Nosso primeiro passeio foi para o parque nacional de Ushuaia, chegando lá pelo trem que tinha o simpático nome de "Trem do Fim do Mundo" - para ver, no final das contas, beleza e uma imensa tristeza encerradas em uma só paisagem.
Porque esse trem, agora todo bonitinho e confortável, já foi uma locomotiva que puxava vagões que eram só tábuas de madeira com uma barra central para suporte. Sua carga? Prisioneiros, que, no começo do séc. XX, vinham da cidade de Ushuaia até a floresta para cortar a madeira que, com requintes de ironia, serviria para a construção da prisão que eles viriam a habitar anos depois.
Cada aspecto de paisagem bonita naquele dia cinzento se intercalava com uma história sombria. O alegre riacho que acompanhava nosso caminho era chamado de rio Pippo - em uma certa forma de homenagem a um prisioneiro que tentou escapar, e foi encontrado dois dias depois, morto de frio e com seus olhos já arrancados por aves de rapina, nas margens desse rio...
...e, em meio à paisagem bonita que começa a ser outonal, uma série de tocos brancos, mortos. Alguns bem perto do chão, outros de tamanhos maiores, mas eles dominavam a paisagem como pequenas cicatrizes naquele aglomerado de vida que lutava contra o vento e o frio...
A razão para essa diferença dos tamanhos era terrível: no verão, cortavam bem rente ao chão, mas no inverno, com a neve alta, eles só conseguiam cortar até certo ponto... Porque a neve em nada impedia o corte de árvores. No verão ou inverno, lá estavam eles, fazendo a prisão a ser construída parecer a esperança de um hotel de luxo...
Outra coisa que me deixou assombrada, também, era o fato de, 100 anos deois, os tocos de árvores ainda estavam lá, secos e sem vida, exatamente como ficaram quando foram cortados. Nem um musgo, nem uma muda, nem uma florzinha ou pedaço de grama para emprestar vida nova àquela paisagem. Era uma morte definitiva, solente, resistente - como se quisesse perpetuar no tempo a violência que lá foi sofrida.
Naquele dia, escrevi:
O trem do fim do mundo foi um trem para prisioneiros. Na necessidade e povoar todo o seu território, a Argentina quis fazer uma colônia penal - em que o frio, as montanhas e o mar os impedissem de fugir. Isso já diz alguma coisa sobre o que a sociedade tinha pelos presos - a antiquíssima filosofia do "se estiver bem longe, talvez não seja um problema".
Em outro dia, tive a oportunidade de visitar o Museu do Presídio, com alguns detalhes a mais sobre o que tinha acontecido ali.
Primeiramente, havia a própria locomotiva que os havia transportado, na linha de trem que pegamos antes. O presídio, construído em um formato que lembrava um bom tanto o Panóptico - com uma sala central para os guardas, ramificando-se em pavilhões compridos para todos os lados - tinha sido desativado já há algum tempo - mas podíamos sentir, andando por aqueles corredores, que aquele frio profundo e uma sensação estranha transcende os anos...
A Oma, sensível como ela só, não aguentou muito tempo por aqueles corredores, em meio a plaquinhas explicativas que faziam reviver os horrores de lá dentro. As descrição dos crimes, das condições, do uniforme, fininho, do aquecedor que só era ligado de dia, quando os guardas patrulhavam os corredores.E, é claro, as correntes.
Sinceramente, só as imagens já bastam para descrever o que senti vendo isso...
Dentro de cada cela pequena, um pedacinho de história: um prisioneiro político que passava seus dias escrevendo, alguns homens que claramente precisavam muito mais de tratamento para condições mentais do que uma cadeia congelada, exemplos de outras colonias penais, histórias da cidade, fauna e flora do local...
...e, por trás das paredes pintadas na reforma, uma história viva e terrível que palpitava à minha volta, sob meus pés, atrás das portas, pelo ar aquecido (dessa vez, por aquecedores modernos). Por muitos anos pessoas viveram ali. Congelaram ali, e ali morreram. Aqui, a paisagem que tanto me parece bonita se torna inclemente: era, ironia das ironias, uma prisão sem muros. Afinal, uma vez passados os guardas armados, para onde iriam? Para o mar congelante? Para a floresta sem abrigo ou comida?
No final das contas, ali não era um lugar para seres humanos, muito menos de cidadãos - ali, no fim do mundo, só criaturas que tremiam de frio e viviam - talvez mais sobreviviam - à beira do mundo, do esquecimento, do nada.
Escrevi ainda, naquele dia:
"
Os presos por crimes mais graves, diziam. Buscando sua redenção, falam até agora - mas de olhar aquela terra gelada ainda no verão cheia de tocos de árvores cortadas pouco a pouco, dia após dia, sob o vento, sob a violência, sob a neve... Quem precisa de redenção é quem convive com a ideia de fazer isso com os próprios cidadãos. Redenção... É o país inteiro, no final das contas, quem mais precisa de redenção.
Nenhum comentário:
Postar um comentário