domingo, 3 de junho de 2012

Dias Vermelhos (desafio da ostra 9)

Só de pensar em escrever "então, hoje estou menstruada" já me faz descer um frio pela espinha. É muito difícil falar sobre menstruação. Embaraçoso. Fora do espaço controlado e controlador das aulas de biologia, em que falávamos de picos de hormônios, trompas de falópio e endométrio descamando, a menstruação foi - e é  - sempre tratada como aquele fenômeno misterioso e terrível, uma cena de filme de terror feita realidade, uma vergonha, um segredo - e, principalmente, uma realidade que não poderia, a nenhum custo, sair dos confinamentos do mundo privado das mulheres.

Porque, afinal, quem fala de menstruação, além do discurso médico? Não encontramos muitas referências em filmes (muito menos em músicas!), não é um assunto tão facilmente mencionado em público, nem mesmo em conversas entre amigas. Não é apenas um segredo "para as iniciadas" - é tratado como algo estranho, feio, sujo e vergonhoso - embora eu sinceramente não consiga encontrar um motivo para isso. Afinal, é um fenômeno que acontece uma vez por mês (ou vai acontecer, ou já aconteceu) com aproximadamente metade da população mundial: o que há de errado nisso?

Quando estava na escola, as meninas tinham uma tática mágica de fazer todos os meninos desaparecerem quando queríamos falar deles: era só começar a falar de absorventes. Veja bem, não era nem de menstruação, de sangue, de fluxo - só sobre aqueles objetos branquinhos e cheirosos que eram tão essenciais.

Curiosamente, mesmo quando falávamos propositalmente de absorventes, ir ao banheiro para trocá-los ensejava um esforço para escondê-los que quase nos tornava espiãs profissionais. 

"Você tem um absorvente? Alguém tem um? Estou precisando..." - alguém poderia dizer que era um mercado negro, de tanto segredo e discrição. Aliás, era nisso que até na guerra que era o Ensino Médio, todas faziam uma trégua e eram solidárias - afinal, não havia nada mais humilhante não só para uma, mas para todas as mulheres: o enorme terror de ficar com a calça manchada. 

Porque, se era fato sabido que todas as mulheres menstruam, não há nada pior do que ser publicamente lembrada a respeito disso - de que, no final das contas, tínhamos o ciclo da natureza inscrito dentro de nossos corpos, alheios à nossa vontade e a qualquer uma de nossas racionalizações, de que há algo eminentemente biológico no ser humano, que se pretende tão desesperadamente uma mente sem corpo...

Essa lembrança que somos, enfim, mulheres - o que, em uma sociedade machista que desvaloriza a mulher ao associá-la ao biológico, animal e irracional, não é lá uma coisa tão agradável.  Porque é uma lembrança de que temos essa capacidade de reprodução que enseja o controle social (e no Brasil, estatal) sobre nossos corpos. Porque, para além de todos essas implicações do macropoder, ainda há o micropoder da vergonha, do riso, de considerar a menstruação algo sujo e feio (e, principalmente, indigno de ser mostrado na esfera pública).

Mas, no final das conas, é só um pouquinho de sangue!

Do fenômeno físico, não há muito o que se dizer - sangue, cólicas, hormônios, pequenos detalhes em uma existência tão complexa e cheia de fatores. O que há, em verdade, é o fato de ser uma coisa única e exclusivamente de mulheres - e, se elas são desvalorizadas socialmente, então essas dimensões inevitavelmente a serão. O problema não é o sangue (ou a garotada agora tem nojinho de "Kill Bill"?), o problema não são os hormônios ( afinal, os homens sofrem variações hormonais diárias), tampouco por tomadas de decisões possivelmente causadas por fatores alheios à razão ( na história antiga, era Cleópatra quem menstruava, mas Julio César e Marco Antônio que tomaram decisões de Estado com interesses outros que a glória de Roma...) - a questão, no final das contas, é que somos mulheres, e só nós menstruamos - o que torna essa tal de menstruação, no final das contas, algo de ruim, de indesejável e de sujo. 

A lógica, afinal, está no olho de quem a faz - é a conclusão o excelente texto de Gloria Steinem no texto que   pensa em como seria nossa cultura se os homens menstruassem.  (a tradução para o português está aqui

Os fenômenos podem mudar, mas as justificativas de poder são adaptáveis.  Assim, não adianta o que façamos, ou o que somos, mas as justificativas de poder continuam - não importa qual característica for escolhida, mas ela será escolhida simplesmente porque somos o que somos.

E é só com a desmistificação de cada uma dessas pseudo-razões que conseguimos começar a conversar. Bater de frente com tudo aquilo que quer nos fazer sentir vergonha de algo que é natural e não machuca ninguém - algo que diz aos nossos corpos que mais um ciclo se completa, que nossos corpos estão saudáveis e funcionando bem - e que as construções culturais que nos isolam e comprimem são, no final das contas, ridículas. 

Então, quando nos defrontamos com manifestações culturais como essa exposição fotográfica de uma artista chilena, retratando mulheres menstruadas em seu cotidiano, é interessante nos perguntarmos por que nos sentimos tão horrorizadas em ver essas imagens pelas quais passamos o tempo todo - e por que precisam colocar o aviso de que isso pode "ferir as sensibilidades" de alguém. 

Afinal, o que há, realmente, de tão repulsivo em uma cena tão provável de acontecer como essa? 


Qual é a sua reação? Estranhamento? Pena? Nojo? E, o mais importante: por que reagimos dessa forma?




 

Um comentário:

  1. O engraçado é que a única coisa que está totalmente fora dessas construções sociais são as propagandas de absorventes! Só tem mulher feliz, saltitante, poderosa... e é claro que a gente fica assim radiante, mesmo com cólica, só por colocar um absorvente da marca x!! hahaha Acho muito absurdo, e é uma desconstrução fingida... o discurso é o mesmo: você com cara de mulher poderosa, porque não vai nem parecer que você está menstruada!

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