase dentro de mim, para trás, para frente, para fora... Como se eu pudesse simplesmente deixar o meu corpo para trás e me juntar ao vento, ao mar, às montanhas... Como se pudesse, naquele momento, não ser mais nada. Morrer, enfim - mas morrer para a eternidade do vazio. 


É algo de calmo, de sombrio, de lindo! Simplesmente lindo. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário