Antes de começarmos (céus, eu e minhas introduções...) com os relatos da viagem, algumas generalidades:
Fiz essa viagem em Março, na companhia de minha Oma (e mais uma excursão de velhinhos) que passou por Ushuaia e El Calafate, dois pontos diferentes da patagônia argentina - além de um passeio de um dia no parque Torres del Paine, no Chile. A viagem durou duas semanas, e foi uma das experiências mais interessantes de minha vida. Assim, a vontade de escrever (e talvez a necessidade de fotos para acompanhar) não vem tanto de um "olha só, como viajo", mas muito mais uma vontade enorme de, por palavras e imagens, tentar recriar apenas uma fagulha do assombro que tive com tudo - o céu, o mar, o ar, o próprio espírito do lugar que falava com uma elouquência que acho tão difícil de ver em muitos lugares...
Tanto quanto uma viagem para fora, me senti viajando muito para dentro naquelas duas semanas. Vi coisas incríveis, coisas fofinhas, coisas tristes; comecei a viagem completamente queimada de sol, mas passei aquelas duas semanas tremendo de frio; encontrei, nesses extremos inóspitos de mundo, ecos de algo que, na abundância de ciclos de vida que sempre se regeneram, não paramos um pouco para pensar no que realmente significa o fim.
Enfim, é essa sensação de finalidade, de pequeneza, e ainda de assombro perante o mundo que eu queria passar com minhas palavras - e com as tantas fotos que tiramos no meio do caminnho.
Neste relato, então, misturarei músicas (afinal, vocês vão poder notar que em muitas fotos eu estava com fones de ouvido no pescoço, e a experiência não é a mesma sem a música), relatos de um diário de viagem que escrevi na hora ( com a letra horrível de escrever em ônibus, é claro), fotos, obviamente, com as devidas legendas e, por fim, alguns comentários meus de agora.
Começo, é claro, pela viagem de avião: depois de passar uma noite em Buenos Aires, o primeiro dia foi basicamente um vôo para cruzar toda a Argentina, para chegar até Ushuaia, a cidade mais ao Sul do mundo. Embora tenha sido cansativo, o próprio vôo era um acontecimento em si: foi ali o meu primeiro contato com o que seria esse outro mundo que é a Patagônia...
Música recomendada para esse post: A Horse with no Name, da banda America. (que, aliás, é praticamente uma trilha sonora para todas as viagens para lugares remotos...
| Ushuaia, ao longe - um aglomerado de formiguinhas agarradas na costa, fugindo das montanhas... |
Ainda não consigo ter bem exectativas quanto à viagem. Por um lado, penso nas maravilhas que poderemos ver: no frio, no mar escuro e em estar neste ponto tão ao Sul do mundo... Por outro... Não sei bem. Fico sempre preocupada em estar em algum lugar estranho, sem as estruturas que geralmente tenho - especialmente fora do Brasil. Também há nossos companheiros de viagem, uma parte deles velhos bufões que só ficam bradando palavrões o tempo todo... De alguma forma sinto que isso não combina muito com a atmosfera que queria para essa viagem. E o meu rosto, ironicamente, ainda está todo queimado de sol... Mas, no final das contas, são detalhes.
A paisagem lá fora é estranha, meio desértica, e eu me sinto quedar pensativa e introspectiva... Uma estrada longa e reta, uma imensidão que, ao se apresentar pequena em perspectiva, só faz mostrar como nós mesmas somos pequenas.
Em verdade, nunca pensei que fosse ver deserto, neve e mar na mesma cena - e montanhas, tantas montanhas!
Talvez nos extremos de latitude também se encontrem os extremos de natureza - um ao lado do outro, descompromissadamente, como se fossem velhos amigos que se comprimem para dar uma olhadinha nesse tal de fim de mundo. E de cidades, nada - ou ao menos, tão poucas que grandes extensões de paisagem são apenas solidão. Por trás do barulho das turbinas do avião eu quase consigo ouvir aquela quietude, aquele farfalhar de sons suaves sempre presentes nos lugares em que os homens e mulheres não podem gritar.
Por essa estranheza de paisagem, por essas sensações tão curiosas, que tentarei escrever o máximo possível - para tentar descrever e relembrar com mais detalhes as coisas que vi, que vivi mas, principalmente, as coisas que senti ao ver assim por cima, de forma tão fugaz, montanhas milenares e lugares inalcançáveis.
Uma vista bonita me distrai, mas, quando preciso olhar para baixo para procurar o meu RG, meus olhos doem com a claridade do mar, da neve, das nuvens...
Coloco música para tocar, e ela me atinge com sua tonalidade rica. Sim, eu sinto uma sensibilidade maior - e espero poder aproveitá-la ao máximo nessa viagem...
De volta a meu mundo de Brasília, rever essas fotos ainda me trazem a lembrança dos barulhos do avião e de minhas tentativas fúteis de conter a expectativa. Depois de mais um mar, mais uma montanha, mais um deserto e picos cobertos de neve, de repente, lá surge Ushuaia: cidadezinha que nos dá a nítida impressão de ter surgido do meio do nada, aconchegada entre o mar e as montanhas.
Este é o aeroporto com a vista mais linda que já vi em minha vida. Ponto.
| Aeroporto de Ushuaia, segundos antes da aterrisagem. Sorry, Aerolineas Argentinas, eu não desliguei a câmera. |
Em uma península, cercado de mar e montanhas, confesso que quase me atrasei no vôo de partida tirando fotos...
Com tantos lagos e montanhas, ficava um pouco sem saber onde estava - geograficamente, como localizar algo que parece estar em uma ponta, mas fica em quase um centro de tudo?
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